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Em 280 caracteres, você pode falar sobre qualquer assunto?

I’sis Almeida e Joseanne Guedes

Estar atualizado sobre as notícias que acontecem em todo mundo, antes, só era possível através dos jornais impressos e televisivos, e ainda, das revistas. Este cenário mudou quando, através da globalização, o jornalismo passou a estar também na internet e nas redes sociais. Lançado em 2006, o Twitter foi uma das novidades nas redações jornalísticas e, ao longo de sua existência, exerceu papel importante na política internacional e também na imprensa. Cada vez mais jornalistas mergulham nessa espécie de vocação jornalística do Twitter e usam a plataforma de diversas maneiras, seja para dar informações em primeira mão, encontrar fontes ou acompanhar a repercussão de um fato. 

Ao acionar o botão para “tweetar”, a pergunta “What’s happening?” – O que está acontecendo? – já traz a noção de atualidade, evidenciando o seu caráter instantâneo. A rede social, que já possui 340 milhões de usuários ativos mensais e conta com 100 milhões de usuários ativos diariamente, tem cerca de 500 milhões de tweets enviados por dia. Atualmente, o Twitter tem 14,1 milhões de usuários brasileiros cadastrados na plataforma, o que corresponde a pouco mais de 4% de seu total de usuários. A projeção é de que esse número aumente para 18,6 milhões até 2026. Em um ranking realizado pelo portal online Statista, o Brasil ocupa a 5ª posição de países que possuem uma audiência extremamente ativa e engajada na plataforma, ficando para trás somente de Estados Unidos (1º), Japão (2º), Índia (3º) e Reino Unido (4º). 

Em abril de 2021, o Twitter foi apontado como a rede social mais usada por profissionais da imprensa e também a mais valiosa para eles. A pesquisa “The State of Journalism” ouviu aproximadamente três mil jornalistas em todo o mundo e foi realizada pela plataforma norte-americana Muck Rack, que conecta jornalistas e profissionais de comunicação corporativa de empresas e agências. (Veja o estudo aqui). 

Entre outras informações apontadas pela pesquisa, uma delas é a de que jornais e revistas online são a principal fonte de conteúdo para os jornalistas. A segunda, de acordo com os entrevistados, é o Twitter. A preferência pela rede social ultrapassa, inclusive, as TVs e jornais impressos. Embora seja a rede social predileta dos profissionais da imprensa, para as mulheres o Twitter se revelou um perigo. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Anistia Internacional. 

Após uma análise de quase 15 mil tweets, a Anistia Internacional divulgou o relatório, onde descreveu a rede como “lugar tóxico para as mulheres”. De acordo com a pesquisa, cerca de 7% dos tuítes que mulheres do governo e do jornalismo receberam foram considerados problemáticos ou abusivos. Mulheres negras foram mencionadas em tweets problemáticos 84% a mais do que mulheres brancas. (Saiba mais)

Quais são as características da rede social cujo logotipo é um pássaro azul e o que a faz tão querida pelos profissionais da imprensa? Como funciona a plataforma e seu algoritmo? Quais as vantagens e desvantagens do Twitter para o jornalismo mundial e brasileiro? Essas são algumas das perguntas que, por meio desta reportagem com fontes especializadas, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) tentará responder. 

“Algoritmos são caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições”

Moisés Costa é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele explica que “algoritmos são como caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições (inputs e outputs)”, afirma. “Às vezes, mesmo as plataformas não sabem como seus próprios algoritmos funcionam direito”, constata o pesquisador. 

O Twitter sempre teve uma característica de instantaneidade em seu feed. A vantagem da rede social para o jornalismo, segundo Moisés, seria conseguir uma aproximação com sua audiência, em uma rede onde usuários tendem a consumir mais informações jornalísticas. Para os jornalistas, segundo o pesquisador, as possibilidades são um pouco mais amplas. “Vão desde estar informado em primeira mão, produzir reportagens a partir dele, até ampliar a ressonância do seu trabalho para o público”.

