Por Jaciara Santos*
“Qual a reportagem que mais lhe deu medo fazer?”. Esta é uma pergunta recorrente em rodas de conversa sobre a profissão, principalmente quando há jovens jornalistas ou estudantes de jornalismo. Ou em entrevistas como a que concedi, dias atrás, para o programa Sala de Imprensa, da TV Câmara. Posso dizer sem hesitar que nunca senti medo de fazer uma matéria. Eu já senti medo depois, confessei à colega Isabela Garrido, a jovem entrevistadora. E o trabalho que mais me causou apreensão foi a cobertura da morte do advogado, professor universitário e filósofo Auto José de Castro,78 anos, assassinado a tiros pelo filho, o professor universitário e médico psiquiatra Breno Mário Mascarenhas de Castro, então com 43 anos.
O crime aconteceu no início da noite de 22 de abril de 2002, uma segunda-feira. Breno morava sozinho em um apartamento do Edifício Catarina Paraguaçu, bairro da Graça. Estava separado da mulher, há um ano. Auto fora ao local tentar convencer o filho a buscar atendimento psiquiátrico, uma vez que ele apresentava sinais de depressão e costumava andar armado. Estava acompanhado do mecânico Diógenes Santos Lopes, amigo da família. Ambos foram recebidos a tiros: Auto foi alvejado cinco vezes no peito e não resistiu. Baleado no abdômen, Diógenes conseguiu sair do local e avisou a polícia. Breno foi preso em flagrante.
O medo que eu sentia não era físico, já que o autor estava preso. Era terror psicológico. Breno conseguiu o telefone do jornal e ligava pra mim do presídio seguidamente. No início, foi bom. O contato me rendeu uma entrevista exclusiva, num momento em que toda a mídia queria falar com ele. Mas o preço a pagar, foi alto. Ele passou a fazer exigências como a de que eu entregasse cartas a uma pessoa com quem ele fantasiava ter uma relação, era agressivo ao telefone e eu não sabia como me desvencilhar.
Às vezes, impossibilitada de atender as ligações por estar envolvida com algum trabalho, eu pedia para dizerem que não estava. Ele não desistia: telefonava seguidas vezes, até que eu atendesse. E começava já em tom de ameaça: “A senhora mentiu para mim, eu não admito mentiras”. Foi tenso. Até que ele foi privado de usar o telefone e eu recuperei minha paz.
Ainda hoje, 20 anos depois, tenho dificuldade em lidar com o assunto. Remexendo meus arquivos, encontrei a entrevista exclusiva que fiz com Breno Mário de Castro, à época recolhido a uma cela especial do Presídio de Salvador, no Complexo Penitenciário, bairro da Mata Escura. A matéria foi publicada em 12 de maio de 2002, um domingo. O título “Estão querendo arguir minha inimputabilidade” dava o tom à conversa que mantivemos durante aproximadamente duas horas, na sala da diretoria da instituição penal. Ele insistia em esclarecer que matou o pai de forma consciente e rechaçava a condição de paciente psiquiátrico.

Em momento algum Breno tentou eximir-se de responsabilidade. Não manifestou arrependimento ou remorso por ter matado o pai. À minha primeira pergunta, sobre como estava se sentindo, respondeu que estava bem, apesar das acomodações desconfortáveis: “(…) até essa rápida adaptação confirma o meu atual estado de tranquilidade: tenho dormido sem medicação (…). Quanto à alimentação, posso dizer que é melhor que a do Hospital Juliano Moreira, na época em que trabalhei lá”.
Ao longo da entrevista, embora acusasse várias pessoas de tê-lo magoado, não chegava a demonstrar sentimentos como mágoa ou rancor. Parecia sempre falar de outra pessoa e não de si. Até mesmo ao mencionar o crime não demonstrou emoções. Justificou o ato como a única forma de se livrar do jugo paterno e disse lamentar ter ferido outra pessoa – o mecânico Diógenes dos Santos Lopes, atingido acidentalmente por um dos tiros disparados por Breno contra o pai. A entrevista alcançou uma grande repercussão, mas não valeu o preço que paguei: ganhei uma matéria e perdi a paz por um longo tempo.

*Jaciara Santos é jornalista, 1ª secretária da Associação Bahiana de Imprensa e repórter especializada na cobertura da área de segurança.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)


