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Seminário da UFSB aborda produção intelectual negra no Brasil

No dia 13 de maio, data em que se reflete sobre a chamada “abolição incompleta”, o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), inicia suas atividades públicas para 2021. No âmbito do projeto de Extensão “Jornada do Novembro Negro”, que está em seu terceiro ano, será realizado o “Seminário Pensamento Negro Insurgente”. O evento prevê duas mesas de debates e reflexões sobre a produção intelectual negra no Brasil. A abertura, às 9h, discutirá sobre o documentário “Emicida: Amarelo – É tudo pra ontem”. Na sequência, será feita às 14h uma introdução às obras dos intelectuais Milton Santos e Joel Rufino dos Santos, com um debate sobre as suas contribuições ao pensamento negro brasileiro. As inscrições podem ser feitas neste formulário.

Pela manhã, o encontro debaterá sobre o documentário da Netflix “Emicida: Amarelo – É tudo pra ontem”, com a presença do roteirista do filme, o editor, escritor e pesquisador Toni-C, e do professor e pesquisador da obra Felipe Choco. Peça audiovisual que percorre a história da cultura negra insurgente brasileira nos últimos cem anos, a mesa terá como mediador o professor e mestrando do PPGER-UFSB Thawan Dias e o professor Richard Santos – PPGER- CFAC (UFSB) como debatedor. 

Dando sequência à abertura das atividades, no período vespertino ocorrerá a mesa “Intelectualidade Negra Insurgente”, uma introdução à obra do geógrafo, cientista e jornalista Milton Santos; e do historiador e escritor carioca Joel Rufino dos Santos, proporcionando uma reflexão sobre suas contribuições enquanto intelectuais do Pensamento Negro Contemporâneo e Insurgente brasileiro. “Um encontro que também busca visibilizar suas trajetórias frente a uma academia branca”, afirma a organização do evento.

A mesa será conduzida pela professora e mestranda Daniele Almeida e terá a presença dos professores Fernando Conceição (UFBA) e Amauri Mendes Pereira (UFRRJ). O debate ficará a cargo da professora Maria do Carmo Rebouças (PPGER-UFSB). 

Serviço

Seminário do Pensamento Negro Insurgente

Dia – 13 de maio – Mesa I 9:00 às 11:00 – Mesa II – 14 às 16 horas

Local – UFSB Campus Sosígenes Costa – Modo remoto

Inscrições pelo formulário: https://forms.gle/ZDHge9PWBc1AXiPv5 

O link para a transmissão em sala fechada será divulgado por e-mail 60 minutos antes do início de cada sessão.

*Informações do Centro de Formação em Artes e Comunicação da Universidade Federal do Sul da Bahia

ABI BAHIANA

Debate sobre interfaces entre jornalismo e literatura encerra simpósio promovido por ALB e ABI

O que o jornalismo tem a ver com literatura, além do óbvio pertencimento de ambos ao campo das letras? O que literatura tem a ver com fatos, com realidades? Quais são os limites e as especificidades de um gênero e de outro? Com essas provocações, a premiada jornalista e escritora Suzana Varjão esquentou a mediação da mesa “Jornalismo e Literatura: Interfaces”, que encerrou o I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, na noite desta sexta-feira (9). O evento, realizado desde o dia 7 pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e pela Academia de Letras da Bahia (ALB), reuniu escritores, acadêmicos, pesquisadores, jornalistas e profissionais de diversos campos do conhecimento, dispostos a conversar sobre as confluências e aproximações entre o fazer jornalístico e a literatura.

O último debate do Simpósio foi protagonizado pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça, autora do livro-reportagem Filhos do Cácere (Edufba), e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

Ernesto Marques, presidente da ABI, deu boas-vindas ao público, com uma reflexão sobre o momento atual vivido no Brasil. Ele falou da esperança de que o próximo simpósio realizado pelas entidades encontre outro ambiente. “Desejo que já não seja necessário fazer a exortação, a defesa da democracia, a nossa pregação contra o obscurantismo, feita reiteradamente pelo professor Ordep”, ressaltou. O jornalista também comentou sobre as dificuldades impostas pela pandemia, como a impossibilidade de realizar eventos presenciais. “Que possamos nos reunir no auditório, claro, sem prejuízo de ampliar essas páginas digitais e levar o conteúdo para quem, em outras partes do País ou do mundo, possa se interessar em participar. Esse evento tem nos proporcionado noites ricas de conteúdo e aprendizado”, avaliou.

