No mês em que o país volta os olhos para as lutas históricas das mulheres, Salvador foi palco, nesta terça-feira (17), de um encontro que buscou ir além das homenagens. Realizado pelo Grupo A TARDE, no auditório do Sebrae, no Costa Azul, o evento Mulheres em Pauta – Empoderamento e Segurança Feminina reuniu empresárias, jornalistas, gestoras públicas, pesquisadoras e profissionais da segurança para discutir, de forma integrada, estratégias de enfrentamento à violência de gênero e fortalecimento da presença feminina nos espaços de decisão.
Com mediação da jornalista Patrícia Abreu, o evento trouxe um grupo de mulheres com trajetórias inspiradoras, debatendo poder do protagonismo feminino, empreendedorismo, gestão e os caminhos trilhados por figuras que estão moldando o futuro da Bahia e inspirando outras mulheres.
A jornalista Suely Temporal, presidente da ABI, compôs o primeiro painel, ao lado de Elaine Pereira, superintendente de Políticas Públicas para a Educação Básica (Suped), representando a secretária estadual de Educação, Rowenna Brito; Fernanda Silva Lordêlo, titular da Secretária de Política para Mulheres Infância e Juventude de Salvador; a delegada Juliana Fontes Barbosa, diretora do Departamento de Proteção à Mulher da Polícia Civil baiana; e Janaína Neves, gerente de Educação Empreendedora do Sebrae.

Suely Temporal trouxe à tona uma reflexão incômoda sobre como o feminicídio é narrado. Para ela, a forma como os casos são apresentados ainda carrega distorções que acabam por deslocar o foco do agressor para a vítima. Segundo ela, o Protocolo Antifeminicídio, desenvolvido pela ABI e levado às redações, emissoras e instituições, propõe uma mudança de chave.
“A narrativa precisa deixar de ser sobre a mulher que morreu para ser sobre o homem que matou.”
Suely Temporal
A dirigente defendeu que a imprensa, embora não seja responsável pela violência, tem papel decisivo na sua prevenção, seja ao evitar a revitimização, seja ao incluir informações que orientem denúncias e acolhimento. (Acesse o Protocolo Antifeminicídio aqui)
O recorte dialogou diretamente com a realidade apresentada por outras participantes. Dados compartilhados no debate revelam a dimensão do problema: a maioria das vítimas de feminicídio nunca chegou a procurar ajuda institucional. “Cerca de 70% dessas mulheres nunca passaram por uma delegacia ou centro de referência”, destacou a delegada Juliana Barbosa, evidenciando a urgência de ações preventivas e de conscientização.
Nesse ponto, a educação apareceu como eixo estruturante. Para as debatedoras, é preciso atuar antes da violência se concretizar, desnaturalizando comportamentos, identificando sinais e rompendo ciclos que muitas vezes começam de forma silenciosa. “É muito importante que a gente faça o reforço das masculinidades positivas”, exemplificou a professora Elaine Pereira.
Se a prevenção passa pela formação, a saída, muitas vezes, passa pela autonomia econômica. O empreendedorismo feminino foi apontado por Janaína Barbosa Neves como ferramenta concreta de ruptura com relações abusivas. A representante do Sebrae e as empresárias presentes no painel reforçaram que garantir independência financeira é ampliar possibilidades de escolha, inclusive a de sair de contextos de violência.
Liderança feminina
A discussão avançou também sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em ambientes historicamente masculinos, com as convidadas do segundo painel: Marise Chastinet, presidente da Junta Comercial da Bahia – que não pôde estar presencialmente, mas enviou um vídeo; Néia Bastos, chefa de gabinete de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia; Viviane Fonseca, diretora comercial e de Marketing da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário da Bahia; Magnólia Borges, gerente de Relações Institucionais da Braskem, Magnólia Borges; Ana Alonso, coordenadora da Câmara da Mulher Empreendedora da Fecomércio-BA; Márcia Tavares, coordenadora Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia.
Se o primeiro momento do evento se concentrou no diagnóstico e na prevenção, o segundo painel ampliou a lente para o papel das instituições, do mercado e da academia na construção de soluções duradouras. A autonomia econômica foi apontada como uma das principais ferramentas de ruptura com ciclos de violência. Relatos das lideranças empresariais evidenciaram que, embora haja avanços, a presença feminina ainda exige resistência, preparo e, sobretudo, redes de apoio.
“O espaço existe, mas ele precisa ser ocupado com preparo, com consistência. A presença feminina transforma os ambientes e amplia as perspectivas de decisão”, afirmou empresária Viviane Fonseca.
Néia Bastos defendeu uma compreensão mais profunda do conceito de empoderamento. “Empoderamento não é estético. É um poder de dentro para fora, de uma mulher que sabe onde quer chegar e que constrói esse caminho”, afirmou.
Para ela, esse processo está diretamente ligado à construção de redes de apoio. “Nenhuma mulher vai chegar mais longe sozinha. É nas redes, nos grupos, que a gente avança mais rápido e ocupa os espaços que queremos”, disse, ao reforçar a importância da articulação entre diferentes setores da sociedade.
Ao longo do encontro, as participantes destacaram que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ser tratado como pauta setorial. Ele atravessa todas as dimensões da sociedade, da escola à redação, da delegacia ao ambiente corporativo. E exige, acima de tudo, mudança de mentalidade. “A presença masculina ainda é raridade nesses eventos. Essa pauta tem que ser constante”, reforçou a professora Márcia Tavares. Em sua análise, falar sobre o tema é indispensável. Não como repetição de tragédias, mas como instrumento de mobilização social.
A surpresa do evento ficou por conta da cantora e compositora Éllen Wilson, que encantou o público no encerramento, com uma apresentação intimista e acompanhamento de pandeiro e violão. Reconhecida por sua atuação no samba e na música popular brasileira, ela apresentou também clássicos internacioanais.


