Nelson Cadena*
Em 23 de junho de 1978, véspera de São João, os diretores da ABI, o seu presidente incluso, desta feita não viajaram para os sítios da família, ou para as fazendas dos amigos, no interior. Trajaram smokings, coletes e sapatos de verniz. Marcaram presença no Hotel Le Méridien, convidados para o coquetel e jantar oferecido à imprensa baiana pelos príncipes do Japão, Akihito e Michiko, futuros Imperador e Imperatriz do país asiático.
Sua Alteza Imperial Akihito e sua culta esposa, Michiko, a primeira plebeia em 2600 anos a ingressar na família imperial japonesa, na ocasião, esbanjaram simpatia, característica de suas personalidades. Receberam, após a saudação do presidente da ABI, Afonso Maciel Neto, um estojo de joias, ostentando o brasão da entidade. Suas Altezas retribuíram oferecendo a Maciel Neto um finíssimo estojo de colheres prateadas.
A visita a Salvador, assim como a de Belém do Pará e Manaus, na sequência, não constou da agenda oficial. Ao consultar o Relatório do Ministério das Relações Exteriores de 1978, encontrei apenas uma breve referência à passagem dos soberanos por essas cidades. O roteiro oficial, organizado em torno das comemorações dos 70 anos da imigração japonesa no Brasil, tinha como principais etapas Brasília, São Paulo, Campinas, Londrina, Rolândia e Maringá.
A Bahia tinha alguma relevância para os nipónicos. Em coletiva de imprensa, organizada na sua sede pela ABI, em 24 de fevereiro do ano referido, quatro meses antes das célebres visitas, o embaixador do Japão Kenzo Yoshida, externou o interesse de seu país em investir em alguns setores da indústria brasileira. De olho no Polo Petroquímico de Camaçari e do Centro Industrial de Aratu, as terras raras da época, se cabe a analogia, a exemplo da França e da Suíça, dentre outros países, conforme declarado pelos embaixadores Jean Belard e Max Seller, em coletivas realizadas na sede da entidade.
O Polo Petroquímico seria inaugurado uma semana depois, 29 de junho, pelo presidente da República Ernesto Geisel. A imprensa baiana foi descriminada pelo protocolo das forças de segurança. A ABI encaminhou no dia seguinte um telex à presidência da República, protestando contra os obstáculos criados para os jornais de Salvador. Eis um trecho: “Permita-nos vossência respeitosamente manifestar a estranheza da Associação Bahiana de Imprensa pelas dificuldades e descriminação impostos aos jornalistas locais e de sucursais do sul do país que faziam cobertura honrosa…”

A visita dos príncipes contou com a presença de imigrantes e seus descendentes das colônias agrícolas de Una e Ituberá, sul da Bahia, implantadas na década de 1950 e a de Mata de São João, na década seguinte. No costumeiro roteiro de apresentar a cidade às visitas ilustres, a princesa Michiko deve ter admirado no comércio, o Moinho de Salvador, o ramo de negócios de sua família, a Nisshin Seifun Group, uma das maiores indústrias de moagem de trigo do Japão. O casal nonagenário 92 e 91 anos, ainda vive. Lúcidos, devem rememorar o cerimonioso acolhimento dos baianos.
Texto originalmente publicado no dia 06 de agosto pelo jornal Correio.
Fotos – Referência: imagens do livro “Os japoneses na Bahia” de Leila Maekawa, via portal Aratu On e da tese de doutorado de Elivaldo Souza de Jesus/UFBA, japoneses com destino ao Brasil, em 1957. A primeira colorizada com IA

*Nelson Cadena é jornalista, pesquisador, publicitário e atual 2º secretário da ABI.
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