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Jornais baianos criam estratégia para alcançar jovens que consomem notícias em vídeo

Correio e A Tarde investem em produções para YouTube; pesquisa mostra que plataforma já supera Instagram e WhatsApp como fonte de informação no Brasil

Depois de um longo período de adaptação do impresso para o ambiente digital, veículos tradicionais baianos estão investindo novamente no audiovisual, especialmente no YouTube. A plataforma, que estava sendo pouco utilizada em comparação com as redes sociais mais imediatas, agora é vista como espaço para reportagens e entrevistas mais aprofundadas em vídeo. Isso acontece por conta da mudança estrutural dos jornais e do perfil do público atual.

O Correio é um desses casos de aposta em notícias no YouTube. Apesar de não ter parado completamente de produzir conteúdos audiovisuais, por muitos anos a plataforma do Google era como um figurante em meio a reportagens escritas no site e no impresso. A repórter do Correio Fernanda Santana lembra que houve diferentes momentos em que o veículo voltou a ter equipes dedicadas ao audiovisual, mas que o mercado demandava maior esforço no texto. “O audiovisual ficava como um complemento, não como principal”, afirma.

Diferentes públicos-alvo hoje demandam notícias em vídeo, e parece que os jornais locais entenderam isso. Segundo Fernanda, relatórios recentes apontam que uma parcela significativa dos jovens passou a consumir informações principalmente em redes sociais e plataformas de vídeo. O Correio não é o único a adotar essa nova estratégia. A percepção também é compartilhada por profissionais do seu principal concorrente, o A Tarde, que tem investido no selo A Tarde Play, onde reúne suas produções audiovisuais.

Tendência gera novas contratações
A repórter do A Tarde Play Giovanna Rimola conta como foi difícil implementar o audiovisual em um veículo tradicional, mas acredita que levar as apurações para a frente das câmeras hoje é quase inescapável. “Hoje o vídeo tem uma força muito maior do que a escrita; os jornais entenderam que precisavam se atualizar para não ficar para trás”, afirma.

Os jornais já vinham observando e experimentando outros formatos nos Reels do Instagram e no TikTok. Esse movimento exigiu mudanças internas nas redações. No A Tarde, por exemplo, a aposta no audiovisual envolveu a estruturação de uma equipe própria com editores, cinegrafistas, produtores e repórteres, mas sem grandes investimentos financeiros. Isso porque os equipamentos são dos próprios jornalistas e a equipe já era experiente nessas produções, o que permitiu começar sem treinamento. Os recursos são utilizados principalmente em coberturas ao vivo e eventos como Carnaval e São João. A Tarde e Correio, questionados, não divulgaram valores de investimento nesses projetos.

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Reportagens em profundidade são destaques nos canais
No YouTube, o Correio publica vídeos regularmente, geralmente semanais. Os conteúdos mais recentes trazem tradições e lugares históricos da Bahia. Um exemplo são os dois últimos vídeos, que abordam a Lavagem do Bonfim, momento marcante da capital baiana. As pautas do canal costumam girar em torno de temas atuais, culturais e também do noticiário diário. Os vídeos variam, em geral, entre um e quinze minutos. As produções mais curtas, com cerca de um minuto, são voltadas para hard news e já se destacam pelas próprias thumbnails – como chamam as miniaturas visuais que funcionam como pré-visualizações. Os vídeos mais longos são reportagens aprofundadas, com um olhar mais detalhado e tom descontraído.

Já o A Tarde Play traz duração maior em seus vídeos, chegando a até vinte minutos. Os vídeos mais recentes são notícias locais, como o último, que mostra a nova rodoviária de Salvador e o penúltimo sobre o VLT, mas o canal também foca em pautas culturais e históricas, como a história do prédio conhecido como QR Code. Eles investem em vídeos atemporais, que valorizem a memória da cidade.

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Tendências mostram futuro do audiovisual para notícias
Isso faz parte de um cenário maior sobre como os brasileiros acompanham as notícias. Uma pesquisa realizada anualmente pelo Instituto Reuters revela que no Brasil o YouTube já é utilizado como fonte de informação por 37% da população brasileira, ficando à frente do Instagram e WhatsApp.

Os investimentos dos veículos baianos no YouTube, então, seguem o movimento atual do jornalismo. De acordo com a professora Lívia Vieira, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom-UFBA), o vídeo deixou de ser tendência para se tornar peça-chave no jornalismo de hoje. Ela explica que veículos de diferentes origens, como impresso, rádio e televisão, usam o audiovisual nos meios digitais para atingir o público em diversos momentos do dia.

Foto: Lívia Vieira/Acervo Pessoal

Lívia, que também assina a newsletter Farol Jornalismo, sobre novidades no setor, destaca que o digital agora está presente em todas as etapas da produção jornalística. “Rádios realizam transmissões ao vivo, podcasts se transformam em videocasts e jornais interagem no TikTok e nos Stories”, exemplifica. No entanto, focar tanto nas redes sociais tornou o jornalismo dependente das empresas de tecnologia, as chamadas Big Techs, em um processo conhecido como plataformização.

Para a professora, a relação entre os jornais e as redes sociais ficou incerta nos últimos dez anos. Embora as plataformas prometam lucro e grande alcance, os resultados não vieram. Ela comenta que o público quase não sai das redes para ler as notícias nos sites, o que tem prejudicado o faturamento das empresas. Por isso, Lívia defende que os jornais tenham canais próprios para se comunicar diretamente com o público, sem intermediários.

* Catarina Gramosa é estudante de jornalismo e estagiária da ABI.
Edição e supervisão: Alexandro Mota.

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