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Ipiaú recebe Wilson Midlej em noite de memória, afeto e raízes sírio-libanesas

Lançamento na UNEB reuniu pesquisadores, amigos, leitores e antigos companheiros da região cacaueira, em um encontro marcado por lembranças, sabor e pertencimento

Foi como se as páginas voltassem para casa. Em meio a lembranças e vozes que atravessam gerações, o jornalista e escritor Wilson Midlej retornou à cidade de Ipiaú (BA), na Costa do Cacau, para lançar sua obra diante de amigos, pesquisadores, leitores e personagens que também fazem parte da história que conta. O lançamento de “A saga dos sírios e libaneses no sudeste da Bahia” foi realizado no Centro de Estudos Euclides Neto, no Campus XXI da Universidade do Estado da Bahia (CEEN/UNEB), nesta segunda, 24.

O evento coordenado pelas professoras Izabel Cristina Alves, do Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias (DCHT), e Adilma Nunes Rocha (CEEN) foi mediado pelo professor Fagner Alves. A mesa trouxe Sérgio Mattos, prefaciador do livro, e Jussara Midlej, revisora técnica, para uma conversa que misturou percurso acadêmico, afeto familiar e lembranças. A abertura foi com clipes sobre o Rio de Contas e sobre a Fazenda Babilônia, lugar simbólico onde parte da saga começou.

Assim como em Salvador, o lançamento teve sabor de comida árabe e memórias familiares. O aroma da culinária sírio-libanesa, preparada pela professora Jussara Midlej, esposa do autor, chegava suave entre as cadeiras. Teve destaque o muhammara assinado pelo chef Nelmaron. Era como se aquela mistura do interior da Bahia e da cozinha árabe sintetizasse a própria obra, um livro que trata de encontros culturais, deslocamentos, raízes, afeto e pertencimento. A atmosfera em Ipiaú era de reencontro com o chão que sustenta as histórias que ele tece na obra.

Durante sua fala, Midlej explicou por que voltar a Ipiaú era mais do que lançar um livro. “A importância maior de Ipiaú nesse processo é que ela foi o palco onde aportou a maioria dos imigrantes do Oriente Médio. Tudo começou aqui. A mascateação, as pequenas lojas, o comércio que acompanhava os tropeiros, o cacau, o desenvolvimento. Voltar a Ipiaú é voltar à nascente da própria narrativa.”

Um retorno às raízes

Midlej conduziu a plateia a um passeio histórico, desde a chegada dos primeiros sírios e libaneses à região, a mascateação nas fazendas, as viagens de trem até Maracás, os tropeiros que cruzavam a rota. “Eles chegaram como mascates, quase todos. Mas prosperaram, compraram fazendas, plantaram cacau e ajudaram a construir essa região. Por isso era tão importante que este livro fosse lançado também aqui.”

A fila no auditório acumulava leitores decididos a saírem com as dedicatórias carinhosas de Midlej, enquanto ele conversava com cada um. O encontro recebeu os professores e agitadores culturais Marcelo Batista; Veronica Pestana e Liz Midlej, filha do escritor; Salomão Matheus, amigo de 60 anos; o agrônomo Renildo Peixoto; o veterinário Espártaco Teixeira. Zé Américo, poeta, jornalista, compositor, marcou presença, assim como prof. Otávio Assis, José Mendes, o veterinário-pecuarista-cacauicultor Espártaco Teixeira, e a diretora do campus, professora Izabel Lima; o casal Fátima e Sérgio Gondim, que presidente do Sindicato Rural de Ipiaú; professor Etienne Paulo; o casal Zarry Midlej e Ticiane Maron Midlej, entre outros amigos e familiares que prestigiaram a noite.

O evento, realizado a 6 km do centro da cidade, teve um caráter especial. “Não foi massificado, mas foi muito qualificado. A universidade acolheu o rigor acadêmico do livro, e o público que veio estava profundamente interessado na história da região. Para mim, isso preencheu a expectativa.” Ao final, quando o público se dispersava devagar, alguém comentou que “o livro precisava ser lançado aqui”. E era verdade. Em Ipiaú, a obra de Wilson Midlej encontrou seu território de origem.

Vida e obra

De repórter esportivo em 1969 a chefe de sucursal e editor, a trajetória profissional de Midlej é longa e diversa. Nascido na Ponta do Humaitá, em Salvador (4 de dezembro de 1945), estudou em escolas públicas e concluiu bacharelado em Direito em Jequié (BA). Ele integra a Assembleia Geral da Associação Bahiana de Imprensa e já trabalhou em veículos como A Tarde e Correio da Bahia, dirigiu a extinta revista Bahia em Foco. Entre suas obras já publicadas estão “Crônicas da Bahia sob o sol de Jequié” (2014), “Gatilhos de lembranças – A eternidade do tempo” (2015) e “Anésia Cauaçu – Lendas e histórias do sertão de Jequié” (2017).

O livro recupera histórias de famílias que, vindas do Oriente Médio no início do século XX, ajudaram a construir a identidade social e econômica de municípios da microrregião. Fruto de pesquisas iniciadas em 2019 e revisado com rigor técnico, a publicação percorre a trajetória de famílias como Hagge, Maron, Midlej, Salomão e Thiara, imigrantes do fim do século XIX e início do XX que se instalaram em municípios da microrregião do sudeste baiano, entre sertões, rios e pequenas cidades.

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