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Estudo revela meio milhão de tweets ofensivos à imprensa em apenas 3 meses

Campanhas massivas de difamação transformaram as redes sociais em campos minados para jornalistas e constituem uma ameaça à liberdade de expressão

As redes sociais se tornaram um território hostil para a imprensa. Os relatos sobre os ataques são cotidianos e envolvem na sua maioria agressões morais, ofensas e xingamentos, que visam desestabilizar e descredibilizar jornalistas e meios de comunicação. Em casos mais graves, mas nem por isso raros, envolvem ainda ameaças diretas, hackeamento de contas e exposição pública de dados pessoais. A Repórteres sem Fronteiras (RSF) e o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS) realizaram um levantamento para entender a extensão desses ataques no Twitter, rede com 20 milhões de usuários ativos no Brasil, e com forte presença de profissionais de imprensa.

Durante três meses, entre os dias 14 de março e 13 de junho de 2021, foram coletados dados de tweets com menções a um conjunto de cinco hashtags: #imprensalixo, #extremaimprensa, #globolixo, #cnnlixo e #estadaofake. Nesse período, houve 498.693 registros mencionando ao menos uma das hashtags monitoradas, compreendendo tanto tweets nativos quanto retuítes (RTs) publicados por um total de 94.195 usuários. 

Mais da metade (51%) dos tweets estão concentrados em 13 dias de pico, o que representa 14% do total do período de três meses. Ainda que a maior parte dos tweets levantados esteja associada aos picos, não houve um só dia com menos de mil registros de ataques à imprensa. Ao analisar os períodos de maior engajamento com as hashtags monitoradas, fica evidente um movimento amplo de reação a informações reveladas pela imprensa que expõem negativamente o governo.

Os picos de engajamento com as hashtags monitoradas também coincidem em grande parte dos casos com um forte movimento de ataques direcionados a jornalistas. Na perspectiva de complementar a análise, para além dos dados coletados sobre as hashtags de ataques à imprensa, a RSF e o ITS monitoraram episódios de assédio nas redes contra perfis de alguns jornalistas, como Maju Coutinho (Globo), Daniela Lima e Pedro Duran (CNN Brasil), Mariliz Pereira Jorge (Folha de S. Paulo), e Rodrigo Menegat (DW News). Os dados destes ataques foram coletados no momento em que eles aconteceram e as análises foram realizadas à parte das hashtags.

Fonte: RSF

Se considerados apenas esses cinco jornalistas e o intervalo de dias de pico em que os respectivos ataques ocorreram, ao todo foram mais de 84 mil tweets com ataques direcionados a eles (sem contar os retuítes). Vale ressaltar ainda que a quantidade total de tweets mencionando jornalistas mulheres foi 13 vezes maior do que em relação aos seus colegas homens. Em 10% dos tweets foram utilizados termos depreciativos, pejorativos e palavrões como “safada(o)”, “vagabunda(o)”, “puta(o)”, “burra(o)”, “ridícula(a)”, “idiota”, “arrombada(o)” e “imbecil”. A incidência desses termos foi 50% maior quando direcionados às jornalistas mulheres em relação aos seus colegas. 

As jornalistas entrevistadas pela RSF destacaram justamente o grau de violência dos ataques. “Não é um questionamento à qualidade do meu trabalho, não é uma crítica feita com intenção de aprimorar. É simplesmente um movimento para intimidar, ameaçar, coagir. Você pode questionar a forma, você pode questionar uma série de outras coisas, mas não tem a ver com o que a gente fala, tem a ver com o que a gente faz na essência”, contou a apresentadora da CNN Brasil, Daniela Lima.

Comportamento automatizado e posicionamento ideológico

O PegaBot, ferramenta desenvolvida pelo ITS-Rio, apontou que 3,9% dos 94.195 usuários que interagiram com as hashtags monitoradas ao longo dos três meses de levantamento apresentaram alta probabilidade de comportamento automatizado. Considerando apenas os 13 dias de pico de engajamento com as hashtags, estas contas foram responsáveis por 20% dos tweets publicados.  

