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Quarteto de Flautas da Bahia homenageia ícones do chorinho na Série Lunar

Em atividade há sete anos, o grupo apresentou um repertório que une memória, pesquisa e criação contemporânea

Na noite de lua cheia desta quarta-feira (26), o Auditório Samuel Celestino, na sede da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), ganhou uma sonoridade particular. Quatro flautas se encontraram para percorrer os caminhos do choro brasileiro durante mais uma edição da Série Lunar, projeto realizado pela ABI em parceria com a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Emus/UFBA).

Formado por Lucas Robatto, João Liberato, Leandro Oliveira e Rafael Dias, o Quarteto de Flautas da Bahia apresentou um repertório que aproximou tradição e contemporaneidade, música de concerto e cultura popular. Ao longo da noite, os músicos também compartilharam histórias, referências e curiosidades sobre as obras, transformando o concerto em uma experiência de escuta e descoberta.

Com sete anos de trajetória, o grupo vem desenvolvendo uma pesquisa voltada à ampliação das possibilidades da flauta transversal na música de câmara. A formação, segundo João Liberato, é pouco comum no cenário internacional. Se os quartetos de cordas constituem uma tradição consolidada na música de concerto, a formação exclusivamente dedicada às flautas ainda ocupa um espaço pouco explorado.

“Por exemplo, o quarteto de cordas é uma formação muito explorada. Grandes compositores do mundo há séculos escrevem para quarteto de cordas, mas para flauta isso não é comum”, explicou João durante a apresentação.

A busca do grupo é justamente ocupar esse território. Para isso, os músicos têm trabalhado na criação e adaptação de repertório para a formação, incluindo peças especialmente escritas para o quarteto. O conjunto também já desenvolveu trabalhos com compositores brasileiros e mantém uma produção disponível em plataformas digitais, com dois EPs lançados e um terceiro em preparação.

A formação reúne músicos ligados a importantes instituições de ensino e produção musical. Lucas Robatto é professor da Escola de Música da UFBA e flautista principal da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA). João Liberato integra o Departamento de Graduação em Música da Universidade Federal de Sergipe. Leandro Oliveira possui passagem por importantes orquestras brasileiras, enquanto Rafael Dias atua como performer e compositor e é doutorando em Performance Musical pela UFBA.

A escolha do repertório para a apresentação nasceu, segundo Lucas Robatto, de uma composição específica: “Chorinho Atormentado”, de Wellington Gomes. A partir dela, o grupo decidiu construir um programa dedicado ao choro, reunindo diferentes maneiras de compreender o gênero.

A abertura veio com Heitor Villa-Lobos, compositor que levou o choro para o universo da música de concerto e produziu uma extensa série de obras intituladas “Choros”. A peça apresentada integra a Suíte Popular Brasileira, escrita na década de 1920.

Na sequência, o quarteto mergulhou na obra de Ernesto Nazareth, um dos grandes nomes da música brasileira do início do século XX. “Fon-Fon”, apresentada na noite, foi composta por Nazareth por volta de 1903, período em que o compositor classificava suas obras como “tangos brasileiros”.

Lucas explicou que o título remete ao som da buzina dos automóveis e também à revista satírica “Fon-Fon”, importante publicação do Rio de Janeiro. A composição, assim, traduz musicalmente uma cidade que começava a experimentar as transformações de uma metrópole moderna.

A presença de Nazareth no repertório também abriu espaço para uma homenagem a um dos grandes pesquisadores e intérpretes do choro: Jacó do Bandolim. Durante o concerto, Leandro Oliveira destacou a importância do músico para a preservação da memória musical brasileira e para a descoberta de obras pouco conhecidas de Nazareth.

A pesquisa e o trabalho de Jacó ajudaram a recuperar peças que poderiam ter permanecido esquecidas, contribuindo para que a obra de Nazareth continuasse circulando entre novas gerações de músicos.

O choro, como lembrou João, possui ainda uma relação histórica profunda com a própria flauta. Joaquim Antônio da Silva Calado é considerado uma figura fundamental para a consolidação do gênero e tinha a flauta como instrumento de destaque. A formação tradicional dos grupos de choro incorporou justamente instrumentos como flauta, violão e bandolim.

Para o Quarteto de Flautas da Bahia, revisitar esse repertório significa também olhar para essa história a partir de uma nova configuração sonora.

Uma estreia na lua cheia

Um dos momentos especiais da noite foi a apresentação inédita de “Chorinho Atormentado”, composição de Wellington Gomes. A obra foi justamente o ponto de partida para a construção do repertório apresentado pelo quarteto.

A peça sintetizou a proposta do concerto: partir de uma tradição profundamente brasileira e experimentar novas possibilidades de interpretação. Entre Villa-Lobos, Nazareth e compositores contemporâneos, o grupo construiu uma leitura própria do choro, sem abandonar suas raízes.

“É uma leitura contemporânea do choro”, explicou Lucas, ao falar sobre a concepção do programa.

A experiência também reforçou uma das características da Série Lunar, que é aproximar artistas e público em um ambiente de escuta, conversa e compartilhamento de conhecimento. Criada em 2019 a partir da parceria entre a ABI e a Emus/UFBA, a iniciativa transforma o Auditório Samuel Celestino em espaço de encontro entre produção acadêmica, cena musical e sociedade.

Ao final da apresentação, Yara Vasku, diretora de Cultura da ABI e coordenadora da Série Lunar, resumiu a experiência diante do público. “Além de uma bela lição de música, essa apresentação foi uma aula”. Ela também reforçou o agradecimento à Associação Cultural Brasil–Estados Unidos (ACBEU), parceira que tem contribuído para a manutenção da programação ao longo de 2026. A próxima edição acontece no dia 23/09.

Fotos: Marina Silva

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