Em um tempo de transformações aceleradas, em que a informação circula em velocidade vertiginosa e a credibilidade se tornou um dos bens mais disputados da vida pública, celebrar o Dia do Jornalista é também um convite à reflexão. A data convoca ao exercício de revisitar caminhos, reafirmar princípios e projetar o futuro.
O jornalismo, que atravessa crises e reinvenções, continua sendo sustentado por algo essencial e inegociável: gente. Gente que apura, que escuta, que duvida, que insiste. Gente que, em algum momento, foi jovem, inexperiente, inquieta, e que hoje carrega na bagagem as marcas de uma profissão feita de desafios, escolhas e propósito.
Para marcar a data, diretores da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) aceitaram um convite especial: mandar uma espécie de carta para si mesmos no início da carreira. O resultado são depoimentos que atravessam o tempo e revelam, com sensibilidade e franqueza, o que permanece essencial no fazer jornalístico.
Os depoimentos revelam que, apesar das mudanças tecnológicas, das pressões do tempo presente e das incertezas do futuro, há algo que permanece inalterado: o jornalismo como escolha ou como destino.
Neste 7 de abril, algumas vozes da ABI lembram que ser jornalista é, sobretudo, um exercício contínuo de coragem, escuta e compromisso. Um caminho que começa, quase sempre, com uma pergunta, e que nunca deixa de exigir a disposição de seguir em frente, mesmo sem todas as respostas.
A presidente da ABI, Suely Temporal, olha para trás com a serenidade de quem aprendeu a confiar no próprio caminho:
“Eu diria ‘acredite mais em você mesma, acredite no seu talento. Não deixe que outras pessoas digam que você não é capaz. É muito importante acreditar em si e nunca deixar de aprender, nunca deixar de estudar. Sempre procure evoluir’.”
Suely Temporal
A jornalista Jaciara Santos, primeira secretária da entidade, prefere acolher – antes de aconselhar – a jovem que foi um dia:
“Talvez eu nem dissesse nada. Talvez eu só olhasse para aquela menina com carinho, com vontade de acolher, de abraçar. Porque hoje eu sei o quanto ela estava assustada. Mas havia sonho, havia determinação. E aí eu diria ‘Vá. Vá assim mesmo. Vá com medo, com insegurança, cheia de dúvidas. Mas vá. Não se detenha’.”
Jaciara Santos
E segue, reafirmando um pacto com a própria história:
“Preste atenção em quem veio antes de você. Respeite quem abriu caminhos. Não espere facilidade, não é um caminho fácil. Mas não desista. Siga em frente. Você consegue. Hoje eu sei que consegui. E faria tudo de novo.”
Para a diretora de Cultura da ABI, Yara Vasku, o conselho se ancora nos fundamentos do ofício:
“O maior patrimônio não é o texto impecável, mas a curiosidade incansável e o profissionalismo. Não tenha medo de fazer a ‘pergunta óbvia’. Escreva com simplicidade, apure com profundidade e mantenha a escuta sempre ativa, sensível e humilde. A agilidade nunca deve atropelar a precisão e a ética.”
Yara Vasku
A jornalista Isabel Santos, integrante do Conselho Fiscal, revisita a intensidade da rotina nas redações e reafirma o sentido maior da profissão:
“Desafiadora e maravilhosa. Assim resumo a minha profissão. Dizer que foi fácil seria mentir, e mentir não pode fazer parte do nosso vocabulário. Mas tudo era superado pela vontade de ver uma reportagem ganhar o mundo, chegar ao leitor, formar opinião.”
Isabel Santos
Com o olhar amadurecido, ela deixa um recado direto às novas gerações:
“Não deixem seus sonhos serem encobertos pela nuvem do desânimo. Se esse é o seu dom, coloque-o em prática com amor, ética, responsabilidade e coragem. A riqueza pode não ser material, mas a consciência de contribuir para um mundo melhor é um verdadeiro baú de ouro.”
Também membro do Conselho Fiscal, Eduardo Tito fala sobre o valor do risco e do movimento:
“Não tenha medo de ousar e errar. Não demore a dar o primeiro passo. Avance mesmo com medo. Toda construção tem falhas. O tempo certo começa quando a gente decide começar. Ouse e avance.”
Eduardo Tito
Já o presidente da Assembleia Geral da ABI, Walter Pinheiro, resgata a ideia de vocação como eixo do jornalismo:
“A prática do jornalismo requer vocação. É preciso gostar de buscar a notícia, de ampliá-la, analisá-la. E notícia não tem hora. Você deve estar sempre pronto para persegui-la.”
Walter Pinheiro
E faz um alerta sobre o lugar do jornalista diante dos fatos:
“Cuidado para não querer ser protagonista. A melhor condição é a de observador. Assim, o que você produz representa verdadeiramente o que vê e pensa. Agindo assim, você colabora para que a imprensa seja, como disse Ruy Barbosa, ‘a vista da Nação’.”