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Sinjorba e IBGE promovem curso sobre dados estatísticos e acesso à informação

O Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia (Sinjorba) completou 70 anos no último sábado (17). Foi em 17 de abril de 1951 que o Ministério do Trabalho concedeu ao Sinjorba a carta sindical, documento oficial que reconhece à organização a condição de sindicato. O ato oficial é um marco na história da entidade, que ao longo dos anos enfrentou os desafios em defesa da profissão. Desde 2019, a gestão presidida por Moacy Neves visa empreender esforços na realização de atividades que envolvam os profissionais do setor. Neste mês comemorativo – tanto ao Dia do Jornalista quanto ao aniversário da entidade -, o Sinjorba vem realizando diversas atividades voltadas para a capacitação da categoria.

Uma delas é a ação promovida pelo Sinjorba em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No dia 24 de abril, das 9h às 12h30, as entidades realizarão o curso “O IBGE e suas Principais Pesquisas – Fonte de Dados Estatísticos”. A iniciativa é gratuita e voltada para jornalistas que atuam em redação de veículos de comunicação ou em assessoria. De acordo com o Sinjorba, o curso “tem como objetivo oferecer um treinamento sobre a interpretação de dados e o acesso às plataformas públicas de informação da instituição”.

O IBGE possui um banco extenso de informações e dados sobre o Brasil, “mas muitos jornalistas simplesmente ainda não acessam este repertório ou não sabem como fazê-lo da maneira mais objetiva”, defende o Sinjorba. Com o curso, os inscritos terão acesso a ferramentas e capacitação que lhes permitirão acessar os dados do IBGE como fonte para suas matérias.

O programa do curso inclui informações gerais sobre o IBGE e suas principais fontes de dados estatísticos econômicos e sociodemográficos (Censo), uma visita ao site do Instituto (https://www.ibge.gov.br), aula sobre o Sistema SIDRA (https://sidra.ibge.gov.br) e exercícios práticos. A capacitação terá emissão de certificado a todos participantes. São 40 vagas para a primeira turma. Faça sua inscrição aqui.

Live comemorativa

De acordo com o site da entidade, “o Sinjorba vive um momento de retomada de ação após as dificuldades advindas das mudanças no setor de comunicação, da crise de vagas de emprego para jornalistas e da demora do movimento sindical em compreender as transformações no mundo do trabalho e no perfil da categoria, bem como suas implicações sobre os sindicatos”. Hoje, 19 de abril, às 19h30, em comemoração aos 70 anos do sindicato, será realizada a roda de conversa online “Sinjorba 70 anos, experiências e vivências”, com seis ex-presidentes da instituição. Carlos Navarro, Raimundo Lima, Heloísa Gerbasi, Jorge Ramos, Alberto Freitas, Kardé Mourão e Marjorie Moura compõem o encontro transmitido pelo canal do YouTube do Sinjorba.

ABI BAHIANA

Debate sobre interfaces entre jornalismo e literatura encerra simpósio promovido por ALB e ABI

O que o jornalismo tem a ver com literatura, além do óbvio pertencimento de ambos ao campo das letras? O que literatura tem a ver com fatos, com realidades? Quais são os limites e as especificidades de um gênero e de outro? Com essas provocações, a premiada jornalista e escritora Suzana Varjão esquentou a mediação da mesa “Jornalismo e Literatura: Interfaces”, que encerrou o I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, na noite desta sexta-feira (9). O evento, realizado desde o dia 7 pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e pela Academia de Letras da Bahia (ALB), reuniu escritores, acadêmicos, pesquisadores, jornalistas e profissionais de diversos campos do conhecimento, dispostos a conversar sobre as confluências e aproximações entre o fazer jornalístico e a literatura.

