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Dois amigos baianos na São Paulo do século XIX

Luis Guilherme Pontes Tavares*

Em 13 de dezembro de 1880, o poeta, jornalista, advogado, professor e abolicionista Luiz [Gonzaga Pinto da] Gama (1830-1882) registrava sua confiança e apreço no médico e conterrâneo baiano Jayme Soares Serva (1843-1902). O fez em carta ao jornalista Ferreira de Menezes, seu amigo e editor do jornal paulista Gazeta da Tarde. O texto foi publicado na seção “Ao público” da edição de 16dez1880 e lê-se este trecho: (…) “ainda pouco saio à tarde, para não contrariar as prescrições do meu escrupuloso médico e excelente amigo, Dr. Jaime Serva”.

A carta foi incluída no novo livro – Lições de resistência. Artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro (São Paulo: Edições Sesc, 2020), p. 262-266 –, da professora doutora Ligia Fonseca Ferreira, da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), e, logo que li, desejei que a amizade dos baianos Jayme e Luiz, na São Paulo da segunda metade do século XIX, provocasse a atenção de estudiosos. O médico tinha então 37 anos e Gama tinha 50 anos e, naquele patamar da vida, encontrava-se abatido pela diabetes.

O “excelente amigo” de Luiz Gama é neto do pioneiro da indústria gráfico-editorial privada brasileira, o empresário Manoel Antônio da Silva Serva (Freguesia de Cerva, 1761-Rio de Janeiro, 1819) e bisavô do jornalista paulista Leão Serva, biógrafo do tetravô que inaugurou a Imprensa baiana com os periódicos Idade d’Ouro do Brazil (1811-1823) e As Variedades ou Ensaios de Literatura (1812). Tudo isso torna o Dr. Jayme Soares Serva mais próximo de nós e nos motiva a escrever estas linhas.

Ele se formou em Medicina, na Bahia, em 1867. Dois anos antes, todavia, foi incorporado, como voluntário, ao Serviço de Saúde do Exército no front da Guerra do Paraguai. Retornou a Salvador, com a patente de Major Médico e recebeu a Medalha da Ordem da Rosa, criada pelo Imperador Pedro I em 1829, e concluiu o curso. Formado, pouco depois, seguiu para São Paulo. Atuou em Itu, onde casou-se com a senhora Victoria Pinto. Segundo o irmão de Leão, Jaime, xará do bisavô e do pai, em postagem que fez no chat do https://viladecerva.blogs.sapo.pt/3728.html, em 07dez2012, o contemporâneo e amigo de Luiz Gama teve muitos filhos.

Abolicionista e republicano como Gama, Jayme Soares Serva foi, em São Paulo, diretor da Secção de Estatística Demographo-Sanitária do Serviço Sanitário da capital paulista e, a partir de 1894, editor do Boletim Médico. Assistiu, pois, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, aspirações que fortaleciam o diálogo com Luiz Gama.

O pesquisador Nelson Varón Cadena acrescentou que, em Salvador, o estudante Jayme Serva foi diretor do Sociedade Clube Dramático, ligada a Teatro São Pedro de Alcântara, que funcionava na  Rua de Baixo de São Bento (atual Carlos Gomes).

Enfim, aspiro que a amizade de Luiz e Jayme possa ser pesquisada e documentada e nos sirva de exemplo na luta pelos ideais comuns.

*Jornalista, produtor editorial e professor. Integra a diretoria da ABI. [email protected]

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