ABI BAHIANA

Abertura do II Simpósio resgata história da imprensa e literatura negra no Brasil

Larissa Costa*

Mais do que debater características jornalístico-literárias, a primeira noite do II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, nesta terça-feira (25), trouxe outra função inscrita na imprensa e na literatura: a memória. Discursos dotados de carga simbólica e representatividade racial marcaram a mesa “Mídia, história, literatura: marcas da exclusão”, com a participação da jornalista e pesquisadora Ana Alakija, do escritor, poeta e ensaísta Wesley Correia e do antropólogo e presidente da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra. A mediação ficou por conta da também antropóloga e jornalista, Cleidiana Ramos. A segunda mesa do evento, promovido pela Associação Bahiana de Imprensa e a pela Academia de Letras da Bahia, acontece hoje (26), às 18h30. 

A abertura foi feita pelos presidentes das duas instituições responsáveis pela organização do Simpósio. O jornalista e radialista Ernesto Marques, presidente da Associação Bahiana de Imprensa, celebrou a parceria entre as entidades, que se estende a outras instâncias da luta pela preservação da cultura e da memória baianas. “Esperamos que esse arco de aliança em defesa da cultura da Bahia, da memória, se amplie com a participação também de outras instituições igualmente importantes”. 

O jornalista recordou a atuação das entidades em defesa da Quinta do Tanque, também conhecido como Quinta dos Padres ou Solar da Quinta. O casarão histórico construído no século XVI abriga o Arquivo Público do Estado da Bahia, um dos maiores acervos da história. Marques pediu aos colegas da imprensa para que continuassem a pautar o debate nos veículos, a fim de que não se esqueça da importância do acervo. Ordep Serra fez coro ao pedido. “Com a ameaça que se faz a este arquivo está se ameaçando a memória do povo negro na Bahia. Documentos importantíssimos estão lá; essa barbárie não pode acontecer”, defende.

Na abertura da mesa, Cleidiana Ramos recordou Ana Alakija sobre um dos marcos de sua carreira: a entrevista com o Babalorixá Eduardo de Ijexá, que lhe narrou momentos onde praticava a língua iorubá sozinho, em frente ao espelho, para não se esquecer do idioma da família linguística nigero-congolesa. A pesquisadora possui um amplo histórico na luta pela preservação e redescobrimento da ascendência das famílias afro-brasileiras, como o Memorial Alakija, empreendimento iniciado pelo seu pai, o pesquisador George Alakija.

“É uma lembrança muito doce desse meu início como repórter do jornal A Tarde e que me levou para minha definição de perfil profissional”, lembra Ana Alakija. Ela conta que sua atuação foi marcada desde o começo por trazer como fontes personalidades que antes figuravam apenas como objetos da notícia. Para Ana, a ligação entre Eduardo de Ijexá e o seu espelho se assemelha à nossa relação social com as mídias e a imprensa. “A mídia é nosso espelho. O espelho, a nossa mídia”, comparou. 

Invisibilidade e exclusão

Em sua exposição, Alakija descreveu a história da imprensa baiana, que nasce negra, e sua atuação decisiva em defesa da população afro-brasileira, motivo pelo qual é chamada de “imprensa de advocacia”. “O que eu ofereço aqui é uma perspectiva de interpretação da imprensa baiana, com o reconhecimento da existência de uma forma de comunicação e expressão própria como contraponto ao pensamento hegemônico e histórico”, explica. 

Segundo a jornalista, a imprensa negra nasceu invisível para a historiografia e para setores dominantes da sociedade e assim permaneceu por muito tempo. “Essa imprensa [negra] pode ser definida como uma forma de comunicação social dos setores subalternos, excluídos da sociedade, por motivo de cor e classe”. Apesar de estar sob apenas um rótulo, a imprensa negra não foi algo uniforme, como provam os estudos citados pela pesquisadora. “Essa imprensa negra na Bahia iniciou e evoluiu com características diferentes de outros estados. Por exemplo, a imprensa em São Paulo buscou se organizar de forma mais ou menos semelhante à imprensa convencional, com o jornalismo impresso. Na Bahia, foi diferente. Era um jornalismo feito principalmente fora das redações, um jornalismo feito pelas entidades negras, pelo Olodum, por Ilê Ayê, pelo Os Negões, por entidades que estavam fora do mundo formal das comunicações”, afirma. 

“Nem sempre os modos de produção, disseminação e reprodução da notícia da imprensa negra baiana acompanharam o da grande imprensa convencional”, continua Alakija, ao explicar que essa comunicação se moldou ao longo do cenário político baiano e internacional. “O segundo ponto é que esse imprensa vem sendo feita ao longo da história por expoentes de um conjunto da população, hierarquizada socialmente por cor e classe, excluídas dos círculos do poder, mas que fala por si própria e que até então essa fala é inexistente no anais da história da imprensa feita na Bahia”, finaliza a jornalista, pautando a invisibilidade imposta aos comunicadores negros que fizeram parte da nossa história. 

A potência da literatura

A participação do escritor Wesley Correia emocionou o público e mostrou que o poeta conhece intimamente a potência da literatura no combate à desigualdade racial. Através de um ensaio, Correia relacionou a essa forma de arte o potencial pedagógico de construção de uma mentalidade antirracista. “Num contexto de intensa polarização política, de crise ética nas instituições e de ausência mesma de humanidade, pensar em como as literaturas de autoria negra produzidas no Brasil fazem frente ao discurso monorritmico, expressando diferentes subjetividades, pode nos levar a uma diferente compreensão do papel social da escrita”, defende. 

“As literaturas de autoria negra promovem no Brasil contemporâneo um precioso universo discursivo e memorialístico, que esteve desprezado por anos a fio por força do racismo literário e editorial no país”, afirma. Para o escritor, o apagamento das intelectualidades das populações originárias e negras também decorre do fato da literatura brasileira ainda se prender de forma rígida à noção de cânone.

Wesley explica que à medida que os intelectuais negros e negras passam a ocupar seu espaço como autores, e que se recupera a história negada a essas pessoas, também se reconfigura um novo horizonte para a consciência literária. “É fundamental observar o papel estruturante que a linguagem assume nas relações de poder, bem como os efeitos ideológicos que este fenômeno implica na subjetividade de certos indivíduos”, coloca o escritor. Citando o psiquiatra e ensaísta Frantz Fanon, ele defendeu que, quando se nega a possibilidade de expressão de um grupo, nega-se também novas possibilidades de existência. 

Segundo Correia, apesar de negada, a produção literária negra e indígena faz parte do Brasil. Não conhecê-las é desconhecer também a história do nosso país. “Ao tornar publicamente audíveis as vozes ocultas, essa rede identitária revela um caudal de saberes profundos surgidos desde os povos originários e emergidos da entranhas das comunidades tradicionais, saberes sem os quais o Brasil não pode ser lido e nem sequer pensado em sua inteireza”, completa. 

Violência simbólica 

Encerrando a primeira rodada da mesa, Ordep Serra colocou-se como aliado da luta antirracista. Em sua fala, o antropólogo pautou o sentimento de revolta e indignação que deve nos mover ao reconhecer a violência simbólica que é negar a produção intelectual negra. “Como negar a violência simbólica aqui denunciada? Que é tolher o espaço do negro, sufocar sua voz, tirar sua expressão, negar sua historicidade”, questiona o professor, que é ogã (sacerdote no candomblé).

“Estamos vivendo uma repetição da ditadura, uma onda facista que se espalha a partir do governo federal. Uma violência racista da mais extraordinária. A gente se interroga como se gerou essa onda facista, que tem raízes profundas na nossa história escravocrata. No fundo é uma mentalidade escravocrata que não cessa”, continua Ordep, para quem a primeira onda negacionista é a que caracteriza o racismo estrutural no Brasil.

O pesquisador recorda o caso do artigo publicado na Folha de S. Paulo por Antônio Risério, que alega haver um suposto “racismo reverso” de negros contra brancos. O artigo, que suscitou diversas reações nos últimos dias – incluindo uma carta de 186 jornalistas da Folha posicionando-se contra a decisão do jornal de ceder espaço para artigos desta natureza -, causou também manifestações na noite de ontem. “Foi uma ofensa ao jornalismo brasileiro, foi uma ofensa à inteligência brasileira. Me falem aí quem são os brancos que estão sendo oprimidos pelos negros no Brasil, porque eu não vejo isso. Eu vejo opressão, eu vejo chacina dos povos indígenas e dos povos negros no Brasil”, argumenta. 

O presidente da ALB usou seu espaço para relembrar histórias que ele pôde acompanhar, que também expressam a forma como o Estado atua pela preservação ou não preservação da história negra na Bahia. Houve o caso da luta pela preservação da Casa Branca do Engenho Velho, conhecida como matriz de outras Casas, e outra luta, também empreendida por Cleidiana, pela extinção definitiva do Museu Estácio de Lima do Departamento de Polícia Técnica do Estado da Bahia (DPT), que exibia peças de cultos de candomblé, retiradas indevidamente de terreiros, ao lado de cabeças decepadas de cangaceiros e partes deformadas de corpos humanos. 

No entanto, apesar dos esforços de apagamento da história oficial, o professor frisa que o Brasil se constrói espiritualmente negro e indígena. “Os negros fizeram intelectualmente e espiritualmente o Brasil, não foi só o trabalho de suas mãos. Foi com seus corações, com sua mente, com sua inteligência que se fez este país”, finaliza. 

A programação do II Simpósio prossegue na noite desta quarta (26), às 18h30, com a mesa  “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”. Para o debate foram convidados o professor e editor do portal Bahia Econômica, Armando Avena, o editor do site LEIAMAISba Alberto Oliveira e o jornalista e empresário Raimundo Lima. O jornalista Luiz Fernando Lima será responsável pela mediação. 

Assista abaixo:

*Larissa Costa, estudante de Jornalismo, estagiária da ABI.
Edição: Joseanne Guedes

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II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura discute temas sociais

Saber escrever uma boa narrativa é dever comum entre jornalistas e escritores. Entender suas implicações políticas e sociais também. A segunda edição do Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura irá se debruçar nas interfaces do trabalho jornalístico, a atividade literária e a realidade social. O evento gratuito e aberto ao público, fruto de colaboração entre a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e a Academia de Letras da Bahia (ALB), será transmitido pelo canal de Youtube da ALB, nos dias 25, 26 e 27 de janeiro, às 18h30. Não há necessidade de realizar inscrição. Quem tiver interesse em receber certificado, deverá preencher a lista que será disponibilizada durante o Simpósio.

Seguindo a tradição iniciada na primeira edição, ocorrida em abril passado, o II Simpósio será aberto pelos presidentes das duas instituições. Para o jornalista e radialista Ernesto Marques, presidente da ABI, o evento contempla ambas as áreas com a gama de nomes convidados para a ocasião. “Este segundo simpósio traz uma programação muito rica, grandes nomes do jornalismo e da literatura e de diferentes gerações. Representa a consolidação de uma parceria estratégica entre ABI e Academia de Letras que esperamos reproduzir com outras instituições importantes da cultura baiana”, afirma.

“Esta é uma aliança que deve durar. Estamos no segundo simpósio e vamos ter o terceiro, o quarto e muitos outros mais. Vamos continuar trabalhando juntos sempre com essa mesma esperança, sempre com a mesma vontade de combater o obscurantismo e de promover cultura”, celebra o antropólogo, pesquisador e professor Ordep Serra, presidente da ALB. Ele falou sobre a expectativa para o evento, que aconteceria em novembro, mas foi remarcado em decorrência do falecimento do professor João Eurico Matta, um dos imortais da ALB, ocupante da cadeira 16 da entidade. Segundo Ordep, mais uma vez, o simpósio traz questões do “mais alto interesse público” para serem discutidas nas mesas. “Sem dúvida é uma boa notícia para todo o mundo da cultura saber que a Academia de Letras da Bahia e a Associação Bahiana de Imprensa estão trabalhando em conjunto na luta comum pelo conhecimento, pela liberdade e pela democracia.” 

Debates

A primeira mesa será mais que especial. Com o tema “Mídia, história, literatura: marcas da exclusão”, os convidados debaterão as marcas da censura e da autoafirmação no campo da escrita. A mesa contará com a presença da jornalista especializada em temas étnico-raciais Ana Alakija, especializada nos estudos afro-diaspóricos e pesquisadora nas áreas de História Oral, Diáspora Africana, Identidade e Famílias Afro-brasileiras; o escritor baiano Wesley Correia, poeta, ensaísta, ficcionista, professor e pesquisador na área de Estudos Étnicos e Raciais; a mesa estará completa com Ordep Serra. Na mediação, a jornalista Cleidiana Ramos, doutora em Antropologia. 

