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Dia Mundial do Rádio: Ninguém viu, ninguém ouviu

Por Nelson Cadena*

Quando Guglielmo Marconi inventou o rádio que não era rádio e sim telegrafo sem fio, ele mesmo assim o denominou, em 1896, não imaginou qual seria a utilidade desse trouço, além de facilitar e agilizar a comunicação à distância. Não era rádio coisa nenhuma, apenas transmitia sinais, a voz humana demorou alguns anos a ser incorporada. Somente em 1906 é que tivemos voz e música para ser ouvida. Por quem, mesmo? Radioamadores que colocavam uma espécie de fone de ouvido, acoplado a um aparelho feito a mão.

A primazia de Marconi como inventor do rádio é controversa. Os americanos creditaram a invenção, e validaram a patente, a Nikolas Testa; os russos consideram Aleksander Popov, o pioneiro; os brasileiros, o padre Landell de Moura. Seja quem for, Marconi foi o Relações Públicas do rádio no mundo e foi ele que obteve o Prêmio Nobel de Física, em 1909, e outras tantas premiações enquanto viveu, inclusive o hall da fama.

No Brasil

No Brasil, a estreia do rádio, em 07 de setembro de 1922, foi um fiasco. Som sofrível e nenhuma audiência. Nenhuma repercussão e nenhum registro fotográfico, entre as centenas de fotos existentes nos arquivos e bibliotecas, sobre a Exposição Comemorativa dos 100 anos da Independência no Brasil, cenário onde o fato ocorreu. Um release bem escrito da RCA Corporation que ganhou cantinhos escondidos nos jornais__ nenhuma linha nas revistas semanais, e a vontade dos pioneiros de validar a estreia como um grande acontecimento, fez parecer o que não foi.

A festa do Centenário foi organizada pela diplomacia brasileira, que estava lá se lixando, para experiências científicas de qualquer ordem. A prioridade era o cerimonial, a pompa e a circunstância, em torno da presença do Rei Alberto da Bélgica, dos presidentes da Argentina e Portugal e mais de uma centena de autoridades representando os seus respectivos países, atletas das nações latino-americanas e milhares de marinheiros dos navios estrangeiros ancorados no porto do Rio de Janeiro, protagonistas do grande desfile no Campo de São Cristóvão, perante 300 mil pessoas.

Inauguração sem registro

Foi uma oportunidade e tanto para os fotógrafos da época que produziram centenas de imagens e nenhuma delas retrata a dita fala do presidente da República, Epitácio Pessoa, no rádio. Os profissionais da área clicaram a grande parada militar aqui referida; a abertura dos jogos latino-americanos; a inauguração da Feira das Indústrias; visita aos pavilhões dos países; o baile na embaixada uruguaia; as festas a bordo dos navios ancorados no porto; as homenagens da Universidade do Plata ao Brasil; o baile de gala do Itamaraty; o Garden-Party do Jardim Botânico; a inauguração do monumento de Cuauhtemoc, em homenagem à delegação do México…

Clicaram ainda o campeonato de futebol do Centenário; as honras ao presidente de Portugal; a concentração do povo do lado de fora do Palácio Monroe; a iluminação cênica das ruas do Rio de Janeiro; os fogos de artifício; o meeting de atletismo; os Grandes Prêmios Ipiranga e Independência, no Jockey Club; o almoço no Palácio do Catete; palestras e conferências nos centros acadêmicos; a temporada lírica no Teatro Municipal e até o almoço que Santos Dumont ofereceu na sua residência (muitas autoridades convidadas) ao herói da 1º Guerra Mundial, o célebre aviador francês René Fonck.

Evento menor

Os fotógrafos destacaram os ilustres jornalistas presentes, dentre os quais Jorge Piacentini, diretor de La Nacion e Willian Powell Wilson do The Philadelphie Comercial… Fizeram imagens de todos e de tudo, menos da inauguração do rádio, que deve ter sido, mesmo, um evento menor, tanto que não há convergência nos registros sobre o assunto. Alguns autores falam que a inauguração foi durante o desfile do Campo de São Cristóvão, outros que foi dentro do recinto do Palácio das Indústrias. Difícil saber, o release não esclareceu.

Talvez devamos deixar de lado o entusiasmo e prestarmos maior atenção ao depoimento de Roquette Pinto, testemunha ocular e imparcial como cientista que era: ” muita pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia…”. Está dito e explicado quando repara que ninguém ouviu nada, reporta-se à qualidade técnica do som, mas também às circunstâncias: “no meio de um barulho infernal”.

Ninguém ouviu, ninguém viu e ninguém registrou para a posteridade aquela que seria uma imagem de fato marcante do início de uma nova era nas telecomunicações. Os americanos, fornecedores de equipamentos de transmissão, queriam vender e conseguiram. A parafernália da transmissão ficou, logo teríamos (1923) a primeira emissora de rádio do Brasil.  

*Nelson Cadena é jornalista, pesquisador e publicitário.

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)

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