ABI BAHIANA

Telegram: uma grande sala com muitas portas

Pesquisadores analisam o papel da plataforma na disseminação de fake news e como isso pode impactar o processo eleitoral

Já faz tempo que não há necessidade de o WhatsApp cair para todo mundo baixar o Telegram. Segundo a pesquisa Panorama Mobile Time, realizada pelo Mobile Time e a consultoria Opinion Box, a proporção de smartphones no Brasil com o aplicativo instalado alcançou os 60% em 2022. A ampliação de seu uso, no entanto, não chega sem preocupações. Associado ao compartilhamento de desinformação em grupos, em março deste ano, o Telegram chegou a ser alvo de uma ordem de bloqueio do Supremo Tribunal Federal (STF) por falta de colaboração com a justiça brasileira.

Após o embate, a empresa se comprometeu com medidas para combater a desinformação na plataforma, entre elas o monitoramento manual dos canais mais populares, a possibilidade de marcar posts que contenham informações “imprecisas”, e a promoção de informações que tenham sido previamente verificadas, além da parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no combate às fake news, que resultou em outras medidas como a criação de um canal extrajudicial para recebimento de denúncias de violações das políticas da plataforma. Com as eleições cada vez mais próximas, cabe a questão: Essas medidas são suficientes para impedir que as fake news causem danos ao processo eleitoral?

A reportagem da ABI entrevistou os professores Paulo Fonseca e Leonardo Nascimento, coordenadores do Laboratório de Humanidades Digitais (LABHD) – vinculado ao Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTI) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em colaboração com a professora Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com financiamento do centro Internetlab, o grupo de pesquisa vem, desde o início da pandemia, estudando a disseminação de fake news pela extrema direita dentro da plataforma. Além da análise de dados, os pesquisadores buscam, através de uma abordagem teórica interdisciplinar, entender as narrativas que são disseminadas e as funções que o aplicativo exerce nesse processo.

“O Telegram tem um papel fundamental dentro do que a gente chama de um ecossistema multiplataforma. Porque ele é uma porta de entrada e também uma porta de saída para todas as outras redes”, explica o professor Leonardo Nascimento. Longe de ser a única plataforma utilizada pela extrema direita, os usuários do Telegram são conectados a outras redes ocupadas pelos mesmos grupos, como sites de notícias, o Youtube, o Twitter, o Instagram, o Tiktok, grupos no WhatsApp e outros grupos no próprio Telegram.

“É como se fosse uma grande sala com muitas portas, em que o usuário pode parar em um vídeo com desinformação sobre vacina no Youtube, ou em um perfil do Twitter com desinformação sobre a segurança das urnas, ou em um vídeo no TikTok em apoio ao atual presidente”, continua o professor. “O Telegram – como coloca a Letícia Cesarino – é como se fosse uma dobradiça entre as pessoas, os usuários que ali estão, e a multiplicidade de redes”.

Para classificar esse movimento de comunicação entre em múltiplas plataformas ocupadas pela extrema direita, o pesquisador utiliza o conceito de câmara de eco: “um espaço de mídia limitado e fechado que tem o potencial de ampliar as mensagens transmitidas nele e isolá-las de refutação” (Jamieson e Cappela, 2010*). Nascimento alerta para a possibilidade de que as medidas adotadas pelo Telegram não sejam suficientes, por não darem conta do todo que compõe a rede de compartilhamento de fake news. “Tanto o TSE quanto as outras plataformas precisam entender como isso está organizado em termos sistêmicos, não individualizados”, explica.

“O que a opinião pública não consegue entender é que o problema não é o Youtube sozinho, não é o Facebook sozinho, não é o Twitter ou o Telegram apenas, mas é o emaranhado de todas as redes – um primeiro aspecto -, e um grupo de pessoas especializadas, treinadas, para difundir desinformação”, completa. 

Impactos nas eleições 

Para o professor Paulo Fonseca, o Telegram é tanto um aplicativo de comunicação de mensagens instantâneas como uma rede social, porque apresenta grupos que podem ter até 200 mil pessoas e também apresenta canais, nos quais os proprietários dos canais, e apenas eles, postam o que quiserem. “As pessoas podem comentar pelas postagens. Então, funciona como uma página do Facebook”.

A essa arquitetura híbrida soma-se a capilaridade da rede digital. Imagine que mensagens com conteúdos similares, com um mesmo ponto de vista, são compartilhadas entre diversas redes quase simultaneamente. É desta forma, apontam os pesquisadores, que líderes populistas conseguem pautar a agenda pública. 

