ABI BAHIANA

Jornalismo, empreendedorismo e cidadania em debate no 3º Encontro Baiano de Comunicadores

Evento reuniu Jéssica Senra, Jefferson Beltrão e Victor Pinto, com mediação de Suely Temporal, e marcou a cerimônia do 13º Prêmio Sebrae de Jornalismo

Jornalismo, empreendedorismo e cidadania estiveram no centro das discussões do 3º Encontro Baiano de Comunicadores, realizado na noite desta terça-feira (15), na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador. Promovido pelo Sebrae, com apoio da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o encontro reuniu os jornalistas Jéssica Senra, Jefferson Beltrão e Victor Pinto para discutir as transformações da profissão, os desafios de empreender na comunicação e a responsabilidade do jornalismo diante de uma sociedade cada vez mais atravessada pelas novas tecnologias.

A programação, que teve mediação da presidente da ABI, Suely Temporal, também marcou a cerimônia de entrega do 13º Prêmio Sebrae de Jornalismo (PSJ). Nesta edição, a premiação registrou recorde de participação na Bahia, com 181 trabalhos inscritos, e distribuiu R$ 70 mil entre as categorias Texto, Áudio, Vídeo, Fotojornalismo e Jornalismo Universitário.

Na abertura do painel, Suely Temporal destacou que as mudanças pelas quais passou o jornalismo nas últimas décadas também transformaram a relação dos profissionais com o mercado. Para ela, o jornalista passou a ocupar, cada vez mais, o lugar de empreendedor, especialmente diante da multiplicação de plataformas e formatos de comunicação.

“Hoje também falamos do jornalista como empreendedor. (…) Surgiram podcasts, sites, blogs, perfis de influenciadores. E, se antes a marca do jornalista estava diretamente relacionada à reputação do veículo ao qual ele estava ligado, hoje o jornalista tem que construir a sua própria marca pessoal”, afirmou.

A presidente da ABI, no entanto, ressaltou que a busca por novos modelos de atuação não pode significar o afastamento dos princípios que fundamentam a profissão. Para Suely, ética, responsabilidade na produção da informação e defesa do direito da população de estar bem informada permanecem como referências essenciais.

É nesse ponto que, segundo ela, os três conceitos que dão nome ao encontro se conectam: o jornalismo como prática, o empreendedorismo como uma possibilidade profissional cada vez mais presente e a cidadania como finalidade do trabalho jornalístico. “O jornalismo é base e pilar da democracia”, destacou ela, que, em breve, lançará um livro sobre como transformar o jornalismo em negócio sustentável.

Nova lógica

A transformação provocada pelas redes sociais e pelas novas tecnologias foi um dos principais pontos abordados por Jéssica Senra. A jornalista falou sobre a experiência de profissionais que deixaram os meios tradicionais de comunicação para construir seus próprios espaços de atuação.

Segundo ela, as redes sociais ampliaram as possibilidades para jornalistas que desejam continuar produzindo conteúdo de forma independente. Ao mesmo tempo, a abundância de informação tornou ainda mais relevante a capacidade profissional de interpretar os fatos.

“Estamos mergulhados e bombardeados por muita e muita informação. E, por isso, o jornalista hoje se torna mais relevante do que nunca”, afirmou.

Jéssica também chamou atenção para um dos grandes desafios colocados pela expansão da inteligência artificial: a necessidade de compreender quais competências continuam essencialmente humanas. Entre elas, citou o pensamento crítico, a empatia e a responsabilidade pelo conteúdo produzido.

A jornalista lembrou ainda que a responsabilidade sobre uma informação continua sendo de quem a publica, independentemente da ferramenta utilizada para produzi-la. “Se alguém lhe processar criminalmente por calúnia, injúria e difamação, não é a IA que vai responder pelo texto, é você”, observou.

Outro questionamento levantado por Jéssica foi sobre o espaço que resta ao jornalista em um cenário no qual profissionais de praticamente todas as áreas passaram a produzir conteúdo. Psicólogos, chefs de cozinha, empresários e especialistas de diferentes setores utilizam as redes para divulgar seus conhecimentos, construir audiência e oferecer serviços.

