A Associação Bahiana de Imprensa recebeu, nesta quarta-feira (15), estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA) para uma aula especial dedicada à trajetória da imprensa no estado. A atividade integra a disciplina História do Jornalismo, ministrada pelo professor Fernando Conceição, e teve como convidado o jornalista, escritor e pesquisador Luís Guilherme Pontes Tavares, vice-presidente da Assembleia Geral da ABI.
Com abordagem que combinou erudição histórica e reflexão crítica, Tavares conduziu os estudantes por um percurso que evidenciou a riqueza e, ao mesmo tempo, as fragilidades da memória jornalística no estado. Ele destacou a importância de obras de referência para o campo, como o levantamento clássico de jornais baianos do século XIX. “É o levantamento de todos os jornais existentes na Bahia no século XIX até 1910, mais ou menos”, explicou, ao comentar a relevância da obra para pesquisadores iniciantes .
O pesquisador também compartilhou parte de sua trajetória acadêmica, marcada por investigações sobre a Empresa Gráfica da Bahia (Egba) e sua produção editorial ao longo do século XX. Para ele, o estudo dessas instituições é fundamental para compreender a formação do campo jornalístico no estado. “A produção editorial que ela produziu tem uma relevância grande”, afirmou, ao defender o potencial da empresa como objeto de pesquisa acadêmica .
Um dos momentos mais ricos da exposição foi a apresentação de personagens pouco conhecidos, mas fundamentais para a história da imprensa baiana, como o gráfico, editor e autor Artur Arézio da Fonseca. Tavares destacou a dimensão nacional de figuras ainda pouco reconhecidas. “Tem uma dimensão nacional a uma figura que os brasileiros não conhecem e que deviam efetivamente tomar como referência”, observou .
A aula evidenciou como a imprensa baiana, especialmente no século XIX, foi marcada por diversidade de estilos e linguagens, incluindo publicações com forte carga de ironia e experimentação textual, como o jornal Foia dos Rocêro, que integra o acervo do Museu de Imprensa.
Ao tratar da pesquisa em acervos, Tavares fez um alerta contundente sobre o risco de perda de documentos históricos, devido à má conservação. “Muitas das coleções […] são inacessíveis. Por quê? Porque foram deixadas muito tempo mal guardadas”, disse. Ele ressaltou ainda que a digitalização, embora importante, não resolve completamente o problema, já que muitos arquivos permanecem incompletos ou indisponíveis.
Durante o debate, surgiram questões sobre o futuro do jornalismo diante das transformações tecnológicas e da desvalorização da profissão. Luís Guilherme reconheceu os desafios atuais, mas defendeu a permanência de práticas essenciais para o fazer jornalístico e a necessidade de formação sólida para garantir a qualidade da informação. “Nós estamos atravessando uma fase difícil”, afirmou.
“O jornalismo está empobrecido na sua natureza de investigação, de revelação”
Luís Guilherme Pontes Tavares
Ainda assim, ele apontou experiências nacionais e internacionais que mantêm vivo o jornalismo investigativo, reforçando a importância da formação acadêmica. “Ajudar a formar bons jornalistas passou a ser algo absolutamente fundamental”, defendeu.
A atividade foi encerrada com sorteio de livros e apresentação da revista “Memória da Imprensa”, publicação da ABI que reúne entrevistas e artigos sobre a trajetória do jornalismo baiano. A iniciativa reforça o papel da entidade como guardiã da memória e espaço de formação complementar para estudantes.