“O Telegram tem servido como um elo entre a comunicação com o grande público, incluindo o bolsonarista, mas também como uma forma de conexão com grupos que têm muito conteúdo conspiratório, muito conteúdo falso, e muito discurso de ódio. Então, acaba se retroalimentando”, reitera Fonseca. Há o alerta também para algumas movimentações que vêm ocorrendo desde o ano passado e que podem prejudicar as eleições, com mensagens que buscam atacar o sistema eleitoral brasileiro e pautar a narrativa do voto impresso como auditável. 

Apesar de sempre terem existido mensagens com conteúdos conspiratórios, o que se busca apontar são as mudanças que se impõem com o ritmo de compartilhamento de informações nas redes e a sua abrangência. Desse modo, líderes populistas conseguem contato com seus apoiadores, gerando uma sensação de conexão direta. “Do lado de lá, você tem os apoiadores dele esperando essa mensagem para dizer o que fazer, qual a pauta a ser defendida agora, e quem se deve atacar. Esse oráculo digital é quem dá o enquadramento”, ressalta Leonardo Nascimento. 

Discursos de ódio

Alguns dos conteúdos analisados pelos pesquisadores apontam para a existência de uma espécie de agenda. “Uma questão que a gente observa desde sempre é o ataque aos ministros do STF, especialmente aos ministros Alexandre de Moraes, Roberto Barroso e [Edson] Fachin. O ataque à esquerda, ao PT, ao Lula em geral, colocando a possibilidade de um ‘regresso ao comunismo’. Agora, estamos tendo novamente muitos ataques ao TSE”, coloca Paulo Fonseca. 

Algumas perspectivas são compartilhadas desde sempre, como questões de ordem moral, ataques a grupos feministas ou de defesa de minorias, como os LGBTQ+. O professor afirma que também existem questões de ordem religiosa, inclusive com a associação do bolsonarismo ao cristianismo e a defesa dos aliados do atual presidente, como a defesa do indulto concedido ao deputado Daniel Silveira (PTB). 

Fonseca parte da compreensão da professora Letícia Cesarino sobre o populismo digital para explicar a atuação de grupos aliados ao presidente dentro desse ecossistema. “O que ela identificou é que esse tipo de atitude, essa divisão entre amigos e inimigos, seria uma equivalência direta. Porque se acredita que Bolsonaro teria a garantia da democracia? Porque Bolsonaro é o próprio povo. Como ele é o povo, ele decidindo, o povo estaria decidindo”. 

De acordo com sua observação, Fonseca relata não ter visto ainda grandes mudanças nos grupos monitorados desde a adoção de novas práticas pela empresa. Além disso, ele defende que não haja resignação com a existência de agentes disseminadores de ignorância. “Eu espero que a sociedade se atente para isso, e que o nosso parlamento, o nosso sistema político, adote uma regulamentação que consiga no mínimo mitigar esse impacto negativo”, declara. 

Populismo digital

A professora Letícia Cesarino já pesquisava a atuação de grupos de extrema direita no ambiente digital, inclusive no WhatsApp. Através dessas observações, ela chegou à noção de populismo digital. “A ideia é pensar como, com as novas mídias, o discurso populista se expande mais, mas também muda de característica. O discurso da liderança populista passa a ser complementado com a comunicação feita pelos seguidores e, principalmente, por influenciadores, os quais ajudam a circunscrever esse público online, que passa a atuar como um complemento da voz do líder populista”, explica.

Para Cesarino, por exemplo, há diferenças na relação do presidente Bolsonaro com seus seguidores atualmente. Se antes havia a necessidade de angariar eleitores, agora há a função de mantê-los, “blindando” seus seguidores mais fiéis das opiniões compartilhadas em uma esfera pública mais ampla. “Através desse público mais radical ele consegue indiretamente influenciar a esfera pública como um todo. As declarações que ele faz, as medidas que ele toma, e esse caráter oscilatório de falar uma coisa e depois outra, pode parecer que ele não faz nada, nem toma decisões, mas, olhando do ponto de vista desse ecossistema como um todo, ele está controlando as pautas”, elucida a professora. 

Sobre o Telegram, Cesarino ressalta o seu papel de mediação entre a comunicação política mainstream e uma comunicação efetuada nos grupos secretos, onde se compartilham teorias conspiratórias e ideias sobre a intervenção militar, além das fake news. “O Bolsonaro é um dos poucos atores que está nessas duas camadas ao mesmo tempo. Ele consegue jogar de forma estratégica através dessa oscilação. Hoje, o Telegram parece ser a rede que permite acessar os dois públicos na mesma plataforma”, arremata.

*Saiba mais no artigo publicado pelo LABHD na Revista Fronteiras – estudos midiáticos: 

Poder oracular e ecossistemas digitais de comunicação: a produção de zonas de ignorância durante a pandemia de Covid-19 no Brasil

*Larissa é estagiária de Jornalismo da ABI.

Edição: Joseanne Guedes