ABI BAHIANA

Verniz da palavra: Marcos Roriz apresenta a poesia de Sosígenes Costa na Série Lunar

Recital uniu música, literatura e memória, e relembrou a passagem do escritor pelo jornalismo baiano

Na noite de quarta-feira (23), o salão principal da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) viu a poesia de Sosígenes Costa encontrar no violão e na voz de Marcos Roriz maneiras de atravessar o tempo. Com o recital “Solfejando Sosígenes Costa”, o músico juazeirense estreou na Série Lunar, fazendo uma aproximação delicada entre literatura e música.

A obra de Sosígenes Costa, poeta, jornalista e professor, guarda essa capacidade de transitar por diferentes formas e registros. Nascido em Belmonte, em 1901, e ligado à vida cultural de Ilhéus, o escritor construiu uma produção marcada pelo apuro formal, pelo imaginário baiano e pela conversa permanente com o seu tempo.

Foto: Marina Silva

Foi o rigor da forma que ocupou parte da reflexão de Marcos Roriz durante a apresentação. Com uma sequência de banners em lona, ele musicou poemas e crônicas de Sosígenes. Ao falar sobre sonetos, o músico chamou atenção para a arquitetura de uma composição que atravessou séculos sem perder sua estrutura fundamental. São dois quartetos e dois tercetos, 14 versos nos quais o poeta precisa acomodar ritmo, rima, pensamento e narrativa.

“Em 14 versos, você tem a obrigação de contar a sua história, queira ou não”, observou Roriz. Para ele, a força do soneto está também nesse “apuro matemático”, na capacidade de construir uma escritura inteira dentro de uma moldura precisa.

Talvez seja essa mesma ideia de construção que aproxime o poeta do músico. Roriz falou sobre o trabalho do luthier, profissional que dedica cuidado minucioso à construção e ao acabamento de um instrumento. A comparação levou a uma reflexão sobre educação e arte, entendidas como trabalhos que exigem tempo, precisão e dedicação.

“O verniz de uma pátria é a educação”

Marcos Roriz

A frase sintetiza uma das ideias que atravessaram o recital. Para Roriz, assim como a nobreza de um luthier está em construir bem o instrumento que chegará às mãos do músico, a educação e a arte participam da construção de uma sociedade capaz de reconhecer, preservar e produzir conhecimento.

Cantor, violonista e violoncelista, Marcos Roriz é músico aposentado da Escola de Música da UFBA, onde integrou o Madrigal e colaborou com a Orquestra Sinfônica (OSUFBA). Ao longo de sua trajetória, também atuou como violoncelista convidado ao lado de artistas como Elomar, Xangai, Carlinhos Brown e Wilson Café, entre outros.

O poeta e o jornal

Ao apresentar a obra de Sosígenes, Roriz também percorreu um capítulo menos lembrado de sua trajetória, a relação do poeta com o jornalismo.

Segundo o músico, depois de deixar Belmonte e se estabelecer em Ilhéus, Sosígenes assumiu, por concurso, o cargo de telegrafista. Já com o sustento garantido, foi possível se dedicar à cultura e ao domínio das letras.

Roriz contou que a sociedade ilheense percebeu naquele homem culto uma possibilidade de contribuição em diferentes áreas. Vieram, então, trabalhos ligados à imprensa e à comunicação, entre eles uma colaboração para o jornal A Tarde, além de uma atuação junto à Associação Comercial de Ilhéus, em um período de grande movimentação econômica provocada pelo ciclo do cacau.

A narrativa devolve Sosígenes a uma dimensão particularmente próxima da própria casa que recebeu o recital. Antes de ser eternizado como nome da literatura baiana, ele também foi homem de seu tempo, profissional da palavra, alguém que precisou fazer da escrita um ofício e da linguagem uma forma de trabalho.

Do papel ao som

O projeto de Roriz nasceu desse desejo de manter a obra em movimento. Cada caderno de seu trabalho reúne 12 sonetos musicados. Três já foram produzidos. O músico pretende chegar ao quarto.

“Peço a Deus que me dê vida”, disse, ao falar do desejo de continuar o trabalho.

Há algo de profundamente artesanal nessa permanência. O poeta escreve, o músico lê, interpreta, mede o verso, procura sua respiração e devolve a palavra em outra linguagem. O que estava no papel ganha melodia. O que nasceu há décadas encontra novos ouvidos.

Sosígenes Costa morreu em 1968. Sua obra, contudo, continua a encontrar quem a leia, estude, cante e reinvente. “Obra Poética”, publicada em 1959, recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia no ano seguinte. Décadas depois, seus versos ainda oferecem matéria para novas criações.

Na Série Lunar, a poesia não apareceu como peça de museu. Esteve viva, em voz, cordas e imagens. Entre um verso e outro, Marcos Roriz apresentou ao público uma obra que resiste porque continua capaz de produzir encontros.

A apresentação integrou a programação da Série Lunar, projeto que nasceu da parceria entre a ABI e a Emus/UFBA. Desde 2019, a iniciativa promove concertos com professores, servidores técnico-administrativos e estudantes ligados à instituição, transformando a ABI em espaço de encontro entre a produção acadêmica, a cena musical e o público de Salvador. Em 2026, o projeto tem o apoio da Associação Cultural Brasil–Estados Unidos (ACBEU), parceira que tem contribuído para a manutenção da programação.

Fotos: Marina Silva/ABI

publicidade
publicidade