O último debate do Simpósio foi protagonizado pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça, autora do livro-reportagem Filhos do Cácere (Edufba), e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

Ernesto Marques, presidente da ABI, deu boas-vindas ao público, com uma reflexão sobre o momento atual vivido no Brasil. Ele falou da esperança de que o próximo simpósio realizado pelas entidades encontre outro ambiente. “Desejo que já não seja necessário fazer a exortação, a defesa da democracia, a nossa pregação contra o obscurantismo, feita reiteradamente pelo professor Ordep”, ressaltou. O jornalista também comentou sobre as dificuldades impostas pela pandemia, como a impossibilidade de realizar eventos presenciais. “Que possamos nos reunir no auditório, claro, sem prejuízo de ampliar essas páginas digitais e levar o conteúdo para quem, em outras partes do País ou do mundo, possa se interessar em participar. Esse evento tem nos proporcionado noites ricas de conteúdo e aprendizado”, avaliou.

Marques aproveitou para lembrar que neste sábado, 10, acontece o lançamento do Site Walter da Silveira, com transmissão ao vivo pelo Youtube da ABI. O espaço compartilha com o público uma parte consistente do acervo do militante político, professor, historiador, cineclubista, ensaísta, advogado e um dos mais importantes críticos de cinema brasileiro.

O presidente da ALB, professor Ordep Serra, agradeceu a presença do público e também reiterou a continuação da parceria com a ABI. “Estamos dispostos a fazer o segundo Simpósio e vamos ter outras iniciativas que vão consolidar nossa aliança”, garantiu. Para ele, o evento é uma oportunidade de pensar, de refletir, sobre aspectos importantes do ponto de vista social. “É uma alegria começarmos a terceira noite desse simpósio. Mais uma festa da inteligência, para interromper, nem que seja por um trecho da noite, a dor e a preocupação que acomete a todos nós, vítimas de um genocídio. Porque a pandemia já tomou, no Brasil, essa dimensão sinistra de um genocídio, realizado com absoluta crueldade por um governo federal que não se respeita”, criticou.

A mediadora Suzana Varjão, pesquisadora baiana e autora de cinco livros, disse da satisfação em assumir o papel de intermediar o intercâmbio de ideias, diante da qualidade da mesa composta por três intelectuais brasileiros. “Trata-se hoje de uma conversa sobre a palavra. O que significa dizer sobre um poderoso instrumento de construção de mundo. Sim, porque palavra é coisa muito séria. Afeta, legítima, gera realidades. Não obstante o ceticismo, ou mesmo inocência de alguns, palavras não são neutras, não são puras, não são acéticas. Carregam valores que são repassados para todo e qualquer sistema por mais operacional que seja”, situou.

“Vamos falar então sobre um lugar do jornalismo que eu poderia definir de uma maneira mais rudimentar como processo de coleta e investigação, análise e transmissão de informações. Vamos falar sobre o lugar da literatura, que se pode descrever de modo elementar como uso estético da linguagem, mas vamos falar também sobre lugares ou entrelugares, que são as interfaces”, provocou a jornalista. “Literatura é sinônimo de ficção? E jornalismo é sinônimo de relatório, de reprodução, reflexo?”, questionou.

Contando histórias

Membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a cadeira número 9, na sucessão a João Ubaldo Ribeiro, e da Academia Brasileira de Letras, o escritor Antônio Torres narrou a sua chegada ao jornalismo. O autor da trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, entre outras obras, iniciou a sua carreira como repórter do Jornal da Bahia, cujo fundador foi João Falcão. Como bom contador de histórias que é, Torres contou desde a sua primeira crônica publicada no Alagoinhas Jornal, que saía uma vez por mês no município baiano, até a sua transferência para o diário Última Hora, de São Paulo, tendo posteriormente atuado na área da publicidade.

“Jornalismo foi o meu caminho natural para a literatura. Estudava no ginásio em Alagoinhas e eu ousei pedir ao dono do jornal para publicar um artigo. Já era um começo via literatura, porque esse artigo era sobre o maior biógrafo de Monteiro Lobato, Edgard Cavalheiro, escrito no dia de sua morte, em 30 de junho de 1958”, relatou. A partir daquele momento, o dono do Alagoinhas Jornal lhe franqueou o espaço que lhe oportunizou conhecer e trabalhar no Jornal da Bahia, com nomes como Adroaldo Ribeiro Costa, Ariovaldo Mattos e João Carlos Teixeira Gomes, o Pena de Aço. “Ali eu começava a minha primeira faculdade de jornalismo e de literatura, já que em 1959 não existia faculdade de jornalismo”, lembrou.

