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Antônio Maria, um jornalista boêmio na velha guarda

*Por Jorge Ramos

Em 17 de março de 2021 é o centenário de nascimento de Antônio Maria Araújo de Morais. Nascido em Recife ele foi jornalista, poeta, cronista, apresentador de televisão, produtor de programas humorísticos (foi quem lançou Chico Anysio), locutor esportivo, escritor, caricaturista, compositor (“Ninguém me ama” e outros sucessos) e sobretudo boêmio inveterado e namorador incorrigível. Por seus múltiplos talentos foi uma das figuras mais destacadas do cenário arístico e cultural brasileiro por mais de vinte e cinco anos. É considerado um dos maiores cronistas do Brasil.

Antes de ir o Rio de Janeiro ele morou na Bahia, de 1944 a 1947, período no qual Diretor Artístico, gerente, locutor esportivo e também apresentador de programas da Rádio Sociedade da Bahia, trazido pelo conterrâneo Odorico Tavares, diretor regional do conglomerado de imprensa “Diários e Emissoras Associadas” criado por Assis Chateaubriand. Aqui ele narrou jogos de futebol e também apresentou programas de auditório no estúdio da emissora, no Passeio Público.

Num desses programas, em que se apresentavam jovens aspirantes a cantor, ele deu a um molecote, de nome Oscar da Penha, candidato a sambista, o nome de “Batatinha”. Outra “figurinha carimbada” no mesmo programa era o jovem sambista, Clementino Rodrigues, já conhecido como “Riachão”. Nas poucas horas vagas ele ainda escrevia artigos no jornal “Diário de Notícias”.

Antônio Maria viveu com intensidade a vida boêmia da “Velha Bahia”, percorrendo à noite os cabarés da cidade, fosse o elegante “Tabaris” (onde, diziam, tinha uma mesa reservada) ou os modestos mas animados botequins do Cais do Porto, terminando sempre as noitadas em mercados e feiras, em meio a feijoadas e outras delícias da culinária baiana, que ele adorava! Antônio Maria conhecia e frequentava alguns dos principais terreiros de candomblé de Salvador.

Em 1946 com o fim da Ditadura do “Estado Novo” e o início da redemocratização do país, ele se candidatou a vereador em Salvador. Achou que só o prestígio era suficiente e não fez campanha. Teve uma votação pífia ! Contrariado, no ano seguinte aceitou finalmente um antigo convite de Chateaubriand para ser Diretor Artístico da Rádio Tupi e se mudou para o Rio de Janeiro, onde faria uma carreira de sucesso.

Durante toda a vida escreveu crônicas em jornais e revistas, destacando-se pela leveza, ironia, humor e ternura contida em seus textos de abordagem de fatos do cotidiano que transformava em peças literárias.

Na revista Manchete escreveu várias crônicas sobre o período em que morou na Bahia, rememorando fatos e personagens que marcaram aquela época. Destaco aqui o trecho de uma delas, em que ele lembra de dois lendários comícios na Praça da Sé, na época o principal local de manifestações políticas em Salvador, como é atualmente o Campo Grande.

O primeiro comício foi da UDN, partido conservador, que fazia cerrada oposição a Getúlio Vargas, o ditador recém-deposto pelos militares. Dividiram o mesmo palanque dois antigos adversários: Octávio Mangabeira (que nessa campanha seria eleito governador) e o ex-interventor Juracy Magalhães. O outro comício, do PCB, reuniu o candidato do Partido a Presidente da República, o engenheiro Yedo Fiúza e o líder comunista Luis Carlos Prestes, além de comunistas baianos como Carlos Marighela e Giocondo Dias.

No relato deste comício é citado o orador popular “Jacaré”, que todas as tardes em cima de um caixote fazia discursos na Praça Municipal, sempre com uma platéia barulhenta a assistir. Ele interrompeu o discurso de Prestes para “anunciar” o apoio do ex-governador J.J. Seabra (falecido já quatro anos !), ao candidato do Partido Comunista Brasileiro. Provocou gargalhadas na platéia, claro !.

Texto da crônica :

“Como speaker (locutor) de rádio, tomei parte nos maiores comícios que a Bahia já assistiu em toda a sua vida. Inesquecível aquela chegada de Juraci (Magalhães) e (Octávio) Mangabeira, de mãos dadas, odiando-se cordialmente, atravessando a Rua da Misericórdia (caiam rosas de todas as janelas !), os dois sorriam a acenavam para o povo, enquanto a praça se dividia entre dois bandos irreconciliáveis: juracisistas e autonomistas. O último discurso terminou às 3 e meia da manhã e ninguém tinha arredado pé da pé da praça (da Sé). Dois minutos antes de chegar a sua vez, Mangabeira disse ao meu ouvido: “eu quero espaço” e, andando de um lado para o outro, com um magnífico domínio das mãos e do olhar, falou durante duas horas contra o senhor Getúlio Vargas.

Vi, depois em outro comício, a chegada de Luiz Carlos Prestes à Bahia. Era o herói de uma história em quadrinhos, mostrado ao público pela primeira vez após longo período na prisão.. Os comunistas organizaram cenas emocionantes, como a daquela mulher de 80 anos, descalça, que veio de mansinho, olhou para Prestes e perguntou: ”Capitão, posso chorar ?”. E caiu nos braços do chefe comunista, debulhada em lágrimas, trepidando em soluços. Prestes largou aquela sua fala de campanha. Yedo Fiúza, candidato comunista a Presidente da República. atacando o latifúndio e apontando a cura da inflação na luta contra a importação do que ele chamava de bugigangas, no plantio da terra e no auxílio à indústria nacional. A praça ouvia transida, num silêncio que inquietava o palácio do Arcebispo, a estátua do bispo Sardinha e o oitão da Catedral Basílica. Foi quando “Jacaré”, discurseiro popular que entrará nesse relato da Bahia, pediu um aparte. Prestes calou-se e ouviu : “Capitão, eu vos trago o apoio integral de Seabra”. Naquele instante, as cinzas de José Joaquim Seabra se conflagraram, tremeram, mas era tarde para cassar a procuração dada a “Jacaré”. De noite, em função jornalística dos Diários Associados, conversava com Pestes e ele me disse que estava muito animado com a solidariedade de Seabra.”

Antonio Maria morreu jovem, aos 43 anos. Obeso, levava uma vida desregrada, sendo um emérito bebedor de whisky e apreciador voraz de bons pratos, além de varar as noites em bares e buates. Fulminado por um infarto fulminante, caiu na rua em Copacabana, bairro onde morava e cenário de muitas de suas crônicas.

*Jorge Ramos é jornalista e pesquisador. Atualmente integra a Diretoria da Associação Baiana de Imprensa, ocupando o cargo de Diretor do Museu Casa de Ruy Barbosa.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).

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