Artigos

Luiz Tarquínio, 180º ano do nascimento: disciplina e solidariedade na relação capital & trabalho

Luís Guilherme Pontes Tavares*

Frontispício do Aparas Jornalísticas

É provável que pesquisadores mais habilidosos em navegar na web cheguem à identificação do jornalista e dramaturgo J. Cardoso, que, em 02 de Julho 1923, publicou, no periódico O Democrata, o artigo “Luiz Tarquínio e sua obra de Grande Industrial”. O mesmo texto foi incluído na coletânea Aparas jornalísticas… (Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1925, 142 p.). Localizei o citado texto no IGHB, como parte de miscelânea (encadernação de impressos distintos) organizada e doada pelo artista plástico baiano Presciliano Silva (1883-1965). Em Aparas, o texto sobre Tarquínio, a quem o autor distinguira na festa do centenário da Independência do Brasil na Bahia, ocupa as páginas 1 a 20.

Nele, J. Cardoso fala da disciplina imposta aos operários na Fábrica da Boa Viagem e na Vila Operária e contrapõe tais observações ao comportamento solidário e respeito que Luiz Tarquínio cultivava.

Fábrica da Boa Viagem

Eis o trecho (p. 12-13) a que me refiro:

“A organização do trabalho nos estabelecimentos da Empório começou com certa severidade, como exigiam circunstâncias especiais do momento, oriundas de irregularidades que se observavam por quase todos os nossos departamentos industriais.

A instituição das multas, aplicadas com rigor e com rigor cobradas, produziu uma espécie de pânico entre os trabalhadores. Luiz Tarquínio, com aquela adorável mansuetude – que era todo um reflexo de seu coração boníssimo, não perdoava faltas.

Uma vez, tendo ele próprio observado em deslize um pobre operário, aplicara uma multa de 20$000 [vinte mil Réis].

Era a feria de uma semana perdida.

No sábado, antes da hora do pagamento, o operário procurou-o.

– Que deseja? perguntou-lhe Luiz Tarquínio. 

O pobre homem, a quem nesse dia faltariam recursos para comprar o indispensável à alimentação de sua família, explicou-se. Nada podia fazer. Se tinha aplicado a multa, não o fizera por absurdo. Que cumprisse os seus deveres para evitar situações difíceis em sua vida. Assim lhe respondeu Tarquínio.

Entanto… o administrador possuía um coração: e quando, desiludido, ia partir o operário, Luiz Tarquínio chamou-o.

– Aqui tem a importância de sua multa. Mas tem que m’a restituir em parcelas pequenas, semanalmente:

E assim foi cumprido. Fatos inúmeros dessa natureza foram observados. De outra vez um operário foi pedir-lhe um adiantamento dos seus salários, na importância de 60$000 [sessenta mil Réis].

Era para comprar materiais destinados à construção de uma pequena casa para a residência de sua família.

– Não era possível, respondeu Luiz Tarquínio, Entretanto, no dia seguinte, obtidas informações seguras sobre o procedimento do operário e sobre a edificação apenas iniciada de sua casinha, o escritório da empresa tinha ordem para fornecer todo o material necessário à aludida construção que, dentro de pouco tempo, estava concluída.

Todas as despesas foram cobradas a prazo demorado e sem dificuldades para o operário.

 Como esse, outros casos idênticos se passaram.”

As observações feitas em 1923 e 1925 por J. Cardoso ecoam no livro O viver na “Cidade do Bem”: tensões, conflitos e acomodações na Vila Operária de Luiz Tarquínio, na Boa Viagem – Bahia (1892-1946/47), de autoria da professora doutora Marilécia Oliveira Santos, publicado pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB) em 2017. A propósito, a professora, assim como a escritora Eliana Dumêt, bisneta e biógrafa de Luiz Tarquínio, participam, no IGHB, na tarde de 24 de julho 2024 (quarta-feira), da mesa redonda que relembra Tarquínio na passagem dos 180 anos do nascimento dele.

Outras aparas

O jornalista e dramaturgo J. Cardoso sequencia seu texto, publicado pela primeira vez  no Dois de Julho de 1923, lembrando que Luiz Tarquínio:

“Simples auxiliar, tendo se revelado hábil desenhista em especialidades de padronagem de fazendas apropriadas aos costumes e aos gostos da freguesia da praça, os seus patrões o enviaram a Londres em 1873, onde se demorou por muito tempo. Depois, em sucessivas viagens, sempre a serviço da casa Bruderer & Cia, visitou Manchester e outros centros industriais importantes, demorando-se sempre mais em Londres, ponto certo onde exercia sua atividade artístico-industrial e tratava de outros assuntos de caráter estritamente comercial.” p. 7

O autor acentua que:

“Luiz Tarquínio uma só vez não viajara para a Europa que não voltasse trazendo lembranças para todas as suas operárias; e como os presentes variavam de qualidade e valor, a sua distribuição era feita por um sorteio, que se realizava sempre em meio da mais intensa alegria, doce espetáculo a que era raro não assistir Luis Tarquínio, a sorrir, carinhoso e feliz, no meio d’aquela pobre e boa gente que lhe era prolongamento de sua família.” p. 13-14

Encerro com este trecho da página 8 em que lista os filhos que teve com dona Adelaide. Temo, todavia, que falte o nome de um deles:

“Do seu consórcio feliz, teve os seguintes filhos: Luiz Tarquínio Filho, D. Adelaide Tarquínio de Bittencourt, D. Celina Tarquínio Pontes, Alvaro e Juvenal Tarquínio, já falecidos [na altura de 1923]; D. Noemia Tarquínio Bittencourt, Sr. João Tarquínio, Sr. Eduardo Tarquínio, D. Djanira Bittencourt Miranda, D. Stella Tarquínio Porto de Souza, esposa do Dr. Gonçalo Porto de Souza: Dr. Mario Tarquínio, senhorinha Maria Luiza Tarquínio e Sr. Raphael Tarquínio.”

Viva Luiz Tarquínio, sempre!

Festejemos o 180º ano do aniversário de nascimento dele.

__

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é Luis-Guilherme-150x150c.jpg

*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
publicidade
publicidade