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Plataformas digitais são um novo tipo de vida, diz Muniz Sodré em conferência de abertura do 43º Intercom

Recuperado da Covid-19, sociólogo baiano é celebrado em evento e discursa sobre utopias, distopias, telas e IA

“O corpo humano converteu-se virtualmente em tela”. Dita pelo sociólogo Muniz Sodré na manhã desta terça-feira (1º), essa frase se tornou de fácil aplicação para cerca de 1.500 pessoas que o acompanhavam, ao vivo e de modo remoto, na conferência de abertura do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom 2020), este ano realizado pela UFBA. O contexto da pandemia fez com que, pela primeira vez, o congresso fosse realizado de modo virtual.

Em sua tela, a partir do Rio de Janeiro, o professor baiano Muniz Sodré fez uma explanação do tipo que lhe é característica. De modo denso, levou seus interlocutores para um passeio pela história, pela literatura, por suas raízes nordestinas e ao encontro de pensadores de referência para, ao final, encarar os problemas sociais atuais que passam pelo campo da comunicação.

Como desfecho de sua participação na abertura do evento, Sodré reconheceu a importância da tecnologia e da internet para feitos como a própria realização do Intercom 2020 em meio a uma pandemia, mas também fez advertências para os impactos sociais que as reconfigurações impostas por tais tecnologias e o poderio das empresas a elas associadas geram. Parte desse problema passa pelo “novo tipo de vida” proporcionado pelas plataformas, classificado pelo professor como uma “distopia da vigilância total, da biometria totalitária e das autocracias políticas”, além de ter relação com o modo como algoritmos de empresas com “inclinação monopolista” têm controle social através de mecanismos pouco transparentes. 

“Na midiatização, a comunicação eletrônica converte as tecnologias de comunicação em dispositivos de machine learning, que é uma expressão mais corrente para Inteligência Artificial. A midiatização introduz um novo paradigma, que é uma estrutura de interconexão invisível em que tudo é, ao mesmo tempo, conexão e passagem, ligação e transição rápida. Mas, não se enganem, essa conexão e essa passagem ocorrem também na interioridade das pessoas. Por vivermos nessa ordem reticular, cada indivíduo é mero relé de transmissão, cada um de nós é um relé de transmissão orientado por um segredo criptografo que está nos subterrâneos operativos”, defendeu o professor. Relé, em elétrica, é uma espécie de ponto de transmissão. 

Utopia, distopia e algoritmos 
Sodré também lembrou das crenças de que a interatividade na internet romperia o que ele conceitua como o “monopólio da fala”, comentou sobre a passagem da mídia que é mediação para uma mídia imediata, rebateu os conceitos de teóricos nórdicos para a ideia de midiatização – defendendo ser essa um modo de organização da mídia com as instituiçõe sociais – além de comentar sobre a falta de responsabilidade de algoritmos na função de editores.

A apresentação de Muniz foi inspirada pelo tema do evento este ano, “Um mundo e muitas vozes: da utopia à distopia?”, que faz referência ao conhecido Relatório MacBride, publicado em 1980 pela Unesco para propor caminhos para os problemas da comunicação na vida em sociedade. “Esse documento guardar os traços de uma certa utopia cristã. Eu falo de uma certa utopia cristã porque há posicionamentos cristãos distópicos que apostam em uma pedagogia da fé e da obediência, mas também no ódio. Mas eu me refiro a utopia cristã da unidade do mundo em meio a pluralidade das vozes”, comentou Sodré. 

Quem assistiu a conferência teve o prazer de acompanhar o argumento do sociólogo sobre a utopia como sonho, como método de pensamento, como a “experiência dos possíveis”, além de poder refletir sobre contextos distópicos. “Para mim, toda e qualquer utopia é sonho da razão, sonho feliz ou pesadelo. Toda utopia é a suposição de uma sociedade sem amarras. Isso é politicamente possível? Não, claro que não, mas é moralmente possível.”, resumiu o professor da UFRJ. 

Mesa de abertura
A participação de Muniz no evento foi celebrada de modo especial por conta da preocupação que familiares e a comunidade científica tiveram, no início do ano, quando ele precisou ser hospitalizado após ter sido infectado pelo coronavírus. A presidente do conselho curador da Intercom, Margarida Maria Krohling, lembrou que no Congresso Virtual da UFBA, um dos primeiros eventos científicos na modalidade 100% virtual realizado este ano, um vídeo gravado anteriormente por Muniz em outro evento foi retransmitido em sua homenagem. “Hoje temos o Muniz conosco, então eu me sinto emocionada de poder contar com essa abertura de Muniz e celebrar a esperança e a vida”, afirmou.

Na mesa virtual, o reitor da UFBA João Carlos Salles também celebrou a recuperação de Muniz e comentou sobre o momento de negacionismo da ciência que vive o Brasil, ressaltando a importância da Universidade nesse cenário e no fomento de eventos como o Intercom. Coordenadora do congresso, a professora Ivanise de Andrade (UFBA) comentou na abertura sobre o desafio de repensar todo o evento a partir de uma tradição de inovação que é própria do Intercom, um evento que, segundo ela, adapta-se à sua realidade desde o seu surgimento, há mais de 40 anos, em meio a Ditadura Militar. “O Intercom 2020 ficou global e, pela primeira vez, virtual”, afirmou Ivanise. Ela conta que o evento precisou ser ampliado de cinco para dez dias para que a programação se tornasse mais espaçada e garantisse mais conforto para quem, em meio a pandemia, precisa lidar com outras demandas em casa. 

Na mesa de abertura também estiveram presentes a diretora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Suzana Barbosa; o diretor da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, representando a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia; e o presidente da Intercom, Giovandro Marcus Ferreira. A atração musical ficou por conta do violonista e professor da Escola de Música da UFBA Mario Ulloa. A jornalista e mestra em Comunicação e Cultura Contemporâneas Bruna Rocha foi a cerimonialista do evento. 

O Congresso Nacional da Intercom é o principal evento da área de comunicação do país, Esta edição vai até o dia 10 de dezembro. As inscrições já se encerraram e a programação está disponível em intercom2020.ufba.br

A transmissão da conferência está disponível no YouTube.