Por Emiliano José*
Ele nos deixa um extraordinário legado. Passou a vida como jornalista. Dos mais dedicados. Dos mais aplicados. E sobretudo evidenciando o quanto é essencial ao jornalista ter uma visão de mundo para caminhar.
Mostrou-nos que jornalista nenhum é imparcial. Que todo e qualquer profissional caminha embalado por convicções, por menos que o queira.
No caso dele, um comunista. Disso, nunca fez alarde. Era um comunista, ponto.
Sim, com uma nítida visão de mundo, sem nunca abandonar os rigores da profissão, assentado sempre na busca da verdade, utopia do jornalismo que todo profissional deve cultivar diariamente.
Chefe de várias redações, mas especialmente um grande repórter, sempre.
A exigir de si e daqueles que o rodeavam o rigor com os fatos, com a verdade e, só a partir desse rigor, passar à interpretação, à opinião.
Inegavelmente, o principal nome da imprensa alternativa brasileira.
Andou por Realidade, por Veja, onde brilhou, mas foi se encontrar, de modo definitivo, quando começa a navegar pela imprensa alternativa e, como sabemos, em tempos muito difíceis, ditadura comendo no centro.
Primeiro, jornal Opinião, e isso no início da década de 1970, o momento mais violento, mais sangrento, mais repressivo da ditadura militar. Ainda era uma iniciativa empresarial, de esquerda.
Divergências com Gasparian, e ele parte pra outra.
Jornal Movimento, pensado e dirigido por ele durante anos, de 1975 a 1981. No campo progressista e de esquerda, foi a mais importante publicação de resistência à ditadura, e isso por conta de uma direção serena e firme, da orientação de Raimundo Pereira, mestre de gerações.
Não vou relatar as diversas outras iniciativas jornalísticas dele, fruto do compromisso com o povo brasileiro, consciente sempre do papel de um jornalismo antenado com um projeto democrático-popular de Nação, a favor da soberania, da independência do País e, sem dúvida, na cabeça dele, um projeto visando a chegada ao socialismo.
Colaborei com Movimento na primeira fase, depois nos separamos, fui para Em Tempo. Voltamos a nos reencontrar, novamente eu colaborando com Movimento.
Fui honrado com o prefácio dele ao livro Lamarca, o Capitão da Guerrilha, lançado em 1980, de minha autoria em parceria com Oldack de Miranda.
A última vez que estivemos juntos, creio em 2016, na Bahia, ele à frente de outro projeto jornalístico, eu confiando na nova iniciativa. Não deu certo.
Um gigante.
Colocou o jornalismo a serviço dos interesses da Nação.
A serviço do combate à ditadura.
Fazendo, com o jornalismo, a luta contra o imperialismo norte-americano.
Denunciando a violência, o terror praticado pelos militares.
A incessante perseguição dos esbirros da ditadura nunca o assustara, nem o fez desanimar.
Foi sempre jornalista, atento sempre à utopia da busca da verdade.
Sabia ser difícil, mas disso nunca desistiu.
Homem culto, não admitia trabalhos rasos.
Queria sempre profundidade.
Nesses tempos, de profunda crise do jornalismo, até mesmo do jornalismo liberal, ele é um exemplo a ser estudado, compreendido, assimilado. Para repor o papel do jornalismo como parte da construção de uma nação justa com as maiorias, e soberana.
Viva Raimundo Rodrigues Pereira!
Raimundo Rodrigues Pereira, presente!

* Emiliano José é Jornalista, escritor, professor. Membro do Conselho Consultivo da Abi.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)