Ele conta que encontrou dificuldade, devido ao seu estilo mais literário, para escrever segundo pedia o jornalismo diário. Até que um livro lhe ensinou a responder às famosas perguntas que compõem a primeira parte de uma notícia – O Quê? Quem? Quando? Onde? Por quê? e Como?. “Eu aprendi que você tem que responder isso para tudo”, brincou. Depois de um ano trabalhando no Última Hora, Torres foi convidado para trabalhar em publicidade. “Minha primeira escola foi o jornalismo, a segunda foi a publicidade. O jornalismo me ensinou a ver o mundo e a publicidade me ensinou a contar isso rapidinho. É a síntese da minha história”, conclui o escritor.

A jornalista e escritora Aline D´Eça trouxe sua experiência como autora de livro-reportagem, ao relatar o processo de construção de Filhos do Cárcere, uma obra que teve origem em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e que traz a perspectiva de filhos e filhas de mulheres encarceradas. A baiana de Nazaré das Farinhas refletiu sobre as relações entre jornalismo e literatura, suas diferenças e semelhanças, além de estabelecer paralelos com estudos da área da psicologia. A experiência com a reportagem que originou o livro despertou em Aline a vontade de deixar a carreira jornalística e estudar psicologia analítica. “O jornalismo literário tem muito a ver com a psicologia, porque se propõe a um mergulho na realidade, para retratá-la para aqueles que não conhecem”, explicou.

Ela recorreu aos ensinamentos do professor Edvaldo Pereira para dizer que o livro reportagem é, muitas vezes, fruto da inquietude do jornalista, que tem algo a dizer com profundidade, mas não encontra espaço para fazê-lo na imprensa cotidiana. “Apesar de eu não ter visto quase nada sobre jornalismo literário na faculdade, estudei por conta própria. O que a gente faz? Utiliza recursos como observação, descrição, narração, uso de símbolos e de metáforas, para tornar o texto mais atraente”. Aline ressalta que o jornalismo literário dá ao repórter a oportunidade de captar não só a realidade concreta dos fatos, mas também a realidade emocional das personagens envolvidas naquela história. “O jornalismo literário preenche o vazio de profundidade deixado pelo furo jornalístico, pela ânsia por notícias efêmeras”, analisou.

Embora não haja no jornalismo diário espaço físico para a publicação desse tipo de texto, Aline D’Eça defende que existe interesse dos leitores por algo que vai além do que chamou “fast-food jornalístico”. A autora destacou diferenças entre as atividades. “É possível ficcionar o jornalismo literário? Eu diria que é perigoso. Mas essa construção pode ter base numa apuração detalhada, entrevistas criteriosas, exaustivas, com bastante documentação. A partir daí a gente pode chegar próximo do real, recriar cenas e ambientes que estão por trás da notícia. O que não se pode em jornalismo é inventar. Colocar no texto algo que esteja distante do real. Isso não é jornalismo, é ficção”, advertiu.

Humanização de narrativas

Foi em busca da humanização dos relatos que Aline decidiu escrever o livro-reportagem. “Queria descrever os cheiros, as cores, as emoções, e não somente me ater aos números. Infelizmente estamos hoje vivendo uma realidade que os números nos assustam, mas não nos dá profundidade de todas as histórias por trás dos números”, disse, em referência à pandemia provocada pelo coronavírus. “O jornalismo literário busca preencher esse vazio de sensibilidade. E aqui está a diferença entre o jornalismo e a ficção. O jornalismo literário tem o estilo semelhante à literatura, mas traz histórias reais”, afirmou.

