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O dia em que Luiz conheceu Ruy na Rua dos Capitães

Ficcção de Luis Guilherme Pontes Tavares*

Era julho de 1853 e Luiz completaria nove anos de idade. Maria Luiza, a mãe dele, subiu a travessa enladeirada e seguiu, à direita, na Rua dos Capitães. Foi comprar bolo em mãos da senhora Maria Adélia. A comemoração do aniversário de Luiz foi modesta, mas ele a surpreendeu com a decisão precoce de mudar o sobrenome.

Em novembro daquele ano, a lavadeira Maria Luiza, conhecida também pelos bonecos de pano que confeccionava, mandou Luiz, que a auxiliava no comércio desse artesanato, que entregasse a dona Maria Adélia o mimo que ela tinha criado para o filho dela, Ruy, que completava três aninhos de idade.

Foi assim que Luiz conheceu Ruy, com quem, muitos anos depois, disputaria ponto de vista sobre a política e a economia do nosso país. Os cinco anos a mais de Luiz não justificam a distância dos dois nos anos seguintes, em que atravessaram a infância e a adolescência enquanto viviam em endereços próximos. A estreia de Luiz no mundo do trabalho e a educação rigorosa a que Ruy era submetido são causas mais plausíveis para o longo desencontro dos dois.

Quando Ruy Barbosa, na altura dos 15 anos, viajou para estudar na Faculdade Direito do Recife, Luiz Tarquinio, que acrescentara ao seu o nome de imperador de Roma, trabalhava no comércio de tecidos como empregado de estrangeiros, progredindo até à condição de sócio e se distinguindo como designer têxtil. O retorno de Ruy a Salvador, no meado da década de 1870, não foi para o sobrado da Rua dos Capitães, onde, numa das travessas, por certo Luiz e a mãe não mais moravam.

Tarquinio crescia no conceito dos patrões estrangeiros e viajava para a Europa a trabalho. Ruy voltara para a Bahia quando o pai transferira a residência para Plataforma a fim de cuidar da olaria que edificara em terreno arrendado no subúrbio. O jovem advogado formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, retornara porque sua saúde exigia cuidado. Ainda assim, nos anos seguintes atuou como secretário da Santa Casa de Misericórdia, de que Tarquinio fazia parte, e atuava como redator-chefe do Diário da Bahia. Não tardou, porém, que a morte do pai, que lhe deixou dívidas a pagar, e o noivado com a prima Maria Augusta Viana Bandeira, seis anos mais jovem, o empurrassem para o Rio de Janeiro, onde construiu nome, patrimônio e prestígio nacional e internacional.

Na década de 1880, a ascensão política de Ruy, na capital do país, atrairia, ainda mais, Tarquinio e os dois duelaram, na imprensa do Rio de Janeiro, sobre o encaminhamento da abolição de escravos e a política fiscal. Os dois vizinhos da Rua dos Capitães se aproximaram na divergência e Ruy, quando visitava a Bahia frequentava a Livraria Catilina, no Comércio, onde encontrava Tarquinio, cuja atuação na Bahia, sobretudo na capital, o tornara figura pública de relevo.

Tarquinio atuava como mecenas e auxiliou o gráfico e editor Cincinnato José Melchiades, dono da Typographia Bahiana, a publicar a Revista Popular, no final do século XIX, onde escrevia sob pseudônimo. Cincinnato, após a morte de Tarquinio em 1903, publicaria, sete anos depois, o livro Ruy Barbosa na Bahia, em que reúne discursos pronunciados na Associação dos Empregados no Comércio da Bahia. Tem mais, Tarquinio colocou o nome de Ruy Barbosa na escola que edificou na Vila Operária, na península itapagipana.

Se algo, na Rua dos Capitães, Luiz e Tarquinio viram foi a placa de mármore com a gravação do ano 1713 (foto). Por certo sabiam do que se tratava. Nesse ano, a Bahia ainda era capital do Brasil e a Rua dos Capitães, pelo visto, já existia. No século seguinte, Luiz nasceria em julho de 1844 e Ruy, em 05 de novembro de 1849. Os dois contribuiriam para os avanços brasileiros e a rua, em 1903, ano da morte de Tarquinio, passou a ser denominada de Rua Ruy Barbosa.

Foto: Fábio Marconi

Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É o 1º vice-presidente da ABI. 

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