Em um momento em que a cobertura policial enfrenta o desafio de equilibrar interesse público, direito à informação e preservação de direitos individuais, Salvador sediou, nesta quinta-feira (26), o primeiro dia do workshop “De olho na segurança: o papel da mídia na cobertura segura das ações de segurança pública”. Realizado no Cineteatro 2 de Julho, no bairro da Federação, o encontro reuniu jornalistas, estudantes, gestores públicos e representantes das forças de segurança para discutir critérios técnicos, limites legais e protocolos de atuação em coberturas sensíveis.
O workshop é realizado pela Polícia Civil da Bahia, por meio da Academia de Polícia Civil da Bahia, em parceria com a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, a Polícia Militar da Bahia, o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia e o Departamento de Polícia Técnica da Bahia. A ação conta com apoio institucional da Secretaria de Comunicação Social, do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (Sinjorba) e da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), além de parceria acadêmica com a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA).
A proposta é fortalecer o diálogo institucional e qualificar a cobertura de ações policiais e políticas de segurança pública, especialmente em contextos de crise e operações em curso.
Na abertura, foi destacado que a melhoria do fluxo de informações entre imprensa e forças de segurança é estratégica para a qualidade da notícia e para a preservação de vidas. O diretor da Acadepol, Jackson Carvalho, ressaltou que transparência e responsabilidade são compromissos compartilhados.
Segundo ele, uma informação divulgada sem a devida apuração pode comprometer operações e gerar riscos à população e aos próprios profissionais envolvidos. “Precisa existir transparência, credibilidade, lisura e compromisso, tanto dos profissionais de segurança pública como dos profissionais de comunicação”, recomendou.
Limites da atuação
A mesa “Ética, Legislação e Conduta Profissional” abriu a programação técnica da tarde, propondo uma reflexão sobre os marcos legais e os princípios que orientam o exercício do jornalismo na editoria de segurança.
Cristina Teixeira, servidora da Secretaria da Fazenda (Sefaz) e encarregada pela proteção de dados no órgão, abordou os fundamentos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ela lembrou que a legislação busca assegurar direitos e garantias individuais e destacou que a liberdade de imprensa, embora essencial ao regime democrático, não é absoluta.
“Nossos dados pessoais estão sendo usados em tudo, em todos os lugares, e não nos importamos”, observou, ao chamar atenção para os riscos da exposição indevida de informações sensíveis, especialmente em ocorrências policiais que envolvem vítimas, suspeitos e familiares.

A presidente do Sinjorba, Fernanda Gama, e o secretário de Administração e Finanças, Moacy Neves, conduziram um debate a partir do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Um vídeo com exemplos reais de falhas de conduta profissional serviu de ponto de partida para discutir erros recorrentes na cobertura policial, como a exposição precipitada de nomes e imagens, a ausência de contraditório e a reprodução acrítica de versões oficiais. Entre os consensos reforçados esteve a máxima de que “nenhuma pauta vale a vida”, princípio que envolve tanto a segurança física do repórter quanto a responsabilidade social do conteúdo publicado.
Construção coletiva
A ABI integra discussões e defende iniciativas que contribuam para proteger os profissionais da comunicação e garantir o direito da sociedade à informação qualificada. A entidade tem acompanhado e incentivado ações que aproximem as redações das instituições públicas responsáveis pela segurança, buscando reduzir conflitos em campo e fortalecer o respeito ao trabalho jornalístico. Juntamente com o Sinjorba, a entidade coordena a Rede Agostinho Muniz de Combate à Violência contra a Imprensa.

O diretor de Defesa da Liberdade de Informação e dos Direitos Humanos da ABI, Paulo Almeida Filho, e a 1ª secretária Jaciara Santos representaram a Associação. Paulo destacou a importância de redes de proteção institucional aos comunicadores. Referência do jornalismo comunitário, o comunicador iniciou sua trajetória ainda na adolescência, a partir da Rádio Comunitária Avançar, no Bairro da Paz, na capital baiana.
Com sua vida profissional marcada pelo uso da comunicação como ferramenta de transformação social e pela defesa da democratização da comunicação, Paulo defendeu uma cobertura mais sensível às dinâmicas das comunidades e menos pautada por estigmatizações.
Para ele, o fortalecimento das entidades representativas é fundamental para garantir condições de trabalho seguras e formação continuada. “Representar a Associação Bahiana de Imprensa neste espaço é muito importante, porque a instituição tenta preservar a profissão e os profissionais que estão atuando, principalmente na linha de frente”, afirmou.
Boas práticas
Encerrando o primeiro dia, o painel “Boas Práticas da Comunicação na Cobertura de Ações de Segurança” aprofundou a discussão sobre critérios de apuração, checagem de informações e cuidado na divulgação de conteúdos sensíveis, como imagens de operações, dados pessoais e hipóteses investigativas ainda não confirmadas.
Durante o debate, o jornalista Mauro Anchieta citou o emblemático caso da Caso Escola Base como exemplo clássico de precipitação e falha na verificação das informações. O episódio, ocorrido em 1994, tornou-se referência negativa na história do jornalismo brasileiro ao expor como denúncias não apuradas podem destruir reputações e causar danos irreversíveis. “O caso da Escola Base é um alerta sobre o peso da nossa responsabilidade. A falta de apuração pode causar danos irreversíveis”, destacou.
A tônica das discussões foi a necessidade de equilíbrio entre transparência, direito à informação e responsabilidade social, sobretudo em coberturas que envolvem operações em andamento, comunidades vulneráveis e situações de grande repercussão pública.
A programação do workshop segue nesta sexta-feira (27), com atividades práticas, na sede do CORE, em São Cristóvão, com foco na cobertura de situações com refém, incursões policiais em áreas conflagradas, operações de busca e salvamento, e de confiltos em protestos e manifestações urbanas.
- Confira a programação completa neste link – https://bit.ly/programacao_pdf
*Edição: Joseanne Guedes


