ABI BAHIANA

“Quem atua para revelar a verdade dos fatos incomoda”, diz Walter Pinheiro

Nesta entrevista concedida à OAB-BA, o presidente da Associação Bahiana de Imprensa, Walter Pinheiro, fala do papel da imprensa no funcionamento da democracia, a garantia constitucional do sigilo da fonte, notícias falsificadas, reflete sobre os modelos atuais de mercados do jornalismo, além de abordar a atuação da ABI na defesa da liberdade de expressão. Confira!

A imprensa é considerada um dos mecanismos responsáveis por zelar pelo bom funcionamento da democracia. Nesse contexto, qual a importância da liberdade de imprensa para o Brasil na atualidade? Acredita que ela vem sofrendo alguma espécie de cerceamento?

Walter Pinheiro: Sem a imprensa livre, não há democracia. Ela é um dos pilares para o exercício democrático do poder. Numa sociedade com as características da nossa, ainda em processo de formação, a presença e a atuação da imprensa é fundamental. Entretanto, é preciso fazer isso de forma responsável, para que a liberdade não se torne uma licenciosidade. Quanto ao desejo de alguns de atrapalhar ou suprimir e prejudicar essa liberdade, é algo que acontece em qualquer nação. Sempre há alguém para ativar o rei que existe dentro de si e ser monocrático. No Brasil, não é diferente. Por aqui, a liberdade de imprensa existe e está sendo exercitada há algum tempo, ainda que atravessada por episódios de violência concreta e simbólica. Mas existem formas diferentes para se fazer censura. Precisamos ficar muito atentos, por exemplo, a investidas na área jurídica. Houve um aumento dos casos de cerceamento à liberdade de imprensa por ações judiciais, de acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Cada vez mais se recorre a processos por danos morais com o objetivo de intimidar ou fragilizar o profissional da notícia. E o pior de tudo é a autocensura, que visa desestimular a ação daqueles que fazem imprensa no país.

Muito tem se falado sobre a importância da fonte dentro do jornalismo. Qual o papel da fonte para o livre exercício da profissão?

W.P.: A fonte é quem fornece notícias, ela é a base de um bom jornalismo. Normalmente, as matérias estão estribadas em fontes, na maioria, identificadas e conhecidas. Elas garantem a credibilidade de uma boa matéria jornalística, enriquecem o material, porque prestam o testemunho dos fatos. Por isso, é importante que seja fidedigna, que valorize, fortaleça a verdade que o jornalista está buscando revelar. Cabe ao jornalista se comprometer com a apuração, para comprovar a veracidade das informações que divulgará.

Em seu artigo 5º, a Constituição Federal diz que é “assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. Qual a importância do sigilo da fonte e em que casos o jornalista pode se utilizar da prerrogativa?

W.P.: O direito do jornalista de manter o sigilo da fonte é essencial à prática da profissão. Essa garantia constitucional resguarda o bom desempenho da atividade de informar. O jornalista guardará a origem de suas fontes de informação sempre que considerar necessário (Art. 8o -). Muitas vezes, numa investigação jornalística, a fonte admite fornecer os dados, mas não deseja ser identificada. Então, se ela confia no profissional e este nela, é feito um pacto entre as partes, para que o fato seja divulgado e a fonte, preservada. Se tudo estiver estribado na verdade, não há por que temer. É importante deixar claro que, no momento em que o jornalista opta por não revelar, ele assume a responsabilidade pelo que está divulgando. Se não fosse assim, ele poderia publicar informações falsas ou incorretas e atribuir a uma fonte desconhecida e não sofreria sanção. Ele tem o direito de preservar a fonte, mas responde pelo que escreve.

A partir da popularização da internet e das redes sociais, a estrutura das equipes jornalísticas e os próprios modelos de venda de conteúdo passaram por mudanças significativas. Como funcionam e quais são os modelos atuais de mercados do jornalismo?

