Por Mônica Celestino*
Um rapazote pardo, vindo do Subúrbio de Salvador (BA), sem formação superior, escapou das agruras impostas aos negros como ele pela sociedade conservadora da sua época, a partir principalmente da sua trajetória na imprensa. Entre Remingtons, Continentais e Olivettis, Cosme de Farias (1875-1972) percorreu e até empreendeu veículos jornalísticos diversos com desenvoltura, por mais quase oito décadas, de 1894 a 1972, e tornou-se pauta recorrente, sobretudo em periódicos locais, por sua verve e suas incursões políticas e filantrópicas, por toda a vida.
Era personalidade assídua nas páginas de jornais e em rádios, por meio dos quais divulgava seus feitos e projetos como rábula, assistencialista, parlamentar, militante de causas sociais e políticas e literato, bem como seus pleitos, suas reivindicações, seus protestos e suas ideias; pressionava autoridades e empresários para adoção de medidas que favorecessem suas causas; e prestava homenagens. Quando não tinha vínculo com os veículos de comunicação da cidade, remetia matérias prontas ou informações avulsas às redações de impressos e empresas de rádio, com um pedido de divulgação pelos colegas, e era costumeiramente atendido. Se houvesse demora, reiterava o pleito aos editores e chefes de redação, por meio de bilhetes acompanhados de mimos (bolachas, Cartas do ABC, sabonetes etc.).
Apesar de ter concluído somente o antigo ensino primário, ele manifestou a vocação para a escrita e oratória ainda meninote, primeiro, possivelmente pela literatura. Criou Carta do ABC, cartilha distribuída para a alfabetização de crianças e adultos, e escreveu obras independentes, cuja renda era revertida para campanhas e entidades sociais. São de sua lavra as coletâneas de poemas Estrophes (1933), Trovas e Quadras (sem data), Singellas (1900) e Lira do Coração (1902), e a seleção de artigos políticos Lama & Sangue (1926). É provável que tenha feito ainda O Descobrimento do Brasil, livro anunciado em jornais, porém sem exemplares e notícias sobre seu lançamento localizados. Tinha preferência por poemas líricos, sobretudo, trovas (estrofes com quatro versos com sete sílabas cada) e hinos para revelar sentimentos, ideias e ações sobre questões sociais e políticas; protestar; reivindicar e/ou homenagear; e presentear amigos.
Com o tempo, destacou-se também por seus pronunciamentos, tecidos em linguagem popular, em sessões da Câmara Municipal de Salvador e da Assembleia Legislativa da Bahia; em eventos públicos como os festejos pela Independência do Brasil na Bahia, as homenagens anuais ao poeta Castro Alves, o aniversário da Liga Bahiana contra o Analfabetismo criada por ele e seus confrades, e os protestos contra o analfabetismo e com outras motivações; e no Tribunal de Justiça, onde operava como rábula.
Aos 19 anos, enveredou-se pelo jornalismo, tornando esta sua atividade mais frequente e duradoura. Nesta área, militou de 1894, quando estreou no vespertino Jornal de Notícias, que se classificava como a maior folha do Estado, levado pelo jornalista abolicionista e republicano Amaro Lelis Piedade, a 1972, quando morreu, na Cidade da Bahia. Neste ínterim, principalmente nas primeiras décadas do século XX, teve experiências como membro do quadro efetivo, colaborador esporádico e proprietário de organizações de correntes políticas diversas, em especial, “democratas” ligadas ao líder político José Joaquim Seabra, de quem era aliado. Começou como “foca”, fazendo mormente a cobertura de fatos policiais e julgamentos, porém exerceu diferentes papéis, trabalhando como repórter, editor, redator-chefe e até diretor de redação e sócio-fundador.
Na chamada grande imprensa, o Major Cosme contribuiu com Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Diário da Bahia, Gazeta do Povo, A Bahia, Diário da Tarde, A Hora, O Jornal, A Noite, O Democrata, A Tarde e O Imparcial. Entre os pequeninos, teve passagem em A Metralha (1903),periódico de ácida crítica contra o governo do momento; O Condor (1896), semanário republicano-democrata; e o semanário católico antilaicista Leituras Religiosas (1896-1901). Esteve entre os protagonistas do literário O Colibri (1898-1899), do literário e dito imparcial O Cysne (1899-1900) e dos críticos e satíricos A Bala (1900) e A Coisa (1904-?), dos quais foi fundador, proprietário e redator-chefe ou editor.
Com aparente liberdade de agendamento, enquadramento e estilística nos meios em estava inserido, ele publicava artigos intitulados Linhas Ligeiras ou identificados como Ineditoriaes, com ou sem assinatura, acerca de fatos e temas relacionados ao poder e à política, à infraestrutura urbana e ao funcionamento da justiça, a movimentos políticos e sociais, a demandas sociais e à assistencial social, e também com homenagens e elogios a amigos, pessoas que admirava ou com quem firmara parceria. Era comum trazer pautas, até então fora das agendas midiática, social e política, à luz.