A provocação colocou em debate justamente aquilo que diferencia o jornalismo em meio à avalanche de conteúdo: a capacidade de apurar, contextualizar, interpretar e responder eticamente pela informação.

Para Jefferson Beltrão, o próprio exercício da comunicação já contém uma dimensão empreendedora. O jornalista, segundo ele, identifica necessidades, busca informações, constrói narrativas e mobiliza pessoas por meio da comunicação.

“O comunicador é um empreendedor também, independentemente de ter ou não ter uma empresa na área da comunicação”, afirmou.

O jornalista destacou a importância da comunicação como instrumento capaz de colocar ideias em movimento e transformar a sociedade. Ao recorrer a referências da retórica clássica, mencionou os conceitos de ethos, pathos e logos, associados à credibilidade, à emoção e à lógica na construção de uma comunicação capaz de estabelecer conexão e confiança.

A discussão também passou pela ética profissional. Para Jefferson, a capacidade de persuadir e influenciar precisa estar acompanhada de responsabilidade. “A comunicação é uma ferramenta que pode ser usada para o bem e para o mal”, observou.

Ao falar sobre sua própria trajetória, o jornalista contou que chegou a cursar Odontologia antes de seguir definitivamente para a comunicação. A experiência profissional no rádio e na televisão, segundo ele, trouxe uma das principais recompensas da carreira: a possibilidade de contribuir para a vida das pessoas.

Foi nesse contexto que deixou uma reflexão sobre um dos principais ativos do jornalista: “A credibilidade ainda é o nosso maior patrimônio. É algo que a gente constrói ao longo de uma vida. E podemos perder da noite para o dia”.

Empreender exige adaptação

Victor Pinto levou ao debate a relação entre a atuação em veículos de comunicação e a possibilidade de construir um negócio próprio. Para ele, as duas experiências podem coexistir, dependendo dos objetivos de cada profissional.

O jornalista defendeu que construir uma identidade que ultrapasse o nome do veículo no qual se trabalha é parte importante da trajetória profissional. “Alguns querem ir mais além e querem empreender, ser dono do seu próprio negócio. Só que é uma tarefa muito difícil”, afirmou.

A própria trajetória de Victor é marcada por experiências empreendedoras. Ele contou que, aos 12 anos, criou um jornal em sua cidade, Conceição do Coité (BA), e acompanhou desde cedo os desafios de produzir uma publicação, buscar anunciantes, gerar receita e manter a operação.

Hoje, segundo ele, a tecnologia reduziu significativamente os custos de entrada para quem deseja produzir conteúdo. Se antes uma cobertura exigia câmeras, gravadores e outros equipamentos, atualmente um celular pode concentrar boa parte dessas funções.

Mas a facilidade tecnológica não elimina os desafios do negócio. Para Victor, o jornalista que pretende empreender precisa compreender a importância da construção da própria marca e desenvolver competências que vão além da produção da notícia.

“Precisamos ter um foco para construir a nossa independência. Procurar as marcas, se apropriar, captar clientes. São muitos os caminhos. É saber o seu foco, estudar e trabalhar nisso”, afirmou.

Sustentabilidade e identidade profissional

A sustentabilidade do jornalismo como atividade profissional também figurou no debate. Os convidados destacaram que o modelo que funcionou no passado nem sempre responde às necessidades do presente, exigindo dos profissionais capacidade de adaptação.

Jéssica Senra defendeu a abertura para novos caminhos e formatos. “O que deu certo lá atrás, muitas vezes, não funciona. Precisamos estar abertos a novos caminhos”, afirmou.

Jefferson Beltrão reforçou que a inovação profissional não pode prescindir da ética. Já Victor Pinto destacou a necessidade de combinar conhecimento, planejamento, relacionamento e clareza de propósito para construir uma trajetória independente.

Os convidados também chamaram atenção para a valorização dos profissionais baianos e defenderam que empresas e instituições ampliem a contratação de talentos locais. A discussão abordou a percepção de desvalorização da mão de obra do estado e a necessidade de superar o que foi chamado por Jéssica de “síndrome de vira-lata”.

