ABI BAHIANA

Simpósio aponta falhas na cobertura jornalística das áreas econômica e política

No segundo dia do evento, debate com jornalistas especializados projetou cenários para o país em 2022

Desigualdade social, projeções de crescimento pífio para o Brasil, aumento das incertezas. O panorama econômico no país é desafiador e vai demandar projetos e iniciativas concretas rumo a uma recuperação. Isso foi demonstrado pela mesa “Mídia, política e economia: estratégias, interfaces”, do II Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura. Ocorrido na noite desta quarta (26), o evento teve as contribuições do economista Armando Avena, editor do portal Bahia Econômica, do jornalista Alberto Oliveira, especializado em Economia e Marketing Digital, e do empresário e jornalista Raimundo Lima. Hoje (27) acontece a última mesa do evento, com o tema “Cronistas e articulistas: um olhar crítico sobre a cidade do Salvador” (clique para assistir). 

A mediação ficou a cargo do jornalista Luiz Fernando Lima. Elogiado por sua atuação na mesa, Lima abriu o evento provocando os debatedores a avaliarem não apenas a cobertura midiática, mas o próprio cenário econômico do país. “Economia, política e mídia se encontram em diversas interfaces em nossa sociedade. Não há como planejar e executar em nenhum desses campos ignorando qualquer coisa dessas interconexões”, avalia. Ele destacou que o país atravessa um momento histórico, em que é preciso criar estratégias para sair do fosso econômico-social.

“O trabalho da imprensa é fundamental em um estado democrático, ainda mais necessário em um momento no qual essa nossa adolescente democracia se encontra tão maltratada. É por considerar esse trabalho tão importante que eu sou tão exigente”, inicia Alberto Oliveira. O profissional destacou uma série de princípios que norteiam o que ele classifica como bom jornalismo: a neutralidade, a simplicidade, a busca do profissional pelo contraditório e pela divergência de ideias. 

Apesar disso, ele destaca que o cenário contemporâneo também traz novas exigências que redefinem o conceito de qualidade na área. Ele afirmou que para fazer o jornalismo hoje não basta apurar e escrever bem. “É preciso dominar uma série de competências que não faziam parte da nossa profissão”, disse. Entre essas habilidades estão interpretar gráficos, falar de estatística e ciência. Alberto Oliveira criticou a cobertura feita durante a pandemia, com reportagens rasas, sem o devido aprofundamento e contextualização que o tema pede. “O jornalismo brasileiro há décadas não pensa em ciência”, lamenta o jornalista.

Oliveira utilizou a analogia de separar o joio do trigo para exemplificar o trabalho do jornalista. Nesse caso, o profissional deve entregar o trigo ao público, que é a informação. Mas, segundo ele, o jornalismo vem entregando o joio. Isso ocorreria principalmente por conta da formação inadequada dos profissionais e da chegada de leigos à profissão, principalmente por meio das mídias sociais. “Nós estamos sendo usados para espalhar fake news, simplesmente porque não fazemos as perguntas que devemos fazer, que qualquer jornalista decente precisaria fazer”, criticou. “Não imagino outra profissão com tantos desafios, mas com tantas possibilidades. Só que nós precisamos mudar a chave. Precisamos parar de olhar para o modo que fazíamos e fazer um jornalismo diferente”, arremata.

Desafios

Olhando para a outra importante temática da noite, o economista Armando Avena recordou o início de sua atuação na área, quando o seu principal objetivo era “desermetizar” as ciências econômicas para o público leigo. “Hoje há uma mudança tão radical que já não temos mais aquele especialista que ficava em cima do panteão ditando regras. A imprensa mudou tanto que hoje todo mundo é especialista”, coloca. Porém, como destaca Avena, essa perda do “monopólio” do conhecimento também representa um risco, ao passo que nem todos aqueles que se inserem na comunicação social fazem um trabalho sério de apuração.

“É impressionante você entrar hoje no YouTube e ver pessoas dando lições de como ficar rico na bolsa, pessoas que, na maioria das vezes, não têm conhecimento, dizendo como você pode aplicar seu dinheiro. Aí surge a importância do jornalismo com credibilidade, que leva a sério a questão de informar”, analisa. 

O economista reitera que a imprensa precisa estar mais atenta para uma série de eventos e de iniciativas, principalmente na Bahia, que devem estar sob o debate público. Avena cita o caso da empresa Ford, que anunciou em janeiro de 2021 a saída de suas operações do Pólo Petroquímico de Camaçari, deixando um rastro de trabalhadores desempregados e um clima de insegurança econômica no local. O professor questiona a ausência da cobertura da imprensa sobre a empresa e de outras iniciativas existentes no estado que não recebem atenção da mídia. 

Para Avena, a ausência de planejamento econômico na Bahia – o que ele chama de criatividade econômica – é uma das causas dos problemas sociais, aliada à falta de investimentos na área da Educação. “A Bahia nunca considerou a educação como um ativo de investimento. A educação não só transforma o ser humano, mas também transforma o ser econômico”, ressalta. “É preciso que se apresente programas de governo, propostas de como melhorar o nosso estado, como vamos gerar empregos nesse estado que tem hoje milhares de desempregados e uma das maiores taxas de desemprego do país. É muito importante que o jornalismo econômico esteja trabalhando nisso também.” 

Avena destaca que em meio às fake news, muitas vezes divulgadas pelo próprio governo, é necessário que o jornalista saiba quais temas pautar e continue a investigar, em busca da verdade. “Como nunca, ser jornalista tornou-se uma profissão fundamental para o Brasil. Não só para informar o que está se passando, mas para ser uma luz que traga a verdade”, disse.

Potencialidades

Os obstáculos deste ano desafiam o otimismo. Recentemente, o FMI anunciou a redução da projeção de crescimento do Brasil em 2022 de 1,5% para 0,3%. Há também a alta inflacionária, a estagnação do PIB, a diminuição da renda do trabalhador. Em meio a esse cenário, Raimundo Lima afirma que é necessário que a imprensa saiba escolher suas pautas. Os grupos brasileiros [de mídia] precisam entender melhor sua atuação no cenário local e também internacional e deve-se conhecer e respeitar a legislação”.

O empresário cita a taxação das grandes fortunas como um tema que deveria estar no centro do debate, assim como as questões ambientais, principalmente as mudanças climáticas – que afetam diretamente a economia dos locais atingidos – e a concentração de renda, que só aumentou durante a pandemia. “O quadro de desigualdade social brasileiro vem revelando que o país tem um longo caminho a percorrer para reverter esse cenário”, afirma Raimundo.

Para ele, há conflitos de interesses da grande mídia, que influenciam o trabalho da imprensa. “Sabemos que as mídias eletrônicas são concessões públicas. Então, o interesse público devia estar sendo privilegiado, mas não é bem isso que a gente vê. Há muita liberdade de empresa e não liberdade de imprensa propriamente”, critica. 

Ex-editor de jornal, Lima acredita que a grande mídia utiliza vários mecanismos de manipulação da opinião pública, como a distração, a estratégia de pautar um problema e depois divulgar a solução que se deseja fazer conhecida, a infantilização do público. De acordo com ele, em ano eleitoral, cabe reforçar ainda mais a responsabilidade social das grandes mídias em seu trato com o público. “Nós precisamos decidir com consciência os nossos destinos e para isso precisamos ser devida e corretamente informados”, acrescenta o jornalista. Para 2022, Raimundo afirma que as prioridades políticas devem ser a afirmação das liberdades democráticas, da justiça para todos, a redução das desigualdades sociais e a melhoria das condições de vida da população.

Assista abaixo:

Textos relacionados: