ABI BAHIANA

Comunicação antirracista e protagonismo negro pautam encerramento do AfroBusiness

Painel com participação da presidente da ABI, Suely Temporal, debateu os caminhos para uma comunicação mais diversa e representativa no Brasil

A construção de uma comunicação verdadeiramente antirracista passa por mudanças estruturais que vão além de campanhas pontuais ou abordagens sazonais. Essa foi uma das reflexões centrais do painel “O Futuro da Comunicação Antirracista no Brasil”, que encerrou, na quinta-feira (18), a primeira edição do AfroBusiness Comunicação, realizada em Salvador. O debate reuniu a presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Suely Temporal, a jornalista e apresentadora Naiara Oliveira e o pesquisador Yuri Silva, responsável pela mediação.

Ao longo de três dias, o evento recebeu jornalistas, comunicadores, pesquisadores, empreendedores, estudantes e lideranças de diferentes regiões do país na Biblioteca Central do Estado da Bahia, nos Barris. A programação abordou temas como inovação, produção de conteúdo, inteligência artificial, empreendedorismo, marketing digital, diversidade nas organizações, economia criativa e protagonismo negro na comunicação contemporânea.

Durante o encontro desta quinta, os participantes refletiram sobre os desafios e as possibilidades para a construção de uma comunicação mais inclusiva, plural e comprometida com a transformação social, em um cenário marcado pela necessidade de ampliação da representatividade negra nos espaços de decisão, produção de conteúdo e formulação de narrativas.

A ABI participou como apoiadora institucional. Durante o painel, Suely defendeu que o combate ao racismo na comunicação exige uma mudança de paradigma dentro das organizações, com diversidade efetiva nas equipes, nos espaços de liderança e nos processos de construção das narrativas.

“A comunicação antirracista precisa deixar de ser uma pauta para se tornar uma prática. É muito fácil falar de racismo apenas em novembro. Quando ela se restringe a uma campanha ou a uma editoria específica, continua sendo apenas uma pauta. Ela precisa ser uma prática transversal, permanente e natural dentro das organizações”, afirmou.

Para a presidente da ABI, a representatividade precisa estar presente não apenas no conteúdo produzido, mas também na composição das equipes e nos ambientes de tomada de decisão.

“Nada sobre nós sem nós. Quando você tem uma equipe diversa, com pessoas negras, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIA+, profissionais de diferentes territórios e vivências, você amplia a capacidade de compreender a realidade e construir narrativas mais plurais. A comunicação antirracista só acontecerá de fato quando essas pessoas estiverem ocupando os espaços de liderança e ajudando a definir os rumos dos negócios e da informação”, destacou.

Natural de Muritiba, no Recôncavo Baiano, a jornalista e apresentadora Naiara Oliveira fez um relato de suas vivências desde o início no jornalismo, as negativas, seu processo de superação das dificuldades e relembrou as primeiras oportunidades na área.

Ela reforçou que os avanços na representatividade negra diante das câmeras precisam ser acompanhados pela ampliação da presença negra nos bastidores da comunicação.

“Hoje existe um rosto preto estampado no telejornal, mas quem está na coordenação, na gestão, na produção de pauta, na edição-chefe e na direção? É preciso olhar para toda a estrutura. Não basta falar sobre diversidade. O mais difícil é praticar a diversidade”, afirmou.

Naiara também ressaltou a importância da identificação e da construção de oportunidades para que mais pessoas negras ocupem posições estratégicas em diferentes áreas da sociedade.

“A gente precisa se ver mais nesses lugares. Quando chegamos a uma clínica, a um banco, a uma empresa ou a uma redação e encontramos profissionais negros em posições de liderança, isso ajuda a construir referências e amplia horizontes para as próximas gerações”, observou.

Formação, negócios e articulação

Realizado entre os dias 16 e 18 de junho, o AfroBusiness Comunicação nasceu com a proposta de fortalecer o protagonismo negro no setor da comunicação, promovendo discussões sobre diversidade, inclusão, inovação e oportunidades de negócios na economia criativa. Ao longo da programação, o público participou de palestras, oficinas, mesas temáticas, painéis, rodadas de negócios e atividades de networking.

A iniciativa reuniu nomes de destaque da comunicação, do empreendedorismo e da produção cultural negra brasileira, promovendo diálogos sobre mercado, inovação, produção de conteúdo, comunicação digital, políticas de inclusão e sustentabilidade de projetos liderados por profissionais negros. Entre os profissonais que passaram pelo palco do evento estão Juliana Jozzolino, André Santana, Genilson Coutinho, Midiã Noelle, Jamile Menezes, Letícia Sotero, Tiago Banha, André Luzolo, Silvana Oliveira e Sulivã Bispo.

Além dos debates, o encontro buscou estimular conexões profissionais, parcerias estratégicas e oportunidades de desenvolvimento para comunicadores e empreendedores negros, reforçando a comunicação como ferramenta de transformação social e fortalecimento da democracia.

A publicitária Mirtes Santa Rosa, sócia da jornalista Camilla França na Umbu Comunicação, celebrou o sucesso dos três dias de debates, formações, conexões e articulações voltadas ao fortalecimento da presença negra no setor da comunicação. “Em nome da organização, agradecemos a todos os palestrantes, mediadores, oficineiros, artistas, expositores, convidados, parceiros, veículos de comunicação, equipe técnica, intérprete de língua livres, profissionais de produção e a cada pessoa que participou deste encontro”, disse a diretora, emocionada.

“Reafirmamos nosso compromisso com a acessibilidade, com a sustentabilidade e com a promoção de uma comunicação antirracista, democrática e comprometida com a valorização das contribuições históricas, culturais, econômicas e intelectuais da população negra para o desenvolvimento do Brasil”, garantiu Santa Rosa.

O evento foi realizado pela Associação Folia Africana, Zumbi Comunicação e Umbu Comunicação & Cultura, com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Fundação Pedro Calmon. Contou ainda com apoio institucional da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e da Associação Baiana do Mercado Publicitário (ABMP), além do apoio de mídia do Portal Soteropreta, Rádio Nova Brasil Salvador, Imagem Digital Out of Home, Rádio Salvador FM e Portal Umbu. O projeto teve patrocínio da Caixa e do Governo Federal.

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