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Cronistas lançam um olhar crítico sobre a cidade do Salvador

“A cidade precisa ser lida, tanto pelo que ela tem de poético, quanto pelo que ela tem de feio, ruim e errado”, defendeu o jornalista e pesquisador Jorge Ramos, ao destacar, na noite de ontem (27), a importância dos cronistas e sua relação com a cidade. Na condição de mediador, Ramos brindou a audiência do II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura com um vasto conhecimento sobre os maiores articulistas da Bahia, principalmente nas áreas da cultura e patrimônio histórico. A última mesa desta edição do evento, fruto de uma parceria entre a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e a Academia de Letras da Bahia (ALB), recebeu o arquiteto Paulo Ormindo, o jornalista Jolivaldo Freitas e o produtor cultural Dimitri Ganzelevitch. Os debatedores abordaram o tema “Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador” (Assista aqui).

O gênero da crônica é considerado como aquele que melhor transita entre o jornalismo e a literatura. Machado de Assis, José de Alencar, João do Rio; muitos são os exemplos de escritores que iniciam como jornalistas – ou vice-versa – e que flertam com a outra área por meio desse gênero. “O cronista nada mais é que um registrador. Com seu olhar duro, poético, ele transpõe para uma tirinha dentro do jornal a realidade que ele vê e a crítica que ele faz. É uma leitura absolutamente prazerosa”, afirma Jorge Ramos, diretor do Museu Casa de Ruy Barbosa, um dos equipamentos culturais da ABI. 

A discussão girou em torno do espaço para a crônica nos jornais hoje e o atual estado da cidade. Jorge Ramos recordou que a ligação do cronista com as cidades é um caso comum na história desse gênero. 

“A crônica sempre foi uma parte muito importante do jornalismo brasileiro”, afirma o jornalista Jolivaldo Freitas. Ele diz ter vivenciado algo do auge da crônica baiana e recorda momentos em que se podia ler nos jornais os trabalhos de personalidades como Thales de Azevedo, Adroaldo Ribeiro Costa, Odorico Tavares, José Calazans, Jorge Amado. 

Jolivaldo atribui o começo de sua paixão pela crônica à coluna “A cidade que não dorme”, publicada no jornal Tribuna da Bahia pelo poeta baiano Jehová de Carvalho. “Essa coluna me instigava porque tinha uma linguagem muito mais solta do que o que se lia no A Tarde”, diz o jornalista, que começou no jornal aos 17 anos. “Ele [Jehová] transformava o noticiário do próprio jornal, principalmente o noticiário policial, em boas crônicas”. Jolivaldo afirma que as crônicas do poeta eram um espelho do que se via na cidade, principalmente a vida noturna. 

Afinado com o estilo livre, poético e solto das crônicas, Jolivaldo começou suas primeiras explorações pelo gênero. “Eu queria escrever de forma mais solta, até hoje minhas crônicas têm mais o viés do bom humor”. Mais do que um retrato divertido da cidade, o jornalista afirma que as crônicas são também “a voz dos jornais”, onde é possível que aquele veículo se posicione. “A questão da crônica é tão interessante que na primeira quadra do século passado as ‘porradas’ e agressões se davam contra os jornalistas que se posicionavam e criticavam alguém”, afirma. 

Mas ele também alerta para a diminuição dessas figuras nos jornais, que buscavam incomodar e suscitar debates através da ironia e do cinismo. “A questão é que hoje não tem espaço porque o diretor de criação e o editor-chefe não estão mais voltados para cuidar da estética, do conteúdo. Ele está também tentando manter o jornal economicamente”, completa. “O jornal não tem mais espaço para eles”.

Selva de concreto

Paulo Ormindo, por sua vez, transitou da cidade à crônica. Arquiteto de formação, foi servidor no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e pesquisador na área de conservação de monumentos. Essa atuação vai definir muito das temáticas que ele aborda em suas crônicas, publicadas no jornal A Tarde, onde busca pensar criticamente a cidade. 

E suas críticas são muitas. Paulo recorda os problemas estruturais do Centro Histórico, onde ele afirma que a Defesa Civil identificou mais de 1.400 imóveis em ruínas; a divisão social imposta fisicamente pelo metrô, que separa a zona da orla do miolo da cidade; o ferry boat que ele avalia como mal administrado. Acima de tudo, Paulo critica a transformação de Salvador em uma “selva de concreto”. “A indústria imobiliária na Bahia vive em função de vender uma vista para a Baía de Todos os Santos”, avalia.

O arquiteto lamenta o atual estado do lugar. Ele, que já visitou diversas cidades ao redor do mundo, vê Salvador não apenas como um lugar pobre, mas também decadente. “O único atrativo que persiste na Bahia é o povo baiano. É essa magia do povo baiano, a cultura popular”, afirma.

“Eu acho que a função do jornalista é criar uma opinião pública que possa pressionar os governantes, os investidores. Nesse sentido, eu acho que o jornalismo tem uma função importantíssima, agora nós temos que ter uma função crítica dos problemas da cidade”, afirma. Ele conta que suas denúncias no jornal ainda não chamaram a atenção dos gestores da cidade e censura a falta de diálogo com a população. Ainda assim, o arquiteto relata que sua carreira nos jornais o satisfez e lhe possibilitou não apenas ter um contato mais próximo com seus leitores – “aprendo muito com eles” – como também lançar um livro seu de crônicas, o “Navegação Errante: Memórias de Viagem”, publicado neste ano. 

Apesar de terem diminuído, os cronistas e articulistas não sumiram completamente. Dimitri Ganzelevitch, que além de marchand e colecionador de arte continua a escrever, que o diga. O fotógrafo francês estabeleceu sua relação com Salvador em 1975 e pôde observar as mudanças ocorridas ao longo dos anos, chegando a fazer de sua casa um museu de arte. Seu diagnóstico hoje não é otimista. “A cidade inteira parece um imenso balcão de negócios. Está tudo à venda, até os artigos do Estado”, reclama o morador do bairro de Santo Antônio. 

Uma importante voz em defesa do patrimônio histórico cultural baiano, ele lista os problemas que vê pelas ruas. O esvaziamento do Centro da cidade, o enfraquecimento do comércio de rua em detrimento dos grandes shoppings, a perda de espaços culturais, como os cinemas de rua, representam, para Dimitri, a perda da dimensão humana e da estética da cidade. “Do lado da Barra até Itapuã é tudo uma anarquia arquitetônica. É tudo horroroso, é feio. Onde está a Bahia cantada pelos poetas? Eu não vejo mais e amanhã vai ser muito pior”, pressagia o editor do Blog do Dimitri

“Eu moro há praticamente meio século no Centro Histórico e constato que o Estado não está assumindo suas obrigações apesar das honrarias da Unesco”, denuncia o colunista, recordando que diversos espaços do Centro são tombados e devem ser protegidos por força de lei. Dimitri recorda ainda a disputa envolvendo o prédio da Quinta do Tanque. “Escandaloso” foi o adjetivo usado por ele para descrever o caso. “Essa gente é patriota? Porque se trata também de patriotismo. Não tem orgulho de sua terra? Simplesmente vão despejar os arquivos públicos da primeira capital do Brasil”, lamentou o fotógrafo. “Se queremos uma cidade melhor temos que nos opor a muitas coisas que estão acontecendo de errado”, completa. 

O II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura aconteceu nos dias 25, 26 e 27 de janeiro, como resultado de uma parceria da ABI com a ALB. Confira as coberturas das mesas anteriores aqui e aqui

Assista ao encerramento do II Simpósio:

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Simpósio aponta falhas na cobertura jornalística das áreas econômica e política

Desigualdade social, projeções de crescimento pífio para o Brasil, aumento das incertezas. O panorama econômico no país é desafiador e vai demandar projetos e iniciativas concretas rumo a uma recuperação. Isso foi demonstrado pela mesa “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”, do II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura. Ocorrido na noite desta quarta (26), o evento teve as contribuições do economista Armando Avena, editor do portal Bahia Econômica, do jornalista Alberto Oliveira, especializado em Economia e Marketing Digital, e do empresário e jornalista Raimundo Lima. Hoje (27) acontece a última mesa do evento, com o tema “Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador” (clique para assistir). 

A mediação ficou a cargo do jornalista Luiz Fernando Lima. Elogiado por sua atuação na mesa, Lima abriu o evento provocando os debatedores a avaliarem não apenas a cobertura midiática, mas o próprio cenário econômico do país. “Economia, política e mídia se encontram em diversas interfaces em nossa sociedade. Não há como planejar e executar em nenhum desses campos ignorando qualquer coisa dessas interconexões”, avalia. Ele destacou que o país atravessa um momento histórico, em que é preciso criar estratégias para sair do fosso econômico-social.

“O trabalho da imprensa é fundamental em um estado democrático, ainda mais necessário em um momento no qual essa nossa adolescente democracia se encontra tão maltratada. É por considerar esse trabalho tão importante que eu sou tão exigente”, inicia Alberto Oliveira. O profissional destacou uma série de princípios que norteiam o que ele classifica como bom jornalismo: a neutralidade, a simplicidade, a busca do profissional pelo contraditório e pela divergência de ideias. 

Apesar disso, ele destaca que o cenário contemporâneo também traz novas exigências que redefinem o conceito de qualidade na área. Ele afirmou que para fazer o jornalismo hoje não basta apurar e escrever bem. “É preciso dominar uma série de competências que não faziam parte da nossa profissão”, disse. Entre essas habilidades estão interpretar gráficos, falar de estatística e ciência. Alberto Oliveira criticou a cobertura feita durante a pandemia, com reportagens rasas, sem o devido aprofundamento e contextualização que o tema pede. “O jornalismo brasileiro há décadas não pensa em ciência”, lamenta o jornalista.

Oliveira utilizou a analogia de separar o joio do trigo para exemplificar o trabalho do jornalista. Nesse caso, o profissional deve entregar o trigo ao público, que é a informação. Mas, segundo ele, o jornalismo vem entregando o joio. Isso ocorreria principalmente por conta da formação inadequada dos profissionais e da chegada de leigos à profissão, principalmente por meio das mídias sociais. “Nós estamos sendo usados para espalhar fake news, simplesmente porque não fazemos as perguntas que devemos fazer, que qualquer jornalista decente precisaria fazer”, criticou. “Não imagino outra profissão com tantos desafios, mas com tantas possibilidades. Só que nós precisamos mudar a chave. Precisamos parar de olhar para o modo que fazíamos e fazer um jornalismo diferente”, arremata.

Desafios

Olhando para a outra importante temática da noite, o economista Armando Avena recordou o início de sua atuação na área, quando o seu principal objetivo era “desermetizar” as ciências econômicas para o público leigo. “Hoje há uma mudança tão radical que já não temos mais aquele especialista que ficava em cima do panteão ditando regras. A imprensa mudou tanto que hoje todo mundo é especialista”, coloca. Porém, como destaca Avena, essa perda do “monopólio” do conhecimento também representa um risco, ao passo que nem todos aqueles que se inserem na comunicação social fazem um trabalho sério de apuração.

“É impressionante você entrar hoje no YouTube e ver pessoas dando lições de como ficar rico na bolsa, pessoas que, na maioria das vezes, não têm conhecimento, dizendo como você pode aplicar seu dinheiro. Aí surge a importância do jornalismo com credibilidade, que leva a sério a questão de informar”, analisa. 

O economista reitera que a imprensa precisa estar mais atenta para uma série de eventos e de iniciativas, principalmente na Bahia, que devem estar sob o debate público. Avena cita o caso da empresa Ford, que anunciou em janeiro de 2021 a saída de suas operações do Pólo Petroquímico de Camaçari, deixando um rastro de trabalhadores desempregados e um clima de insegurança econômica no local. O professor questiona a ausência da cobertura da imprensa sobre a empresa e de outras iniciativas existentes no estado que não recebem atenção da mídia. 

Para Avena, a ausência de planejamento econômico na Bahia – o que ele chama de criatividade econômica – é uma das causas dos problemas sociais, aliada à falta de investimentos na área da Educação. “A Bahia nunca considerou a educação como um ativo de investimento. A educação não só transforma o ser humano, mas também transforma o ser econômico”, ressalta. “É preciso que se apresente programas de governo, propostas de como melhorar o nosso estado, como vamos gerar empregos nesse estado que tem hoje milhares de desempregados e uma das maiores taxas de desemprego do país. É muito importante que o jornalismo econômico esteja trabalhando nisso também.” 

Avena destaca que em meio às fake news, muitas vezes divulgadas pelo próprio governo, é necessário que o jornalista saiba quais temas pautar e continue a investigar, em busca da verdade. “Como nunca, ser jornalista tornou-se uma profissão fundamental para o Brasil. Não só para informar o que está se passando, mas para ser uma luz que traga a verdade”, disse.

Potencialidades

Os obstáculos deste ano desafiam o otimismo. Recentemente, o FMI anunciou a redução da projeção de crescimento do Brasil em 2022 de 1,5% para 0,3%. Há também a alta inflacionária, a estagnação do PIB, a diminuição da renda do trabalhador. Em meio a esse cenário, Raimundo Lima afirma que é necessário que a imprensa saiba escolher suas pautas. Os grupos brasileiros [de mídia] precisam entender melhor sua atuação no cenário local e também internacional e deve-se conhecer e respeitar a legislação”.

O empresário cita a taxação das grandes fortunas como um tema que deveria estar no centro do debate, assim como as questões ambientais, principalmente as mudanças climáticas – que afetam diretamente a economia dos locais atingidos – e a concentração de renda, que só aumentou durante a pandemia. “O quadro de desigualdade social brasileiro vem revelando que o país tem um longo caminho a percorrer para reverter esse cenário”, afirma Raimundo.

Para ele, há conflitos de interesses da grande mídia, que influenciam o trabalho da imprensa. “Sabemos que as mídias eletrônicas são concessões públicas. Então, o interesse público devia estar sendo privilegiado, mas não é bem isso que a gente vê. Há muita liberdade de empresa e não liberdade de imprensa propriamente”, critica. 

Ex-editor de jornal, Lima acredita que a grande mídia utiliza vários mecanismos de manipulação da opinião pública, como a distração, a estratégia de pautar um problema e depois divulgar a solução que se deseja fazer conhecida, a infantilização do público. De acordo com ele, em ano eleitoral, cabe reforçar ainda mais a responsabilidade social das grandes mídias em seu trato com o público. “Nós precisamos decidir com consciência os nossos destinos e para isso precisamos ser devida e corretamente informados”, acrescenta o jornalista. Para 2022, Raimundo afirma que as prioridades políticas devem ser a afirmação das liberdades democráticas, da justiça para todos, a redução das desigualdades sociais e a melhoria das condições de vida da população.

Assista abaixo:

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Abertura do II Simpósio resgata história da imprensa e literatura negra no Brasil

Larissa Costa*

Mais do que debater características jornalístico-literárias, a primeira noite do II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, nesta terça-feira (25), trouxe outra função inscrita na imprensa e na literatura: a memória. Discursos dotados de carga simbólica e representatividade racial marcaram a mesa “Mídia, história, literatura: marcas da exclusão”, com a participação da jornalista e pesquisadora Ana Alakija, do escritor, poeta e ensaísta Wesley Correia e do antropólogo e presidente da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra. A mediação ficou por conta da também antropóloga e jornalista, Cleidiana Ramos. A segunda mesa do evento, promovido pela Associação Bahiana de Imprensa e a pela Academia de Letras da Bahia, acontece hoje (26), às 18h30. 

A abertura foi feita pelos presidentes das duas instituições responsáveis pela organização do Simpósio. O jornalista e radialista Ernesto Marques, presidente da Associação Bahiana de Imprensa, celebrou a parceria entre as entidades, que se estende a outras instâncias da luta pela preservação da cultura e da memória baianas. “Esperamos que esse arco de aliança em defesa da cultura da Bahia, da memória, se amplie com a participação também de outras instituições igualmente importantes”. 

O jornalista recordou a atuação das entidades em defesa da Quinta do Tanque, também conhecido como Quinta dos Padres ou Solar da Quinta. O casarão histórico construído no século XVI abriga o Arquivo Público do Estado da Bahia, um dos maiores acervos da história. Marques pediu aos colegas da imprensa para que continuassem a pautar o debate nos veículos, a fim de que não se esqueça da importância do acervo. Ordep Serra fez coro ao pedido. “Com a ameaça que se faz a este arquivo está se ameaçando a memória do povo negro na Bahia. Documentos importantíssimos estão lá; essa barbárie não pode acontecer”, defende.

Na abertura da mesa, Cleidiana Ramos recordou Ana Alakija sobre um dos marcos de sua carreira: a entrevista com o Babalorixá Eduardo de Ijexá, que lhe narrou momentos onde praticava a língua iorubá sozinho, em frente ao espelho, para não se esquecer do idioma da família linguística nigero-congolesa. A pesquisadora possui um amplo histórico na luta pela preservação e redescobrimento da ascendência das famílias afro-brasileiras, como o Memorial Alakija, empreendimento iniciado pelo seu pai, o pesquisador George Alakija.

“É uma lembrança muito doce desse meu início como repórter do jornal A Tarde e que me levou para minha definição de perfil profissional”, lembra Ana Alakija. Ela conta que sua atuação foi marcada desde o começo por trazer como fontes personalidades que antes figuravam apenas como objetos da notícia. Para Ana, a ligação entre Eduardo de Ijexá e o seu espelho se assemelha à nossa relação social com as mídias e a imprensa. “A mídia é nosso espelho. O espelho, a nossa mídia”, comparou. 

Invisibilidade e exclusão

Em sua exposição, Alakija descreveu a história da imprensa baiana, que nasce negra, e sua atuação decisiva em defesa da população afro-brasileira, motivo pelo qual é chamada de “imprensa de advocacia”. “O que eu ofereço aqui é uma perspectiva de interpretação da imprensa baiana, com o reconhecimento da existência de uma forma de comunicação e expressão própria como contraponto ao pensamento hegemônico e histórico”, explica. 

Segundo a jornalista, a imprensa negra nasceu invisível para a historiografia e para setores dominantes da sociedade e assim permaneceu por muito tempo. “Essa imprensa [negra] pode ser definida como uma forma de comunicação social dos setores subalternos, excluídos da sociedade, por motivo de cor e classe”. Apesar de estar sob apenas um rótulo, a imprensa negra não foi algo uniforme, como provam os estudos citados pela pesquisadora. “Essa imprensa negra na Bahia iniciou e evoluiu com características diferentes de outros estados. Por exemplo, a imprensa em São Paulo buscou se organizar de forma mais ou menos semelhante à imprensa convencional, com o jornalismo impresso. Na Bahia, foi diferente. Era um jornalismo feito principalmente fora das redações, um jornalismo feito pelas entidades negras, pelo Olodum, por Ilê Ayê, pelo Os Negões, por entidades que estavam fora do mundo formal das comunicações”, afirma. 

“Nem sempre os modos de produção, disseminação e reprodução da notícia da imprensa negra baiana acompanharam o da grande imprensa convencional”, continua Alakija, ao explicar que essa comunicação se moldou ao longo do cenário político baiano e internacional. “O segundo ponto é que esse imprensa vem sendo feita ao longo da história por expoentes de um conjunto da população, hierarquizada socialmente por cor e classe, excluídas dos círculos do poder, mas que fala por si própria e que até então essa fala é inexistente no anais da história da imprensa feita na Bahia”, finaliza a jornalista, pautando a invisibilidade imposta aos comunicadores negros que fizeram parte da nossa história. 

A potência da literatura

A participação do escritor Wesley Correia emocionou o público e mostrou que o poeta conhece intimamente a potência da literatura no combate à desigualdade racial. Através de um ensaio, Correia relacionou a essa forma de arte o potencial pedagógico de construção de uma mentalidade antirracista. “Num contexto de intensa polarização política, de crise ética nas instituições e de ausência mesma de humanidade, pensar em como as literaturas de autoria negra produzidas no Brasil fazem frente ao discurso monorritmico, expressando diferentes subjetividades, pode nos levar a uma diferente compreensão do papel social da escrita”, defende. 

“As literaturas de autoria negra promovem no Brasil contemporâneo um precioso universo discursivo e memorialístico, que esteve desprezado por anos a fio por força do racismo literário e editorial no país”, afirma. Para o escritor, o apagamento das intelectualidades das populações originárias e negras também decorre do fato da literatura brasileira ainda se prender de forma rígida à noção de cânone.

Wesley explica que à medida que os intelectuais negros e negras passam a ocupar seu espaço como autores, e que se recupera a história negada a essas pessoas, também se reconfigura um novo horizonte para a consciência literária. “É fundamental observar o papel estruturante que a linguagem assume nas relações de poder, bem como os efeitos ideológicos que este fenômeno implica na subjetividade de certos indivíduos”, coloca o escritor. Citando o psiquiatra e ensaísta Frantz Fanon, ele defendeu que, quando se nega a possibilidade de expressão de um grupo, nega-se também novas possibilidades de existência. 

Segundo Correia, apesar de negada, a produção literária negra e indígena faz parte do Brasil. Não conhecê-las é desconhecer também a história do nosso país. “Ao tornar publicamente audíveis as vozes ocultas, essa rede identitária revela um caudal de saberes profundos surgidos desde os povos originários e emergidos da entranhas das comunidades tradicionais, saberes sem os quais o Brasil não pode ser lido e nem sequer pensado em sua inteireza”, completa. 

Violência simbólica 

Encerrando a primeira rodada da mesa, Ordep Serra colocou-se como aliado da luta antirracista. Em sua fala, o antropólogo pautou o sentimento de revolta e indignação que deve nos mover ao reconhecer a violência simbólica que é negar a produção intelectual negra. “Como negar a violência simbólica aqui denunciada? Que é tolher o espaço do negro, sufocar sua voz, tirar sua expressão, negar sua historicidade”, questiona o professor, que é ogã (sacerdote no candomblé).

“Estamos vivendo uma repetição da ditadura, uma onda facista que se espalha a partir do governo federal. Uma violência racista da mais extraordinária. A gente se interroga como se gerou essa onda facista, que tem raízes profundas na nossa história escravocrata. No fundo é uma mentalidade escravocrata que não cessa”, continua Ordep, para quem a primeira onda negacionista é a que caracteriza o racismo estrutural no Brasil.

O pesquisador recorda o caso do artigo publicado na Folha de S. Paulo por Antônio Risério, que alega haver um suposto “racismo reverso” de negros contra brancos. O artigo, que suscitou diversas reações nos últimos dias – incluindo uma carta de 186 jornalistas da Folha posicionando-se contra a decisão do jornal de ceder espaço para artigos desta natureza -, causou também manifestações na noite de ontem. “Foi uma ofensa ao jornalismo brasileiro, foi uma ofensa à inteligência brasileira. Me falem aí quem são os brancos que estão sendo oprimidos pelos negros no Brasil, porque eu não vejo isso. Eu vejo opressão, eu vejo chacina dos povos indígenas e dos povos negros no Brasil”, argumenta. 

O presidente da ALB usou seu espaço para relembrar histórias que ele pôde acompanhar, que também expressam a forma como o Estado atua pela preservação ou não preservação da história negra na Bahia. Houve o caso da luta pela preservação da Casa Branca do Engenho Velho, conhecida como matriz de outras Casas, e outra luta, também empreendida por Cleidiana, pela extinção definitiva do Museu Estácio de Lima do Departamento de Polícia Técnica do Estado da Bahia (DPT), que exibia peças de cultos de candomblé, retiradas indevidamente de terreiros, ao lado de cabeças decepadas de cangaceiros e partes deformadas de corpos humanos. 

No entanto, apesar dos esforços de apagamento da história oficial, o professor frisa que o Brasil se constrói espiritualmente negro e indígena. “Os negros fizeram intelectualmente e espiritualmente o Brasil, não foi só o trabalho de suas mãos. Foi com seus corações, com sua mente, com sua inteligência que se fez este país”, finaliza. 

A programação do II Simpósio prossegue na noite desta quarta (26), às 18h30, com a mesa  “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”. Para o debate foram convidados o professor e editor do portal Bahia Econômica, Armando Avena, o editor do site LEIAMAISba Alberto Oliveira e o jornalista e empresário Raimundo Lima. O jornalista Luiz Fernando Lima será responsável pela mediação. 

Assista abaixo:

*Larissa Costa, estudante de Jornalismo, estagiária da ABI.
Edição: Joseanne Guedes

ABI BAHIANA

II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura discute temas sociais

Saber escrever uma boa narrativa é dever comum entre jornalistas e escritores. Entender suas implicações políticas e sociais também. A segunda edição do Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura irá se debruçar nas interfaces do trabalho jornalístico, a atividade literária e a realidade social. O evento gratuito e aberto ao público, fruto de colaboração entre a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e a Academia de Letras da Bahia (ALB), será transmitido pelo canal de Youtube da ALB, nos dias 25, 26 e 27 de janeiro, às 18h30. Não há necessidade de realizar inscrição. Quem tiver interesse em receber certificado, deverá preencher a lista que será disponibilizada durante o Simpósio.

Seguindo a tradição iniciada na primeira edição, ocorrida em abril passado, o II Simpósio será aberto pelos presidentes das duas instituições. Para o jornalista e radialista Ernesto Marques, presidente da ABI, o evento contempla ambas as áreas com a gama de nomes convidados para a ocasião. “Este segundo simpósio traz uma programação muito rica, grandes nomes do jornalismo e da literatura e de diferentes gerações. Representa a consolidação de uma parceria estratégica entre ABI e Academia de Letras que esperamos reproduzir com outras instituições importantes da cultura baiana”, afirma.

“Esta é uma aliança que deve durar. Estamos no segundo simpósio e vamos ter o terceiro, o quarto e muitos outros mais. Vamos continuar trabalhando juntos sempre com essa mesma esperança, sempre com a mesma vontade de combater o obscurantismo e de promover cultura”, celebra o antropólogo, pesquisador e professor Ordep Serra, presidente da ALB. Ele falou sobre a expectativa para o evento, que aconteceria em novembro, mas foi remarcado em decorrência do falecimento do professor João Eurico Matta, um dos imortais da ALB, ocupante da cadeira 16 da entidade. Segundo Ordep, mais uma vez, o simpósio traz questões do “mais alto interesse público” para serem discutidas nas mesas. “Sem dúvida é uma boa notícia para todo o mundo da cultura saber que a Academia de Letras da Bahia e a Associação Bahiana de Imprensa estão trabalhando em conjunto na luta comum pelo conhecimento, pela liberdade e pela democracia.” 

Debates

A primeira mesa será mais que especial. Com o tema “Mídia, história, literatura: marcas da exclusão”, os convidados debaterão as marcas da censura e da autoafirmação no campo da escrita. A mesa contará com a presença da jornalista especializada em temas étnico-raciais Ana Alakija, especializada nos estudos afro-diaspóricos e pesquisadora nas áreas de História Oral, Diáspora Africana, Identidade e Famílias Afro-brasileiras; o escritor baiano Wesley Correia, poeta, ensaísta, ficcionista, professor e pesquisador na área de Estudos Étnicos e Raciais; a mesa estará completa com Ordep Serra. Na mediação, a jornalista Cleidiana Ramos, doutora em Antropologia. 

Pautando a Economia, outra área de conhecimento cujas repercussões afetam nossa realidade, a segunda mesa terá o tema “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”. O debate será coordenado pelo jornalista Luiz Fernando Lima, e terá as contribuições do jornalista e economista Armando Avena, ocupante da cadeira 38 da ALB e editor do portal Bahia Econômica; do professor universitário e editor do site LEIAMAISba Alberto Oliveira, jornalista especializado em Economia e Marketing Digital e o jornalista, empresário, professor universitário e compositor Raimundo Lima, ex-editor do jornal Tribuna da Bahia.

Para encerrar o evento, o debate “Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador” discutirá o trabalho dessas figuras cujo ofício passeia entre o jornalismo e a literatura. Com as contribuições do arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo, ocupante da 2ª cadeira da ALB e um especialista do Urbanismo e da conservação de  monumentos; o escritor e cronista, Jolivaldo Freitas, diretor de jornalismo no portal Notícia Capital; e o colecionador de arte Dimitri Ganzelevitch, produtor cultural e colunista. O jornalista Jorge Luiz Ramos, diretor do Museu Casa de Ruy Barbosa, intermediará a conversa. 

Serviço:

II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 25, 26 e 27 de janeiro de 2022, a partir das 18h30 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)

Mais informações

Assessoria: [email protected] / 71 98791-7988 (Wa)

Ernesto Marques – presidente da ABI: 71 99129-8150

Ordep Serra – presidente da ALB: 71 98869-1531

Site: http://www.abi-bahia.org.br/  | https://academiadeletrasdabahia.org.br/

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Programação 

25 de janeiro / 18h30

Abertura: Ordep Serra (ALB) e Ernesto Marques (ABI)

Mesa 1 – Mídia, história, literatura: marcas da exclusão 

Ordep Serra, Ana Alakija e Wesley Correia 

Mediação: Cleidiana Ramos 

26 de janeiro / 18h30

Mesa 2 – Mídia, política e economia: estratégias, interfaces 

Armando Avena (ALB), Alberto Oliveira e Raimundo Lima

Mediação: Luiz Fernando Lima 

27 de janeiro / 18h30

Mesa 3 – Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador 

Paulo Ormindo de Azevedo (ALB), Jolivaldo Freitas e Dimitri Ganzelevitch 

Mediação: Jorge Ramos

Assista!