Autor de 17 livros, entre obras acadêmicas e livros direcionados ao grande público, o jornalista Edvaldo Pereira Lima também ressaltou a necessidade de humanizar as narrativas e estimular um mergulho mais profundo na realidade, levando a população a transformar a sua consciência, o seu nível de entendimento do real e de ação.

“Neste momento em que a ciência está trazendo comprovadamente novos modelos de compreensão da realidade e novos modelos que nos trazem os instrumentos de transformação da sociedade para melhor, é um dever da literatura e do jornalismo se reciclarem e acompanharem esse progresso”, indicou. Segundo ele, é preciso praticar a narrativa de profundidade, que traga a capacidade de alavancar e estimular a mudança de percepção do leitor. “Você faz isso usando instrumentos narrativos centrados essencialmente no ser humano, não contando as histórias só apoiadas nos números e nos relatórios abstratos sobre a realidade”, aconselhou.

“E qual é a arte narrativa que está à disposição da literatura e do jornalismo? Uma arte que tem instrumentos de percepção e de expressão comprovados ao longo de milênios em todas as culturas e que se adapta e se moderniza, na medida em que novos achados e novas descobertas vão aparecendo. É a arte de contar histórias. Todos nós aqui temos em comum o amor e a paixão por contar histórias”, afirmou o escritor.

Saiba como foi o Simpósio

Quem perdeu as discussões do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, tem a oportunidade de assistir aos três dias de evento pelo Youtube da Academia de Letras da Bahia. A entidade, junto com a ABI, proporcionou uma noite memorável em defesa da democracia neste 7 de abril, Dia do Jornalista, durante a abertura do Simpósio. A primeira mesa discutiu os “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”, com as participações do jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Emiliano José, do professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e do professor-titular da Facom/UFBA, Wilson Gomes. A mediação ficou com a jornalista Jussara Maia, professora de Jornalismo do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Já a segunda noite do Simpósio, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. A mediação foi assumida pela jornalista Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da ABI.

  • Assista aos debates do Simpósio nos links abaixo:

Mesa I – “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”

Mesa II – “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”

Mesa III – “Jornalista e Literatura: Interfaces”

ABI BAHIANA

ALB e ABI promovem I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Duas atividades que se complementam, se entrecruzam e, diversas vezes, trocam de lugar. Duas formas de se contar histórias, cada uma com sua dose de verdade e sua apropriada medida ficcional. As confluências entre literatura e jornalismo serão debatidas durante o I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, evento promovido por meio de uma parceria entre a Academia de Letras da Bahia (ALB) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI). A abertura do Simpósio acontece no mesmo dia em que é celebrado o Dia do Jornalista, data instituída em homenagem ao médico, político e jornalista italiano radicado no Brasil, Libero Badaró. O evento será online e transmitido pelo canal do YouTube da ALB, nos dias 7, 8 e 9 de abril, das 18h às 20h.

“O Simpósio inaugura um esforço de aproximação entre duas entidades historicamente comprometidas com a promoção de cultura e da liberdade, e propõe reflexões importantes sobre os reflexos da conjuntura na vida de quem escreve, seja a escrita jornalística ou literária”, destaca o jornalista Ernesto Marques, presidente da ABI. No dia 7, ao lado do professor, antropólogo e atual presidente da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra, ele realizará a abertura do evento. Na sequência, terá início a mesa “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”. 

A Mesa I terá participação do jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), Emiliano José, do professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e do professor-titular de teoria da comunicação da Facom/UFBA, Wilson Gomes. A mediação ficará com Jussara Maia, pesquisadora e professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). 

“Tenho certeza de que vai ser um dos eventos mais importantes do nosso ano cultural. Em primeiro lugar, porque ele consagra a aliança entre essas duas instituições. Em segundo lugar, porque consagra um tema dos mais sérios, a liberdade de imprensa, o valor da produção literária que os veículos de imprensa transmitem para o povo”, ressalta o presidente da ALB, professor Ordep Serra.

