A memória de um governo também se escreve pelas páginas dos jornais, pelas ondas do rádio, pelas fotografias e pelas estratégias que aproximam a administração pública da sociedade. Foi nesse território entre história, jornalismo e política que a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) realizou, nesta quarta-feira (9), mais uma edição do Temas Diversos, ciclo promovido mensalmente após a reunião ordinária de Diretoria da entidade.
Em homenagem ao centenário de nascimento do professor e ex-governador da Bahia, Roberto Santos, a programação trouxe a roda de conversa “Comunicação no Governo Roberto Santos”, reunindo profissionais que acompanharam de perto a comunicação da gestão entre 1975 e 1979.
Participaram os jornalistas Helington Rangel, ex-secretário de Comunicação do governo Roberto Santos; José Estevez, subsecretário de Comunicação na gestão de Sérgio Gomes; Maria Alcina Pipolo, assessora de comunicação da primeira-dama Maria Amélia; e a professora Cristiana Santos, filha do ex-governador. A mediação foi do jornalista Luis Guilherme Pontes Tavares, vice-presidente da Assembleia Geral da ABI, que atuou como repórter da Secretaria de Comunicação durante o governo. Entre os convidados, estava Girlene Ferreira, representando o Memorial dos Governadores da Fundação Pedro Calmon.
A conversa recuperou episódios, bastidores e desafios de uma época em que a comunicação pública ainda era essencialmente analógica, sem computadores, celulares ou redes sociais. Também revelou um paradoxo que atravessou a gestão: um governo de forte caráter técnico e grande volume de realizações, comandado por um homem pouco afeito à publicidade pessoal, precisava encontrar formas de fazer suas ações chegarem à imprensa e, consequentemente, à sociedade.
Segundo os relatos apresentados durante o encontro, a própria criação da Secretaria de Comunicação Social do Estado está ligada à gestão de Roberto Santos. A estrutura nasceu em um período no qual a relação entre governo, universidade e imprensa começava a ganhar novos contornos.
O perfil do governador foi determinante para essa configuração. Formado na medicina, o professor e pesquisador Roberto Santos chegou ao governo sem uma trajetória política tradicional. Como destacou o debate, sua gestão teria sido composta majoritariamente por técnicos oriundos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da qual foi reitor na gestão 1967–1971. A proximidade entre a universidade e o governo foi apontada como uma das marcas daquele período.
Essa característica também aparecia na forma como o governador se comunicava. Em vez do discurso político tradicional, recorria ao detalhamento. Em praças públicas, explicava as obras, seus objetivos e as razões técnicas que orientavam cada iniciativa.
O desafio de transformar gestão em notícia
Para os jornalistas que trabalharam na Secretaria de Comunicação, entretanto, a competência técnica do governo não significava necessariamente facilidade para produzir notícia.
José Estevez recordou que a equipe muitas vezes precisava buscar as informações por conta própria. “A imprensa tinha que ir garimpar a matéria”, afirmou. Segundo ele, os integrantes da equipe de governo conheciam profundamente suas áreas de atuação, mas nem sempre identificavam aquilo que poderia despertar o interesse jornalístico.
O resultado era uma assessoria obrigada a construir diariamente as pontes entre a realização administrativa e a narrativa jornalística.
“Um release aqui, outro acolá, você não tinha como avaliar esse todo do governo”, observou Estevez, ao lembrar o volume de obras e ações da administração. Em sua avaliação, também faltava inicialmente uma estrutura de publicidade que pudesse reforçar a comunicação institucional e ampliar o alcance das realizações.
A resistência de Roberto Santos à publicidade excessiva fazia parte de sua personalidade. O ex-governador, segundo os relatos, estava mais interessado na execução das políticas públicas do que na construção de uma imagem pessoal.
Um episódio narrado por Esteves sintetizou essa postura. Ao analisar uma proposta de campanha para divulgar uma escola com dezenas de salas de aula, Roberto Santos teria questionado o investimento publicitário: “Estevez, por isso aí, eu faço mais duas salas de aula.”
A frase traduzia uma lógica que atravessava sua administração: diante da possibilidade de escolher entre comunicar uma realização e ampliar a própria realização, o governador tendia a optar pela segunda.
Quando a comunicação ganhou força
Essa postura não impediu mudanças. A necessidade de ampliar a comunicação do governo tornou-se mais evidente à medida que as críticas à falta de divulgação cresceram.
Estevez recordou que uma declaração de um deputado, que classificou o governo como “imobilista”, teria provocado uma das raras demonstrações de incômodo público de Roberto Santos. A crítica contrastava com o grande volume de obras realizadas durante a gestão.
A partir daquele momento, segundo o relato, houve uma mudança de orientação, com maior investimento em publicidade e comunicação. Sérgio Gomes passou a ocupar papel importante nesse processo, trazendo uma visão mais estratégica sobre a utilização da propaganda para dar visibilidade às ações do governo.
Ainda assim, a personalidade do governador permanecia presente. Roberto Santos acompanhava de perto as peças, discutia campanhas e examinava os investimentos. A comunicação precisava dialogar com um administrador que conhecia os detalhes de cada projeto e que mantinha rígido controle sobre os recursos públicos.
A comunicação para além do Palácio
A experiência de Maria Alcina Pipolo ampliou a discussão para o trabalho desenvolvido por Maria Amélia Santos à frente das Voluntárias Sociais.
