ABI BAHIANA

Oficina Antifeminicídio debate papel do jornalismo na cobertura da violência contra mulheres

Dados apresentados durante a atividade revelam sub-representação feminina nas notícias e reforçam necessidade de qualificação da cobertura

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da última década, com 1.568 mulheres mortas por razões de gênero, representando um aumento de 4,7% em relação a 2024, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diante de números cada vez mais alarmantes, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (Sinjorba) promoveram, na tarde desta quinta (12), a “Oficina Antifeminicídio – Como a imprensa pode contribuir para o fim da violência de gênero”.

A atividade foi realizada no Auditório Samuel Celestino, na sede ABI, no Centro Histórico de Salvador, com a participação de jornalistas e estudantes de Comunicação, como parte da programação alusiva ao mês da mulher.

Apesar da gravidade do problema, reportagens sobre violência de gênero representam apenas entre 1% e 2% das notícias publicadas no país, segundo dados do Global Media Monitoring Project (GMMP), maior estudo internacional sobre gênero nas notícias, realizado em 94 países. A pesquisa foi apresentada na oficina pela professora Letícia Campos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Os números, apresentados pela pesquisadora funcionaram como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre o papel da imprensa na forma como a sociedade compreende e enfrenta a violência contra as mulheres.

Ao apresentar os resultados do GMMP, Letícia Campos destacou que a baixa presença feminina no noticiário não é apenas um problema de representação simbólica, mas um indicador de distorção no debate público. Apenas 3% a 6% das matérias desafiam estereótipos de gênero.

“A sub-representação feminina revela um déficit democrático”, afirmou a pesquisadora, ressaltando que a ausência das mulheres nas narrativas jornalísticas compromete a pluralidade de perspectivas e a compreensão completa da realidade social.

O levantamento mostra ainda que, quando aparecem nas notícias, as mulheres costumam ocupar papéis de menor autoridade – como testemunhas ou personagens de histórias pessoais – e raramente são ouvidas como especialistas ou fontes institucionais. Esse padrão reforça desigualdades estruturais que também se refletem dentro das próprias redações.

Jornalismo e responsabilidade social

A abertura da oficina foi feita pela presidente do Sinjorba, Fernanda Gama, que destacou a importância de preparar profissionais da imprensa para lidar com um tema que exige sensibilidade e responsabilidade.

Segundo ela, a maneira como os casos de violência contra mulheres são narrados pode contribuir tanto para o enfrentamento do problema quanto para a reprodução de estigmas e naturalizações da violência.

Fernanda também chamou atenção para o sentimento de vulnerabilidade que atravessa a experiência cotidiana feminina. “O homem tem medo de ser preso e estuprado na cadeia. Esse é o sentimento que acompanha as mulheres diariamente”, afirmou.

Protocolo antifeminicídio

Na sequência, a presidente da ABI, Suely Temporal, falou sobre os objetivos do Protocolo Antifeminicídio – Guia de Boas Práticas para a Cobertura Jornalística, elaborado em 2025 por diretoras da ABI como instrumento de orientação para profissionais da comunicação.

Participaram também a jornalista Suzana Alice Pereira e a primeira-secretária da ABI, Jaciara Santos, que integram o grupo responsável. Amália Casal, ex-diretora da entidade e uma das mulheres responsáveis pela concepção do documento, esteve presente para contribuir com o debate.

Segundo Suely Temporal, o protocolo surge da necessidade de aprimorar a forma como a imprensa aborda crimes de violência contra mulheres, evitando práticas que podem reforçar preconceitos ou banalizar a gravidade desses casos. “São guias de boas práticas para que a imprensa não normalize a violência”, afirmou.

Entre as recomendações presentes no documento estão evitar a culpabilização da vítima, não expor familiares de forma desnecessária, não romantizar ou justificar a violência e não adotar narrativas que humanizem o agressor em detrimento da gravidade do crime.

O protocolo também orienta que os casos sejam contextualizados como parte de um problema estrutural da sociedade, e não tratados como episódios isolados ou motivados por supostos “crimes passionais”.

“Este protocolo não pertence somente à ABI. Ele serve para que todos da imprensa aprendam e compreendam esse tipo de cobertura jornalística. É de suma importância que seja amplamente divulgado para que haja mais responsabilidade”, afirmou Temporal.

Narrativas e cultura

Durante a oficina, a jornalista Suzana Alice Pereira, idealizadora do Protocolo, apresentou referências teóricas que fundamentaram a construção do protocolo, entre elas o Dossiê Feminicídio, especialmente o capítulo “Qual o papel da imprensa?”, além de manuais internacionais voltados à cobertura de violência de gênero.

Já a jornalista Jaciara Santos conduziu a parte prática da atividade, propondo reflexões sobre como determinadas narrativas culturais influenciam a forma como a violência é percebida e relatada.

Como ponto de partida, ela apresentou a canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, destacando como histórias de ciúme e violência contra mulheres aparecem com frequência na cultura brasileira, muitas vezes naturalizadas como dramas passionais.

A partir dessa reflexão, Jaciara reforçou os objetivos do protocolo e alertou para armadilhas comuns no noticiário policial, como a reprodução automática de versões presentes em boletins de ocorrência ou a dependência exclusiva de fontes policiais. O pontos alto dos exercícios propostos foi a revelação final: uma das matérias apresentadas como exemplo do que não fazer durante a cobertura foi escrita pela própria autora do módulo. Ela afirmou não se orgulhar de ter produzido um texto que revitimizava a vítima, mas resolveu utilizar de forma crítica.

Perguntas antes de publicar

Como ferramenta prática para as redações, ela propôs um checklist com perguntas que jornalistas devem se fazer antes de publicar uma reportagem sobre violência contra mulheres:

  • A linguagem evita expressões como “crime passional”?
  • A vítima ou seus familiares estão sendo expostos de forma desnecessária?
  • O agressor está sendo humanizado além do necessário?
  • A reportagem depende exclusivamente do boletim de ocorrência?
  • O caso foi contextualizado como possível feminicídio?
  • A matéria inclui informações sobre redes de apoio às vítimas?

A oficina foi encerrada com um debate mediado pela jornalista Cláudia Correia, da Comissão de Mulheres do Sinjorba, reforçando a importância de iniciativas de formação que estimulem uma cobertura jornalística mais ética, qualificada e comprometida com os direitos humanos.

Para as entidades organizadoras, ampliar a compreensão sobre a dimensão estrutural da violência contra as mulheres é um passo essencial para que o jornalismo contribua efetivamente para o enfrentamento do problema – tanto noticiando os crimes quanto ajudando a transformar a forma como eles são compreendidos pela sociedade.

Onde buscar ajuda:

  • Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (gratuito e anônimo).
  • 190: Polícia Militar (para emergências).
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