Para quem está começando

Ao final do painel, os três jornalistas deixaram recomendações para os profissionais que estão entrando no mercado.

Jéssica Senra ressaltou a necessidade de manter a paixão pelo jornalismo, ampliar o repertório e continuar estudando. Para ela, apesar das dificuldades da profissão, o jornalismo permanece como uma ferramenta capaz de transformar a vida das pessoas.

Jefferson Beltrão falou sobre propósito e intuição. Segundo ele, cada profissional precisa identificar aquilo que deseja construir e desenvolver uma disposição mental favorável aos próprios objetivos. Também recomendou assumir riscos de forma consciente, buscando informações e entendendo o terreno antes de tomar decisões.

Victor Pinto enfatizou a importância do conhecimento e das relações interpessoais. Para ele, além de estudar, o jovem jornalista precisa saber se relacionar e construir uma rede de contatos. “O mercado é pequeno e todo mundo se conversa, todo mundo se fala”, afirmou.

As diferentes perspectivas apresentadas durante o encontro convergiram para uma questão central: em um ambiente marcado pela transformação tecnológica e pela multiplicação de produtores de conteúdo, o jornalista precisa combinar conhecimento, capacidade de adaptação, identidade profissional e responsabilidade com a informação.

Prêmio Sebrae

Após o debate, a noite foi dedicada ao reconhecimento dos trabalhos jornalísticos inscritos na etapa Bahia da 13ª edição do Prêmio Sebrae de Jornalismo. A premiação valoriza reportagens que mostram, a partir da perspectiva dos pequenos negócios, como o empreendedorismo contribui para transformar vidas e movimentar a economia.

Na categoria Texto, o primeiro lugar ficou com Bianca Carneiro, do Portal A Tarde, com “Cerveja, cacau e arte: como indígenas baianos transformam a floresta em renda coletiva”. Quézia Silva, do Portal Salvador FM, ficou em segundo, com “Empreendedores do Bairro da Paz transformam talento em oportunidade e renda”, e Maria Raquel Brito, do Jornal Correio, conquistou o terceiro lugar com “Mulheres egressas do sistema prisional encontram recomeço no empreendedorismo”.

Em Áudio, o primeiro lugar foi de Paloma Morais, da BandNews FM Salvador, com “Licuri: o tesouro do Sertão – Sabores e Texturas”. Luanne Ribeiro, da Rádio Antena 1 Salvador, ficou em segundo com “Da Seca à Solução: O Sol que Reflete Cuidado e Futuro”, enquanto Verena Veloso, da BandNews FM Salvador, conquistou o terceiro lugar com “Mãos que cultivam: a força dos agricultores familiares da Bahia”.

No Fotojornalismo, Uendel Galter, do Jornal Massa!, venceu com “Ancestralidade nas mãos e na cabeça”. Marina Silva, do Jornal Correio, ficou em segundo com a fotografia da matéria “Como um pequeno negócio transformou um espaço esquecido em atração cultural no Centro Histórico de Salvador”, e Sora Brito Maia, também do Correio, ficou em terceiro com “Ouro em Barra”.

Na categoria Vídeo, o primeiro lugar foi conquistado por Lucas da Hora, da TV Bahia, com “Afroempreendedorismo”. Filipe Correia, da TV Globo, ficou em segundo com “Clima de alerta – água”, e Lícia Fontenele, da TV Record Bahia, conquistou o terceiro lugar com “Da Dor à Potência: A Força Empreendedora das Mulheres”.

Encerrando a premiação, na categoria Jornalismo Universitário, Eloisa do Carmo Oliveira, da UNEB – Campus Seabra, conquistou o primeiro lugar com “Mãos que moldam o presente e o futuro: o empreendedorismo feminino floresce em olarias artesanais da Bahia”. Tais Maria Martins, da UNIFTC Salvador, ficou em segundo com “Meliponário Vale das Rainhas”, e Lucas Soares, da UFBA, em terceiro, com “Mãos de Midas”.

Fotos: Ian Hora para ML Comunicação

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