ABI BAHIANA

Jornalista Letícia Dornelles visita o Museu Casa de Ruy Barbosa

Na manhã desta terça-feira (13), a jornalista e escritora Letícia Dornelles, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), visitou o Museu Casa de Ruy Barbosa, no Centro Histórico de Salvador (BA). A gestora foi recebida na sede da Associação Bahiana de Imprensa pelo vice-presidente da ABI, Luís Guilherme Pontes Tavares, e pelo diretor do Departamento Casa de Rui Barbosa, Jorge Ramos. A visita também contou com a bibliotecária da Fundação, Luziana Lessa, e os advogados Ricardo Nogueira e Lucas Castelo Branco, representando o Instituto dos Advogados da Bahia (IAB). Na tarde de hoje, às 16h, Letícia Dornelles ministrará a palestra “Ruy Barbosa e a Corte de Haia”, no Museu de Arte da Bahia (MAB).

Gaúcha de Uruguaiana, além de novelista, Letícia Dornelles é jornalista, apresentadora com passagens pelas principais emissoras do país. Assumiu em 2019 a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição que, assim como o Museu Casa de Ruy Barbosa, na Bahia, reúne documentos que reconstituem importantes transformações socioculturais do Brasil. Em entrevista à ABI, Dornelles destaca o legado do ilustre jurista baiano, semelhanças entre os espaços culturais e a necessidade de preservação da memória nacional.

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Confira a entrevista:

Depois de conhecer o Museu Casa de Ruy Barbosa, qual a sua impressão sobre acervo sob a guarda da ABI?

Eu fico impressionada com a qualidade dos documentos que a ABI possui. Algumas cidades brasileiras têm ilustres pensadores e não preservam sua memória. A Bahia honra os seus nativos, os seus ilustres personagens e isso é importantíssimo para a memória do Brasil. Um país sem memória é um país invisível. Um povo precisa preservar seus documentos importantes para que as futuras gerações saibam de sua história por quem a escreveu.

Quais os paralelos possíveis entre os acervos da Fundação Casa de Rui Barbosa e o nosso Museu Casa de Ruy Barbosa?

A Fundação Casa de Rui Barbosa tem uma estrutura grande porque tem recursos, e a casa onde Ruy nasceu tem um outro tipo de preservação. O aspecto físico do ambiente está necessitando de reformas, mas o que se encontra dentro é a alma de Ruy Barbosa, é o espírito dele, é a vivência dele na infância, são as memórias de uma família que criou um grande brasileiro, que aos cinco anos já era tido por seu professor como um gênio. Um casa que preserva essa aura da família já vale por si só uma visita.

Enquanto jornalista e dramaturga, a senhora tem uma relação de mais de 30 anos com os setores cultural e artístico. Como se sentiu ao ter contato com esse acervo?

Emocionante, porque eu sempre peço permissão a seu Ruy, quando eu entro na Fundação. Eu respeito o lugar onde ele trabalhou, viveu e foi feliz. Quando eu entrei na casa onde Ruy nasceu, o sentimento que eu tive foi quase como se eu estivesse visto a criança bricando naqueles corredores e já pensando no seu futuro. Com certeza, uma criança brilhante como Ruy Barbosa conseguia visualizar o que seria no futuro. Ele era uma pessoa inspiradora.

Qual o principal legado do jurista e sua importância nos dias atuais?

Eu não dato Ruy Barbosa, ele é um homem atemporal. Qualquer tempo pode se servir da obra dele, do pensamento ruyano, não só para trabalhar, mas para viver. Ele ensina como um grande personagem pode conduzir sua vida com ética, com dignidade, com respeito aos direitos humanos e à justica. Ele lutava pela liberdade não apenas das nações, mas das pessoas. Era um abolicionista. Ele respeitava a dignidade humana. Hoje, nós precisamos muito dessa solidariedade, generosidade, de um olhar carinhoso e afetuoso para o povo. E Ruy tinha isso. Ruy Barbosa não é um baiano. A gente roubou ele, viu? Ele é carioca, ele é brasileiro integral, ele é um cidadão do mundo.

Entidades baianas, num movimento iniciado pela ABI, estão unidas para celebrar o centenário de falecimento de Ruy, em 2023. No entanto, diversas iniciativas esbarram na falta de recursos e incentivo, principalmente por parte do poder público. Como a senhora avalia esse descaso com a memória?

