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Em 280 caracteres, você pode falar sobre qualquer assunto?

I’sis Almeida e Joseanne Guedes

Estar atualizado sobre as notícias que acontecem em todo mundo, antes, só era possível através dos jornais impressos e televisivos, e ainda, das revistas. Este cenário mudou quando, através da globalização, o jornalismo passou a estar também na internet e nas redes sociais. Lançado em 2006, o Twitter foi uma das novidades nas redações jornalísticas e, ao longo de sua existência, exerceu papel importante na política internacional e também na imprensa. Cada vez mais jornalistas mergulham nessa espécie de vocação jornalística do Twitter e usam a plataforma de diversas maneiras, seja para dar informações em primeira mão, encontrar fontes ou acompanhar a repercussão de um fato. 

Ao acionar o botão para “tweetar”, a pergunta “What’s happening?” – O que está acontecendo? – já traz a noção de atualidade, evidenciando o seu caráter instantâneo. A rede social, que já possui 340 milhões de usuários ativos mensais e conta com 100 milhões de usuários ativos diariamente, tem cerca de 500 milhões de tweets enviados por dia. Atualmente, o Twitter tem 14,1 milhões de usuários brasileiros cadastrados na plataforma, o que corresponde a pouco mais de 4% de seu total de usuários. A projeção é de que esse número aumente para 18,6 milhões até 2026. Em um ranking realizado pelo portal online Statista, o Brasil ocupa a 5ª posição de países que possuem uma audiência extremamente ativa e engajada na plataforma, ficando para trás somente de Estados Unidos (1º), Japão (2º), Índia (3º) e Reino Unido (4º). 

Em abril de 2021, o Twitter foi apontado como a rede social mais usada por profissionais da imprensa e também a mais valiosa para eles. A pesquisa “The State of Journalism” ouviu aproximadamente três mil jornalistas em todo o mundo e foi realizada pela plataforma norte-americana Muck Rack, que conecta jornalistas e profissionais de comunicação corporativa de empresas e agências. (Veja o estudo aqui). 

Entre outras informações apontadas pela pesquisa, uma delas é a de que jornais e revistas online são a principal fonte de conteúdo para os jornalistas. A segunda, de acordo com os entrevistados, é o Twitter. A preferência pela rede social ultrapassa, inclusive, as TVs e jornais impressos. Embora seja a rede social predileta dos profissionais da imprensa, para as mulheres o Twitter se revelou um perigo. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Anistia Internacional. 

Após uma análise de quase 15 mil tweets, a Anistia Internacional divulgou o relatório, onde descreveu a rede como “lugar tóxico para as mulheres”. De acordo com a pesquisa, cerca de 7% dos tuítes que mulheres do governo e do jornalismo receberam foram considerados problemáticos ou abusivos. Mulheres negras foram mencionadas em tweets problemáticos 84% a mais do que mulheres brancas. (Saiba mais)

Quais são as características da rede social cujo logotipo é um pássaro azul e o que a faz tão querida pelos profissionais da imprensa? Como funciona a plataforma e seu algoritmo? Quais as vantagens e desvantagens do Twitter para o jornalismo mundial e brasileiro? Essas são algumas das perguntas que, por meio desta reportagem com fontes especializadas, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) tentará responder. 

“Algoritmos são caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições”

Moisés Costa é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele explica que “algoritmos são como caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições (inputs e outputs)”, afirma. “Às vezes, mesmo as plataformas não sabem como seus próprios algoritmos funcionam direito”, constata o pesquisador. 

O Twitter sempre teve uma característica de instantaneidade em seu feed. A vantagem da rede social para o jornalismo, segundo Moisés, seria conseguir uma aproximação com sua audiência, em uma rede onde usuários tendem a consumir mais informações jornalísticas. Para os jornalistas, segundo o pesquisador, as possibilidades são um pouco mais amplas. “Vão desde estar informado em primeira mão, produzir reportagens a partir dele, até ampliar a ressonância do seu trabalho para o público”.

Sue Coutinho, autora de “Puxe Uma Conversa”, livro que elucida a comunicação na contemporaneidade com foco em marketing consciente e slow content, conta que através de redes sociais como o Twitter você pode “salvar um pequeno vilarejo através de doações de alimentos ou incitar o ódio àquela comunidade”. Coutinho é aluna do curso de MBA em Branding, Marketing & Growth da PUC e já palestrou para organizações como a YouPIX e SocialGood Brasil.

De acordo com a escritora, a facilidade em publicar uma notícia de forma rápida, prática e, às vezes, viral, é o que faz o Twitter ser o mais querido entre os jornalistas. “Você pode usar para compartilhar seus pensamentos aleatórios ou subir uma hashtag para expor uma situação que ninguém saberia se não estivesse alí”, salienta Coutinho. 

Usos jornalísticos

Não é novidade que as redes sociais vêm contribuindo para transformar a prática jornalística e, assim, atender a um consumidor que passou a requerer um jornalismo mais interativo, participativo e dinâmico. Victor Pinto é usuário da plataforma desde 2009. Ele é apresentador de rádio na Piatã FM e Excelsior AM, editor do BNews, colunista da Tribuna da Bahia e da Rádio Câmara Salvador. Muito da sua bagagem jornalística foi construída, segundo ele, através do uso do Twitter. “Quando acontece qualquer fato, vou primeiro no Twitter”, admite. 

Victor exemplifica casos de coberturas locais onde a rede social foi sua primeira fonte de informação, como o caso da explosão da fábrica de fogos de artifício na cidade de Simões Filho (BA). “Quando ouvi o boato no WhatsApp – e chamo de boato porque a gente não tinha a informação concreta -, rapidamente corri para o Twitter e lá já tinha gente de Simões Filho comentando sobre o assunto. Então, eu falei: ‘olha, tem alguma coisa acontecendo mesmo, pois os moradores de lá já estão twittando”, conta o editor do BNews

De acordo com o jornalista, a plataforma possui algumas potencialidades e para ele, são elas as que propiciam ao jornalista uma facilidade para encontrar informação. A primeira potência seria a de propagar o produto. Segundo Victor, seja por vídeo, texto, foto, ou um link publicado, existe no “TT”, “a potência do viral” chama a atenção. “Às vezes até um vídeo  ou uma cobertura independente que o jornalista faz e viraliza, sem necessariamente está vinculado a um veículo de comunicação, acontece”, explica.

O jornalista Rafael Santana é roteirista, editor e apresentador do podcast Pele Preta em Salvador, além de repórter do site Ge.globo. Ele usa sua conta no Twitter para publicar conteúdos pessoais e profissionais. “Acredito que este seja o maior desafio porque, por mais que a conta seja pessoal e de minha responsabilidade, eu estou vinculado à empresa para a qual trabalho, já que a minha audiência acompanha parte do meu trabalho”, reflete.

O podcaster conta que tenta mesclar o tipo de conteúdo que publica: nem só pessoal, nem só profissional. “Leva tempo para que você consiga construir aquilo que realmente quer passar para as pessoas que te seguem, às vezes, você se sente intimidado a não deixar transparecer suas opções políticas ou clubísticas, no meu caso, que trabalho com futebol”, observa.

Desvantagens 

O Twitter não está imune às notícias falsas. Victor Pinto costuma afirmar que na mesma velocidade em que as informações são propagadas no Twitter, as notícias falsas também são. “Não tem muito filtro e acaba virando uma miscelânea”, adverte o editor do BNews. 

No dia 23 de novembro de 2020, a plataforma adotou medidas para combater informações falsas. Na data, a rede social anunciou que emitiria um alerta que seria exibido ao curtir tweets com conteúdos enganosos. De acordo com o Twitter, os alertas são mostrados ao curtir posts que foram sinalizados por haver alguma informação enganosa sobre a pandemia do novo coronavírus, sobre as eleições e outros assuntos. (Veja aqui).

Em janeiro deste ano, outra medida surpreendeu a todos. Prestes a deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos, Donald Trump teve o seu perfil oficial banido da plataforma. Ele foi o primeiro político do país a ser retirado permanentemente da rede social. No dia 8 de janeiro de 2021, o Twitter  publicou um longo comunicado onde explica sobre a decisão de excluir a conta do ex-presidente. (Acompanhe o caso)

“Para quem se interessa em conversar com pessoas, entender o que elas pensam sobre o seu trabalho e sobre determinado tema, o Twitter é a ferramenta perfeita. A desvantagem está nos ataques, nesses tempos de ódio em que vivemos, e na confusão entre o pessoal e o profissional”, destaca Rafael Santana, editor e apresentador do podcast Pele Preta. 

Nas redações

Moisés Costa e Victor Pinto concordam que um dos problemas para os veículos noticiosos relacionados com o uso do Twitter é sua alimentação. Nem sempre as redações possuem equipe suficiente para administrar todas as redes sociais e a consequência disso é que alguns perfis acabam se tornando apenas repositórios das notícias dos portais online. Não há interação com o público e perde-se a oportunidade de colher os benefícios das potencialidades da plataforma. 

“Usá-lo apenas como repositório de links é subutilizá-lo”, aponta Costa. Com um pouco de imaginação, segundo ele, é possível fazer coisas interessantes e até inovadoras com a ajuda do Twitter. Entretanto, é sempre importante planejar a presença e atenção que será dispensada à plataforma. “Tudo deve ser pensado a partir do seu público. Usar métricas de analytics do seu site pode ajudar a compreender o público do Twitter e, com isso, pensar em qual é o melhor conteúdo a ser postado, bem como deve interagir com seus usuários”, aconselha. O especialista afirma que é importante ter uma coisa em mente: cada rede social digital necessita de um tipo diferente de atenção. 

Para Victor, a carência de equipe nas redações é fator preponderante para que, em alguns casos, o Twitter sirva somente de repositório das notícias dos veículos. “Faço essa crítica não só olhando pelo Bnews, mas pelos outros veículos também que só usam como o ‘vai’”, brinca. “É como se você tivesse transmitido na televisão ou no rádio, como antigamente. Você transmite, mas não tem o feedback”, critica. 

Na avaliação do jornalista, o que complica a interação para utilizar a plataforma é a engenharia da produção da notícia de cada redação e de cada empresa. “Geralmente, acaba-se reservando as grandes equipes para a redação, ou seja, para construção da notícia, e consequentemente, tem-se um pequeno núcleo que cuida de rede social”, explica Victor.

Bons exemplos na Bahia

De acordo com Moisés, “há exemplos interessantes de uso do Twitter, como na Rede Bahia, que coloca postagens dos espectadores em seus telejornais”, conta. “Isso traz a audiência para dentro do jornalismo, em uma das interfaces que alguns chamam de ‘jornalismo colaborativo’, onde o cidadão participa da construção de notícias”, explica. Portanto, o Twitter é uma das redes sociais digitais com maior facilidade para esse tipo de colaboração.

Rafael Santana exemplifica o Tempo Real dos Jogos do Ge. “Através do sistema interno do site, é possível cadastrar uma hashtag específica para que, quando os repórteres do grupo publique um tweet, ele seja reproduzido automaticamente no Tempo Real. 

Victor cita uma personalidade do jornalismo que considera ser destaque no Twitter. “Para mim, Mônica Bergamo é o padrão Twitter de jornalismo. A gente brinca que tudo está tranquilo somente se Mônica não publicou nada em caixa alta no TT”. “A caixa alta dela no Twitter é como o plantão da Globo para os jornalistas”, brinca. 

As expectativas para o futuro e o sentido do “TT”

Em 2011, a pesquisadora Raquel Recuero publicou o artigo “Deu no Twitter, alguém confirma?” publicado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). O artigo buscava discutir as funções emergentes do jornalismo a partir de um estudo de dois casos no Twitter: as notícias relacionadas à morte da cantora Amy Winehouse, em julho de 2011, e os atentados de Oslo, da mesma época. 

A análise considerou o capital social gerado e dividido pela rede social presente na ferramenta, discutindo as funções de credibilidade, legitimação e filtragem das informações publicadas. Nesse artigo, sem esgotar o tema, Recuero conclui que, na época, “ao contrário do que muitos especulavam, o jornalismo enquanto instituição, com concessões de valores que foram elaboradas na mídia de massa, continuavam persistentes na mídia digital”.

Hoje, com os avanços das ferramentas e as mudanças nas plataformas, muitos jornalistas tornaram-se alvo de confiança do público, processo que Raquel chama de legitimação. 

Em um texto publicado por Sue Coutinho em seu blog, a escritora reflete sobre as influências da rede social na comunicação e sociedade em geral. “O Twitter vem passando por algumas mudanças nos últimos 5 anos, que é a presença cada vez mais notável de opiniões diversas e a possibilidade dessas opiniões virarem algo maior. Bem maior”, considera o texto. 

“De eleições a grupos sociais politicamente organizados, o Twitter se tornou ferramenta fundamental de escuta e de fala”, afirma a escritora, em “O futuro está a 260 caracteres de distância?”. Atualmente a rede social permite a escrita em 280 caracteres em quase todos os idiomas. Antes eram 140, depois 260.  A explicação para o ícone ser um pássaro azul, assim, faz bastante sentido. O símbolo é uma ave porque a expressão “tweet” é equivalente, em inglês, à palavra “piu”. De acordo com algumas interpretações, podemos entender tweet também como “jogar conversa fora”, “bochichar”. Todas essas compreensões dão margem para o entendimento de que o sentido do símbolo está altamente relacionado com seu propósito, ou seja, com poucos caracteres, você pode falar qualquer assunto, ou pelo menos, quase todos.

Quer conhecer mais sobre o Twitter? Acesse o Glossário autoral da plataforma!

https://help.twitter.com/pt/glossary
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Primeiro e-book de Emiliano José resgata memórias do jornalismo

Exatamente dois anos após o início da publicação das crônicas diárias que compõem a série #MemóriasJornalismoEmiliano, em sua página no Facebook, o escritor, jornalista e professor Emiliano José lança, dia 11 de maio, o primeiro volume desse baú que envolve lembranças dele e de vários colegas de profissão, reproduzindo sobretudo os bastidores do jornalismo no período da ditadura militar. “Balança mas não cai: Memórias do jornalismo Vol.1” retrata os primeiros passos do autor após quatro anos de prisão política, a descoberta como repórter, o acolhimento pelas redações da Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia, os tantos “cúmplices” que encontrou pelo caminho.

O livro, 16º da carreira e primeiro no formato virtual, já está liberado para pré-venda na Amazon. O lançamento, entretanto, será com a live “Balança mas não cai”, dia 11 de maio, às 20h, no Youtube do também jornalista e escritor Franciel Cruz (clique aqui), autor do livro “Ingresia”. O evento conta com a participação de diversos jornalistas e profissionais envolvidos com a obra, como Mônica Bichara, jornalista autora do prefácio; o fotógrafo Agliberto Lima, Bel, autor da foto da capa; Ernesto Marques, presidente da ABI; Moacy Neves, presidente do Sinjorba; Gabriel Galo, escritor e responsável pela diagramação do livro; o sociólogo Crisóstomo de Souza; os jornalistas Césio Oliveira, Zeca Peixoto, Carlos Navarro, Cleidiana Ramos, Joana D’Arck e outros.

“Esse livro tem um sabor especial de recomeço, por ser o primeiro e-book, um mundo que eu ainda não domino. Mas por onde vou caminhar, a partir de agora, lado a lado com o impresso”, admite Emiliano José, autor de títulos como “Lamarca, o capitão da guerrilha” (este em coautoria com o jornalista Oldack Miranda) e “Carlos Marighella: o inimigo número um da ditadura militar”. Mais novo imortal da Academia de Letras da Bahia, lançou recentemente “O cão morde a noite”, pela Edufba, também autobiográfico, relembrando da infância aos terríveis quatro anos de prisão política.

Rumo da prosa

Na introdução, ele anuncia: “Nesse primeiro livro, sou o protagonista. Digo com franqueza: prefiro os meus colegas, os meus parceiros, minhas parceiras de jornada. Confiem: logo depois desse livro, virão outros, com histórias maravilhosas, personagens novos, eu só escrevendo, olhando, de soslaio. Por enquanto, contentem-se com os primeiros passos de minha trajetória. Vou torcer para uma boa leitura nesse novo caminho, o do livro digital. Não está descartada a hipótese do impresso, paralelamente”.

Transformar os artigos da série em livros foi sugestão de vários seguidores do perfil do escritor, diante de verdadeiras biografias de profissionais que marcaram e marcam o jornalismo baiano. Apaixonado por contar histórias e descobrir bons personagens, Emiliano José intercala suas próprias memórias com as de outros protagonistas. Por isso, as crônicas têm sequências diferentes de datas. E estão só começando. O autor tem muito que revirar ainda os subterrâneos de sua vivência nas redações, na faculdade como aluno e professor, na política como deputado estadual e federal, no mundo literário, sem deixar, nem por um minuto, de ser o repórter atento que sempre foi.

“O jornalismo tornou-se minha droga, meu vício, paixão…”, confessa o escritor ao longo da narrativa. E isso fica bem claro com essa série #MemóriasJornalismoEmiliano, que despertou o interesse dos colegas de profissão e seguidores da página no Facebook. Tanto que os comentários foram integrados à edição de “Balança mas não cai”, pela importância das contribuições, algumas decisivas para “o rumo da prosa”. E fotos da época que também foram chegando, como a da capa de autoria do repórter fotográfico Agliberto Lima, que retrata Emiliano na redação da extinta sucursal do jornal O Estado de São Paulo.

O prefácio de “Balança mas não cai” é da jornalista Mônica Bichara, do Blog Pilha Pura (https://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/), onde as crônicas da série estão sendo reproduzidas no formato mantido no livro, incluindo fotos e comentários. A capa e design gráfico são do também escritor Gabriel Galo.  

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Sinjorba e IBGE promovem curso sobre dados estatísticos e acesso à informação

O Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia (Sinjorba) completou 70 anos no último sábado (17). Foi em 17 de abril de 1951 que o Ministério do Trabalho concedeu ao Sinjorba a carta sindical, documento oficial que reconhece à organização a condição de sindicato. O ato oficial é um marco na história da entidade, que ao longo dos anos enfrentou os desafios em defesa da profissão. Desde 2019, a gestão presidida por Moacy Neves visa empreender esforços na realização de atividades que envolvam os profissionais do setor. Neste mês comemorativo – tanto ao Dia do Jornalista quanto ao aniversário da entidade -, o Sinjorba vem realizando diversas atividades voltadas para a capacitação da categoria.

Uma delas é a ação promovida pelo Sinjorba em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No dia 24 de abril, das 9h às 12h30, as entidades realizarão o curso “O IBGE e suas Principais Pesquisas – Fonte de Dados Estatísticos”. A iniciativa é gratuita e voltada para jornalistas que atuam em redação de veículos de comunicação ou em assessoria. De acordo com o Sinjorba, o curso “tem como objetivo oferecer um treinamento sobre a interpretação de dados e o acesso às plataformas públicas de informação da instituição”.

O IBGE possui um banco extenso de informações e dados sobre o Brasil, “mas muitos jornalistas simplesmente ainda não acessam este repertório ou não sabem como fazê-lo da maneira mais objetiva”, defende o Sinjorba. Com o curso, os inscritos terão acesso a ferramentas e capacitação que lhes permitirão acessar os dados do IBGE como fonte para suas matérias.

O programa do curso inclui informações gerais sobre o IBGE e suas principais fontes de dados estatísticos econômicos e sociodemográficos (Censo), uma visita ao site do Instituto (https://www.ibge.gov.br), aula sobre o Sistema SIDRA (https://sidra.ibge.gov.br) e exercícios práticos. A capacitação terá emissão de certificado a todos participantes. São 40 vagas para a primeira turma. Faça sua inscrição aqui.

Live comemorativa

De acordo com o site da entidade, “o Sinjorba vive um momento de retomada de ação após as dificuldades advindas das mudanças no setor de comunicação, da crise de vagas de emprego para jornalistas e da demora do movimento sindical em compreender as transformações no mundo do trabalho e no perfil da categoria, bem como suas implicações sobre os sindicatos”. Hoje, 19 de abril, às 19h30, em comemoração aos 70 anos do sindicato, será realizada a roda de conversa online “Sinjorba 70 anos, experiências e vivências”, com seis ex-presidentes da instituição. Carlos Navarro, Raimundo Lima, Heloísa Gerbasi, Jorge Ramos, Alberto Freitas, Kardé Mourão e Marjorie Moura compõem o encontro transmitido pelo canal do YouTube do Sinjorba.

ABI BAHIANA

Debate sobre interfaces entre jornalismo e literatura encerra simpósio promovido por ALB e ABI

O que o jornalismo tem a ver com literatura, além do óbvio pertencimento de ambos ao campo das letras? O que literatura tem a ver com fatos, com realidades? Quais são os limites e as especificidades de um gênero e de outro? Com essas provocações, a premiada jornalista e escritora Suzana Varjão esquentou a mediação da mesa “Jornalismo e Literatura: Interfaces”, que encerrou o I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, na noite desta sexta-feira (9). O evento, realizado desde o dia 7 pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e pela Academia de Letras da Bahia (ALB), reuniu escritores, acadêmicos, pesquisadores, jornalistas e profissionais de diversos campos do conhecimento, dispostos a conversar sobre as confluências e aproximações entre o fazer jornalístico e a literatura.

O último debate do Simpósio foi protagonizado pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça, autora do livro-reportagem Filhos do Cácere (Edufba), e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

Ernesto Marques, presidente da ABI, deu boas-vindas ao público, com uma reflexão sobre o momento atual vivido no Brasil. Ele falou da esperança de que o próximo simpósio realizado pelas entidades encontre outro ambiente. “Desejo que já não seja necessário fazer a exortação, a defesa da democracia, a nossa pregação contra o obscurantismo, feita reiteradamente pelo professor Ordep”, ressaltou. O jornalista também comentou sobre as dificuldades impostas pela pandemia, como a impossibilidade de realizar eventos presenciais. “Que possamos nos reunir no auditório, claro, sem prejuízo de ampliar essas páginas digitais e levar o conteúdo para quem, em outras partes do País ou do mundo, possa se interessar em participar. Esse evento tem nos proporcionado noites ricas de conteúdo e aprendizado”, avaliou.

Marques aproveitou para lembrar que neste sábado, 10, acontece o lançamento do Site Walter da Silveira, com transmissão ao vivo pelo Youtube da ABI. O espaço compartilha com o público uma parte consistente do acervo do militante político, professor, historiador, cineclubista, ensaísta, advogado e um dos mais importantes críticos de cinema brasileiro.

O presidente da ALB, professor Ordep Serra, agradeceu a presença do público e também reiterou a continuação da parceria com a ABI. “Estamos dispostos a fazer o segundo Simpósio e vamos ter outras iniciativas que vão consolidar nossa aliança”, garantiu. Para ele, o evento é uma oportunidade de pensar, de refletir, sobre aspectos importantes do ponto de vista social. “É uma alegria começarmos a terceira noite desse simpósio. Mais uma festa da inteligência, para interromper, nem que seja por um trecho da noite, a dor e a preocupação que acomete a todos nós, vítimas de um genocídio. Porque a pandemia já tomou, no Brasil, essa dimensão sinistra de um genocídio, realizado com absoluta crueldade por um governo federal que não se respeita”, criticou.

A mediadora Suzana Varjão, pesquisadora baiana e autora de cinco livros, disse da satisfação em assumir o papel de intermediar o intercâmbio de ideias, diante da qualidade da mesa composta por três intelectuais brasileiros. “Trata-se hoje de uma conversa sobre a palavra. O que significa dizer sobre um poderoso instrumento de construção de mundo. Sim, porque palavra é coisa muito séria. Afeta, legítima, gera realidades. Não obstante o ceticismo, ou mesmo inocência de alguns, palavras não são neutras, não são puras, não são acéticas. Carregam valores que são repassados para todo e qualquer sistema por mais operacional que seja”, situou.

“Vamos falar então sobre um lugar do jornalismo que eu poderia definir de uma maneira mais rudimentar como processo de coleta e investigação, análise e transmissão de informações. Vamos falar sobre o lugar da literatura, que se pode descrever de modo elementar como uso estético da linguagem, mas vamos falar também sobre lugares ou entrelugares, que são as interfaces”, provocou a jornalista. “Literatura é sinônimo de ficção? E jornalismo é sinônimo de relatório, de reprodução, reflexo?”, questionou.

Contando histórias

Membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a cadeira número 9, na sucessão a João Ubaldo Ribeiro, e da Academia Brasileira de Letras, o escritor Antônio Torres narrou a sua chegada ao jornalismo. O autor da trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, entre outras obras, iniciou a sua carreira como repórter do Jornal da Bahia, cujo fundador foi João Falcão. Como bom contador de histórias que é, Torres contou desde a sua primeira crônica publicada no Alagoinhas Jornal, que saía uma vez por mês no município baiano, até a sua transferência para o diário Última Hora, de São Paulo, tendo posteriormente atuado na área da publicidade.

“Jornalismo foi o meu caminho natural para a literatura. Estudava no ginásio em Alagoinhas e eu ousei pedir ao dono do jornal para publicar um artigo. Já era um começo via literatura, porque esse artigo era sobre o maior biógrafo de Monteiro Lobato, Edgard Cavalheiro, escrito no dia de sua morte, em 30 de junho de 1958”, relatou. A partir daquele momento, o dono do Alagoinhas Jornal lhe franqueou o espaço que lhe oportunizou conhecer e trabalhar no Jornal da Bahia, com nomes como Adroaldo Ribeiro Costa, Ariovaldo Mattos e João Carlos Teixeira Gomes, o Pena de Aço. “Ali eu começava a minha primeira faculdade de jornalismo e de literatura, já que em 1959 não existia faculdade de jornalismo”, lembrou.

Ele conta que encontrou dificuldade, devido ao seu estilo mais literário, para escrever segundo pedia o jornalismo diário. Até que um livro lhe ensinou a responder às famosas perguntas que compõem a primeira parte de uma notícia – O Quê? Quem? Quando? Onde? Por quê? e Como?. “Eu aprendi que você tem que responder isso para tudo”, brincou. Depois de um ano trabalhando no Última Hora, Torres foi convidado para trabalhar em publicidade. “Minha primeira escola foi o jornalismo, a segunda foi a publicidade. O jornalismo me ensinou a ver o mundo e a publicidade me ensinou a contar isso rapidinho. É a síntese da minha história”, conclui o escritor.

A jornalista e escritora Aline D´Eça trouxe sua experiência como autora de livro-reportagem, ao relatar o processo de construção de Filhos do Cárcere, uma obra que teve origem em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e que traz a perspectiva de filhos e filhas de mulheres encarceradas. A baiana de Nazaré das Farinhas refletiu sobre as relações entre jornalismo e literatura, suas diferenças e semelhanças, além de estabelecer paralelos com estudos da área da psicologia. A experiência com a reportagem que originou o livro despertou em Aline a vontade de deixar a carreira jornalística e estudar psicologia analítica. “O jornalismo literário tem muito a ver com a psicologia, porque se propõe a um mergulho na realidade, para retratá-la para aqueles que não conhecem”, explicou.

