ABI BAHIANA

Todo amor por Salvador

Nos 473 anos da capital baiana, filhos da terra falam de pertencimento e resgate do amor à cidade mais antiga do Brasil

Chegamos à concentração e, depois daquele reconhecimento do grupo, descemos em direção ao Sulacap. A essa altura você deve estar esperando um relato pré-pandemia, de quando o Carnaval passava pelos quatro quilômetros de Circuito Osmar, com foliões percorrendo Campo Grande, Avenida Sete, ‘enchendo de alegria a Praça e o poeta’, antes de subir pela Carlos Gomes, num ‘verdadeiro enxame, chame chame gente’. Mas, neste 29 de março, vamos falar de uma outra história desta terra festeira. Para celebrar os 473 anos da capital baiana, a reportagem da ABI mergulhou em uma experiência pelos corredores da História e traz hoje uma Salvador pouco conhecida: de Louti Bahia, Anderson Simplício e Iuri Barreto.

Esses três apaixonados por Salvador encontraram na Comunicação sua realização profissional e uma poderosa ferramenta para resgatar o amor à cidade mais antiga do Brasil. Através de páginas na internet, esses filhos orgulhosos espalham conhecimento sobre o amado e acolhedor pedacinho de chão.

Publicitário e especialista em Desenvolvimento Urbano e Planejamento Ambiental, Luciano ‘Louti’ Bahia é responsável pelo projeto educativo Amo a História de Salvador, cuja página no Facebook foi criada em 2014, chegando depois ao Instagram. O trabalho desenvolvido levou o urbanista a montar um acervo com aproximadamente 4 mil imagens históricas. Aliadas a textos informativos, as fotos constituem um resgate do passado da “Cidade da Bahia”. E não para por aí. Louti toca pelo menos cinco projetos derivados: o curso online “Retratos da História”; o passeio “Navegue na História”, feito em escuna – do Farol da Barra até São Tomé de Paripe; o workshop de fotografias e patrimônio histórico “Memória Fotográfica” e o “Passeio na História”, uma aula de campo ministrada por ele no Centro Histórico de Salvador.

Salvador ‘é outra história’

Turma do “Passeio na História | Fotos: Louti Bahia e Joseanne Guedes

Salvador é a primeira capital do Brasil e isso escutamos sempre. Mas, você sabia que ela também é a primeira cidade brasileira? “Salvador nunca foi vila, já nasceu estruturada como cidade. Quando ela foi erguida em 1549, só existiam vilas na Terra de Santa Cruz”, explicou o pesquisador de cidades, durante a aula de campo acompanhada pela equipe da ABI. A maratona começou na Praça Municipal de Salvador, com direito a visita ao icônico Edifício Sulacap, e terminou no bairro do Santo Antônio, conhecido também como Santo Antônio Além do Carmo. Com profundidade e destreza, o urbanista foi detalhando os fatos que o fizeram amar a cidade.

De acordo com Louti, não tem sustentação a ideia de que a paulista São Vicente – fundada como vila em 22 de janeiro de 1532 – detém o título de primeira cidade brasileira. “Essa lógica que tenta tirar o protagonismo de Salvador é a mesma que despreza o 2 de julho de 1823 como a verdadeira data da Independência do Brasil e sustenta o 7 de setembro. A Independência do Brasil foi conseguida às margens do Rio Ipiranga (SP) apenas com D. Pedro erguendo a espada? Simples assim? Tudo resolvido no 7 de setembro de 1822?”, indaga. “Escreveram a história do Brasil diminuindo as realizações do Nordeste e criando protagonismos falsos”.

Ele argumenta que os historiadores mais respeitados do país afirmam o pioneirismo de Salvador, trazendo à memória os estudos do professor e historiador Luis Henrique Dias Tavares. Outra curiosidade narrada por Louti é que Salvador nunca foi batizada com o tão repetido nome “São Salvador”, que chegou a ser eternizado em poesias e canções. Sempre foi “Cidade do Salvador” – do grego “soter” (salvador) + “polis” (cidade) – ou apenas “Salvador”. Segundo alguns pesquisadores, o erro pode ter acontecido por causa da Igreja Católica, que nomeou a “Diocese de São Salvador da Bahia”. Com o passar dos anos, as pessoas teriam confundido o nome da unidade episcopal com o da própria cidade.