Marques aproveitou para lembrar que neste sábado, 10, acontece o lançamento do Site Walter da Silveira, com transmissão ao vivo pelo Youtube da ABI. O espaço compartilha com o público uma parte consistente do acervo do militante político, professor, historiador, cineclubista, ensaísta, advogado e um dos mais importantes críticos de cinema brasileiro.

O presidente da ALB, professor Ordep Serra, agradeceu a presença do público e também reiterou a continuação da parceria com a ABI. “Estamos dispostos a fazer o segundo Simpósio e vamos ter outras iniciativas que vão consolidar nossa aliança”, garantiu. Para ele, o evento é uma oportunidade de pensar, de refletir, sobre aspectos importantes do ponto de vista social. “É uma alegria começarmos a terceira noite desse simpósio. Mais uma festa da inteligência, para interromper, nem que seja por um trecho da noite, a dor e a preocupação que acomete a todos nós, vítimas de um genocídio. Porque a pandemia já tomou, no Brasil, essa dimensão sinistra de um genocídio, realizado com absoluta crueldade por um governo federal que não se respeita”, criticou.

A mediadora Suzana Varjão, pesquisadora baiana e autora de cinco livros, disse da satisfação em assumir o papel de intermediar o intercâmbio de ideias, diante da qualidade da mesa composta por três intelectuais brasileiros. “Trata-se hoje de uma conversa sobre a palavra. O que significa dizer sobre um poderoso instrumento de construção de mundo. Sim, porque palavra é coisa muito séria. Afeta, legítima, gera realidades. Não obstante o ceticismo, ou mesmo inocência de alguns, palavras não são neutras, não são puras, não são acéticas. Carregam valores que são repassados para todo e qualquer sistema por mais operacional que seja”, situou.

“Vamos falar então sobre um lugar do jornalismo que eu poderia definir de uma maneira mais rudimentar como processo de coleta e investigação, análise e transmissão de informações. Vamos falar sobre o lugar da literatura, que se pode descrever de modo elementar como uso estético da linguagem, mas vamos falar também sobre lugares ou entrelugares, que são as interfaces”, provocou a jornalista. “Literatura é sinônimo de ficção? E jornalismo é sinônimo de relatório, de reprodução, reflexo?”, questionou.

Contando histórias

Membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a cadeira número 9, na sucessão a João Ubaldo Ribeiro, e da Academia Brasileira de Letras, o escritor Antônio Torres narrou a sua chegada ao jornalismo. O autor da trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, entre outras obras, iniciou a sua carreira como repórter do Jornal da Bahia, cujo fundador foi João Falcão. Como bom contador de histórias que é, Torres contou desde a sua primeira crônica publicada no Alagoinhas Jornal, que saía uma vez por mês no município baiano, até a sua transferência para o diário Última Hora, de São Paulo, tendo posteriormente atuado na área da publicidade.

“Jornalismo foi o meu caminho natural para a literatura. Estudava no ginásio em Alagoinhas e eu ousei pedir ao dono do jornal para publicar um artigo. Já era um começo via literatura, porque esse artigo era sobre o maior biógrafo de Monteiro Lobato, Edgard Cavalheiro, escrito no dia de sua morte, em 30 de junho de 1958”, relatou. A partir daquele momento, o dono do Alagoinhas Jornal lhe franqueou o espaço que lhe oportunizou conhecer e trabalhar no Jornal da Bahia, com nomes como Adroaldo Ribeiro Costa, Ariovaldo Mattos e João Carlos Teixeira Gomes, o Pena de Aço. “Ali eu começava a minha primeira faculdade de jornalismo e de literatura, já que em 1959 não existia faculdade de jornalismo”, lembrou.