A utilização de contas automatizadas no levantamento realizado indica a existência de mobilizações orquestradas com o objetivo de ampliar artificialmente movimentos de ataques à imprensa no Twitter. A utilização de robôs multiplica o alcance nas redes em torno de determinados assuntos, criando uma percepção falsa de uma adesão maior do que a real sobre determinadas posições ao estimular artificialmente um efeito de manada. A identificação de contas automatizadas também sugere que existem determinados atores com interesses políticos, recursos financeiros e capacidade técnica mobilizados para promover um ambiente de descrédito generalizado à imprensa nas redes sociais. 

O Pegabot retorna, além da análise sobre comportamento automatizado, uma listagem das últimas hashtags utilizadas por cada usuário. Com base nessas informações, é possível entender mais sobre o posicionamento ideológico dos usuários que integram o levantamento realizado. Ao contabilizar as 150 hashtags mais compartilhadas pelos usuários que interagiram com as cinco hashtags contra a imprensa monitoradas no levantamento, os temas que mais aparecem sinalizam um forte movimento de apoio ao governo federal, incluindo temas como a defesa do voto impresso e críticas ao STF e à CPI da Pandemia. 

A forte vinculação dos usuários que propagaram hashtags ofensivas à imprensa com as pautas do governo de Jair Bolsonaro também fica evidente ao analisar os dez perfis que apresentaram maior número de publicações dentro da amostra do estudo. 

Campanhas de ódio

As campanhas massivas de difamação transformaram as redes sociais em campos minados para jornalistas e constituem uma ameaça à liberdade de expressão. Em 2020, a RSF monitorou o discurso da família Bolsonaro (Jair, Flávio, Eduardo e Carlos), de ministros, do vice-presidente Hamilton Mourão e da própria Secretaria Especial de Comunicação Social da presidência. O resultado foi nada menos que 580 de ataques contra a imprensa – sendo 85% deles de autoria exclusiva do presidente e seus três filhos com cargos eletivos. 

Apenas no primeiro semestre de 2021, a RSF documentou 331 ataques, partindo da mesma metodologia, considerando sobretudo agressões morais como ameaças, xingamentos e exposição de jornalistas e veículos de comunicação de maneira vexatória em declarações públicas, entrevistas e postagens em redes sociais. 

“Quando o presidente da República e autoridades do alto escalão do governo pintam cotidianamente a imprensa como um inimigo a ser combatido, eles insuflam um ambiente hostil para todos os jornalistas e intoxicam o debate público”, afirma a RSF. De acordo com a organização, o levantamento sobre a extensão dos ataques no Twitter, a partir da análise de um conjunto de hashtags ofensivas ao jornalismo, reflete em grande medida as consequências da retórica anti-imprensa adotada pelo governo desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019. “É uma fala que autoriza e chancela uma postura agressiva de agentes públicos e da sociedade em geral frente ao exercício do jornalismo, que encontra nas redes sociais uma caixa de ressonância”. 

A RSF lembra que o Estado tem a obrigação de prevenir episódios de violência contra a imprensa, o que inclui adotar um discurso público que não aumente a vulnerabilidade dos jornalistas diante dos riscos aos quais estão confrontados. Mas, para a ONG, o governo brasileiro age de forma diametralmente oposta, contribuindo ativamente para a consolidação de um ambiente hostil ao exercício jornalístico.

O Brasil ocupa a 111a colocação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2021 elaborado pela Repórteres sem Fronteiras, tendo entrado para a zona vermelha do Índice pela primeira vez. Em 2 de julho de 2021, a RSF incluiu o presidente Bolsonaro em sua lista global de predadores da liberdade de imprensa.

As informações são da RSF (leia a íntegra)

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