“Pouquíssimos baianos sabem que Salvador foi o que foi. Uma cidade conhecida, visitada, era o principal porto do hemisfério sul. Tivemos aqui grandes expedições exploratórias e científicas. Charles Darwin esteve aqui, o Américo Vespúcio também, entre outros. E nossas crianças não sabem dessa história, nossos adolescentes não sabem, nós não sabemos”, constata ele, para em seguida lamentar a falta de apoio do poder público a projetos educativos e culturais.

Sérgio Manoel ensina detalhes sobre as construções religiosas do Centro Histórico | Foto: Joseanne Guedes

A ideia de criar o projeto veio quando o urbanista estava na Itália, pesquisando sobre o movimento de cidades slow – ideia que associa a lentidão ao desenvolvimento urbano sustentável e à qualidade de vida. “Lá, eu vi que os italianos, em todos os lugares, mesmo nas cidades pequenas, tinham orgulho da cidade, conheciam a história. Não temos isso em Salvador”. Nascido no Barbalho e tendo o Carmo como quintal, Louti só descobriu a grandiosidade da região quando começou a cursar Arquitetura, aos 17 anos. “Mudou completamente minha visão. Eu comecei a ver que morava dentro da história”, recorda o redator publicitário.

Nas aulas, Louti conta sempre com o suporte de um guia turístico profissional. Dessa vez, quem o acompanhou foi Sérgio Manoel, que é especialista em patrimônios de cunho religioso. Credenciado pelo Ministério do Turismo, Sérgio Manoel atua como guia há 12 anos. “É uma troca com o público, enriquece os meus conhecimentos. É maravilhoso falar da minha cidade. Desde criança, eu via pessoas explicando sobre Salvador e isso me instigou a curiosidade”, lembrou. Sérgio morou na Alemanha por 10 anos. Quando voltou, fez cursos profissionalizantes na área. “Tenho o maior prazer de exercer essa profissão. Que cada vez mais pessoas se interessem e busquem conhecer a história da nossa terra”, disse.

Foto: Christiane Peleteiro
Samira Branco | Foto: Joseanne Guedes

A empresária Christianne Peleteiro nasceu no Ceará, mas é oficialmente cidadã de Salvador desde que recebeu o título na Câmara Municipal, por seus serviços prestados através de projetos sociais e de sua atividade econômica. Casada com um soteropolitano, ela se rendeu aos encantos da “Soterópolis”. “A minha sensação é de pertencimento mesmo”, declara. A empresária, que participou do “Passeio na História” com a família, recordou fatos marcantes vividos em cada esquina, escadaria, rua e ladeira visitada. “Queria conhecer a história real. A gente ouve falar de tantas coisas e muitas são apenas lendas”.

Já a servidora pública Samira Branco, natural do Rio de Janeiro, veio visitar a cidade histórica que é cenário dos livros que leu, a exemplo de “Um defeito de cor”, da escritora Ana Maria Gonçalves. A obra narra a história de Kehinde, uma africana escravizada trazida à força para o Brasil, que desembarca na Ilha de Itaparica. “Um amigo indicou a aula e quis ver. Aprendemos a identificar também as marcas do passado colonial que fazem parte de Salvador”, avaliou.

Estereótipos x Pertencimento

Quem também vive para fortalecer a identidade soteropolitana e a sensação de pertencimento à cidade, através do resgate da memória e da valorização cultural, é o administrador Anderson Simplício, dono da página Belezas do Subúrbio, hoje com quase 500 mil seguidores entre Instagram e Facebook.

O curioso é que esse grande entendedor da “matéria” Subúrbio Ferroviário nasceu no bairro de Pau da Lima. Sua história com o território da Cidade Baixa é também uma história de amor e começou dez anos atrás, quando ele conheceu sua futura esposa, Taiane. Foi por causa da namorada que o então assistente financeiro passou a frequentar a região e a fazer imagens para compartilhar no próprio perfil. Em pouco tempo, o número de seguidores surpreendeu e Anderson decidiu criar a página.