Dono de uma redação sedutora para os leitores e mordaz contra adversários, Cosme de Farias fazia textos apelativos e capazes de sensibilizar a audiência e repercutir na vida do receptor, instigando a reflexão e até a reação. Para tanto, explorava substantivos no grau diminutivo, suscitando afetividade, benignidade e desprezo, figuras de linguagem (metáfora, metonímia, eufemismo e ironia), adjetivos com juízo de valor, provérbios, trechos de poesias, referências do cristianismo e da literatura; e construía mensagens assertivas para os eleitores.
Por toda trajetória, até no terceiro quartel do século XX, ele fazia textos com características próximas daquelas descritas por Nelson Werneck Sodré (1911-1999), no clássico História da Imprensa no Brasil, para a tipificação do jornalismo doutrinário do século XIX no Brasil: poucas linhas; linguagem simples e direta para a garantia da compreensão; utilização de provérbios e/ou trechos de poesias; tom panfletário com crítica ácida e incisiva; e exploração da ironia e do humor. Em certas matérias, trazia também citação nominal de destinatários, como estratégia para constranger/coagir, embora essa não fosse uma prática da imprensa da época.
Aliado a isto, firmou-se como pauta. Principalmente notas sem autoria explícita, publicadas no miolo do caderno sem periodicidade definida (até mais de uma por edição), levavam ao público informações de seu interesse, ofertadas ou não por ele. Sob títulos grafados em fontes graúdas e em negrito, debruçavam-se sobre sua vida pessoal, sua produção literária, seus eventos, seu trabalho assistencial, sua atuação como rábula e sua incursão em eleições e outros fatos políticos; serviam como homenagens a personalidades dos cenários nacional e local; rogavam por fundos para organizações assistências ou monumentos; e buscavam apoio de governos e empresariado para atenção a demandas de terceiros.
Exercida principalmente por meio da imprensa e da literatura, a militância política e social do Major atiçou a ira do então governador Góes Calmon (1924-1928). Em 1926, exemplares da coletânea política Lama & Sangue, de sua autoria, foram recolhidos por ordem do mandatário. Adiante, em outubro de 1930, enquanto atuava em O Jornal, sua prisão fora determinada pelo regime recém-instalado, no bojo da chamada “Revolução de 30” e da manifestação do “Quebra-bondes”, por suas ideias oposicionistas, junto com os jornalistas Joel Presídio e Alfredo Lopes, em Salvador, e Franklin Queiroz, no interior. Somente quatro dias depois, o quarteto foi liberado, após protestos de jornais, que passaram a circular com espaços em branco, e intervenção da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)junto à Secretaria de Segurança Pública e ao governador interino, Frederico Costa.
A recorrência dos seus textos e de suas ideias e ações nos veículos, contudo, sinaliza que o Major Cosme gozava de certo respaldo e prestígio entre os comunicadores. Sua longa jornada e a dedicação à categoria favoreciam isto. Ele integrou a Associação Tipográfica Baiana; fundou e dirigiu em 1905 o Círculo dos Repórteres; foi um dos 103 membros fundadores da ABI, elegendo-se como suplente e titular da comissão fiscal e de contas, em sucessivas vezes, pelo menos de 1943 e ao ano da sua morte; e pleiteou benefícios para a classe, durante seus mandatos de parlamentar.
Coexistiam, portanto, versões de Cosme de Farias jornalista e pauta jornalística. Conhecido como Major pela conquista da patente da Guarda Nacional, como presente e homenagem de amigos, ele sustentou suas ações assistenciais (inclusive a defesa beneficente de milhares diante da polícia e da justiça) e sua carreira parlamentar, como conselheiro/vereador da capital baiana e deputado estadual da Bahia, ao agendar sua vida e obra nos meios de comunicação a seu alcance. É provável que sua atuação como jornalista tenha facilitado o trânsito entre colegas de atividade e, por conseguinte, o agendamento de conteúdos de seu interesse.
De certo, a jornada do Major se tornou exemplar do Jornalismo Assistencial e do Jornalismo Mobilizador na Bahia republicana, cujas funções sociais perpassaram pela prestação de assistência social à comunidade que lhe procurava, a sensibilização, a convocação e o estímulo ao posicionamento da população contra distorções sociais, e a construção e consolidação da sua imagem carismática, especialmente entre as camadas mais baixas da sociedade. Há, por isso e por tantas outras contribuições, que se celebrar, em 2025, o sesquicentenário do nascimento desta personalidade tão jornalista.
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