De Machado de Assis a Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Oswald e Drummond, a imprensa sempre teve uma presença marcante na história de muitos escritores brasileiros, que enriqueciam as páginas dos jornais com seus artigos, críticas, crônicas e folhetins. Segundo o acadêmico, “a história da literatura baiana e brasileira é uma história que envolve a produção de extraordinários jornalistas”. Ele destacou, por outro lado, o feedback contrário. “Nossa literatura penetra nos jornais e volta deles para nós, escritores. Isso é importante no presente momento em que vemos tentativas de retorno a censura e não só tentativas, atos brutais de censura ameaçando os escritores, por isso convido a todos a participar desse Simpósio”, completa o gestor. 

A segunda mesa, programada para o dia 8 de abril, conta com a presença do jornalista e vice-presidente da Assembleia Geral da ABI, Sérgio Mattos, da jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Malu Fontes, e da escritora Kátia Borges. O tema será “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, com mediação da diretora do departamento de divulgação da ABI, a jornalista Simone Ribeiro. 

A mesa III, “Jornalismo e Literatura: interfaces”, terá participações do escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), da jornalista e escritora Aline D´Eça e do doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima. A jornalista e escritora Suzana Varjão assumirá a mediação.

Serviço:

I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 7, 8 e 9 de abril de 2021 das 18 às 20h 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)

>> Confira abaixo a programação completa:

Artigos

Antônio Maria, um jornalista boêmio na velha guarda

*Por Jorge Ramos

Em 17 de março de 2021 é o centenário de nascimento de Antônio Maria Araújo de Morais. Nascido em Recife ele foi jornalista, poeta, cronista, apresentador de televisão, produtor de programas humorísticos (foi quem lançou Chico Anysio), locutor esportivo, escritor, caricaturista, compositor (“Ninguém me ama” e outros sucessos) e sobretudo boêmio inveterado e namorador incorrigível. Por seus múltiplos talentos foi uma das figuras mais destacadas do cenário arístico e cultural brasileiro por mais de vinte e cinco anos. É considerado um dos maiores cronistas do Brasil.

Antes de ir o Rio de Janeiro ele morou na Bahia, de 1944 a 1947, período no qual Diretor Artístico, gerente, locutor esportivo e também apresentador de programas da Rádio Sociedade da Bahia, trazido pelo conterrâneo Odorico Tavares, diretor regional do conglomerado de imprensa “Diários e Emissoras Associadas” criado por Assis Chateaubriand. Aqui ele narrou jogos de futebol e também apresentou programas de auditório no estúdio da emissora, no Passeio Público.

Num desses programas, em que se apresentavam jovens aspirantes a cantor, ele deu a um molecote, de nome Oscar da Penha, candidato a sambista, o nome de “Batatinha”. Outra “figurinha carimbada” no mesmo programa era o jovem sambista, Clementino Rodrigues, já conhecido como “Riachão”. Nas poucas horas vagas ele ainda escrevia artigos no jornal “Diário de Notícias”.

Antônio Maria viveu com intensidade a vida boêmia da “Velha Bahia”, percorrendo à noite os cabarés da cidade, fosse o elegante “Tabaris” (onde, diziam, tinha uma mesa reservada) ou os modestos mas animados botequins do Cais do Porto, terminando sempre as noitadas em mercados e feiras, em meio a feijoadas e outras delícias da culinária baiana, que ele adorava! Antônio Maria conhecia e frequentava alguns dos principais terreiros de candomblé de Salvador.

Em 1946 com o fim da Ditadura do “Estado Novo” e o início da redemocratização do país, ele se candidatou a vereador em Salvador. Achou que só o prestígio era suficiente e não fez campanha. Teve uma votação pífia ! Contrariado, no ano seguinte aceitou finalmente um antigo convite de Chateaubriand para ser Diretor Artístico da Rádio Tupi e se mudou para o Rio de Janeiro, onde faria uma carreira de sucesso.

Durante toda a vida escreveu crônicas em jornais e revistas, destacando-se pela leveza, ironia, humor e ternura contida em seus textos de abordagem de fatos do cotidiano que transformava em peças literárias.