Uma vergonha. Um país que tem Ruy Barbosa deveria honrá-lo diariamente. As pessoas, às vezes, citam Barbosa por uma frase que tiram do Google. Ruy Barbosa não é Google, ele é um pensador. Ele pensava o país. Quando ele caminhava pelos jardins de sua casa, estava pensando num país melhor para nossas crianças, nossas mulheres, para os negros do Brasil, para todos aqueles que se sentiam excluídos da socidade.

O que representa a sua visita à casa onde Ruy Barbosa nasceu?

É uma honra. Acho que devemos sempre trabalhar em parceria. Há algum tempo venho a Salvador por causa de Ruy Barbosa. Em 2019, nos 170 anos de seu nascimento, fizemos um evento, em associação com o Tribunal da Justiça, com o Fórum Ruy Barbosa. Enviamos acervos de Ruy para uma grande exposição que ficou exposta durante um tempo. Uma vez conhecendo Ruy a gente se apaixona de tal maneira que não pensa em outra coisa. Essa ligação da casa onde ele trabalhou durante grande parte de sua vida, escreveu a primeira Constituição da era republicana, está intimamente ligada à casa de Salvador, onde ele nasceu e vivem os 16 primeiros anos de vida. Eu cheguei a sentir o cheiro do bolo que a mãe de Ruy fazia quando entrei na casa onde ele nasceu. É lindo, poético e é de coração.

O que a Fundação tem feito para disseminar a importância de Ruy?

Eu consegui levar uma exposição sobre Ruy Barbosa à ONU, em Nova York. Meu trabalho foi destaque lá. Fizemos 10 painéis com a vida e a obra de Ruy Barbosa, um discurso para 200 delegados, conseguimos traduzir nos seis idipmas da ONU a obra principal de Ruy, que é a Oração aos Moços. Levamos Ruy ao mundo mais uma vez. Porque ele é conhecido. A gente precisa estar sempre relembrando, trazendo à tona aqueles que estão um pouco submersos, porque, às vezes, a gente vê tantas pessoas medíocres com visibilidade, e um brasileiro como Ruy Barbosa não é citado nos livros de História, nas escolas. Para se ter uma ideia: na casa dele, a cadeira principal da mesa era da mulher. Ele honrava as mulheres, num tempo em que as mulheres não tinham direito a voto. Com isso, você vê o grande ser humano que ele era.

Sua palestra desta tarde é sobre a participação de Ruy na Corte de Haia, na Conferência da Paz. Qual a sua leitura acerca do discurso do jurista na ocasião?

Quando ele foi à II Conferência de Haia, na Holanda, em 1907, ele deu voz às nações que não tinham voz, que não tinham representatividade. Ele entrou como um coadjuvante e saiu de lá como o ‘Águia de Haia’, como protagonista. Ele hoje provavelmente seria um dos homens mais respeitados do mundo, uma pessoa ouvida pelos grandes líderes da humanidade. Ele pensava em semear o país para o futuro. Tanto que em sua casa, no Rio, ele plantou uma lichia, que demora às vezes um século para nascer e dar frutos. Ele não colheu esses frutos. É o maior sinal de generosidade, porque ele sabia que no futuro alguém ia provar daquela lichia. Ruy semeou cultura, semeou justiça e igualdade social e direitos humanos, que nós colhemos ao longo dos anos.

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Na ‘Sweet Home’, em Petrópolis, os últimos dias de Ruy Barbosa

Luis Guilherme Pontes Tavares*

A família de Maria Augusta (1855-1948) e Ruy Barbosa (1849-1923) usufruiu do chalé ajardinado na Rua Ipiranga, 405, em Petrópolis, durante 10 anos, desde 1913 até o falecimento, ali, do ilustre baiano em 01 de março de 1923. Ele se referia à essa casa da serra fluminense como sua Sweet Home. Nos últimos dias da vida de Ruy Barbosa, ele estava tomado de preocupações com a Bahia, como veremos mais adiante.

O imóvel de Petrópolis foi vendido pela viúva de Ruy Barbosa pouco tempo após a morte dele e o adquirente foi o político e diplomata mineiro Miguel Gastão da Cunha (1863-1927), que faleceu poucos anos depois. O imóvel permanece com os descendentes dele, que o preservam com rigor. O imóvel de Petrópolis é, portanto, particular, não é tombado e não está aberto para a visitação pública.