Ele conta que encontrou dificuldade, devido ao seu estilo mais literário, para escrever segundo pedia o jornalismo diário. Até que um livro lhe ensinou a responder às famosas perguntas que compõem a primeira parte de uma notícia – O Quê? Quem? Quando? Onde? Por quê? e Como?. “Eu aprendi que você tem que responder isso para tudo”, brincou. Depois de um ano trabalhando no Última Hora, Torres foi convidado para trabalhar em publicidade. “Minha primeira escola foi o jornalismo, a segunda foi a publicidade. O jornalismo me ensinou a ver o mundo e a publicidade me ensinou a contar isso rapidinho. É a síntese da minha história”, conclui o escritor.

A jornalista e escritora Aline D´Eça trouxe sua experiência como autora de livro-reportagem, ao relatar o processo de construção de Filhos do Cárcere, uma obra que teve origem em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e que traz a perspectiva de filhos e filhas de mulheres encarceradas. A baiana de Nazaré das Farinhas refletiu sobre as relações entre jornalismo e literatura, suas diferenças e semelhanças, além de estabelecer paralelos com estudos da área da psicologia. A experiência com a reportagem que originou o livro despertou em Aline a vontade de deixar a carreira jornalística e estudar psicologia analítica. “O jornalismo literário tem muito a ver com a psicologia, porque se propõe a um mergulho na realidade, para retratá-la para aqueles que não conhecem”, explicou.

Ela recorreu aos ensinamentos do professor Edvaldo Pereira para dizer que o livro reportagem é, muitas vezes, fruto da inquietude do jornalista, que tem algo a dizer com profundidade, mas não encontra espaço para fazê-lo na imprensa cotidiana. “Apesar de eu não ter visto quase nada sobre jornalismo literário na faculdade, estudei por conta própria. O que a gente faz? Utiliza recursos como observação, descrição, narração, uso de símbolos e de metáforas, para tornar o texto mais atraente”. Aline ressalta que o jornalismo literário dá ao repórter a oportunidade de captar não só a realidade concreta dos fatos, mas também a realidade emocional das personagens envolvidas naquela história. “O jornalismo literário preenche o vazio de profundidade deixado pelo furo jornalístico, pela ânsia por notícias efêmeras”, analisou.

Embora não haja no jornalismo diário espaço físico para a publicação desse tipo de texto, Aline D’Eça defende que existe interesse dos leitores por algo que vai além do que chamou “fast-food jornalístico”. A autora destacou diferenças entre as atividades. “É possível ficcionar o jornalismo literário? Eu diria que é perigoso. Mas essa construção pode ter base numa apuração detalhada, entrevistas criteriosas, exaustivas, com bastante documentação. A partir daí a gente pode chegar próximo do real, recriar cenas e ambientes que estão por trás da notícia. O que não se pode em jornalismo é inventar. Colocar no texto algo que esteja distante do real. Isso não é jornalismo, é ficção”, advertiu.

Humanização de narrativas

Foi em busca da humanização dos relatos que Aline decidiu escrever o livro-reportagem. “Queria descrever os cheiros, as cores, as emoções, e não somente me ater aos números. Infelizmente estamos hoje vivendo uma realidade que os números nos assustam, mas não nos dá profundidade de todas as histórias por trás dos números”, disse, em referência à pandemia provocada pelo coronavírus. “O jornalismo literário busca preencher esse vazio de sensibilidade. E aqui está a diferença entre o jornalismo e a ficção. O jornalismo literário tem o estilo semelhante à literatura, mas traz histórias reais”, afirmou.

Autor de 17 livros, entre obras acadêmicas e livros direcionados ao grande público, o jornalista Edvaldo Pereira Lima também ressaltou a necessidade de humanizar as narrativas e estimular um mergulho mais profundo na realidade, levando a população a transformar a sua consciência, o seu nível de entendimento do real e de ação.

“Neste momento em que a ciência está trazendo comprovadamente novos modelos de compreensão da realidade e novos modelos que nos trazem os instrumentos de transformação da sociedade para melhor, é um dever da literatura e do jornalismo se reciclarem e acompanharem esse progresso”, indicou. Segundo ele, é preciso praticar a narrativa de profundidade, que traga a capacidade de alavancar e estimular a mudança de percepção do leitor. “Você faz isso usando instrumentos narrativos centrados essencialmente no ser humano, não contando as histórias só apoiadas nos números e nos relatórios abstratos sobre a realidade”, aconselhou.

“E qual é a arte narrativa que está à disposição da literatura e do jornalismo? Uma arte que tem instrumentos de percepção e de expressão comprovados ao longo de milênios em todas as culturas e que se adapta e se moderniza, na medida em que novos achados e novas descobertas vão aparecendo. É a arte de contar histórias. Todos nós aqui temos em comum o amor e a paixão por contar histórias”, afirmou o escritor.

Saiba como foi o Simpósio

Quem perdeu as discussões do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, tem a oportunidade de assistir aos três dias de evento pelo Youtube da Academia de Letras da Bahia. A entidade, junto com a ABI, proporcionou uma noite memorável em defesa da democracia neste 7 de abril, Dia do Jornalista, durante a abertura do Simpósio. A primeira mesa discutiu os “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”, com as participações do jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Emiliano José, do professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e do professor-titular da Facom/UFBA, Wilson Gomes. A mediação ficou com a jornalista Jussara Maia, professora de Jornalismo do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Já a segunda noite do Simpósio, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. A mediação foi assumida pela jornalista Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da ABI.

  • Assista aos debates do Simpósio nos links abaixo:

Mesa I – “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”

Mesa II – “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”

Mesa III – “Jornalista e Literatura: Interfaces”

ABI BAHIANA

Transformações no jornalismo cultural são destaque do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

I’sis Almeida e Joseanne Guedes

A segunda noite do Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura, nesta quinta-feira (8), teve como destaque um debate profundo sobre os desafios e as mudanças ao longo da história do jornalismo cultural na Bahia e no Brasil. Com o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais”, os conferencistas Sérgio Mattos, Kátia Borges e Malu Fontes realizaram um apanhado no tempo, relatando experiências da época de graduação e refletindo sobre os novos rumos do setor. Com mediação de Simone Ribeiro, diretora do departamento de Divulgação da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o evento online, fruto de parceria com a Academia de Letras da Bahia (ALB), atraiu profissionais experientes ligados à cultura, à comunicação e às artes literárias.

Já na abertura da mesa, o presidente da Academia de Letras da Bahia (ALB), Ordep Serra, parabenizou os 89 anos do poeta, professor e jornalista Florisvaldo Mattos, 2º vice-presidente da ABI. Ernesto Marques, presidente da Associação, acompanhou a saudação a “Flori”, como o chama carinhosamente, e adiantou que a Associação já planeja uma comemoração dos 90 anos de Florisvaldo Mattos.

Simone Ribeiro, no papel de interseção entre os convidados, iniciou sua fala recitando “Tecendo a manhã”, meta-poema lançado em 1966 por João Cabral de Melo Neto. Ela usou a obra cabralina, que reflete sobre a própria construção do trabalho, para trazer, segundo ela, “uma imagem de plenitude, de completude”. De acordo com Ribeiro, a vida de jornalista obedece a um ciclo. “A vida de redação não é para sempre. A gente passa por alguns ciclos e tem o espírito de comunhão, o espírito fraternal. Nossa atividade é feita em grupo”, refletiu. 

Em uma fala autorreferente, Ribeiro relatou sua trajetória no jornalismo cultural, onde acumulou vivências na cobertura diária e atuou também como editora do Caderno 2 do jornal A Tarde. A dirigente falou sobre as transformações nas dinâmicas da atividade, mudanças de consumo dos conteúdos e lamentou o desaparecimento dos cadernos culturais. “Eu fui testemunha dessas mudanças, algumas dolorosas e que atingiram em cheio um segmento tão glamourizado quanto discriminado que é o jornalismo cultural”, lembrou.

A jornalista acredita que o simpósio é uma oportunidade para repensar o futuro do segmento. “Meu consumo hoje é primordialmente pela internet. Temos novos hábitos. Por mais que a gente pense nesse tema de hoje e faça um recorte contemporâneo, precisamos olhar o passado e ver o que aconteceu, quais são as ferramentas de que a gente dispõe para reconstruir o jornalismo especializado”, introduziu a mediadora.

Crise?

Entrando no tema central do debate, o jornalismo cultural, o poeta, escritor e vice-presidente da assembleia geral da ABI, Sérgio Mattos, fez um panorama histórico extenso do campo, destacando a década de 50 como o período mais efervescente dos conteúdos de cultura em jornais, quando surgiu o formato de lead (abertura de textos) na imprensa, e ainda, a criação de suplementos culturais, como O Diário de SP e a Folha Ilustrada. Ele relembrou também que foi de 1950 em diante que surgiram as primeiras escolas de jornalismo do país. 

Segundo Mattos e autores aos quais o professor recorreu para explicar o histórico, o jornalismo cultural passa em tempos atuais por uma crise em função de alguns sintomas, entre os quais, citou ele: a concorrência das mídias digitais; a falta de especialização dos profissionais; a reprodução do modelo de notícias na realização de matérias relacionadas à cultura, além do fato de que o jornalismo passou a divulgar mais os eventos culturais do que cobri-los.

A proposição de Sérgio diante desse cenário, é “produzir novos estudos e debates, no sentido de se repensar o jornalismo cultural, a começar pela estrutura curricular dos cursos de jornalismo, responsáveis pela formação dos novos profissionais, que, além de dominar as técnicas jornalísticas, precisam dominar o gênero jornalístico sobre o qual vão escrever”, propôs. Outra sugestão é empreender esforços para maior preservação da memória cultural do país, “divulgando e analisando criticamente os produtos culturais”, completou. 

Malu Fontes, professora de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA, mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, também colaboradora da Rádio Metrópole FM, registrou o quanto ainda hoje é apaixonada por jornalismo cultural. “Eu consumo muito jornalismo, falo disso com muito conforto. Sou uma consumidora que hoje, claro, admito, não sou incompetente a ponto de não reconhecer o que está acontecendo na área”, relatou. 

“Não tem como a gente dizer que isso – a cultura no jornalismo – não se esvaziou”, admitiu Fontes. A jornalista usou uma metáfora para se referir ao atual cenário do jornalismo cultural. “A coisa da cultura virou ‘pirulitinhos’ no jornalismo e no jornalismo local, tudo que se dá são pirulitos, é aquela coisinha pequenininha de ‘vai ter hoje um show, o livro tal, dicas de livro, estreou o filme’. Não tem aquele texto que você lê com prazer. O texto que me dá prazer é o que eu saio dele com curiosidade de ir para um outro lugar, porque ele me convida”. 

Potencialidades

A escritora, poeta, professora de jornalismo da Universidade Salvador e colunista do Correio* Kátia Borges, não vê de maneira negativa o universo do jornalismo cultural, apesar das mudanças de produção e de consumo. Segundo ela, o que existe é uma deficiência de formação crítica e uma cultura forte do cancelamento, “a cultura de ódio, além de uma timidez muito grande dos críticos às obras de arte”. Para explicar, ela usou o exemplo da grande polêmica em torno da recepção do livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil. De acordo com Borges, as críticas ocorrem com a ausência de argumentação. “Em vez de polêmicas sérias em torno do conteúdo do livro, ficaram no ‘gostei’, ‘não gostei’. Isso não é crítica. É opinião. E opinião todo mundo tem”, criticou.

“Estamos passando por uma renovação”, analisa. “Precisamos estudar os nossos veículos, para entender como essa cultura se deu lá atrás e como está hoje. Existe, claro, uma crise da crítica. Mas, essa é a nossa cultura, rápida, multifacetada, fugaz. Agora, dentro disso, temos o Suplemento Pernambuco, a Revista Quatro Cinco Um, o Jornal Rascunho, que vem trabalhando muito bem”, elogiou a professora. Segundo ela, as plataformas digitais abrem um campo “muito bom” para quem está trabalhando com cultura. “Talvez, a gente não tenha uma crítica tão contundente dentro dos jornais. Temos, por outro lado, podcasts incríveis, como citou Malu, muita cultura, muita gente fazendo um trabalho maravilhoso em jornalismo de cultura”, opinou.

Kátia Borges abordou sua experiência como jornalista de cultura e sua atuação na área acadêmica como pesquisadora e professora universitária. Assim como Simone Ribeiro, ela viveu os desafios da redação e viu as transformações da cobertura cultural na Bahia. Borges compartilhou com o público que interagia com a mesa dados originados em suas pesquisas na área. “É uma paixão na minha vida a história do jornalismo e da literatura na Bahia”, reconheceu. Para ela, há uma lacuna de pesquisa importante para se entender o jornalismo cultural na Bahia. “É uma transformação interessante, uma transição, quando o meio cultural para de ser chancelado pelos jornalistas”, indicou.

Nesta sexta-feira (9), acontece a terceira e última mesa do Simpósio, com mediação da jornalista e escritora Suzana Varjão. O tema “Jornalismo e Literatura: interfaces” será discutido pelo escritor Antônio Torres, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), pela jornalista e escritora Aline D´Eça e pelo doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima.

>> Relembre a mesa de abertura neste link

Serviço:

I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 7, 8 e 9 de abril de 2021 das 18 às 20h 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)

ABI BAHIANA

Defesa da democracia marca abertura do Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Uma noite memorável em defesa da democracia foi proporcionada neste 7 de abril, Dia do Jornalista, pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e pela Academia de Letras da Bahia, com a abertura do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura. O evento online, transmitido pelo canal do YouTube da ALB, reuniu jornalistas, escritores, acadêmicos e intelectuais de diversas áreas do conhecimento, para discutir os “Limites da liberdade de expressão e direitos hoje, no Brasil”. O público teve a oportunidade de assistir ao vivo parte importante da bibliografia estudada nos principais cursos de comunicação do País, através da célebre mesa composta pelo jornalista, escritor, e ex-professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), Emiliano José, pelo professor-titular de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, e pelo professor-titular de teoria da comunicação da Facom/UFBA, Wilson Gomes. 

O professor Ordep Serra, presidente da ALB, abriu a noite cumprimentando os jornalistas pelo seu dia e denunciando as formas de violência enfrentadas por esses profissionais. “Para nós da Academia, é um dia importantíssimo. Muitos dos nossos acadêmicos começaram sua carreira na imprensa, como jornalistas. É impossível fazer uma história da literatura baiana e brasileira sem considerar a imprensa”, observou. “Quero homenagear àquelas que estão sofrendo censura direta ou velada, restrições à sua liberdade de expressão. Precisamos começar por aí, pela afirmação da liberdade de expressão, da liberdade de pensamento, pela valorização da imprensa livre, pela resistência ao obscurantismo”, defendeu. Segundo o acadêmico, o Simpósio é o começo de uma grande aliança entre as instituições. “Estaremos juntos na luta pela cultura, pelos valores da civilização”, garantiu. 

Ernesto Marques, presidente da ABI, saudou os colegas de profissão e justificou o “7 de abril”. Ele explicou que a data é um tributo à memória de Líbero Badaró, pelo que o médico e jornalista representou em sua época como defensor das liberdades e do direito à informação. Marques aproveitou o momento para homenagear o membro da Assembleia Geral da ABI, Eliezer Varjão, falecido na véspera do evento. “Para nós da ABI, este 7 de abril chega com a dor da perda de um dos nossos, muito querido. Ontem partiu Eliezer Varjão, aos 80 anos, depois de uma longa e corajosa luta pela vida”, afirmou o dirigente.

O jornalista resgatou os inúmeros desafios enfrentados pelos profissionais da imprensa no contexto da pandemia, em sua difícil missão de levar informação à sociedade. “O desafio da nossa já bastante conhecida realidade descomunal, a nossa criatividade, nunca foi tão visceralmente provocador como agora. Provocação que grita do choro de centenas de famílias, da coragem altruísta profissionais de saúde da chamada linha de frente, das forças de segurança, agora empenhadas no combate a um inimigo tão letal e microscópico, ou na coragem indômitas das equipes de reportagem, sempre indo além do que recomendam os policiais e os médicos, na hora de colher os fatos a serem transformados em notícias”, ressaltou. “Neste 7 de abril, Dia do Jornalista de 2021, quando o número de mortes causado pela pandemia nos assombra, escrever é mais do que imprescindível. Eu diria que é obrigatório. Que os debates dessa mesa nos inspirem a escrever sobre essa realidade descomunal, que nos assusta, nos apavora e, sobretudo, nos desafia”, concluiu.

Imprensa e democracia

Em uma mediação bastante elogiada pelo público do evento, a jornalista Jussara Maia, professora de Jornalismo do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), afirmou sua admiração pelos conferencistas, de quem se disse leitora. “Situamos essa mesa no espaço reflexivo que entende jornalismo e literatura com suas especificidades, mas também os reconhece como campos que têm tido historicamente proximidade, aliança e muitos diálogos em defesa da democracia. Seja por meio da partilha da experiência comum em redações de jornais, com o uso de técnicas de pesquisa e checagem de dados, o estilo de uma escrita rica em estratégias envolventes, com apreensões criativas na construção de relatos sobre o real, entre outros aspectos”, destacou a pesquisadora. 

Maia enfatizou a importância do jornalismo para o funcionamento da democracia e expôs contradições que ameaçam o próprio sistema político brasileiro. “Implica pensar os limites à liberdade de expressão e aos direitos em uma república que tem a democracia representativa como seu sistema de governo, mas lida com o fortalecimento nacional e mundial de correntes políticas de extrema-direita, que têm usado organizações jornalísticas, plataformas digitais e algoritmos para manter bolhas e fomentar a incomunicabilidade”, afirmou.

Para Emiliano José, ocupante da cadeira de número 1 da ALB, é histórico o encontro entre a ABI e a Academia. Emiliano começou sua carreira no jornalismo em 1974, no jornal Tribuna da Bahia, tendo passado por muitas redações até chegar à marca de 16 livros publicados. “O jornalismo é parte do meu cotidiano, esteja eu numa redação, como estive durante tantos anos, esteja eu fora, mas sempre escrevendo. Escrever virou uma espécie de alimento da existência para mim, a partir do meu mergulho no jornalismo”, disse. De acordo com ele, são os jornalistas os verdadeiros defensores da liberdade de expressão e da garantia de direitos. 

“Eu considero que defender a liberdade de expressão e a garantia de direitos é algo mais ou menos óbvio, absolutamente necessário, fundamental, da pauta de quem quer que defenda a democracia”, destacou o professor. Segundo ele, os limites à liberdade de expressão e a garantia de direitos estão dados no Brasil por uma estrutura política autoritária, onde a democracia tem sido uma exceção. “A defesa da liberdade de expressão deveria ser uma luta da mídia, mas não é. A defesa está nas mãos dos jornalistas. A grande mídia nunca defendeu liberdade de expressão salvo para os seus interesses de classe”, pontuou.

O professor Muniz Sodré traçou um paralelo entre a narrativa do conto infanto-juvenil sobre o boneco Pinóquio, do autor italiano Carlo Collodi, o problema da mentira na rede e suas correlações com jornalismo e literatura. Ele resgatou o chamado “paradoxo da mentira”, citando a sentença do filósofo Epimênides, na cidade de Creta, na Grécia: “Todos em Creta são sempre mentirosos”, para criticar a sociedade atual, cujas movimentações na internet aumentaram a tendência de todos para “aumentar um ponto” nos próprios contos. “Vamos aplicar o princípio de que todo mundo mente, todo mundo é igual a Pinóquio. O princípio de Pinóquio, ou princípio da mentira sistemática, é o que vem caracterizando a sociedade das redes eletrônicas. A mentira é um risco enorme para o diálogo democrático”, sentenciou. E para Sodré, diálogo não é a simples troca de palavras. “Diálogo é a abertura do laço coesivo, para fortalecer o vínculo humano. É uma atividade de travessia apoiada na linguagem, para chegar a uma verdade consensual, ética. O princípio de Pinóquio é uma ameaça séria ao diálogo social”, afirmou.

Mas, o professor enxerga na rede soluções para a própria transformação do jornalismo. “Eu sinto já na rede, com toda mentira dela, os prenúncios de uma reinvenção do jornalismo, com recursos de aportes comunitários. O jornalismo se revela essencial para restaurar a potência da palavra, diante do risco concreto que a palavra enfrenta nesse universo de mentiras. A palavra ainda detém a centralidade simbólica na formação da consciência cívica que é indispensável ao funcionamento da democracia. Eu tenho a sensação de que Pinóquio está assumindo a língua. E a cura para isso é o bom jornalismo”, opinou Muniz Sodré.

