Emiliano José*
Vladimir Sacchetta partiu.
A memória histórica perdeu um gigante.
A luta, um bravo.
A humanidade, um ser generoso, solidário, íntegro.
Sempre de bem com a vida, pronto a resolver problemas, principalmente se das amizades.
Talvez, no caso dele, se possa dizer: tinha a quem puxar, ou quem sai aos seus não degenera.
Filho de Hermínio Sacchetta, jornalista e revolucionário de nomeada, cuja atitude ousada e solidária com o comandante Carlos Marighella já está inscrita na história.
Recebi a notícia na sexta-feira (15) pelo amigo e companheiro Paulo Vannuchi.
Ouso dizer ter sido nas últimas décadas o pesquisador brasileiro mais completo, capaz de escarafunchar a história, trazer à memória coisas do subsolo, desconhecidas – só ele era capaz disso.
Se ele não conseguisse, ninguém mais.
Pesquisador e escritor consagrado.
Notabilizou-se na revelação sobre a vida de Monteiro Lobato.
Enveredou por estudos acerca de revolucionários inconformistas.
Foi prêmio Jabuti nas categorias Ensaio e Fotografia e Livro do Ano.
Uma vida de pesquisa, e a relação é ampla demais para caber aqui, nessa tentativa de homenagem – e digo tentativa porque duro de dar conta pela dor e amplitude da vida dele.
Tive a alegria de contar com ele quando do trabalho em torno do livro “Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar”, no final dos anos 1990.
Depois, trabalho intenso de pesquisa dele quando escrevi biografia de Waldir Pires, dois volumes lançados entre 2018 e 2019.
E agora já havia trabalhado bastante no levantamento de arquivos em torno do senador Jaques Wagner, sobre quem comecei a produzir biografia.
Estava juntando o material para me mandar, trabalhando em conjunto com a historiadora Beatriz Kushnir, com quem troquei palavras hoje, os dois tristes com a partida.
Não sabia estivesse doente, não sei as circunstâncias da partida súbita dele.
Afora todas as qualidades de jornalista, escritor, pesquisador, há de se registrar ser um homem de convicções profundas, um inimigo de tiranias, adversário de ditaduras, um militante, revolucionário.
Na minha memória, ele se parecia, pela doçura, ternura, pela alegria, com outro amigo, já também no reino dos encantados, muito parecido com José Carlos Zanetti, cuja partida se deu no início de 2022.
Acreditasse em vida eterna, e diria do alegre encontro dos dois em outras dimensões.
Os dois, revolucionários amorosos, o oposto dos militantes ortodoxos, incapazes de viver a vida alegremente.
Em mim, no coração, ficam a dor, inevitável, pela perda e, de modo aparentemente contraditório, a alegria e a honra por ter contado com a amizade dele, com aquele sorriso largo, com aquela serenidade, com aquele jeito feliz de viver a revolução e a vida.

* Emiliano José é Jornalista, escritor, professor. Membro do Conselho Consultivo da Abi.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)