Na revista Manchete escreveu várias crônicas sobre o período em que morou na Bahia, rememorando fatos e personagens que marcaram aquela época. Destaco aqui o trecho de uma delas, em que ele lembra de dois lendários comícios na Praça da Sé, na época o principal local de manifestações políticas em Salvador, como é atualmente o Campo Grande.

O primeiro comício foi da UDN, partido conservador, que fazia cerrada oposição a Getúlio Vargas, o ditador recém-deposto pelos militares. Dividiram o mesmo palanque dois antigos adversários: Octávio Mangabeira (que nessa campanha seria eleito governador) e o ex-interventor Juracy Magalhães. O outro comício, do PCB, reuniu o candidato do Partido a Presidente da República, o engenheiro Yedo Fiúza e o líder comunista Luis Carlos Prestes, além de comunistas baianos como Carlos Marighela e Giocondo Dias.

No relato deste comício é citado o orador popular “Jacaré”, que todas as tardes em cima de um caixote fazia discursos na Praça Municipal, sempre com uma platéia barulhenta a assistir. Ele interrompeu o discurso de Prestes para “anunciar” o apoio do ex-governador J.J. Seabra (falecido já quatro anos !), ao candidato do Partido Comunista Brasileiro. Provocou gargalhadas na platéia, claro !.

Texto da crônica :

“Como speaker (locutor) de rádio, tomei parte nos maiores comícios que a Bahia já assistiu em toda a sua vida. Inesquecível aquela chegada de Juraci (Magalhães) e (Octávio) Mangabeira, de mãos dadas, odiando-se cordialmente, atravessando a Rua da Misericórdia (caiam rosas de todas as janelas !), os dois sorriam a acenavam para o povo, enquanto a praça se dividia entre dois bandos irreconciliáveis: juracisistas e autonomistas. O último discurso terminou às 3 e meia da manhã e ninguém tinha arredado pé da pé da praça (da Sé). Dois minutos antes de chegar a sua vez, Mangabeira disse ao meu ouvido: “eu quero espaço” e, andando de um lado para o outro, com um magnífico domínio das mãos e do olhar, falou durante duas horas contra o senhor Getúlio Vargas.

Vi, depois em outro comício, a chegada de Luiz Carlos Prestes à Bahia. Era o herói de uma história em quadrinhos, mostrado ao público pela primeira vez após longo período na prisão.. Os comunistas organizaram cenas emocionantes, como a daquela mulher de 80 anos, descalça, que veio de mansinho, olhou para Prestes e perguntou: ”Capitão, posso chorar ?”. E caiu nos braços do chefe comunista, debulhada em lágrimas, trepidando em soluços. Prestes largou aquela sua fala de campanha. Yedo Fiúza, candidato comunista a Presidente da República. atacando o latifúndio e apontando a cura da inflação na luta contra a importação do que ele chamava de bugigangas, no plantio da terra e no auxílio à indústria nacional. A praça ouvia transida, num silêncio que inquietava o palácio do Arcebispo, a estátua do bispo Sardinha e o oitão da Catedral Basílica. Foi quando “Jacaré”, discurseiro popular que entrará nesse relato da Bahia, pediu um aparte. Prestes calou-se e ouviu : “Capitão, eu vos trago o apoio integral de Seabra”. Naquele instante, as cinzas de José Joaquim Seabra se conflagraram, tremeram, mas era tarde para cassar a procuração dada a “Jacaré”. De noite, em função jornalística dos Diários Associados, conversava com Pestes e ele me disse que estava muito animado com a solidariedade de Seabra.”

Antonio Maria morreu jovem, aos 43 anos. Obeso, levava uma vida desregrada, sendo um emérito bebedor de whisky e apreciador voraz de bons pratos, além de varar as noites em bares e buates. Fulminado por um infarto fulminante, caiu na rua em Copacabana, bairro onde morava e cenário de muitas de suas crônicas.

*Jorge Ramos é jornalista e pesquisador. Atualmente integra a Diretoria da Associação Baiana de Imprensa, ocupando o cargo de Diretor do Museu Casa de Ruy Barbosa.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).