Fé no jornalismo

Em uma intervenção emotiva, o filósofo e pesquisador Wilson Gomes, refletiu sobre os mortos da pandemia e o trabalho dos jornalistas em fazer as informações chegarem às casas dos brasileiros. “O Brasil me dói literalmente todo dia, às 18h30. Eu queria marcar isso aqui. Eu apelidei essa hora de “a hora de José”. Gomes fez referência ao poema de Drummond para lançar questionamentos e refletir sobre um momento do dia que tem sido, segundo ele, de desespero. 

Diferentemente das pessoas que compuseram a primeira mesa do Simpósio, Wilson Gomes não é jornalista, mas, talvez nenhum jornalista tenha feito mais esforços do que ele para que a profissão recupere prestígio e importância para a sociedade. “Não sou jornalista, só sou professor de Jornalismo há mais de 30 anos. Curiosamente, eu descobri uma coisa nesses 30 anos: Não há gente que fale pior do jornalismo do que jornalista. Mesmo não sendo jornalista, assumi uma função que tenho tentando cumprir nos últimos anos, não por amor ao jornalismo simplesmente, mas por amor à democracia. Eu vivo de tentar restaurar a fé no jornalismo”, ressaltou. 

Para Wilson, “não há saída para o abismo em que nos encontramos sem o jornalismo”. O professor afirmou que tem se impressionado por ter que trabalhar para restaurar a fé de jornalistas na esfera pública, “essa esfera pública feroz, polarizada, que tem se dedicado muito a humilhar, envergonhar, constranger e perseguir jornalistas nesse momento no Brasil, seja de esquerda ou de direita”, apontou. “Alguma coisa mudou em 2020. Por virtude do próprio jornalismo, também porque Bolsonaro deixou o jornalismo sem saída. Ele não escolheu um lado, ou um jornalismo. Ele fez um discurso genérico sobre o jornalismo, colocou todos no paredão, e ‘é o jornalismo o inimigo mortal’”. 

A razão para isso, segundo Wilson Gomes, é que o jornalismo é o inimigo mortal da extrema direita. “O jornalismo é parte da democracia. É uma instituição criada pela mesma sociedade que criou a democracia liberal. E criou ao mesmo tempo. Portanto, o jornalismo é solidário à democracia, é o gêmeo da democracia liberal. Tem dois pontos de vista que me tornam utópico neste momento. A primeira coisa é que não quero desistir da reafirmação da dignidade da política. E a segunda coisa é que é preciso um jornalismo independente, um jornalismo de qualidade. Precisamos de um jornalismo para pessoas que hesitam. Precisamos de um jornalismo que trate o complexo com complexidade”. O pesquisador ressalta que o complexo não é o confuso. “Eu queria um jornalismo que me tratasse como um adulto. Talvez, o jornalismo seja a única instituição capaz de produzir o que hoje corresponderia à nova definição de informação de qualidade, e o que hoje poderia contribuir para uma sociedade em que mais informação leve necessariamente a mais democracia e a melhores democracias”, concluiu o mestre.

Hoje, 8 de abril, a programação do I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura continua com a segunda mesa, sob o tema “O espaço e conteúdos de cultura nos jornais, televisão, rádio e plataformas digitais” (assista aqui), com as presenças do jornalista e vice-presidente da Assembleia Geral da ABI, Sérgio Mattos, da jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Malu Fontes, e da escritora Kátia Borges. A mediação é da diretora do Departamento de Divulgação da ABI, a jornalista Simone Ribeiro.

A mesa III, programada para o dia 9 de abril, “Jornalismo e Literatura: interfaces”, terá as participações do escritor Antônio Torres, escritor, jornalista, membro da ALB e da Academia Brasileira de Letras (ABL), da jornalista e escritora Aline D´Eça e do doutor em ciências da comunicação Edvaldo Pereira Lima. A jornalista e escritora Suzana Varjão assumirá a mediação.

  • Perdeu a abertura do evento? Assista abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=hOZbAwdZKNE

Serviço:

I Simpósio Baiano de Jornalismo e Literatura

Quando: 7, 8 e 9 de abril de 2021 das 18 às 20h 

Onde: Online, via YouTube da Academia de Letras da Bahia (ALB)

>> Confira abaixo a programação completa: