ABI BAHIANA Artigos

Viva Salvador, a primeira cidade do Brasil

Louti Bahia*

Se ligue: Salvador não foi só a primeira capital do Brasil não, vú? Também foi a primeira cidade do Brasil e a primeira cidade planejada do Brasil. Quando o assunto é Salvador, eu só te digo uma coisa: não te digo nada.

Mas vou te explicar tim tim por tim tim.

Salvador foi a primeira capital do Brasil, fundada em 1549 por Tomé de Sousa. Antes dela surgir, Portugal tinha dividido o território em 15 capitanias hereditárias. O Rei deu cada uma a um donatário e disse: vá trabaiá, se pique, se vire, vá cuidar do próprio imbigo. Vá pra lá lutar com os indígenas e dê um jeito de povoar, proteger e produzir. Aí, deu xabu. Deu a maior m🙊rda. Confusão da p🙊rr😬. Teve donatário que morreu, fulano e sicrano que fugiu de volta pra Portugal e teve até capitania que não rendeu nenhum vintém. O Rei de Portugal, que era um pedaço de cavalo, pegô ar e acabou com as capitanias. Ele chamou Tomé de Sousa e disse assim: de hoje a oito você vai partir a mil para o Brasil. Vá por ali, ó: siga reto a vida toda e bote ordem naquela bagunça. Crie a primeira capital, seja o governador geral e mande na p🙊rr😬 toda.

Aí Tomé de Sousa disse: “partiu Banda Mel” e veio trazendo mil homens pra construir Salvador. Imagine aí esse povo todo em apenas seis barcos durante meses no mar sem tomar banho de água doce. Barril de mil, literalmente. E ainda teve gente que chamô raul.

Mas quando pisaram aqui, nem esperaram o sol esfriar: adiantaram o lado da primeira cidade do Brasil. Tomé de Sousa pegô no sono, deixou até a luz dormir acesa e quando acordô já tava tudo pronto. Botaram pra lenhar.

Oxe, oxe, oxe. É o quê, coisinho? Que papo é esse que a primeira cidade do Brasil foi outra? Quem le deu alta? Feche a cara e deixe de contar lorota pra enganar turista. Antes de Salvador, só tinha vila no Brasil. Vila não é urbana, não tem centro de poder, não tem comércio, serviço, educação, saúde e tudo mais. Quem tem tudo isso é cidade. Então, se plante: vila é vila e cidade é cidade.

Tanto é que aqui mesmo no nosso território tinha uma vila no lugar do Porto da Barra. Era a Vila do Pereira, erguida em 1536. Mas gente não conta nosso aniversário a partir dessa data não: só conta a partir de 1549. Tá ligado?

Então se oriente! O nosso nome original já dizia o que a gente era: a Cidade do Salvador. Até o Papa reconheceu isso com uma bula papal: era uma exigência na época.

E né querendo me gabar não, mas além de ser a primeira cidade de todas e a primeira capital, Salvador também foi a primeira cidade planejada do Brasil.

Vou largar o doce, que eu não sou baú. Salvador foi desenhada em Lisboa e as p🙊rr😬. O Mestre das Obras, Luis Dias, adiantou o lado e já veio com Tomé de Sousa trazendo o projeto prontinho. Só precisou escolher o melhor terreno e começar a construir. Mas tudo feito de tauba porque aqui não tinha pedra.

A história de Salvador é porradona: né pôca m🙊rda não. Nossa cidade foi criada a partir do Tratado do Desenho Italiano. Era a coisa mais avançada na Europa da época. Vou te dar a ideia: esse tratado foi criado a partir do Renascimento Cultural, a partir dos estudos do gênio Leonardo da Vinci. Ele criou o Homem de Vitrúvio depois que estudou a história desse antigo arquiteto grego. E essa criação dele até hoje é base para estudantes de engenharia, arquitetura e design no mundo inteiro. Ói de onde veio a base da teoria construtiva que deu origem à Cidade do Salvador.

Tá com inveja? Problema seu: não guenta vara, peça cacetinho.

Por isso que a nossa cidade nasceu com uma praça aberta pra um lugar muito bonito e sagrado. Esse conceito de praça assim foi criado pelos gregos com o nome de ágora. Essa praça é a nossa Praça Municipal que fica lá no de frente para a Baía de Todos-os-Santos. É boca de zero nove. Vá lá dar uma espiadinha.

A nossa cidade foi construída na parte alta para facilitar a defesa e ter melhor ventilação e iluminação natural. Esse era o conceito de Acrópole, criado também pelos gregos. De lenhar, né? Apertei sua mente, não foi?

E a gente é soteropolitano porque sotero vem do grego sóter que significa “o salvador”. Poli em grego é cidade. Politano é o habitante da cidade. Então soteropolitano quer dizer “habitante da Cidade do Salvador”. É isso que a gente é, pivete. Pegue a visão.

Por isso que, em Salvador, quem menos anda voa.

Tá veno aí? Entendeu tudo mermo, seu bocó? Ou acha que eu tô falando grego?

Pois mande logo esse texto pruzoto, vú?

E respeite Salvador porque Salvador é ôtra história.

*Texto em baianês, escrito por Luciano ‘Louti’ Bahia, responsável pelo projeto educativo @amoahistoriadesalvador.

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Pesquisador de Cidades, especialista em Desenvolvimento Regional, Urbano e Ambiental.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
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Notícias

ESPM promove quinze aulas abertas remotas e gratuitas no mês do jornalista

A ESPM, escola referência em Marketing e Inovação voltada para negócios, promoverá quinze aulas abertas remotas e gratuitas no mês de abril com temáticas diferentes. As aulas terão início no dia primeiro do próximo mês e os interessados podem se inscrever no site da instituição

O portfólio de aulas abertas da ESPM para o mês do jornalista conta com cursos sobre Marketing Eleitoral, licenciamento de marca, UX Design Estratégico, gestão de crises e muitos outros.

Sobre a ESPM – A ESPM é uma escola de negócios inovadora, referência brasileira no ensino superior nas áreas de Comunicação, Marketing, Consumo, Administração, Economia Criativa e Tecnologia. Seus 12 600 alunos dos cursos de graduação e de pós-graduação e mais de 1 100 funcionários estão distribuídos em cinco campi – dois em São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Porto Alegre e um em Florianópolis. O lifelong learning, aprendizagem ao longo da vida profissional, o ensino de excelência e o foco no mercado são as bases da ESPM.

Confira a programação completa abaixo:

  • Aula aberta: Mudanças climáticas: Como as empresas estão reportando as suas práticas? 

Data: 01/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discussão sobre como elaborar um Relatório de Sustentabilidade que seja claro, detalhado e legítimo
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Ocupando futuros: como impulsionar sua carreira explorando pioneiramente as oportunidades com foresight?

Data: 02/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Capacitar os participantes a compreenderem e aproveitarem oportunidades emergentes, adotando uma abordagem pioneira e estratégica com o uso do Foresight
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: A comunicação na origem de todos os conflitos

Data: 03/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Descobrir alternativas para melhorar sua comunicação e aprender a lidar melhor com os conflitos
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Marketing Eleitoral: os segredos das campanhas vencedoras

Data: 03/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discussão sobre as principais características do marketing eleitoral vitorioso, o que mudou na sociedade brasileira, quais são os desafios e as oportunidades para os estrategistas das campanhas de hoje em diante
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Licenciamento de marca

Data: 04/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Compreender como utilizar o licenciamento de marca para valorizar sua marca e seus produtos, se beneficiando das principais oportunidades do licenciamento
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Agroindústria e a evolução circular

Data: 08/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discussão sobre a importância de estar preparado e saber reorientar objetivos e reposicionar a agroindústria brasileira para que esta possa liderar a transição para um sistema circular
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: UX Design estratégico – principais tendências, como a IA e outras tecnologias disruptivas irão nos afetar até 2030

Data: 09/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discutir sobre o impacto da inteligência artificial dentro dos clusters de UX/UI
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Tendências de marketing no mercado internacional

Data: 09/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discussão sobre os principais temas presentes nos grandes eventos e estudos de marketing dos últimos anos e como sair na frente no mercado
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Gestão de crises nas redes sociais

Data: 10/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Como evitar as crises de imagem e como agir quando elas acontecerem com a sua organização
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Economia comportamental como fonte de inovação

Data: 11/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Explorar o universo da Economia Comportamental, disciplina que se aprofunda nas complexas nuances do comportamento humano, revelando-se como uma valiosa fonte de inspiração para a inovação em uma ampla gama de setores
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Análise da concorrência no marketing digital

Data: 11/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Analisar a maturidade e os resultados digitais da concorrência, e como avaliar o potencial do mercado no ambiente digital
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Aumentando as vendas com estratégias de fidelização

Data: 15/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discutir sobre como a fidelização pode se traduzir em aumento de vendas e lucratividade
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: Neuromarketing na prática

Data: 16/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Como as grandes empresas têm utilizado o neuromarketing no seu dia a dia
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  • Aula aberta: Fundamentos e aplicações do CX

Data: 22/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Entender os principais elementos para se pensar em soluções customer centric de forma estratégia
Modalidade: Online
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  • Aula aberta: A crescente importância dos dados e da Pesquisa Quanti nas tomadas de decisões estratégicas

Data: 23/04
Horário: Das 20h às 21h30
Descrição: Discutir como os modelos estatísticos e quantitativos têm se tornado uma forma de entender o comportamento do consumidor e gerar insights para negócios
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Artigos

Luiz Tarquinio (1844-1903), colaborador e patrocinador da imprensa brasileira

*Luis Guilherme Pontes Tavares

Eis um personagem que os brasileiros, sobretudo os baianos, precisam conhecer muito mais: Luiz Tarquinio nasceu na Cidade do Salvador, em 24 de julho de 1844, e faleceu, aos 59 anos, na mesma cidade, em 07 de outubro de 1903. Em 2024, transcorre, pois, os 180 anos do nascimento dele. Filho da lavadeira Maria Luiza dos Santos, a quem ampararia por toda a vida, Luiz, que adotou o sobrenome Tarquinio por volta dos 10 anos de idade, trilhou a extraordinária trajetória da pobreza à riqueza, marcando-a com iniciativas modelares e que reclamam o devido relevo para que todos nós saibamos mais a respeito.

Esse primeiro parágrafo acentua que o personagem em apreço é relevante, porém desconhecido. Neste artigo, darei ênfase à relação de Tarquinio com a Imprensa, baiana e brasileira. Serão raspões sobre a ponta do iceberg. Que provoquem a curiosidade de pesquisadores da história das Imprensa. Ousarei lançar a dúvida se ele foi ou não o precursor dos house organs (comunicação empresarial) na Bahia e, quiçá, no Brasil. Ele foi colaborador de jornais locais e nacionais, reuniu muitos dos artigos em plaquetas ou folhetos e foi patrocinador da Revista Popular, que circulou entre 1897 e 1898 em Salvador.

REUNIA OS ARTIGOS EM PLAQUETES

Talvez “Estatutos da sociedade Club Progresso da Humanidade”, publicado, em Salvador, na Revista mensal da Sociedade Parthenon Litterario (v.2, n.6, junho de 1873), em que Tarquinio dividiu a autoria com Jose Francisco dos Santos, seja uma das publicações mais remotas desse autor. Não tive, todavia, acesso a essa e a outras publicações listadas neste texto. Soube delas ao ler os livros Luiz Tarquinio. Pioneiro da Justiça Social no Brasil, do escritor baiano Péricles Madureira de Pinho (1908-1978), obra patrocinada, em 1944 pela Companhia Empório Industrial do Norte (CEIN), por ocasião do centenário de nascimento de Tarquinio, e Luiz Tarquinio. Semeador de ideias, livro que a escritora e gestora Eliana Dumêt publicou, a 2ª edição revista e atualizada pela paulista Gente, em 1999. Ela é bisneta de Tarquinio.

Luiz Tarquinio manteve polêmica com o conterrâneo Ruy Barbosa (1849-1923) sobre questões fazendárias e sobre a abolição da escravatura. Isso em páginas de jornais do Rio de Janeiro, no final do século XIX. Tarquinio é cinco anos mais velho que Ruy e ambos residiram no mesmo logradouro, a então Rua dos Capitães, no centro da Cidade do Salvador, que, a partir de 1903, seria batizada de Rua Ruy Barbosa. Desconheço qualquer referência da proximidade dos dois, até porque Tarquinio começou a trabalhar por volta dos 10 anos para auxiliar no sustento da casa. Quando Ruy completou cinco anos de idade, Tarquínio já estava na lida. Sequer tinha tempo livre para frequentar escola. Foi, todavia, leitor irrefreável.

Em 1885, atuando na Bruderer & Cia no design, importação e comércio de tecidos, Tarquinio publicou, utilizando-se do pseudônimo de Cincinnatus – há explicação para a escolha desse nome –, a coletânea de artigos dele intitulada O elemento escravo e as questões econômicas do Brasil (Salvador: Typ. Dos Dois Mundos). Em 1892, reuniu artigos publicados na Capital Federal (Rio de Janeiro) sob o título de Auxilio ás industrias (Salvador: Imprensa Popular), a única obra em PDF que encontrei na web – no site do Senado Federal (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/222327).

Há três referências citadas no artigo da professora doutora Maria Helena Flexor – “Luiz Tarquinio: Companhia Empório Industrial do Norte” in Península de Itapagipe – patrimônio industrial e natural (Salvador: Edufba, 2011, p. 143-169) –: Direitos de importação em ouro: considerações sobre as tarifas do Brasil e da União Americana Salvador: Imprensa Popular, 1890); A solução da crise (Salvador: Imprensa Popular, 1892) e Apelo aos ilustres representantes da nação (Rio de Janeiro: Litho-tipographia de Pinheiro, 1895).

COMUNICIAÇÃO EMPRESARIAL

Há muito o que estudar a respeito do jornalista Luiz Tarquinio, sobretudo investigar o pioneirismo dele na criação de house organs na Bahia e no Brasil. Ele tanto construiu a fábrica de tecidos na Boa Viagem (Península de Itapagipe) como edificou a Vila Operária e os muitos equipamentos que ofereciam educação, saúde, gêneros alimentícios e esportes aos empregados e familiares deles. Ademais, lhes destinou o jornal O Operário (referido também como O Trabalho) e a revista Cidade do Bem, que substituiu o jornal em 1º de janeiro de 1899 e foi dirigida pelo jornalista, poeta e diplomata gaúcho Mucio Teixeira (1857-1926). Ainda não encontrei nenhum exemplar desses produtos jornalísticos pioneiros.

Artigos publicados, sobretudo na revista citada, foram reunidos por Tarquinio, em 1901, na plaqueta Preceitos Moraes e cívicos. Tampouco, por enquanto, localizei essa publicação. Alguns dos artigos de Tarquinio, publicados em ocasiões distintas, foram incluídos tanto no livro de Péricles Madureira de Pinho como no livro de Eliane Dumêt. Há muito o que pesquisar e apelo para os jovens estudantes de Comunicação, História e Biblioteconomia para atenderem o desafio e avançarem em busca das informações necessárias.

Por fim, volto a Cincinnatus. No discurso que o engenheiro, professor e político Miguel Calmon Sobrinho (1912-1967) publicou na Revista do IGHB (volume 72, 1945, p. 221-231), pronunciado, em julho de 1944, por ocasião do centenário de Luiz Tarquinio, ocorrido no dia 24 daquele mês, há a informação de que o empresário patrocinou a Revista Popular, que o gráfico e editor baiano (nascido em Cachoeira) Cincinnato José Melchiades (1858-1920), proprietário da Typographia Bahiana, imprimiu e publicou entre 1897 e 1897. O pseudônimo Cincinnatus utilizado por Tarquinio pode ter sido uma distinta homenagem ao amigo Cincinnato Melchiades.

Viva Luiz Tarquinio!

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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Artigos

A 25ª hora. A mulher não dorme, cochila

*Liliana Peixinho

Estatísticas, fatos, registros sobre desrespeito, violência, exploração, negação de direitos à mulher são diários, constantes e históricos. Lamentável, pois a alma feminina – símbolo de cuidado, amor, coragem – alimenta a vida produtiva, mesmo com dados invisíveis sobre o valor do trabalho.

Firme, forte, sem desistir do seu papel agregador, sensível, atenta a detalhes, a mulher segue na luta, em atuação permanente em todas as áreas da vida: no ambiente acadêmico, na ciência, na política, no esporte, nas artes, na pesquisa avançada, no intercâmbio entre países, nas residências, na agricultura, no artesanato, na moda, na culinária, nos cuidados e afetos.
Seja no céu, no mar, na terra, a mulher, historicamente, mostra sua coragem e força em compromisso coletivo para o bem viver.

São diversas as lutas históricas em desafios constantes.

Mães sem renda, com renca de filhos; pais desempregados, sem moradias decentes, amontoados uns sobre outros; exploração no trabalho, violências diversas, Brasil e mundo afora, nos chamam a atenção, diariamente.

Que futuro pode ter a humanidade em cenários tão perversos? Mães que, pressionadas, cansadas e sem alternativas, saem ao nascer do sol de suas moradias, madrugadas insones, em via-crúcis de baldeação de transportes coletivos, para chegar até outro bairro, em residência alheia, para cuidar dos filhos de outras mães, em troca de um salário mínimo e cuja remuneração tem se mostrado insuficiente para a mínima dignidade familiar, como acesso a água e alimentação de qualidade.

Para jornalistas independentes, sem pautas previamente produzidas, em liberdade e desafio de ir a campo investigativo para observar, retratar e compartilhar histórias, é preciso atitude de compromisso e risco. Pesquisas recentes revelam o quanto as mulheres jornalistas, planeta afora, precisam continuar lutando por respeito, por direitos, por reconhecimento de fato do trabalho.

São diversas as labutas diárias, entre os seus múltiplos papéis – afazeres fora e dentro de casa, com foco no cuidado.

Nas imersões jornalísticas que faço, Brasil afora, Sertão Adentro, compartilho de rotinas com mulheres que não dormem, apenas cochilam, em dias curtos e noites longas.

“A mulher não precisa mais dar provas de sua capacidade para encarar desafios”

A mídia, movimentos sociais, coletivos diversos, reforçam o proativismo feminino em seus múltiplos papéis. O reconhecimento desse perfil da mulher, apesar de propagado, não tem correspondência com os esforços históricos de lutas, nas diversas frentes. A mulher não precisa mais dar provas de sua capacidade para encarar desafios. A proporção entre o tempo de corrida para fortalecer e elevar esse perfil, e a garantia de estruturas sociais dignas do esforço, são injustas, não suprem as reais necessidades cotidianas. Na realidade são abusivas, exploradoras, injustas.

Depois de tanta luta, cansaço, entrega, a mulher quer tempo e espaço para si mesma.

O protagonismo feminino precisa ser traduzido em direitos, que continuam sendo negados. A desvalorização da mão de obra, do tempo, suor, entrega ao trabalho, em todas suas múltiplas jornadas, tem elevado os níveis de dores ao insuportável.

O que ainda se vê é a submissão de mulheres, que se veem acuadas diante de provedores materiais. É uma escravidão, em agenda pesada, que até tenta amenizar, distribuir atividades para arranjar tempo e tentar se dar prioridade, colocar-se no topo, por um tempo, antes de qualquer outra atividade.

No entanto, antes dela, existem outros: a família, o patrão, os colegas de trabalho, a mãe, o pai, o neto, o sobrinho, a amiga, num ritmo de atenção e cuidados sem fim.

A 25ª hora é acionada, com frequência, em dias onde 24 horas não têm sido suficientes para tanta sobrecarga de atividades.

Ouço e leio por aí que a mulher moderna é aquela que se permite ser um pouco relapsa. Relapsa? Que luxo poderia ser! Mas não pode, ou ela não se permite. Precisa estar bela, e até escrava de alguns comportamentos, para atender padrões estéticos externos. O consolo é ver movimentos libertários dos padrões do culto à escravidão de padrões, por meio da valorização do todo, onde a estética é apenas um detalhe dentre muitos outros aspectos importantes no cuidado integral à vida.

Nas imersões jornalísticas que faço, por conta própria, observo por que mulheres não se permitem ser relapsas. Como se permitir, fazer de conta que não vê, sente, ouve, o que está a necessitar de cuidar, fazer, diante de filhos e filhos à sua frente?

Como deixar de lado famílias inteiras, numerosas, para educar, dar de comer, vestir, cuidar, promover a saúde, em ambientes de muita carência?
Como ser “relapsa” com determinadas demandas para pensar em si, vendo o companheiro desempregado, a despensa vazia, os filhos puxando a barra da saia, chorando de dor, de fome?

“A divisão do trabalho, não depende de gênero, mas de consciência coletiva responsável”

Com dribles no tempo, a mulher – com a sua típica resistência – alimenta forças invisíveis para se levantar e seguir nos desafios cotidianos. O que vejo são mulheres mãe solo, ou ao lado de maridos, filhos e parentes, lutando pela vida, aparentemente incansáveis. Vejo mulheres que são mães, avós, filhas, netas, sobrinhas, esposas, em filas gigantes, em via-crúcis diárias para garantir direitos; vejo mulheres com pesos sobre a cabeça, andando quilômetros, suadas e cansadas; vejo mulheres com bacias cheias de roupas para lavar, esfregar, estender, pegar do varal, dobrar, guardar organizar; vejo mulheres sempre carregadas de peso nos ombros, nos quadris; vejo mulheres driblando a vida para amortecer dores.

Mulheres, jovens e idosas, sob o sol a pino à procura de feijão, farinha, frutas.

Mulheres das roças, das cidades, das metrópoles. Mulheres que criam, transformam, improvisam, inventam, tentam, conseguem e resistem às dores de perdas. Mulheres que tentam sair de perversos ciclos de negação de direitos.

E, nesse cenário, a realidade de trabalho da mulher nordestina, brasileira, africana, asiática e mundo afora, está a nos indignar em tanta desumanidade.

Depois de tanto correr, lutar, desafiar, se entregar inteira, na criação e cuidados com filhos, sobrinhos, netos, vizinhos, a guerreira, a que não para, ainda não se permite dizer não.

Muitas sonham alto, com os pés no chão. Aquelas que conseguiram ter acesso à informação de qualidade, que galgaram espaços de decisão em empresas, em instituições, na ciência, na política, no esporte, na cultura, não o fazem com exclusividade. Estão, como outras, a desempenhar múltiplas funções, em sobrecargas de trabalho que estressam, adoecem, pela constante abnegação do seu tempo, a outrem.

Mulheres que carregam o peso de encontrar tempo para promover o cuidado com a família e a carreira; em entrega ao acompanhamento da educação e afetos, mulheres que tentam esticar o tempo para a fundamental formação de valores que a família requer.

Nesse cenário, quando observamos o comportamento de homens comprometidos, parceiros, lado a lado, enfrentando os desafios, chegando junto nas atividades domésticas, no trabalho externo, nas ruas, com os filhos, com os pais idosos e doentes, esse é um tempo de alimentarmos a prática de que a divisão do trabalho não depende de gênero, competência, tradição, mas sim de compromisso e consciência coletiva responsável.

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*Liliana Peixinho é jornalista, ativista humanitária, especialização em Jornalismo Científico, Meio Ambiente e Direitos Humanos. Fundadora de Mídias independentes e Movimentos como AMA – Amigos do Meio Ambiente.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
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