Com apenas 19 anos e ainda cursando jornalismo, Maria Alcina recebeu o convite para atuar como assessora de imprensa da primeira-dama. A experiência, segundo seu relato, representou também uma mudança na maneira como as ações sociais do governo eram pensadas e comunicadas.
Maria Amélia teria compreendido que seu papel poderia ultrapassar o assistencialismo tradicional. “É melhor ensinar a pescar do que dar o peixe”, repetia, segundo a jornalista.
A partir dessa perspectiva, foram estabelecidas parcerias com clubes de mães, centros comunitários e instituições filantrópicas, além da oferta de cursos profissionalizantes. Maria Alcina também recordou campanhas de registro civil que permitiram a milhares de pessoas obter documentação pela primeira vez. Em uma delas, entrevistou um homem com mais de 90 anos que até então não possuía qualquer documento oficial.
A experiência das Voluntárias Sociais também revelou uma percepção pioneira sobre comunicação institucional. “Dona Maria Amélia inseriu pela primeira vez uma assessoria de imprensa no quadro das voluntárias sociais”, destacou Maria Alcina, que relacionou essa iniciativa à criação da primeira Secretaria de Comunicação Social do governo estadual.
Uma memória de família
Para Cristiana Santos, a roda de conversa representou a possibilidade de reunir memória pessoal e memória pública. Filha de Roberto Santos, ela tinha nove anos quando o pai assumiu o governo da Bahia e acompanhou parte das viagens ao interior, além de ter vivido dentro de casa as conversas e decisões que atravessavam a vida política do governador.
“Ele era um professor e pesquisador que entrou para a política por acaso, o projeto de vida dele não era a política, era a pesquisa, era o estudo”, afirmou.
Para a professora, compreender o governador exige retornar ao professor e ao cientista. A formação acadêmica, a experiência internacional e o trabalho desenvolvido na medicina e na universidade ajudaram a moldar um administrador que pensava os problemas de maneira sistemática. “Cada situação, cada problema com método. Com método”, resumiu.
Essa característica, segundo ela, pode ser percebida em diferentes áreas da gestão. Educação, saúde, ciência e tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento econômico apareciam articulados a uma lógica de planejamento.
Cristiana citou como exemplos a expansão da rede educacional, a organização regional da saúde, a criação de hospitais, o Hospital Roberto Santos, o Museu de Ciência e Tecnologia, a Rádio Educadora, os Centros Sociais Urbanos, o Parque de Pituaçu, o Estádio de Pituaçu, o Centro de Convenções e iniciativas relacionadas ao desenvolvimento industrial da Bahia.
Na avaliação da professora, havia também uma diferença entre fazer e comunicar. Roberto Santos estava concentrado na realização das políticas públicas, enquanto Maria Amélia possuía uma percepção mais sensível sobre a necessidade de dar visibilidade ao trabalho realizado.
“Às vezes não enxergava que, além de fazer, ele precisava dar visibilidade ao que fez, que ele precisava valorizar, assim, a publicidade”, afirmou Cristiana, que durante a participação recebeu de Jaciara Santos, 1ª secretária da ABI, uma cópia da matéria publicada pela jornalista no Jornal da Bahia, no encerramento do governo de seu pai, em 1979.
Memória
Ao falar sobre o período posterior ao governo, Cristiana trouxe à roda uma dimensão menos conhecida dessa história. Segundo ela, houve um processo de apagamento da memória da administração Roberto Santos, com retirada de placas e mudanças de nomes de equipamentos, além de dificuldades enfrentadas por pessoas que haviam trabalhado na gestão.
“Então, houve sim um período de perseguição a quem trabalhou, que é bom lembrar, e de apagamento da história. E essa é uma das coisas que a gente tá procurando fazer com o centenário, com o resgate”, afirmou.
É justamente contra esse esquecimento que a família vem trabalhando no centenário. Cristiana contou que tem reunido fotografias, documentos e memórias para construir um perfil sobre o ex-governador e ampliar o acesso público à sua trajetória.
A iniciativa, para ela, não pretende apenas preservar uma memória familiar. Busca também recolocar em debate uma determinada compreensão da política.
“Custa a gente lembrar as pessoas que o governo pode ser planejado?”, questionou. E completou defendendo que a política pode manter compromisso com educação, saúde, redução das desigualdades e valorização da ciência e da tecnologia.
Ao final, Cristiana aproximou a homenagem ao pai de uma reflexão sobre o presente. Para ela, a degradação da política e o avanço do que chamou de “politicagem” contribuíram para a desesperança e para o afastamento das novas gerações.
“Talvez seja o momento da gente relembrar”, afirmou, defendendo a recuperação de trajetórias em que o interesse público e o compromisso republicano tiveram papel central.
A presidente da ABI, Suely Temporal agradeceu a aula dada pelos participantes e presença dos convidados da roda de conversa. Ela destacou a importância da comunicação pública e da preservação da memória da imprensa. “A ABI abriu espaço para que uma experiência de quase cinco décadas pudesse ser revisitada à luz dos desafios atuais da comunicação pública. E, em uma época de tecnologias instantâneas, a lembrança feita durante o encontro por Cristiana ganhou uma dimensão particular. Aqueles jornalistas trabalharam sem computadores, celulares ou redes sociais. Dependiam do telefone, do papel, da presença física e da capacidade de transformar acontecimentos em notícia”, enfatizou.