Ainda da década de 1920, parte do mobiliário do chalé de Petrópolis foi adquirido (a cama do casal e as cadeiras de couro da biblioteca) pelo Governo Federal e transferido para o museu, na Vila Maria Augusta, na capital do Rio de Janeiro, onde se reverencia, desde a década de 1930, a memória de Ruy Barbosa. Alguns móveis da residência da serra fluminense foram doados ao Museu Casa de Ruy Barbosa, em Salvador. Tão logo a ABI restaure o imóvel e reabra o equipamento, que está sendo requalificado pelo designer gaúcho Gringo Cardia, será possível contemplar mesa, cadeiras e cristaleiras.

Ruy Barbosa e família, quando adquiriram o imóvel ajardinado da Rua Ipiranga, tinham passado férias naquela cidade em outros imóveis alugados no centro; um, na Rua Paulo Barbosa, e o outros na Praça da Liberdade, logradouro que receberia o nome de Ruy Barbosa após a morte do saudoso jornalista, jurista, diplomata e político baiano. Antes de adotarem Petrópolis, a família frequentava Nova Friburgo, outro destino disputado da serra fluminense.

Conforme o jornalista, bibliotecário e professor José Kopke Fróes (1902-1992), o texto “Petrópolis e Rui Barbosa” (v. II, Anais do Congresso Brasileiro de Froes Língua Vernácula (Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1957. p. 133-137), “a partir e do ano de 1900, [a família de Ruy Barbosa] preferiu sempre Petrópolis, talvez por ser mais próxima da Capital da República”.

A BAHIA ATÉ O FIM

Placa interna

O livro Museu Casa de Rui Barbosa (Rio de Janeiro: Banco Safra, 2013), que trata dos imóveis, plantas, objetos e personagens da Vila Maria Augusta, em Botafogo, no Rio de Janeiro, registra na página 27 do capítulo “Cronologia” que Ruy Barbosa, em 11 de janeiro de 1923, redigiu, em Petrópolis, um ‘Manifesto à Bahia”. Já estava, então, enfrentando o agravamento dos problemas de saúde que se instalaram desde a juventude. A mesma página 27 informa que em 27 de fevereiro do mesmo ano (1923), Ruy “é vítima de paralisia bulbar.” Resiste mais dois dias e falece no entardecer de 1º de março.

No mesmo livro, no capítulo “Cenas do cotidiano na Vila Maria Augusta” (p. 43-55), as pesquisadoras Maria Augusta Jurema Secker e Rejane M. Moreira de Magalhães informam:

“Em agosto de 1922, no Rio de Janeiro, Rui adoeceu gravemente com edema pulmonar, agravado por sintomas de uremia. Seus médicos proibiram-no de qualquer leitura e esforço físico e, apesar de reagir milagrosamente, seu organismo ficou debilitado. Mesmo assim, em 10 de janeiro de 1923, após ter adiado a viagem por três vezes, foi veranear em Petrópolis. Retomou aos poucos seus hábitos de leitura e de passeios pelo jardim. No dia 27 de fevereiro desse ano, contrariado com os rumos da política baiana, discursou durante horas, numa reunião em sua casa. Ao concluir, sentiu um aperto doloroso na garganta, chamou imediatamente seu médico em Petrópolis, dr. Edgar Correia de Lemos, que o

examinou e achou seu estado gravíssimo. No dia seguinte, dr. Edgar, o dr. Luis Barbosa, médico da família no Rio, e dr. Modesto Guimarães confirmaram o diagnóstico: paralisia bulbar. No dia 1º de março, não apresentando melhoras, foi chamado do Rio o otorrinolaringologista João Marinho, que nada pode fazer.”

As autoras agregaram o trecho da nota 34 de Rui Barbosa (ensaio biográfico), do jornalista Fernando Néri, livro publicado em 1932: “Todo esse dia, Rui passou mal, falando com muita dificuldade, coordenando mal as expressões, quando lhe faziam algumas perguntas. À 1 hora da tarde, dirigindo-se ao dr. Lemos, disse Rui: ‘Doutor, não há mais nada a fazer’. Entre as 3 e 4 horas, teve esta exclamação: ‘Meu Deus! Tende compaixão de meus padecimentos!’” As autoras acrescentam: “Frei Celso, da ordem dos Franciscanos, de Petrópolis, foi chamado para ministrar os sacramentos da confissão e extrema-unção. Nesse mesmo dia, quinta-feira, morreu Rui Barbosa às 20h25.”