“Não conhecia quase nenhum bairro. O que sabia eram as notícias negativas sobre a violência, que costumamos acompanhar pela TV”, lembra. A partir daí, ele iniciou um movimento de valorização da região, para combater o estigma e o preconceito que sempre ressaltaram os bairros suburbanos como perigosos e ruins de se viver. “Eu enfrento as notícias. Se o noticiário traz um assassinato no Parque São Bartolomeu, no mesmo dia eu posto uma foto da cachoeira, para mostrar as coisas boas também. Tento ocupar os lugares, mudar o roteiro turístico”, explica.

Há um ano, Anderson Simplício deixou o setor de Controladoria de um hospital de Salvador para se jogar nos trabalhos da página. Ele mesmo faz o clipping, produz as pautas, entrevista as pessoas e posta. É comum, inclusive, suas pautas virarem notícias na imprensa local. “Aprendi muito com o Belezas. Não tinha noção de fotografia, por exemplo, comecei a escrever textos, mostrar as pessoas”, destaca ele, que pretende fazer um curso na área de Comunicação.

Assumidamente suburbano, Anderson explora a localidade andando e puxa as pessoas para as ruas, aproveitando relatos orais, o contato com os moradores. Tudo o que é postado por lá tem sucesso garantido. Desde as belíssimas paisagens naturais, as dicas de onde comer bem, lojas do comércio local até uma conversa com algum morador antigo. “O Subúrbio é minha vida, faz parte da minha história, foi onde eu conquistei tudo. É um caso de amor. Eu levo para a página esse orgulho de ser suburbano, apesar de não ter nascido aqui”, se declara. “Salvador são as pessoas, a cidade é a nossa gente. O sorriso da galera, o acolhimento. Queria que os políticos olhassem mais para a cidade”, reivindica.

Sobre suas principais críticas à capital baiana, o agora comunicador e influencer é enfático ao apontar o quesito mobilidade. Uma queixa compartilhada, aliás, por outro soteropolitano, ou melhor, “soteropobretano”: o advogado Iuri Barreto, criador do “Guia de Sobrevivência” que inspirou o surgimento do Belezas do Subúrbio. De seguidor, Anderson se tornou amigo de Iuri. Juntos, eles compartilham boas histórias e vivências em Salvador.

Iuri critica a mobilidade urbana e a falta de segurança. Segundo ele, esse combo de deficiências causa o distanciamento das pessoas. “É o que feia a ocupação dos espaços, desertifica, limita o movimento das pessoas pela cidade e traz insegurança. É muito fácil chegar na internet e dizer ‘precisamos ocupar o Glauber Rocha [atual Cine Metha Glauber Rocha, na Praça Castro Alves]. E quem vai sair do trabalho para ver um filme lá, com término às dez da noite, e depois pegar um ônibus para casa, em Cajazeiras, Mussurunga, Suburbana?”, questiona.

Conhecer para amar

Foi justamente o movimento de circular pela cidade que motivou Iuri a começar o Guia de Sobrevivência do Soteropobretano. Ele conta que seus colegas da Faculdade de Direito da UFBA não conheciam a maioria dos lugares que ele postava em suas andanças. “No último semestre do curso, eu saía bastante, rodava a cidade e mostrava locais que estavan fora da bolha da galera. O ambiente que eu vivenciava na faculdade foi o maior responsável por criar o Sotero. Eu ia no Pelourinho e meus amigos não pisavam lá desde a época do colégio”, relata.

A página surgiu sob o slogan “Dicas para turistar nessa Salvador de gente alto astral, bonita e selecionada”. Era um sarcasmo com as festas que seus colegas frequentavam. “A gente sabe o que é esse ‘gente bonita’. ‘Não vai dar pobre’, era o que se dizia”, recorda Iuri. “Eu queria mostrar um circuito de Salvador que não era óbvio para meus colegas. Parecia que os shoppings eram a única opção de lazer”. O projeto nasceu com foco em programas acessíveis a quem queria pagar pouco, mas hoje o público do Guia é bastante diverso, assim como o conteúdo. “Tento trazer história, meme, fotos de sol e praia, dica gastronômica. Já é meio caminho andado para trazer uma diversidade para a página”, detalha. “Acredito que o Sotero já transformou a vida de algumas pessoas e isso já me deixa muito feliz. Seja de quem passou a conhecer a cidade, seja do comerciante que apareceu na página com seu pequeno negócio”.

