Um trabalho iniciado em 1979, atravessado por décadas de pesquisa e dedicação, busca agora o caminho para alcançar o grande público. O livro História da Imprensa Baiana, do jornalista e pesquisador Nelson Cadena, teve apenas quatro exemplares produzidos até o momento. Um deles foi doado, nesta quarta-feira (8), à Associação Bahiana de Imprensa (ABI), em um gesto simbólico que reforça a importância da preservação da memória jornalística.
Diretor da ABI e reconhecido pesquisador da comunicação no estado, responsável, inclusive, pelo livro dos 90 anos da instituição, Cadena enfrenta há anos os desafios para viabilizar a publicação da obra, que ainda busca patrocínio para chegar às livrarias.
A entrega do exemplar ocorreu durante reunião de diretoria da entidade. A obra passa a integrar o acervo da ABI, sob os cuidados da museóloga Renata Ramos, responsável pelo Museu de Imprensa. Fruto de um levantamento histórico minucioso, o livro sintetiza décadas de investigação e reúne material raro, ao mesmo tempo em que aguarda apoio para viabilizar sua edição comercial.
Um poderoso registro cronológico, a publicação propõe uma nova forma de compreender a imprensa na Bahia. Ao longo de suas páginas, Cadena utiliza jornais, revistas e seus protagonistas como ponto de partida para narrar transformações sociais, políticas e culturais do estado, construindo um panorama que ultrapassa o campo da comunicação.
Um dos principais diferenciais da obra está na abordagem adotada. O autor substitui a tradicional divisão por uma organização por setores, como as imprensas religiosa, científica e jurídica. A escolha evidencia a especialização dos veículos e amplia a compreensão sobre o papel social da imprensa. O trabalho também se destaca por incluir o jornalismo do interior da Bahia, frequentemente negligenciado, ao mapear publicações de diversos municípios entre 1811 e 1911, revelando que a circulação de ideias ia muito além da capital.
A obra resgata ainda momentos marcantes, como a atuação da imprensa abolicionista e o pioneirismo baiano na criação de veículos especializados. “A Bahia foi pioneira em vários veículos de comunicação no Brasil”, destaca o autor.
No prefácio, o presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), Joaci Góes, observa que o manuscrito se aproxima de um romance ao retratar disputas de poder e movimentos sociais a partir da imprensa, transformando o livro em um retrato vivo da sociedade baiana, e não apenas em um registro de datas.
O levantamento só foi possível graças à consulta a documentos originais. Cadena reuniu cerca de 200 publicações e imagens raras, entre fotografias e capas de jornais do século XIX — muitas delas já desaparecidas dos arquivos oficiais em razão do tempo ou de descartes.
A obra também é resultado de persistência. O projeto, iniciado em 1979, passou por diversas transformações até alcançar a versão atual. A professora Antonietta D’Aguiar Nunes teve papel fundamental na revisão, na digitalização das imagens e no patrocínio que viabilizou os quatro únicos exemplares existentes.
Mesmo sem circulação comercial, o livro já se consolida como um trabalho inédito e relevante. “Enquanto não é editado, a ideia é permitir o acesso de pesquisadores”, afirma Cadena. A publicação reúne memória e pesquisa para contar a história da Bahia a partir de seus jornais, e segue em busca de apoio para, enfim, alcançar o público mais amplo.