CAMINHAMOS PELO JARDIM

Tivemos sorte quando visitamos o chalé ajardinado da Avenida Ipiranga, 405, em Petrópolis, no final da manhã de 17 de junho passado. O empresário Geovane Reis da Cunha, bisneto de Miguel Gastão da Cunha, retornava do supermercado e foi gentil quando nos permitiu ingressar, com ele, no jardim. O privilégio nos permitiu algumas fotos da casa e da placa intramuros. Não ingressamos na casa porque ocorria, na ocasião, cerimônia fúnebre em torno das cinzas de parente recém-falecido.

Quando Ruy Barbosa adquiriu a casa, em outubro de 1913, pagou 60:000$000 Rs (sessenta contos de Réis), conforme a pesquisadora Rejane Magalhães registra na página 12 de seu livro Rui Barbosa na Vila Maria Augusta (Rio de Janeiro: FCRB, 2013). Desconheço ainda quanto foi que o comprador pagou à dona Maria Augusta e filhos pelo imóvel, mas constatei que tudo está em boas condições e, na ocasião, havia sinais de que o chalé estava recebendo cuidados externos de conservação. É bom lembrar que o político Miguel Gastão da Cunha foi o representante do Brasil na Liga das Nações e era amigo pessoal de Ruy Barbosa. Os descendentes, portanto, mantêm o zelo com o bem que encerra lembranças da família.

Sweet Home fica no centro de Petrópolis e dista cerca de um quilômetro do Museu Imperial. O chalé ajardinado na Ipiranga 405 tem duas placas de identificação na parte externa, uma das quais, de 1999, comemorativa dos 150 anos de nascimento de Ruy Barbosa. A outra placa, de fundo carmim, informa que o imóvel foi construído no final do século XIX e que Ruy Barbosa, ali, cultivava rosas e escreveu livros, dentre os quais Oração aos Moços, cuja primeira edição é de 1921.

Enfim, mesmo que seja pelo lado de fora, visitem a casa de Ruy em Petrópolis.

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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Palestra em Salvador aborda atuação de Ruy Barbosa na Corte de Haia

Em visita a Salvador, a jornalista gaúcha Letícia Dornelles, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), instituição federal com sede no Rio de Janeiro, proferirá a palestra “Ruy Barbosa e a Corte de Haia”. O evento ocorrerá na próxima terça-feira, 13 de setembro/2022, às 16 horas, no auditório do Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória.

O encontro é promovido pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Associação Bahiana de Imprensa e Instituto dos Advogados da Bahia. O tema trará de volta episódios de 1907, quando Ruy Barbosa, representado o Brasil na Conferência de Paz, em Haia, na Holanda, se notabilizou como pacifista ao defender o nivelamento de todos os países, tanto nos direitos quanto nos deveres, não cabendo, pois, a submissão aos mais ricos e mais fortes (do ponto de vista bélico).

A palestra da jornalista Dornelles ocorre poucos meses antes da efeméride de 01 de março de 2023, quando se homenageará Ruy Barbosa pela passagem do primeiro centenário de sua morte, ocorrida nesse dia de 1923, em Petrópolis. À propósito, a ABI convocou e participa do grupo de 15 instituições que estão se empenhando no propósito de celebrar a data e assim render a homenagem devida àquele que pensou o Brasil democrático, civilizado e justo.

Agenda do dia 13/09 inclui outras visitas

Na manhã de terça, a presidente da FCRB visitará a sede Associação Bahiana de Imprensa (ABI), no centro antigo de Salvador. A entidade é proprietária da casa natal de Ruy Barbosa desde a década de 1930. Em seguida, visitará a sede da Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), no Terreiro de Jesus, e cumprimentará a diretoria pela passagem, no dia 18, do 190º aniversário de sua criação.

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À tarde, antes da palestra no MAB, a presidente a FCRB visitará o Fórum Ruy Barbosa, no Campo da Pólvora, ocasião que conhecerá a escultura de Ruy Barbosa – de autoria do artista baiano Mario Cravo Junior – inaugurada em 05 de novembro de 1949, no centenário de nascimento do ilustre baiano, assim como a cripta, que guarda os restos mortais do casal Maria Augusta e Ruy Barbosa, e o memorial da Justiça baiana, onde estão peças que pertenceram ao jurista e que integram o acervo da ABI.

