ABI BAHIANA

Revista Memória da Imprensa celebra a história do jornalismo baiano

Evento de lançamento reuniu parte da equipe do projeto e diretores da ABI

“Revolução ou golpe militar? Ditadura ou regime de exceção? Tortura ou maus tratos? Mesmo num país desmemoriado, cada palavra sempre teve seu peso e significado específico”, crava o jornalista Paolo Marconi em depoimento para a Revista Memória da Imprensa. A publicação lançada na noite desta terça (21), em evento online realizado pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI), registra preciosos relatos de decanos da comunicação no estado e suas contribuições para o desenvolvimento da mídia nos últimos 70 anos. A live contou com Kau Rocha e Valber Carvalho, dois dos três jornalistas que conduziram as entrevistas do projeto, o editor Biaggio Talento, Nelson Cadena, diretor de Cultura da ABI, e Ernesto Marques, presidente da instituição.

Quando lançada, em 2005, a série “Memória da Imprensa” seguia o formato de documentário. Segundo Ernesto Marques, devido ao tempo dedicado ao processo, a Associação decidiu manter o material bruto das entrevistas no acervo da entidade e disponibilizar uma prévia no formato de revista. “Decidimos reviver um pouco do prazer de fazer uma revista, e até mexer um pouquinho com essa história de fim dos impressos”, afirmou. “O que constatamos é que tem pouco registro sistematizado da imprensa baiana. Tem muito trabalho pela frente e tem muitas histórias a descobrir”.

Quem for se debruçar no conteúdo, vai encontrar os relatos  de  Anízio de Carvalho, Antonio Matos, Emiliano José, Joaci Góes, Jorge Sanmartin, José Athayde, Levi Vasconcelos, Paolo Marconi, Sérgio Mattos e Valter Lessa.

Com a manchete “Como a comunicação transformou a Bahia: Registros históricos da vida contemporânea”, os personagens revelam as peculiaridades e momentos marcantes da atividade jornalística ao longo do tempo. Nas páginas, eles refletem sobre os desafios da área, marcada pela precarização, pelo machismo nas redações e assédio, principalmente contra jornalistas mulheres, tocando em importantes discussões sociais e políticas. A revista terá três edições em 2022. Além da publicação impressa, cujo projeto gráfico é assinado pelo cartunista e designer Gentil, o material em vídeo com a íntegra das entrevistas ficará acessível ao público no acervo da ABI. 

Preservar a memória

A mesa debateu a importância de empreendimentos dedicados à preservação da história da imprensa. Pesquisador, Nelson Cadena parabenizou a equipe responsável pelo trabalho. Para o diretor, o trabalho é uma das conquistas da ABI. “Primeiro que fica um documento escrito registrado, depois pelo trabalho e a fonte das entrevistas, várias horas de gravação que para pesquisadores vai ser muito importante. E tem uma coisa interessante: são pessoas que já estão ‘sem filtro’, já estão à vontade”, destacou Cadena, para quem o trabalho dos entrevistadores do projeto foi essencial. “Ele tem que provocar o entrevistado, tem que compreender um pouco do contexto e tentar extrair o melhor que o entrevistado pode oferecer”, avaliou. 

Cadena comentou sobre a responsabilidade da instituição com a correta armazenagem do trabalho e a realização de uma distribuição ampla do material. A intenção é que, após impressa, a revista seja enviada para redações, agências de propaganda e assessoria, assim como um exemplar será destinado para cada associado recadastrado. 

Por trás da revista

Convidado para realizar o projeto editorial da revista, Biaggio Talento compartilhou suas motivações para integrar a equipe responsável pela revista. “Topei imediatamente porque achei o projeto interessante e necessário para a conservação da história da imprensa da Bahia e para lembrar aquilo que não lembramos mais ou desconhecemos completamente”.

Foi o jornalista quem sugeriu que a edição fosse além da ideia inicial, de tratar sobre as editorias de esporte, cultura e política. Segundo ele, esse novo formato busca privilegiar o relato dos personagens que, conta, o surpreendeu positivamente. “Eu fiquei espantado com a quantidade de informações relevantes, inéditas e curiosas que essas dez figuras iniciais nos apresentaram”, adiantou.

As gravações das entrevistas foram realizadas em lugares diversos, incluindo a própria sede da ABI, no Edifício Ranulfo Oliveira, localizado na Praça da Sé (Centro Histórico). Com duração de cerca de três horas para cada gravação, o esforço ainda foi seguido pela decupagem do material e posterior edição no formato pingue-pongue. “Tem coisas interessantes, boas para o leitor descobrir como eram os meios de comunicação há 50 anos”, avalia Biaggio. 

Para integrar o projeto, o jornalista e documentarista Kau Rocha se valeu da paixão pelo audiovisual, que vem desde sua adolescência, e da influência de seu pai, o professor Zilton Rocha, que registrava a memória do município de Nova Canaã. Além disso, ele fez a sua pesquisa. “Conversei com Valber antes e assisti a entrevista de Anízio para entender o formato dele”, disse. Ele foi além, visitando o acervo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), e relendo os livros de Sérgio Mattos que estão disponíveis no acervo da ABI. 

Kau tratou dos temas que mais chamaram a sua atenção durante a apuração, entre eles a evolução da tecnologia nas redações e a chamada “cor local”: a experiência adquirida pelo jornalista ao visitar os locais de sua reportagem. Foi o documentarista quem pautou a necessidade de ter mais mulheres integrando o projeto, cujas entrevistas deverão sair nas próximas edições. Algumas histórias dão a marca do que era ser uma mulher na imprensa nas décadas de 50-60, como a proibição de usar calças compridas. 

Valber Carvalho falou sobre o contexto de misoginia e objetificação que as colegas enfrentavam naquela época. Segundo ele, era comum que as profissionais consideradas “bonitas” fossem enviadas para as entrevistas mais difíceis, a fim de “amolecer” a fonte.

“Tem coisas que o jornalista viveu e não vai falar. Nós temos essa oportunidade, de deixar as impressões de quem fez a reportagem, por que fez a reportagem e quais dificuldades encontrou”, declarou Valber. “É com muito carinho, com muito amor, que eu vejo essa materialização daquilo que deveríamos estar fazendo há muito tempo, que é registrar essa histórias do jornalismo”, completou.

Ernesto Marques refletiu acerca da necessidade de que a revista possa representar cada vez mais a Bahia. O dirigente compartilhou que nas reuniões de diretoria muito se discute sobre a necessidade de a ABI ser, de fato, uma associação baiana, o que inclui uma atenção isonômica para o interior do estado. “Nas próximas edições, nós teremos personagens de Vitória da Conquista, de Feira de Santana e também de Itabuna. Isso ainda é muito pouco, porque se fez um passado muito vibrante no jornalismo do Recôncavo, no Sertão e na Região Norte”, explicou. Outra novidade da próxima edição é a jornalista, diretora e roteirista Carollini Assis, também responsável pelas entrevistas do projeto.

Live completa no canal de Youtube da ABI. Assista: