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Pesquisa do CCDC-UFBA analisa cobertura jornalística do assassinato da líder quilombola Mãe Bernadete

O Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania da UFBA – CCDC/UFBA, em parceria com a Fundação Heinrich Böll Stiftung, apresendou, na manhã desta quarta-feira, 15 de maio, a pesquisa “Mídias, Discursos e Silenciamento: Análise da Cobertura Jornalística sobre o Assassinato de Mãe Bernadete”, liderança quilombola executada em agosto de 2023. Acesse aqui o documento.

O evento reuniu pesquisadores, estudantes e sociedade civil no auditório da Faculdade de Comunicação (Facom/UFBA), como parte das mobilizações de greve.

Foto: Reprodução/Conaq

Maria Bernadete Pacífico foi uma liderança ativista pelos direitos das comunidades tradicionais e coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). Moradora do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, RMS, a líder esteve na linha de frente da luta contra os interesses fundiários e de especulação imobiliária no território. De acordo com a Polícia Civil, ela foi morta por integrantes de uma facção de tráfico de drogas que atua no município. Além da resistência ao avanço do narcotráfico sobre a região, a matriarca também enfrentou a especulação imobiliária.

O levantamento selecionou e analisou notícias e reportagens publicadas – entre 17 de agosto e 17 de setembro de 2023 – nos sites dos dois jornais impressos de maior circulação na Bahia (os jornais A Tarde e Correio); o jornal impresso de maior circulação nacional (Folha de S. Paulo); e o principal site jornalístico integrante do sistema de comunicação pública do país (Agência Brasil). Foram identificados 115 conteúdos não-opinativos, sendo 93 notícias e 22 reportagens.

De acordo com Samantha Freire, assistente de pesquisa do CCDC, o estudo evidenciou que a mídia abordou o assassinato de forma desarticulada com questões essenciais, como as disputas por terra, racismo religioso e ambiental, além de não prezar pela pluralidade de fontes. “As fontes oficiais deram o tom”, disse a pesquisadora.

“Faltou contextualização. Mais de 50% dos conteúdos não fizeram qualquer relação entre os assassinatos de Mãe Bernadete e de seu filho, Binho do Quilombo, ocorrido em 2017. As matérias não mencionaram pontos importantes que deveriam estar nas coberturas, como as ameaças que ela denunciava, ou os mandantes e seus interesses. Se concentraram no crime em si”, ponderou.

Apenas 30 conteúdos citaram dados estatísticos e pesquisas. Enquanto somente três das 115 matérias trataram de aspectos jurídicos. Durante a apresentação, ela lembrou que os veículos praticamente ignoraram a censura sofrida pelo site The Intercept, que teve retirada do ar a reportagem elaborada pelo jornalista André Uzêda. (Entenda aqui)

A mesa teve a presença de Wellington dos Santos (Dinho do Quilombo), neto de Mãe Bernadete e representante do Quilombo Pitanga dos Palmares; Júlio Rocha, diretor da Faculdade de Direito da UFBA e pós doutor em Antropologia; Márcia Guena, professora do Programa de Pós-Graduação em educação Cultura e Territórios Semiáridos da UNEB; e Giovandro Ferreira, professor titular da Facom, coordenador do Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso e Mídia – CEPAD e tutor do CCDC/UFBA. A mediação ficou por conta de Elis Freire, graduanda em Jornalismo pela UFBA e pesquisadora do CCDC, sob a coordenação de Jonaire Mendonça, doutoranda do CEPAD.

A jornalista Tâmara Terso, doutoranda em Comunicação pela UFBA, pesquisadora do CCDC/UFBA e integrante do Conselho Diretor do Intervozes, foi a responsável por revisar a publicação. Já a diagramação foi comandada pela designer Isabelle Lamenha.

Racismo na Comunicação

A pesquisa é a primeira da Série “Salvaguarda de Memórias Negras”, que será realizada de forma periódica pelo CCDC, como forma de manter viva a memória e o legado de lideranças negras brasileiras. A última seção do documento traz sugestões para a cobertura jornalística.

“Quando a gente discute a expulsão do racismo na comunicação, vemos essas iniciativas como pontos de partida”, analisou a professora Márcia Guena. A docente citou diversos casos de lideranças indígenas e quilombolas mortas nos últimos anos e a cobertura jornalística dispensada. “A mídia está mudando, mas ainda está longe de expulsar o racismo estrutural. Precisamos articular em rede os estudos sobre racismo e mídia”, defendeu.

Capa da pesquisa | Foto: Reprodução

Para Wellington dos Santos, a pesquisa é antirracista e anti-hegemônica, ao expor uma trama onde disputas territoriais e a influência crescente do narcotráfico se entrelaçam, revelando os desafios e perigos enfrentados por comunidades tradicionais na luta pela preservação de seu espaço e cultura. “Ela segue como modelo para inspirar veículos.”

Ele chamou a atenção para um dado revelado pela pesquisa: 79 conteúdos (68,7%) não mencionaram que Mãe Bernadete estava no Programa de Proteção de Defensores(as) de Direitos Humanos. “Algumas coisas foram escamoteadas, principalmente o quanto o programa de proteção falhou com minha avó. O Instituto Ideas não tem especialista em segurança em sua estrutura”, observou. “As coberturas apresentaram informações falsas também. Ela era uma mulher de santo, mas não era yalorixá. Isso foi difundido e passou a ser repetido em todas as matérias”, salientou.

“Quando meu pai foi assassinado, houve uma desarticulação. Minha avó perdeu o seu sucessor e teve que continuar as lutas que estavam sendo encabeçadas por ele. Com a morte de minha avó, o quilombo está fragilizado. Hoje, eu e outras lideranças temos proteção de policiais, que era o que Mãe Bernadete deveria ter. Tivemos que sair do território e temos todo cuidado ao pisar lá porque quando sabem que estamos no local, o tráfico se mobiliza”, disse.

O CCDC é um órgão complementar da UFBA que atua como observatório de mídia, realizando monitoramento da cobertura de diferentes meios de comunicação sobre o tema da violência, no eixo do ensino, pesquisa e extensão, sempre voltado para a área de direito à comunicação, cidadania e direitos humanos.

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