SERVIÇO
Palestra “Ruy Barbosa e a Corte de Haia”
Palestrante: Presidente da FCRB, Letícia Dornelles
Onde: Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória)
13 de setembro de 2022, às 16h
Mais informações: www.ighb.org.br/ www.abi.org.br

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Em 1882, Ruy Barbosa já enaltecia o Design

*Luis Guilherme Pontes Tavares

Emitido o comentário categórico – “Ruy Barbosa foi patrono do design brasileiro” –, fui buscar o lastro para a sentença. Dissera isso diante do designer gaúcho Gringo Cardia e da socióloga Bete Capinan enquanto diretores da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) lhes mostravam o acervo bibliográfico e documental do Museu Casa de Ruy Barbosa, ora resguardado no 8º andar do Edifício Ranulpho Oliveira, sede da Casa do Jornalista. Pois é. Foi Ruy Barbosa quem ofereceu o aval ao jornalista que assina este breve artigo.

O episódio ocorreu em 14 de julho passado, ocasião em que Gringo Cardia assinou contrato com a ABI, em ato em que o presidente da instituição, jornalista Ernesto Marques, manifestou a confiança de que o novo parceiro elabore projeto museográfico para assegurar a qualidade e a atratividade que o Museu Casa de Ruy Barbosa (MCRB) terá quando for reaberto, quiçá em 2023, ano do primeiro centenário de morte do extraordinário baiano, em cuja casa natal o equipamento seguirá atraindo visitante, como o fez durante muitos anos desde 1949.

Capa de “O desenho e a arte industrial”, Ruy Barbosa, 1882

O aval do jornalista, jurista, político, diplomata baiano Ruy Barbosa (1849-1923) à minha sentença é o discurso que ele proferiu em 23 de novembro de 1882 no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Homenageava então o arquiteto carioca Francisco Joaquim Bittencourt da Silva (1831-1911) por ter edificado, há 27 anos, o Liceu. O discurso “O desenho e a arte industrial” (aqui) foi publicado em folheto e enaltece a iniciativa e, na segunda das 23 páginas do documento, afirma: “O homem que concebeu a ideia deste instituto criou para o seu país um mundo novo.”

O DESENHO INDUSTRIAL

A preciosa peça redacional de Ruy Barbosa elogia Bittencourt da Silva pela relevância que emprestou ao desenho na formação educacional do brasileiro e ao espaço que ele assegurou às mulheres nos cursos do Liceu. Estávamos, é bom lembrar, em 1882, e as moças de então tinham o destino, quiçá honroso, de cuidar da casa e dos filhos. Ruy Barbosa, no discurso, passeia pelo mundo, sobretudo pelos EUA e pela Europa, acentuando a relação do desenho com a indústria e, assim, identifica, como preparado conhecedor da matéria, os países que se valeram do design industrial para expandir e diferenciar sua produção.

O autor de “O desenho e a arte industrial” informa:

“A noção da arte aplicada, como elemento essencial a todos os produtos da indústria humana, não existia, por assim dizer, antes da centúria [final do Século XIX] que atravessamos. A Escola dos Bronzistas Franceses, a Escola Industrial de Tolosa, as de desenho e pintura na fábrica de porcelana de Sèvres e raros institutos mais constituíam, até ao fim do século XVIII, os mais consideráveis, senão os únicos núcleos de educação técnica nesta ordem de estudos, num país, como a França, aclamado, entre todos, como o mais consumado produtor de trabalhos de gosto industrial nos tempos modernos. (…). O aspirante à iniciação nos seus mistérios penetrava na tenda do mestre, não para formar sistematicamente a sua vocação, mas para colher a alma do artista esparsa no sacrário da oficina, a sua intuição, a sua inspiração, o seu estilo pessoal. O público e o operário eram ignorados pela arte.”

O orador ressalta esta constatação:

“Hoje [1882], o ensino popular do desenho, que em si encerra a chave de todas as questões e de todos os destinos no domínio da arte, é, entre todas as nações cultas, um fato total ou parcialmente consumado. Já se pôde escrever que esse desideratum fixa em si a grande preocupação dos nossos dias.” E completa com novo elogio ao papel do desenho no desenvolvimento educacional e econômico da humanidade: “Que agente é esse, capaz de operar no mundo, sem a perda de uma gota de sangue, essas transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina, pacificadora, comunicativa e afetuosa entre todas: o desenho professado às crianças e aos adultos, desde o Kindergarten [Jardim de Infância] até à universidade, como base obrigatória na educação de todas as camadas sociais. Um quarto de século bastou-lhe para revolucionar assim as ideias, e produzir, na face das maiores nações, essas estupendas mudanças.”