W.P.: Sem dúvida, a internet reformulou o mundo da comunicação social, antes resumido praticamente à redação, rádio e TV. As inovações tecnológicas e as influências da globalização cunharam o perfil do ‘novo jornalista’. Hoje, a prática da imprensa é algo liberado para todos aqueles que tenham um celular na mão. Uma pessoa pode a qualquer momento e de qualquer lugar relatar um fato ou transmitir uma mídia, fazer aquilo que durante anos foi uma exclusividade dos que estavam atuando diretamente em órgãos de comunicação. O jornalismo se abriu a novos formatos. Vemos o fortalecimento do modelo das novas empresas de conteúdo, assinatura de newsletters de temas específicos, estreitamento da relação entre jornalismo e publicidade, os jornais abraçando a tecnologia, as redes sociais e os serviços de valor adicionado. Há possibilidades infinitas de atuação e isso é muito positivo, mas o jornalista deve continuar prezando pelas boas práticas na apuração e elaboração do material.

A popularização das redes sociais alimentou a criação e propagação das fake news. Quais os riscos que as notícias falsas podem trazer para o leitor e como filtrá-las?

W.P.: Não é um fenômeno novo. A diferença é que hoje as notícias falsificadas têm um alcance muito maior, por causa dos múltiplos canais na internet. Antes, chamávamos de “fofoca”, “mentira”, “barrigada” (quando era algo involuntário). Notícias não verdadeiras sempre existiram. O que é condenável é a notícia falsa espalhada propositalmente com o objetivo de tirar proveitos. Tivemos exemplos nas eleições dos Estados Unidos e nas últimas eleições brasileiras. É algo que precisa ser combatido. A melhor forma de se proteger é verificar qualquer informação recebida antes de retransmitir. Já houve casos de pessoas agredidas ou mortas por causa de desinformações compartilhadas na rede.

Com a velocidade que a internet enseja, o “furo” tem sobrevivência de segundos. Quando algo cai na rede através de um canal, os outros começam a replicar. Alguns têm a responsabilidade de publicar aquilo que está checado, para não afetar a sua credibilidade e imagem. O importante é não dar sequência a notícias sensacionalistas. Não devemos alimentar o processo. Isso não será elucidado tão cedo e há perigos de aumentar, porque ainda trabalhamos muito na superfície da internet. Existe a deep web, oculta para o grande público e território de muitas práticas ilegais.

No relacionamento com o leitor, como o jornalista deve lidar com as patrulhas partidárias da internet?

W.P.: O jornalista não deve ter medo de patrulhamento que acontece pela internet. Caso contrário, é melhor não ser jornalista. Naturalmente, sabemos que é uma profissão de risco. Quem atua para revelar a verdade dos fatos incomoda. Essa verdade gera reações violentas, às vezes. É preciso que o jornalista trabalhe com a sua consciência. Se ele está elaborando uma matéria, procure gravar o que está recolhendo, ser fidedigno, ser cuidado ao escrever, não se afastar da verdade. Agindo assim, estará mais seguro e fortalecido para enfrentar esse patrulhamento e lidar com divergência de posicionamentos. Se houver excessos, existem remédios jurídicos que poderão ser aplicados. Os bons advogados estão preparados.

A ABI tem um passado marcado por lutas voltadas à liberdade de expressão e em defesa dos jornalistas baianos. Quais as principais dificuldades enfrentadas pela associação na atualidade?

W.P.: A ABI se mantém, permanentemente, atenta à defesa da liberdade de expressão do pensamento por entendê-la como um dos direitos mais sublimes do indivíduo. Além disso, a instituição segue atenta aos direitos humanos, às questões ambientais, a tudo aquilo que vise o aprimoramento do ser humano. As maiores dificuldades se dão na intermediação de conflitos que envolvem autoridades, ou poderosos, que se acham no direito de não serem fustigados, mesmo sendo pessoas públicas, sujeitas ao trabalho da própria imprensa. A ABI encontra-se muito bem montada, estruturada e fortalecida, com instalações dignas, sempre à disposição dos profissionais da comunicação. É um momento alvissareiro para nossa entidade, ainda mais nesta fase, em que o Brasil passa por transformações, enfrenta conflitos, vivencia um processo intenso de intolerância. Estamos aqui para contribuir, mediar posições, visando o alcance de um cenário melhor para o país.

A OAB da Bahia já atuou junto à ABI, inclusive na promoção de eventos em defesa da imprensa livre. Como enxerga essa parceria com a OAB-BA, uma vez que a entidade é uma das principais responsáveis pela defesa do estado democrático de direito?

W.P.: A ABI e a OAB-BA são irmãs siamesas, porque também sem a OAB não existe democracia. A Ordem trata da boa prática da Justiça. O seu alinhamento com a ABI é algo que fortalece as duas instituições. Não é surpresa que todas as vezes que existe um conflito na comunidade, logo, os nomes dessas instituições são lembrados para ajudar. Por isso, devemos estar sempre unidos. Já realizamos convênios em outras gestões e estamos prontos para fazê-lo com o Dr. Fabrício, que é um prezado amigo. Que a ABI possa contribuir com a OAB-BA para o alcance dos seus objetivos e que ela possa ser nossa patrona, no fortalecimento dos nossos trabalhos em busca da verdade e em defesa da boa prática do jornalismo.

*Entrevista publicada originalmente no site da OAB-BA. Acompanhe a instituição nas redes sociais:
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Trajetória do pioneiro da imprensa privada no Brasil é tema de palestra na ABI

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) promoverá na manhã do dia 2 de agosto a palestra “Manoel Antonio da Silva Serva (c.1760-1819): a trajetória de um tipógrafo na capitania da Bahia”, ministrada pelo professor doutor Pablo Antônio Iglesias Magalhães, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Na véspera da data dos 200 anos da morte de Silva Serva, o palestrante revisitará a bibliografia sobre o pioneiro da imprensa privada brasileira e apresentará informações inéditas, obtidas ao longo de mais de 10 anos de pesquisa. A palestra é aberta ao público e será realizada às 9h30, na sede da ABI.

O professor Pablo Magalhães é formado pela UFBA e empreendeu pesquisas em arquivos estrangeiros por ocasião do doutorado. Segundo ele, a ideia é recuperar e mapear o patrimônio bibliográfico da Bahia, partindo do próprio personagem central da tipografia, o empresário que a criou e deu corpo a ela durante 8 anos, entre 1811 até 1819, até falecer. “A trajetória do Manoel Antonio da Silva Serva é o início de um percurso para recuperar o patrimônio bibliográfico da Bahia, que está fragmentado ou esquecido”, ressalta o historiador.

Morgado de Santa Bárbara, no Comércio, onde Manoel Serva instalou a primeira tipografia privada brasileira

De acordo com Luís Guilherme Pontes Tavares, diretor da ABI, o personagem teria nascido no Norte de Portugal e faleceu no Rio de Janeiro em 3 de agosto de 1819. “Fora a quarta viagem dele à capital do Reino a fim de vender impressos e serviços gráficos da sua tipografia que funcionava no Morgado de Santa Bárbara (foto), no Comércio da Cidade do Salvador”, destaca.

Pablo Magalhães reforça a contribuição do tipógrafo. “Ele tem uma importância capital também no processo de expansão e transformação do cenário cultural do Brasil na última década que antecedeu a independência. Foi a partir da tipografia que houve uma ampliação dos livros didáticos impressos aqui, sendo possível alcançar mais estudantes”, conclui.

Serviço:

200 ANOS DA MORTE DO PIONEIRO DA IMPRENSA PRIVADA BRASILEIRA
Local: Auditório Samuel Celestino, 8º andar do edifício da ABI (Rua Guedes de Brito, 01, esquina da Praça da Sé)
Dia e hora: 2 de agosto (sexta-feira), às 09h30
Palestrante: Professor Doutor Pablo Iglesias Magalhães, do Deptº de História da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB)
Notícias

Entidades lançam o 18º Curso de Jornalismo em Guerra e Violência Armada

Estão abertas até 18.ago.2019 as inscrições para o 18º Curso de Jornalismo em Guerra e Violência Armada, módulo do Projeto Repórter do Futuro realizado pela OBORÉ em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD). O curso conta com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Os vinte estudantes selecionados participarão das palestras e entrevistas coletivas entre os dias 21.set.2019 e 2.nov.2019, sempre aos sábados, com coordenação do jornalista Aldo Quiroga.

A atividade reúne, desde 2001, juristas, militares, policiais e jornalistas para tratar sobre normas internacionais aplicáveis em situações de conflito armado e outras situações de violência e sobre o trabalho da imprensa nestes contextos, além de apresentar o perfil da ação humanitária do CICV em mais de 80 países.

Neste ano, os conferencistas serão o chefe-adjunto da Delegação Regional do CICV, Filipe Tomé de Carvalho, o assessor jurídico do CICV, Gabriel Valladares e o responsável técnico do Programa com as Forças Policiais e de Segurança do CICV, Paulo Roberto Oliveira. Também haverá um encontro sobre a cobertura da imprensa brasileira de conflitos armados e violência armada com a jornalista Bianca Vasconcellos da TV Brasil.

Ao todo, serão escolhidos 20 participantes, estudantes universitários de graduação na área de Comunicação Social que tenham interesse nesse tema.A seleção será realizada online entre 22 e 24 de agosto. Os candidatos realizarão um teste de seleção que visa avaliar o perfil dos interessados e identificar quais poderão ter melhor aproveitamento do módulo.

O resultado será divulgado no dia 13 de setembro e as matrículas entre 16 e 18.

Essas e outras informações estão disponíveis no site.

Serviço
18º Curso de Jornalismo em Guerra e Violência Armada – OBORÉ e CICV)
Até 18.ago.2019
Inscrições no site

FONTE: Abraji

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Emiliano José lança segundo volume da biografia de Waldir Pires

Pouco mais de um ano depois do lançamento do primeiro volume, o jornalista e escritor Emiliano José entrega ao público a obra “Waldir Pires, Biografia –Volume 2”, fruto de cerca de sete anos de pesquisa e entrevistas. O novo livro será lançado no dia 15 de agosto, às 17h, no Palácio Rio Branco (Centro). “A partir de 17h, eu estarei lá autografando”, avisa Emiliano José. Em entrevista à Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o autor disse que a importância da biografia de Waldir está relacionada à luta pela democracia no Brasil.

“Porque ele é um exemplo de extraordinário combatente pela democracia. Ele insistia nisso não só como regime de eleições, mas como regime que garante, sustenta e luta pela igualdade entre as pessoas”, afirma o jornalista. Emiliano falou sobre a experiência de escrever sobre o político falecido em junho de 2018, aos 91 anos, após parada cardiorrespiratória. “Uma honra retratar essa trajetória de vida extraordinária, uma missão de homem que amava o povo baiano, o povo brasileiro, que amava a humanidade. Ele tinha ideais muito elevados”, falou, emocionado.

Emiliano também refletiu sobre o atual panorama político brasileiro. “Vivemos um momento em que precisamos de homens assim, momento de muita dificuldade, supressão de direitos e liberdades no Brasil, com o novo governo que se instala no ano passado e vem na esteira do golpe de 2016”, analisa. “Waldir era um homem necessário para esta conjuntura e infelizmente nós o perdemos”, destaca Emiliano.

Para ele, o lançamento é parte desse processo. “É o momento de congregar pessoas com esse espírito de luta pela democracia. Essa luta implica diversidade, multiplicidade de visões, de pensamentos e olhares. Waldir sempre insistiu nisso”, conclui. Em junho do ano passado, a diretoria da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) aprovou uma moção de congratulação a Emiliano José, pelo trabalho que conta a história de um dos políticos mais influentes do Brasil.

Volume 2 – A primeira parte do livro aborda o nascimento em Acajutiba e segue até o fim da jornada de Waldir Pires no Rio de Janeiro e retorno à Bahia vindo do Rio de Janeiro, em 1978, com o fim da vigência do Ato Institucional nº 5. Já o segundo volume, a ser lançado no próximo dia 15, conta a partir de 12 de janeiro de 1979 e descreve a caminhada de Waldir Pires na resistência democrática, a ousadia da candidatura ao Senado em 1982. Retrata a construção do PMDB, a campanha das Diretas Já, a vitória eleitoral em 1986, a polêmica renúncia. Relata também a eleição a deputado federal em 1990, pelo PDT, a filiação ao PT, sua reeleição a deputado federal e fim da carreira política, com seu mandato de vereador.