Pautando a Economia, outra área de conhecimento cujas repercussões afetam nossa realidade, a segunda mesa terá o tema “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”. O debate será coordenado pelo jornalista Luiz Fernando Lima, e terá as contribuições do jornalista e economista Armando Avena, ocupante da cadeira 38 da ALB e editor do portal Bahia Econômica; do professor universitário e editor do site LEIAMAISba Alberto Oliveira, jornalista especializado em Economia e Marketing Digital e o jornalista, empresário, professor universitário e compositor Raimundo Lima, ex-editor do jornal Tribuna da Bahia.

Para encerrar o evento, o debate “Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador” discutirá o trabalho dessas figuras cujo ofício passeia entre o jornalismo e a literatura. Com as contribuições do arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo, ocupante da 2ª cadeira da ALB e um especialista do Urbanismo e da conservação de  monumentos; o escritor e cronista, Jolivaldo Freitas, diretor de jornalismo no portal Notícia Capital; e o colecionador de arte Dimitri Ganzelevitch, produtor cultural e colunista. O jornalista Jorge Luiz Ramos, diretor do Museu Casa de Ruy Barbosa, intermediará a conversa. 

Serviço:

II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 25, 26 e 27 de janeiro de 2022, a partir das 18h30 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)

Mais informações

Assessoria: [email protected] / 71 98791-7988 (Wa)

Ernesto Marques – presidente da ABI: 71 99129-8150

Ordep Serra – presidente da ALB: 71 98869-1531

Site: http://www.abi-bahia.org.br/  | https://academiadeletrasdabahia.org.br/

  • Encontre a ABI nas redes sociais:

Instagram e Twitter: @abi_bahia | @academiadeletrasdabahia

Facebook: @abi.bahia

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Programação 

25 de janeiro / 18h30

Abertura: Ordep Serra (ALB) e Ernesto Marques (ABI)

Mesa 1 – Mídia, história, literatura: marcas da exclusão 

Ordep Serra, Ana Alakija e Wesley Correia 

Mediação: Cleidiana Ramos 

26 de janeiro / 18h30

Mesa 2 – Mídia, política e economia: estratégias, interfaces 

Armando Avena (ALB), Alberto Oliveira e Raimundo Lima

Mediação: Luiz Fernando Lima 

27 de janeiro / 18h30

Mesa 3 – Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador 

Paulo Ormindo de Azevedo (ALB), Jolivaldo Freitas e Dimitri Ganzelevitch 

Mediação: Jorge Ramos

Assista!

ABI BAHIANA

Debate sobre interfaces entre jornalismo e literatura encerra simpósio promovido por ALB e ABI

O que o jornalismo tem a ver com literatura, além do óbvio pertencimento de ambos ao campo das letras? O que literatura tem a ver com fatos, com realidades? Quais são os limites e as especificidades de um gênero e de outro? Com essas provocações, a premiada jornalista e escritora Suzana Varjão esquentou a mediação da mesa “Jornalismo e Literatura: Interfaces”, que encerrou o I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, na noite desta sexta-feira (9). O evento, realizado desde o dia 7 pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e pela Academia de Letras da Bahia (ALB), reuniu escritores, acadêmicos, pesquisadores, jornalistas e profissionais de diversos campos do conhecimento, dispostos a conversar sobre as confluências e aproximações entre o fazer jornalístico e a literatura.

O último debate do Simpósio foi protagonizado pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça, autora do livro-reportagem Filhos do Cácere (Edufba), e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

Ernesto Marques, presidente da ABI, deu boas-vindas ao público, com uma reflexão sobre o momento atual vivido no Brasil. Ele falou da esperança de que o próximo simpósio realizado pelas entidades encontre outro ambiente. “Desejo que já não seja necessário fazer a exortação, a defesa da democracia, a nossa pregação contra o obscurantismo, feita reiteradamente pelo professor Ordep”, ressaltou. O jornalista também comentou sobre as dificuldades impostas pela pandemia, como a impossibilidade de realizar eventos presenciais. “Que possamos nos reunir no auditório, claro, sem prejuízo de ampliar essas páginas digitais e levar o conteúdo para quem, em outras partes do País ou do mundo, possa se interessar em participar. Esse evento tem nos proporcionado noites ricas de conteúdo e aprendizado”, avaliou.

Marques aproveitou para lembrar que neste sábado, 10, acontece o lançamento do Site Walter da Silveira, com transmissão ao vivo pelo Youtube da ABI. O espaço compartilha com o público uma parte consistente do acervo do militante político, professor, historiador, cineclubista, ensaísta, advogado e um dos mais importantes críticos de cinema brasileiro.

O presidente da ALB, professor Ordep Serra, agradeceu a presença do público e também reiterou a continuação da parceria com a ABI. “Estamos dispostos a fazer o segundo Simpósio e vamos ter outras iniciativas que vão consolidar nossa aliança”, garantiu. Para ele, o evento é uma oportunidade de pensar, de refletir, sobre aspectos importantes do ponto de vista social. “É uma alegria começarmos a terceira noite desse simpósio. Mais uma festa da inteligência, para interromper, nem que seja por um trecho da noite, a dor e a preocupação que acomete a todos nós, vítimas de um genocídio. Porque a pandemia já tomou, no Brasil, essa dimensão sinistra de um genocídio, realizado com absoluta crueldade por um governo federal que não se respeita”, criticou.

A mediadora Suzana Varjão, pesquisadora baiana e autora de cinco livros, disse da satisfação em assumir o papel de intermediar o intercâmbio de ideias, diante da qualidade da mesa composta por três intelectuais brasileiros. “Trata-se hoje de uma conversa sobre a palavra. O que significa dizer sobre um poderoso instrumento de construção de mundo. Sim, porque palavra é coisa muito séria. Afeta, legítima, gera realidades. Não obstante o ceticismo, ou mesmo inocência de alguns, palavras não são neutras, não são puras, não são acéticas. Carregam valores que são repassados para todo e qualquer sistema por mais operacional que seja”, situou.

“Vamos falar então sobre um lugar do jornalismo que eu poderia definir de uma maneira mais rudimentar como processo de coleta e investigação, análise e transmissão de informações. Vamos falar sobre o lugar da literatura, que se pode descrever de modo elementar como uso estético da linguagem, mas vamos falar também sobre lugares ou entrelugares, que são as interfaces”, provocou a jornalista. “Literatura é sinônimo de ficção? E jornalismo é sinônimo de relatório, de reprodução, reflexo?”, questionou.

Contando histórias

Membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a cadeira número 9, na sucessão a João Ubaldo Ribeiro, e da Academia Brasileira de Letras, o escritor Antônio Torres narrou a sua chegada ao jornalismo. O autor da trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, entre outras obras, iniciou a sua carreira como repórter do Jornal da Bahia, cujo fundador foi João Falcão. Como bom contador de histórias que é, Torres contou desde a sua primeira crônica publicada no Alagoinhas Jornal, que saía uma vez por mês no município baiano, até a sua transferência para o diário Última Hora, de São Paulo, tendo posteriormente atuado na área da publicidade.

“Jornalismo foi o meu caminho natural para a literatura. Estudava no ginásio em Alagoinhas e eu ousei pedir ao dono do jornal para publicar um artigo. Já era um começo via literatura, porque esse artigo era sobre o maior biógrafo de Monteiro Lobato, Edgard Cavalheiro, escrito no dia de sua morte, em 30 de junho de 1958”, relatou. A partir daquele momento, o dono do Alagoinhas Jornal lhe franqueou o espaço que lhe oportunizou conhecer e trabalhar no Jornal da Bahia, com nomes como Adroaldo Ribeiro Costa, Ariovaldo Mattos e João Carlos Teixeira Gomes, o Pena de Aço. “Ali eu começava a minha primeira faculdade de jornalismo e de literatura, já que em 1959 não existia faculdade de jornalismo”, lembrou.

Ele conta que encontrou dificuldade, devido ao seu estilo mais literário, para escrever segundo pedia o jornalismo diário. Até que um livro lhe ensinou a responder às famosas perguntas que compõem a primeira parte de uma notícia – O Quê? Quem? Quando? Onde? Por quê? e Como?. “Eu aprendi que você tem que responder isso para tudo”, brincou. Depois de um ano trabalhando no Última Hora, Torres foi convidado para trabalhar em publicidade. “Minha primeira escola foi o jornalismo, a segunda foi a publicidade. O jornalismo me ensinou a ver o mundo e a publicidade me ensinou a contar isso rapidinho. É a síntese da minha história”, conclui o escritor.

A jornalista e escritora Aline D´Eça trouxe sua experiência como autora de livro-reportagem, ao relatar o processo de construção de Filhos do Cárcere, uma obra que teve origem em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e que traz a perspectiva de filhos e filhas de mulheres encarceradas. A baiana de Nazaré das Farinhas refletiu sobre as relações entre jornalismo e literatura, suas diferenças e semelhanças, além de estabelecer paralelos com estudos da área da psicologia. A experiência com a reportagem que originou o livro despertou em Aline a vontade de deixar a carreira jornalística e estudar psicologia analítica. “O jornalismo literário tem muito a ver com a psicologia, porque se propõe a um mergulho na realidade, para retratá-la para aqueles que não conhecem”, explicou.

Ela recorreu aos ensinamentos do professor Edvaldo Pereira para dizer que o livro reportagem é, muitas vezes, fruto da inquietude do jornalista, que tem algo a dizer com profundidade, mas não encontra espaço para fazê-lo na imprensa cotidiana. “Apesar de eu não ter visto quase nada sobre jornalismo literário na faculdade, estudei por conta própria. O que a gente faz? Utiliza recursos como observação, descrição, narração, uso de símbolos e de metáforas, para tornar o texto mais atraente”. Aline ressalta que o jornalismo literário dá ao repórter a oportunidade de captar não só a realidade concreta dos fatos, mas também a realidade emocional das personagens envolvidas naquela história. “O jornalismo literário preenche o vazio de profundidade deixado pelo furo jornalístico, pela ânsia por notícias efêmeras”, analisou.

Embora não haja no jornalismo diário espaço físico para a publicação desse tipo de texto, Aline D’Eça defende que existe interesse dos leitores por algo que vai além do que chamou “fast-food jornalístico”. A autora destacou diferenças entre as atividades. “É possível ficcionar o jornalismo literário? Eu diria que é perigoso. Mas essa construção pode ter base numa apuração detalhada, entrevistas criteriosas, exaustivas, com bastante documentação. A partir daí a gente pode chegar próximo do real, recriar cenas e ambientes que estão por trás da notícia. O que não se pode em jornalismo é inventar. Colocar no texto algo que esteja distante do real. Isso não é jornalismo, é ficção”, advertiu.

Humanização de narrativas

Foi em busca da humanização dos relatos que Aline decidiu escrever o livro-reportagem. “Queria descrever os cheiros, as cores, as emoções, e não somente me ater aos números. Infelizmente estamos hoje vivendo uma realidade que os números nos assustam, mas não nos dá profundidade de todas as histórias por trás dos números”, disse, em referência à pandemia provocada pelo coronavírus. “O jornalismo literário busca preencher esse vazio de sensibilidade. E aqui está a diferença entre o jornalismo e a ficção. O jornalismo literário tem o estilo semelhante à literatura, mas traz histórias reais”, afirmou.

Autor de 17 livros, entre obras acadêmicas e livros direcionados ao grande público, o jornalista Edvaldo Pereira Lima também ressaltou a necessidade de humanizar as narrativas e estimular um mergulho mais profundo na realidade, levando a população a transformar a sua consciência, o seu nível de entendimento do real e de ação.

“Neste momento em que a ciência está trazendo comprovadamente novos modelos de compreensão da realidade e novos modelos que nos trazem os instrumentos de transformação da sociedade para melhor, é um dever da literatura e do jornalismo se reciclarem e acompanharem esse progresso”, indicou. Segundo ele, é preciso praticar a narrativa de profundidade, que traga a capacidade de alavancar e estimular a mudança de percepção do leitor. “Você faz isso usando instrumentos narrativos centrados essencialmente no ser humano, não contando as histórias só apoiadas nos números e nos relatórios abstratos sobre a realidade”, aconselhou.

“E qual é a arte narrativa que está à disposição da literatura e do jornalismo? Uma arte que tem instrumentos de percepção e de expressão comprovados ao longo de milênios em todas as culturas e que se adapta e se moderniza, na medida em que novos achados e novas descobertas vão aparecendo. É a arte de contar histórias. Todos nós aqui temos em comum o amor e a paixão por contar histórias”, afirmou o escritor.

Saiba como foi o Simpósio

Quem perdeu as discussões do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, tem a oportunidade de assistir aos três dias de evento pelo Youtube da Academia de Letras da Bahia. A entidade, junto com a ABI, proporcionou uma noite memorável em defesa da democracia neste 7 de abril, Dia do Jornalista, durante a abertura do Simpósio. A primeira mesa discutiu os “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”, com as participações do jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Emiliano José, do professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e do professor-titular da Facom/UFBA, Wilson Gomes. A mediação ficou com a jornalista Jussara Maia, professora de Jornalismo do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Já a segunda noite do Simpósio, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. A mediação foi assumida pela jornalista Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da ABI.

  • Assista aos debates do Simpósio nos links abaixo:

Mesa I – “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”

Mesa II – “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”

Mesa III – “Jornalista e Literatura: Interfaces”

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Transformações no jornalismo cultural são destaque do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

I’sis Almeida e Joseanne Guedes

A segunda noite do Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. Com mediação de Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o evento online, fruto de parceria com a Academia de Letras da Bahia (ALB), atraiu profissionais experientes ligados à cultura, à comunicação e às artes literárias.

Já na abertura da mesa, o presidente da Academia de Letras da Bahia (ALB), Ordep Serra, parabenizou os 89 anos do poeta, professor e jornalista Florisvaldo Mattos, 2º vice-presidente da ABI. Ernesto Marques, presidente da Associação, acompanhou a saudação a “Flori”, como o chama carinhosamente, e adiantou que a Associação já planeja uma comemoração dos 90 anos de Florisvaldo Mattos.

Simone Ribeiro, no papel de interseção entre os convidados, iniciou sua fala recitando “Tecendo a manhã”, meta-poema lançado em 1966 por João Cabral de Melo Neto. Ela usou a obra cabralina, que reflete sobre a própria construção do trabalho, para trazer, segundo ela, “uma imagem de plenitude, de completude”. De acordo com Ribeiro, a vida de jornalista obedece a um ciclo. “A vida de redação não é para sempre. A gente passa por alguns ciclos e tem o espírito de comunhão, o espírito fraternal. Nossa atividade é feita em grupo”, refletiu. 

Em uma fala autorreferente, Ribeiro relatou sua trajetória no jornalismo cultural, onde acumulou vivências na cobertura diária e atuou também como editora do Caderno 2 do jornal A Tarde. A dirigente falou sobre as transformações nas dinâmicas da atividade, mudanças de consumo dos conteúdos e lamentou o desaparecimento dos cadernos culturais. “Eu fui testemunha dessas mudanças, algumas dolorosas e que atingiram em cheio um segmento tão glamourizado quanto discriminado que é o jornalismo cultural”, lembrou.

A jornalista acredita que o simpósio é uma oportunidade para repensar o futuro do segmento. “Meu consumo hoje é primordialmente pela internet. Temos novos hábitos. Por mais que a gente pense nesse tema de hoje e faça um recorte contemporâneo, precisamos olhar o passado e ver o que aconteceu, quais são as ferramentas de que a gente dispõe para reconstruir o jornalismo especializado”, introduziu a mediadora.

Crise?

Entrando no tema central do debate, o jornalismo cultural, o poeta, escritor e vice-presidente da assembleia geral da ABI, Sérgio Mattos, fez um panorama histórico extenso do campo, destacando a década de 50 como o período mais efervescente dos conteúdos de cultura em jornais, quando surgiu o formato de lead (abertura de textos) na imprensa, e ainda, a criação de suplementos culturais, como O Diário de SP e a Folha Ilustrada. Ele relembrou também que foi de 1950 em diante que surgiram as primeiras escolas de jornalismo do país. 

Segundo Mattos e autores aos quais o professor recorreu para explicar o histórico, o jornalismo cultural passa em tempos atuais por uma crise em função de alguns sintomas, entre os quais, citou ele: a concorrência das mídias digitais; a falta de especialização dos profissionais; a reprodução do modelo de notícias na realização de matérias relacionadas à cultura, além do fato de que o jornalismo passou a divulgar mais os eventos culturais do que cobri-los.

A proposição de Sérgio diante desse cenário, é “produzir novos estudos e debates, no sentido de se repensar o jornalismo cultural, a começar pela estrutura curricular dos cursos de jornalismo, responsáveis pela formação dos novos profissionais, que, além de dominar as técnicas jornalísticas, precisam dominar o gênero jornalístico sobre o qual vão escrever”, propôs. Outra sugestão é empreender esforços para maior preservação da memória cultural do país, “divulgando e analisando criticamente os produtos culturais”, completou. 

Malu Fontes, professora de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA, mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, também colaboradora da Rádio Metrópole FM, registrou o quanto ainda hoje é apaixonada por jornalismo cultural. “Eu consumo muito jornalismo, falo disso com muito conforto. Sou uma consumidora que hoje, claro, admito, não sou incompetente a ponto de não reconhecer o que está acontecendo na área”, relatou. 

“Não tem como a gente dizer que isso – a cultura no jornalismo – não se esvaziou”, admitiu Fontes. A jornalista usou uma metáfora para se referir ao atual cenário do jornalismo cultural. “A coisa da cultura virou ‘pirulitinhos’ no jornalismo e no jornalismo local, tudo que se dá são pirulitos, é aquela coisinha pequenininha de ‘vai ter hoje um show, o livro tal, dicas de livro, estreou o filme’. Não tem aquele texto que você lê com prazer. O texto que me dá prazer é o que eu saio dele com curiosidade de ir para um outro lugar, porque ele me convida”. 

Potencialidades

A escritora, poeta, professora de jornalismo da Universidade Salvador e colunista do Correio* Kátia Borges, não vê de maneira negativa o universo do jornalismo cultural, apesar das mudanças de produção e de consumo. Segundo ela, o que existe é uma deficiência de formação crítica e uma cultura forte do cancelamento, “a cultura de ódio, além de uma timidez muito grande dos críticos às obras de arte”. Para explicar, ela usou o exemplo da grande polêmica em torno da recepção do livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil. De acordo com Borges, as críticas ocorrem com a ausência de argumentação. “Em vez de polêmicas sérias em torno do conteúdo do livro, ficaram no ‘gostei’, ‘não gostei’. Isso não é crítica. É opinião. E opinião todo mundo tem”, criticou.

“Estamos passando por uma renovação”, analisa. “Precisamos estudar os nossos veículos, para entender como essa cultura se deu lá atrás e como está hoje. Existe, claro, uma crise da crítica. Mas, essa é a nossa cultura, rápida, multifacetada, fugaz. Agora, dentro disso, temos o Suplemento Pernambuco, a Revista Quatro Cinco Um, o Jornal Rascunho, que vem trabalhando muito bem”, elogiou a professora. Segundo ela, as plataformas digitais abrem um campo “muito bom” para quem está trabalhando com cultura. “Talvez, a gente não tenha uma crítica tão contundente dentro dos jornais. Temos, por outro lado, podcasts incríveis, como citou Malu, muita cultura, muita gente fazendo um trabalho maravilhoso em jornalismo de cultura”, opinou.

Kátia Borges abordou sua experiência como jornalista de cultura e sua atuação na área acadêmica como pesquisadora e professora universitária. Assim como Simone Ribeiro, ela viveu os desafios da redação e viu as transformações da cobertura cultural na Bahia. Borges compartilhou com o público que interagia com a mesa dados originados em suas pesquisas na área. “É uma paixão na minha vida a história do jornalismo e da literatura na Bahia”, reconheceu. Para ela, há uma lacuna de pesquisa importante para se entender o jornalismo cultural na Bahia. “É uma transformação interessante, uma transição, quando o meio cultural para de ser chancelado pelos jornalistas”, indicou.

Nesta sexta-feira (9), acontece a terceira e última mesa do Simpósio, com mediação da jornalista e escritora Suzana Varjão. O tema “Jornalismo e Literatura: interfaces” será discutido pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

>> Relembre a mesa de abertura neste link

Serviço:

I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 7, 8 e 9 de abril de 2021 das 18 às 20h 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)