Ela recorreu aos ensinamentos do professor Edvaldo Pereira para dizer que o livro reportagem é, muitas vezes, fruto da inquietude do jornalista, que tem algo a dizer com profundidade, mas não encontra espaço para fazê-lo na imprensa cotidiana. “Apesar de eu não ter visto quase nada sobre jornalismo literário na faculdade, estudei por conta própria. O que a gente faz? Utiliza recursos como observação, descrição, narração, uso de símbolos e de metáforas, para tornar o texto mais atraente”. Aline ressalta que o jornalismo literário dá ao repórter a oportunidade de captar não só a realidade concreta dos fatos, mas também a realidade emocional das personagens envolvidas naquela história. “O jornalismo literário preenche o vazio de profundidade deixado pelo furo jornalístico, pela ânsia por notícias efêmeras”, analisou.

Embora não haja no jornalismo diário espaço físico para a publicação desse tipo de texto, Aline D’Eça defende que existe interesse dos leitores por algo que vai além do que chamou “fast-food jornalístico”. A autora destacou diferenças entre as atividades. “É possível ficcionar o jornalismo literário? Eu diria que é perigoso. Mas essa construção pode ter base numa apuração detalhada, entrevistas criteriosas, exaustivas, com bastante documentação. A partir daí a gente pode chegar próximo do real, recriar cenas e ambientes que estão por trás da notícia. O que não se pode em jornalismo é inventar. Colocar no texto algo que esteja distante do real. Isso não é jornalismo, é ficção”, advertiu.

Humanização de narrativas

Foi em busca da humanização dos relatos que Aline decidiu escrever o livro-reportagem. “Queria descrever os cheiros, as cores, as emoções, e não somente me ater aos números. Infelizmente estamos hoje vivendo uma realidade que os números nos assustam, mas não nos dá profundidade de todas as histórias por trás dos números”, disse, em referência à pandemia provocada pelo coronavírus. “O jornalismo literário busca preencher esse vazio de sensibilidade. E aqui está a diferença entre o jornalismo e a ficção. O jornalismo literário tem o estilo semelhante à literatura, mas traz histórias reais”, afirmou.

Autor de 17 livros, entre obras acadêmicas e livros direcionados ao grande público, o jornalista Edvaldo Pereira Lima também ressaltou a necessidade de humanizar as narrativas e estimular um mergulho mais profundo na realidade, levando a população a transformar a sua consciência, o seu nível de entendimento do real e de ação.

“Neste momento em que a ciência está trazendo comprovadamente novos modelos de compreensão da realidade e novos modelos que nos trazem os instrumentos de transformação da sociedade para melhor, é um dever da literatura e do jornalismo se reciclarem e acompanharem esse progresso”, indicou. Segundo ele, é preciso praticar a narrativa de profundidade, que traga a capacidade de alavancar e estimular a mudança de percepção do leitor. “Você faz isso usando instrumentos narrativos centrados essencialmente no ser humano, não contando as histórias só apoiadas nos números e nos relatórios abstratos sobre a realidade”, aconselhou.

“E qual é a arte narrativa que está à disposição da literatura e do jornalismo? Uma arte que tem instrumentos de percepção e de expressão comprovados ao longo de milênios em todas as culturas e que se adapta e se moderniza, na medida em que novos achados e novas descobertas vão aparecendo. É a arte de contar histórias. Todos nós aqui temos em comum o amor e a paixão por contar histórias”, afirmou o escritor.

Saiba como foi o Simpósio

Quem perdeu as discussões do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, tem a oportunidade de assistir aos três dias de evento pelo Youtube da Academia de Letras da Bahia. A entidade, junto com a ABI, proporcionou uma noite memorável em defesa da democracia neste 7 de abril, Dia do Jornalista, durante a abertura do Simpósio. A primeira mesa discutiu os “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”, com as participações do jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Emiliano José, do professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e do professor-titular da Facom/UFBA, Wilson Gomes. A mediação ficou com a jornalista Jussara Maia, professora de Jornalismo do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Já a segunda noite do Simpósio, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. A mediação foi assumida pela jornalista Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da ABI.

  • Assista aos debates do Simpósio nos links abaixo:

Mesa I – “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”

Mesa II – “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”

Mesa III – “Jornalista e Literatura: Interfaces”