As páginas mostram uma Salvador pouco conhecida

Muito mais do que uma rota cultural alternativa, a página abriu novas possibilidades para Iuri, que abandonou sua área de formação e passou a atuar como produtor de conteúdo digital e consultor de marketing em empresas do setor turístico. Atualmente, a comunidade no Facebook tem quase 100 mil curtidas e mais de 200 mil no Instagram. Assim como Anderson e Louti, ele faz planejamento de conteúdo, pesquisa, produz os posts, administra sozinho os perfis. “Quero fazer uma pós em marketing, escrever um livro. Hoje, por acaso, eu amo o que faço. Aprendi tudo na prática”, diz ele sobre sua trajetória como comunicador.

Já o amor pela cidade, Iuri aprendeu com sua mãe, D. Raquel, uma soteropolitana do Nordeste de Amaralina. A professora de História foi a grande responsável pelos primeiros contatos dele com o cotidiano que ele tanto exalta nas crônicas da página. Apesar de ter nascido em Salvador, ele passou a infância em Lauro de Freitas. “Salvador para mim sempre foi um passeio. Nas andanças com minha mãe, eu aprendia sobre a cidade. Toda a minha natureza, personalidade, meu humor, meu olhar do mundo, minha curiosidade, vêm de minha mãe”, confessa. “Sempre tive fascínio por Salvador. Eu só amo a cidade porque eu busco aprender sobre ela, conhecer. Eu trato Salvador como uma pessoa, tenho muito respeito. Sua personalidade me encanta e faz parte de quem eu sou”, completa.

  • Separamos algumas curiosidades sobre 6 pontos turísticos de Salvador:

1 – Farol da Barra: Quando foi erguido, em 1536, o Farol da Barra era uma construção de madeira e palha. Originalmente nomeado de Forte de Santo Antônio da Barra, o farol foi a primeira construção militar do Brasil, realizada pelo donatário Francisco Pereira Coutinho.

2 – Elevador Lacerda: Primeiro elevador do mundo utilizado como meio de transporte urbano, o Elevador Lacerda surgiu como uma obra arrojada para o século XIX. Sua primeira torre foi construída dentro da encosta que divide a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

3 – Praça Castro Alves: A Praça Castro Alves já foi chamada de Largo do Theatro por conta do enorme edifício do Theatro São João, presente na primeira foto. A maior casa de ópera do Brasil no século XIX foi destruída em 1923 por conta de um incêndio, que pode ter sido criminoso.

4 – Igreja de São Tomé de Paripe: Próxima à praia de São Tomé do Paripe, a igreja jesuíta foi construída naquele local por conta de uma história indígena, baseada na figura de São Tomé. Segundo se contava, Zomé ou Sumé, uma entidade barbuda e branca, teria sido vista pela última vez naquele lugar, onde teria descido o morro e caminhado até a praia, andando sobre as águas.

5 – Igreja de São Francisco: Assim como toda igreja da ordem franciscana, a Igreja de São Francisco conta com um cruzeiro em sua frente, cercado por um espaço chamado de adro, que era o local onde os franciscanos atendiam aos necessitados.

6 – Centro Histórico: Nas fotos, é possível avistar o prédio da ABI, na Praça da Sé, e o Terreiro de Jesus, local onde os jesuítas passaram a pregar ao ar livre, a fim de converter indígenas à fé cristã. Já a Praça da Sé ganhou esse nome por conta da antiga Igreja da Sé, maior templo de Salvador no século XVII. Foi demolida em 1933 e homenageada em 1999 pela Cruz Caída, um monumento que fica de frente para a Baía de Todos-os-Santos.

*Reportagem: Joseanne Guedes e Larissa Costa | Arte: Gentil/Bamboo Editora