E acrescenta:

“A indústria, nos nossos dias, utiliza, nas suas mais finas criações, o gênio e a habilidade artística no mais elevado grau. Entre esses dois domínios, que se discriminam simplesmente por uma gradação de matizes, há uma dependência indissolúvel: não é possível aparelhar o artista para as artes industriais, ‘sem aproximá-lo, até certo ponto, da vereda que conduz à grande arte’ [sem referência]. Na essência, pois, as belas-artes e as artes industriais são duas naturezas homogêneas e homorgânicas. Todavia, não se lhes confundem os papéis. Uma olha a efeitos superiores: é o fim de si mesma; paira independente nas regiões do ideal. A outra tende a esparzir o belo nos hábitos mais frequentes da existência humana. Uma não se entrega, senão a uma família necessariamente mais ou menos limitada de espíritos distintos; a outra não se recusa a ninguém. Uma repele a convencionalidade; imita livremente, nas suas concepções, as formas na natureza. Na outra, cuja lei é tratar como simples motivos as aparências gerais da criação, estilizando-as em tipos de beleza, a tendência naturalística exprime a incapacidade do artista e a sua estranheza aos métodos históricos.”

Liceu de Artes e Ofícios inaugurado em 3 de setembro de 1878 | Reprodução

O LICEU E O FUTURO

O Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, após seguidas reformas, prossegue no mesmo endereço em que foi edificado na segunda metade do século XIX: Rua Frederico Silva, no Centro. Há mais de um século, Ruy distinguiu a instituição com estas palavras:

“O Liceu de Artes e Ofícios é a encarnação mais eficaz e mais completa deste movimento. Abri os olhos no seio dele, e involuntariamente perguntareis: é o Brasil? Eu ia perguntar: é a rotina? Não. É uma visão realizada. É uma miragem colhida por um gênio. É um oásis no areal. É o futuro. De ora avante, se quiserdes determinar a estatura aos estadistas nacionais, tendes aqui a medida: aferi-os pelo zelo com que tratarem esta casa, – permiti-me dizer-vos: este templo. Por quê? Porque o Liceu encerra em si a fórmula mais precisa da educação popular, e a educação real do povo é a educação da nação. Essa fórmula tem dois termos capitais: a educação pela arte e a educação pela mulher.”

E encerrou o discurso com estas palavras:

“Que diremos, pois, de uma instituição que alia em si, do modo como aqui as contemplamos, a cultura artística e a cultura feminil? Que essa instituição decifrou o segredo do nosso futuro. A política, a imagem da cegueira neste país, vai passando, a magoar a pátria sob a ponteira do seu bordão ferrado, enquanto as questões, de redor, tumultuam, desdobram impunemente os seus estragos, ‘como o fogo nos vales onde sopra o vento’[nota 11: Sófocles, Ájax], para afinal caírem sobre a nação com todo o peso dos seus males imprevenidos, no meio da confusão crescente dos interesses, dos princípios, através da qual parece estridular a ironia maligna do demônio da Divina Comédia, rindo da imprevidência que não conta com a lógica dos fatos. Resta, portanto, à iniciativa individual acordar o país. Neste sentido, o Liceu de Artes e Ofícios é um rasgo de heroicidade moral que inspira aos mais incrédulos uma confiança reanimadora. O nome de Bethencourt da Silva pertence ao número dos beneméritos cuja condecoração incumbe à história. Com ele os seus auxiliares, os entusiastas intrépidos, que se dedicaram à obra deste Evangelho vivo, formam, no horizonte do nosso país, a maior constelação do futuro. Se ‘o mal ensina o mal’ [nota 12: Sófocles, Elektra], praza aos céus que este bem semeie e reproduza indefinidamente a lição de tão esplêndido exemplo. Apoie-se com firmeza no chão popular. Apele com tenacidade para as classes produtoras. Descreia da velhice incurável, estreitando de dia em dia mais a sua aliança com a mocidade, cujo préstimo o Liceu soleniza na homenagem de hoje, com a mocidade, em cujo seio há batalhadores que podem confundir as caducas pretensões da esterilidade encanecida com a réplica de Hémon na tragédia antiga: ‘Se sou jovem, julga-me antes pelas minhas ações do que pelos meus anos’ [nota 13: Sófocles, Antígona]. Deste modo chegareis a consumar vitoriosamente o vosso compromisso; e, quando o país realizar a obra da emancipação contra a ignorância, a pior de todas as servidões, caberá ao Liceu de Artes e Ofícios a glória incomparável de ter assentado a pedra angular de um monumento mais forte do que os séculos.”

Artigo de Ruy disponível em: http://antigo.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/rui_barbosa/FCRB_RuiBarbosa_ODesenho_e_a_ArteIndustrial.pdf

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

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