O Museu de Imprensa da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), no Centro Histórico de Salvador, recebeu, nesta sexta-feira (9), estudantes do curso de Museologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) para uma visita técnica voltada à documentação, à conservação e à preservação de acervos. A atividade reuniu duas turmas da graduação e proporcionou aos futuros museólogos o contato com práticas de tratamento documental, coleções históricas e questões relacionadas à construção da memória da imprensa e da sociedade baiana.
A atividade foi proposta pela professora Andréa de Britto, museóloga, mestre em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo (USP) e doutoranda na Universidade Lusófona de Lisboa. A docente acompanha os componentes curriculares Seminários Temáticos II, que aborda projetos de documentação museológica, e Seminários Temáticos IV, dedicado a questões relacionadas à exposição. Durante a atividade, os estudantes conheceram o Laboratório de Restauro e Conservação da entidade, que guarda parte do acervo da instituição, e discutiram os métodos utilizados para organizar, preservar e comunicar informações sobre os documentos.
Segundo Andréa, a observação das práticas desenvolvidas no Museu de Imprensa permite compreender como as escolhas metodológicas e institucionais influenciam a maneira como a história é registrada e apresentada ao público.

“Quando observamos uma exposição, é importante compreender a narrativa que foi construída, porque ela tem a ver com as escolhas políticas e institucionais”, explicou a professora. Para ela, espaços de memória como o Museu de Imprensa também têm papel estratégico na preservação de fontes primárias, fundamentais para a pesquisa e a produção do conhecimento.
Ao lado do historiador Pablo Sousa, assistente do Museu de Imprensa, o diretor Luís Guilherme Pontes Tavares, vice-presidente da Assembleia Geral da ABI, deu boas-vindas aos estudantes. O jornalista e pesquisador especializado na história da imprensa na Bahia apresentou o equipamento cultural. Filho do célebre historiador Luís Henrique Dias Tavares, ele afirma que o Museu de Imprensa reforça a importância das fontes primárias como referências para a construção crítica e plural do conhecimento.
Da conservação à documentação
A museóloga da ABI, Renata Santos, apresentou as etapas do trabalho técnico realizado com os acervos da instituição. Ela explicou que o tratamento documental começa antes mesmo da catalogação. Ao chegar à ABI, as coleções passam por um período de quarentena, destinado à identificação e ao controle de agentes que possam comprometer sua conservação, como fungos, mofo e insetos.
Após essa etapa, os materiais são encaminhados ao laboratório, onde passam por procedimentos de higienização e, quando necessário, restauração. Em seguida, são identificados e arrolados — isto é, relacionados e descritos em um levantamento preliminar — até que possam avançar para o processo de tombamento museológico, que formaliza sua incorporação ao acervo.
O trabalho é realizado por uma equipe reduzida, formada por Renata e Marilene Rosa, técnica em Restauro, com o apoio eventual de estagiários e participantes de oficinas de conservação e restauro. A dimensão do acervo e a necessidade de equipamentos, materiais e mão de obra especializada tornam o processo contínuo e desafiador.
“É impossível receber um documento e trabalhar apenas com os elementos da documentação. Os materiais precisam passar por uma série de tratamentos que antecedem o tratamento documental”, ressaltou Renata, ao destacar a relação indissociável entre conservação e documentação no trabalho museológico.
Atualmente, o Museu de Imprensa reúne cerca de 12 coleções, entre periódicos, fotografias e materiais tridimensionais, além de objetos que ajudam a contar a história da comunicação baiana. O conjunto inclui registros da própria ABI, imagens de eventos e da construção de sua sede, além de documentos relacionados a personalidades importantes para a imprensa e a cultura, como o crítico de cinema Walter da Silveira e o cineasta Glauber Rocha.
Entre os acervos apresentados está a coleção do professor e pesquisador José Umberto Dias, dedicada a Glauber Rocha. O material passou por higienização, restauração, catalogação e tombamento por meio de um projeto contemplado em edital da Lei Paulo Gustavo.
Outro conjunto relevante é o de Walter da Silveira, cujo tratamento segue procedimentos arquivísticos, e não museológicos. Segundo Renata, projetos específicos têm permitido dar continuidade ao trabalho com essa documentação, incluindo iniciativas voltadas à digitalização e à criação de um site para ampliar o acesso aos registros. Acesse: https://walterdasilveira.com.br/
A museóloga também chamou a atenção para os desafios da preservação de negativos fotográficos e filmes, que exigem equipamentos e conhecimentos técnicos específicos. Apesar das limitações, a ABI mantém o trabalho de conservação e restauração, contribuindo para proteger documentos que registram diferentes períodos da história da imprensa.
A instituição suspendeu temporariamente o recebimento de novas doações em razão das limitações de espaço e de equipe. A medida reforça a necessidade de concluir etapas de tratamento e organização dos materiais já incorporados, garantindo condições adequadas de preservação e pesquisa.
Fontes primárias em tempos de inteligência artificial
Além dos procedimentos técnicos, a visita suscitou uma reflexão sobre o papel dos acervos físicos diante do avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial (IA). Para Andréa de Britto, a tecnologia pode contribuir para a produção do conhecimento, mas deve funcionar como ferramenta de apoio, sem substituir a capacidade humana de investigar, estabelecer relações e interpretar documentos.
A professora destacou que o contato direto com fontes históricas permite ao pesquisador desenvolver uma leitura própria, fundamentada em suas referências e experiências. Nesse sentido, o Museu de Imprensa constitui um espaço de pesquisa que guarda registros produzidos antes do surgimento das atuais ferramentas de inteligência artificial.
A discussão também mobilizou os estudantes. Andrea Cunha, do quarto semestre de Museologia, relatou que o avanço da IA despertou nela uma preocupação sobre a autonomia intelectual na pesquisa acadêmica.
“Quando você pega um texto para interpretar, não é você que está interpretando, é ela”, observou, ao comentar o risco de delegar às ferramentas tecnológicas tarefas que exigem análise crítica.
Para a estudante, os acervos físicos oferecem uma oportunidade de contato direto com as fontes. A consulta presencial exige que o pesquisador observe o documento, mobilize seus conhecimentos e construa sua própria interpretação, relacionando o material a outras referências.
A experiência também chamou a atenção de Larissa Gomes, do segundo semestre, que destacou o interesse em conhecer a história da imprensa e os processos de preservação documental. Com foco na conservação e na preservação de acervos, ela considera esses conhecimentos fundamentais para garantir que o patrimônio cultural permaneça acessível às próximas gerações.
Já Lucas Oliveira, concluinte do curso, ressaltou a relevância histórica e política da ABI, tanto na defesa da liberdade de imprensa quanto na preservação da memória de profissionais e instituições. Para ele, conhecer o espaço ajuda a revelar uma dimensão da história de Salvador que pode passar despercebida por quem circula pelo Centro Histórico.
“Aproximar os estudantes das práticas de documentação e conservação mostra que preservar um acervo vai além de guardar objetos e documentos. O trabalho envolve pesquisa, escolhas metodológicas, recursos técnicos e compromisso com a transmissão da memória. Ficamos muito felizes em receber estudantes na ABI. É sempre uma troca produtiva”, destacou Suely Temporal, presidente da entidade.


