Na noite em que o Centro Histórico de Salvador se fez ainda mais movimentado pela literatura, a música encontrou seu próprio caminho para contar histórias. No Auditório Samuel Celestino, a Associação Bahiana de Imprensa abriu as portas, nesta quinta-feira (6), para uma edição especial da Série Lunar, integrada à programação da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) 2026.
Em uma apresentação que aproximou a música erudita da tradição popular brasileira, o palco recebeu o duo Arcoar, formado por Geisiane Ramos (violino) e Kayandra Araújo (violão); o duo de violões Araújo Reis, formado por Kayandra e Zezinho Reis; além de apresentações solo dos violonistas Alexandre Adami, Zezinho Reis, Juan Portugal e Mateus Bacelar. Todos os músicos são estudantes da Escola de Música da UFBA (Emus), parceira da ABI no projeto educativo e cultural.
A programação transitou por diferentes períodos e linguagens, reunindo obras de compositores como Heitor Villa-Lobos, Joaquín Rodrigo, Agustín Barrios e Leo Brouwer, além de choros e composições autorais.
A escolha de integrar a Série Lunar à programação da Flipelô criou uma noite de convergências. De um lado, a literatura ocupando ruas, praças e espaços históricos da cidade. Do outro, a música instrumental preenchendo o oitavo andar do Edifício Ranulfo Oliveira, com a Baía de Todos-os-Santos como testemunha.
Um dos momentos da noite foi a participação de Zezinho Reis, que apresentou ao público uma composição de seu repertório autoral, “Contra a Maré”, lançada recentemente nas plataformas digitais. A apresentação marcou também a oportunidade de levar ao palco da Série Lunar um trabalho que atravessa sua trajetória como violonista, educador e arranjador.
“Foi muito especial poder apresentar essa música aqui, dentro de um projeto que tem uma história tão bonita de aproximação entre a música e o público. A Série Lunar tem esse caráter de encontro, de escuta, e trazer uma composição autoral que acabou de chegar às plataformas para esse espaço foi muito significativo para mim. É uma oportunidade de compartilhar um trabalho que representa um momento importante da minha trajetória.”
A noite também marcou uma experiência especial para Kayandra Araújo e Geisiane Ramos, que levaram ao público o trabalho do duo Arcoar. A formação reúne o violão de Kayandra e o violino de Geisiane, duas trajetórias musicais que se encontram na pesquisa de diferentes possibilidades para a música de concerto e para a música brasileira.
Para Kayandra, tocar na Série Lunar durante a Flipelô representou a possibilidade de apresentar o trabalho do duo em um ambiente de forte circulação cultural, diante de um público interessado em diferentes formas de expressão artística.
Geisiane destacou a atmosfera de proximidade proporcionada pelo projeto. Para a violinista, a dimensão intimista da Série Lunar favorece uma relação mais direta entre músicos e plateia, permitindo que a apresentação seja vivenciada como um encontro.
A apresentação foi acompanhada pela presidente da ABI, Suely Temporal, que prestigiou a programação ao lado da diretora de Cultura da entidade, Yara Vasku, atual coordenadora da Série Lunar. A noite também teve a presença da jornalista Amália Casal, ex-coordenadora do projeto, que recebeu um agradecimento especial de Suely Temporal pela contribuição à construção e consolidação da iniciativa.
A homenagem representou um gesto de continuidade. Criada em 2019 a partir da parceria entre a ABI e a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Emus/UFBA), a Série Lunar se tornou um espaço permanente de circulação de músicos, estudantes e professores, aproximando formação acadêmica, produção artística e público. Desde 2024, o projeto conta também com o apoio de empresas e instituições comprometidas com a cultura e a educação. Esta edição conta com o apoio da Associação Cultural Brasil–Estados Unidos (Acbeu).
A passagem da coordenação de Amália para Yara traduz uma nova etapa sem romper com a memória construída ao longo dos anos. Em maio deste ano, ao acompanhar a abertura da temporada 2026, Amália já havia destacado a maturidade alcançada pelo projeto e a chegada de uma nova coordenação como oportunidade de renovação.
Também prestigiou a apresentação o jornalista e agente cultural Clarindo Silva, figura ligada à memória e à vida cultural do Centro Histórico de Salvador.


