A violência contra mulheres não é um problema restrito às mulheres. Ela nasce de uma estrutura social que precisa ser transformada por meio da educação, da responsabilização masculina e da construção de novas narrativas. Esse foi o consenso entre os participantes da mesa “Quando a violência silencia futuros”, realizada na tarde de segunda-feira (29), durante o Welcome Women Forum, no Palacete Tirachapéu, em Salvador.
Sob o tema “Futuros que estamos construindo”, o Welcome Women Forum (WWF) acontece na capital baiana nos dias 29 e 30 de junho, e reúne mais de 80 nomes de destaque das áreas de liderança, sustentabilidade, política, ciência, cultura, comunicação e empreendedorismo, divididos entre painéis, oficinas e debates voltados ao fortalecimento da presença feminina em espaços de liderança e tomada de decisão.
Mediado pela presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Suely Temporal, o útimo painel desta segunda-feira reuniu a secretária municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude de Salvador, Fernanda Lordêlo; o jornalista e escritor Klester Cavalcanti, autor do livro Matou uma, matou todas; a diretora da Legal Global Chile, Soledad Torres; e o jornalista e diretor do Instituto Papo de Homem, Zé Ricardo Ferreira.

Na abertura do debate, Suely destacou que a violência contra mulheres também impõe uma responsabilidade à imprensa, que durante décadas ajudou a consolidar uma narrativa que invisibiliza os agressores e revitimiza as vítimas.
“Durante muitos anos, a imprensa ajudou a perpetuar uma narrativa em que a mulher era protagonista da violência, quando, na verdade, o protagonista é o homem que mata”, afirmou. Como exemplo, comparou duas formas de noticiar um feminicídio: “Mulher morre após discussão com o marido” e “Marido mata mulher após discussão”. “Parece uma diferença pequena, mas ela muda completamente a compreensão sobre quem é o responsável pela violência.”
A presidente da ABI lembrou ainda que a entidade lançou, em 2024, o Protocolo Antifeminicídio, guia de boas práticas voltado aos profissionais da comunicação para qualificar a cobertura jornalística sobre violência de gênero e evitar abordagens sensacionalistas ou que culpabilizem as vítimas.
Educação como principal estratégia
Ao longo de toda a conversa, a educação apareceu como principal caminho para romper o ciclo da violência.
Autor do livro Matou uma, matou todas, Klester Cavalcanti contou que a pesquisa para escrever a obra o levou a reconhecer aspectos do machismo presentes na própria formação masculina. “Eu percebi que sou machista. Não porque quis ser. Sou porque fui educado numa sociedade machista. A família, a escola, a igreja, a televisão, a música… tudo nos educa para isso.”
Segundo ele, esse processo também revelou comportamentos controladores que reproduziu ao longo da vida sem perceber. “Muitas vezes tive atitudes machistas sem entender que eram violência. Dizer para uma mulher que ela não pode sair com determinada roupa, por exemplo, parece algo natural para muitos homens. Mas isso também faz parte dessa estrutura.”
Para o jornalista, combater o feminicídio passa necessariamente por formar novas gerações. “O único caminho que temos para enfrentar o feminicídio é a educação. Precisamos ensinar desde cedo que homem não tem poder sobre mulher.”
Klester também defendeu que homens ocupem esse debate com responsabilidade. “Quando um homem fala sobre machismo para outros homens, muitas vezes eles escutam de uma forma diferente. Precisamos usar esse privilégio para transformar outros homens.”
Papel dos homens
Essa perspectiva foi aprofundada por Zé Ricardo Ferreira, diretor do Instituto Papo de Homem, organização que desenvolve pesquisas e projetos voltados às masculinidades.
Segundo ele, as estatísticas deixam claro quem são os principais autores da violência e, por isso, os homens precisam assumir protagonismo na transformação dessa realidade. “Os principais causadores da violência somos nós, homens. Então precisamos ser também os principais personagens no combate a ela.”
Ele apresentou dados de uma pesquisa realizada com adolescentes, mostrando que cinco em cada dez meninos afirmam querer aprender a paquerar sem praticar assédio. “Existe uma geração que quer fazer diferente. O desafio é entender por que outra parcela continua reproduzindo violência.”
Para Zé Ricardo, além da educação, é fundamental que homens utilizem seus espaços de influência para interromper situações de violência. “Precisamos dizer para outro homem: ‘Isso que você está fazendo é violência’. Se não conseguimos intervir diretamente, devemos encontrar outras formas de agir. O silêncio também fortalece a violência.”
Durante o debate, ele discordou respeitosamente da ideia de que as mulheres devam levar mais homens para esses espaços. “A mulher já está na ponta sofrendo a violência e há décadas faz sua parte. Somos nós, homens, que precisamos convidar outros homens para essa conversa.”
Políticas públicas em rede
Representando a Prefeitura de Salvador, Fernanda Lordêlo, secretária municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude, apresentou dados sobre as políticas de enfrentamento à violência de gênero e destacou a importância da atuação integrada entre diferentes instituições.
Segundo a secretária, Salvador reduziu em cerca de 50% os casos de feminicídio nos últimos três anos, resultado de um trabalho articulado entre a rede de proteção, o sistema de Justiça, o Governo do Estado e iniciativas como o Núcleo de Enfrentamento ao Feminicídio (NEF).
Ela explicou que o núcleo realiza grupos reflexivos com homens autores de violência, conforme prevê a Lei Maria da Penha. “Precisamos tratar a causa para evitar a consequência.”
Fernanda também chamou atenção para um aspecto ainda pouco conhecido pelas próprias mulheres: o reconhecimento das diferentes formas de violência. “Muitas mulheres acreditam que violência é apenas a agressão física. Mas violência patrimonial, psicológica, moral e sexual também precisam ser reconhecidas.”
A secretária fez ainda uma reflexão sobre o papel da comunicação. “Quando a imprensa expõe uma mulher vítima de violência sem os devidos cuidados, pode colocá-la novamente em risco. Precisamos abandonar a espetacularização da violência e compreender que comunicação também é política pública.”
Fenômeno global
Diretora da Legal Global Chile, a diplomata Soledad Torres trouxe uma perspectiva internacional ao debate e afirmou que a violência de gênero atravessa fronteiras. “Esse não é um problema do Brasil. Acontece em todos os países.”
Ela compartilhou experiências como advogada de mulheres vítimas de violência e criticou a tendência de relativizar a responsabilidade dos agressores em nome de suas carreiras ou posições sociais. “Aqui não é uma questão de dinheiro. É uma questão de dignidade.”
Para Soledad, a educação também precisa começar dentro de casa. “Temos responsabilidade sobre a forma como educamos nossos filhos e filhas. Precisamos ensinar que mulheres e homens têm as mesmas oportunidades e merecem o mesmo respeito.”
Comunicação transforma
Ao encerrar o painel, Suely Temporal destacou que o debate evidenciou a importância de ampliar o diálogo com os homens e reafirmou o compromisso da ABI com uma cobertura jornalística ética e responsável sobre a violência contra mulheres.
“Foi a primeira vez que participei de um debate sobre violência contra a mulher com uma presença tão significativa de homens. Saio muito feliz e esperançosa. Precisamos transformar a forma como contamos essas histórias para também transformar a sociedade.”