Sue Coutinho, autora de “Puxe Uma Conversa”, livro que elucida a comunicação na contemporaneidade com foco em marketing consciente e slow content, conta que através de redes sociais como o Twitter você pode “salvar um pequeno vilarejo através de doações de alimentos ou incitar o ódio àquela comunidade”. Coutinho é aluna do curso de MBA em Branding, Marketing & Growth da PUC e já palestrou para organizações como a YouPIX e SocialGood Brasil.

De acordo com a escritora, a facilidade em publicar uma notícia de forma rápida, prática e, às vezes, viral, é o que faz o Twitter ser o mais querido entre os jornalistas. “Você pode usar para compartilhar seus pensamentos aleatórios ou subir uma hashtag para expor uma situação que ninguém saberia se não estivesse alí”, salienta Coutinho. 

Usos jornalísticos

Não é novidade que as redes sociais vêm contribuindo para transformar a prática jornalística e, assim, atender a um consumidor que passou a requerer um jornalismo mais interativo, participativo e dinâmico. Victor Pinto é usuário da plataforma desde 2009. Ele é apresentador de rádio na Piatã FM e Excelsior AM, editor do BNews, colunista da Tribuna da Bahia e da Rádio Câmara Salvador. Muito da sua bagagem jornalística foi construída, segundo ele, através do uso do Twitter. “Quando acontece qualquer fato, vou primeiro no Twitter”, admite. 

Victor exemplifica casos de coberturas locais onde a rede social foi sua primeira fonte de informação, como o caso da explosão da fábrica de fogos de artifício na cidade de Simões Filho (BA). “Quando ouvi o boato no WhatsApp – e chamo de boato porque a gente não tinha a informação concreta -, rapidamente corri para o Twitter e lá já tinha gente de Simões Filho comentando sobre o assunto. Então, eu falei: ‘olha, tem alguma coisa acontecendo mesmo, pois os moradores de lá já estão twittando”, conta o editor do BNews

De acordo com o jornalista, a plataforma possui algumas potencialidades e para ele, são elas as que propiciam ao jornalista uma facilidade para encontrar informação. A primeira potência seria a de propagar o produto. Segundo Victor, seja por vídeo, texto, foto, ou um link publicado, existe no “TT”, “a potência do viral” chama a atenção. “Às vezes até um vídeo  ou uma cobertura independente que o jornalista faz e viraliza, sem necessariamente está vinculado a um veículo de comunicação, acontece”, explica.

O jornalista Rafael Santana é roteirista, editor e apresentador do podcast Pele Preta em Salvador, além de repórter do site Ge.globo. Ele usa sua conta no Twitter para publicar conteúdos pessoais e profissionais. “Acredito que este seja o maior desafio porque, por mais que a conta seja pessoal e de minha responsabilidade, eu estou vinculado à empresa para a qual trabalho, já que a minha audiência acompanha parte do meu trabalho”, reflete.

O podcaster conta que tenta mesclar o tipo de conteúdo que publica: nem só pessoal, nem só profissional. “Leva tempo para que você consiga construir aquilo que realmente quer passar para as pessoas que te seguem, às vezes, você se sente intimidado a não deixar transparecer suas opções políticas ou clubísticas, no meu caso, que trabalho com futebol”, observa.

Desvantagens 

O Twitter não está imune às notícias falsas. Victor Pinto costuma afirmar que na mesma velocidade em que as informações são propagadas no Twitter, as notícias falsas também são. “Não tem muito filtro e acaba virando uma miscelânea”, adverte o editor do BNews. 

No dia 23 de novembro de 2020, a plataforma adotou medidas para combater informações falsas. Na data, a rede social anunciou que emitiria um alerta que seria exibido ao curtir tweets com conteúdos enganosos. De acordo com o Twitter, os alertas são mostrados ao curtir posts que foram sinalizados por haver alguma informação enganosa sobre a pandemia do novo coronavírus, sobre as eleições e outros assuntos. (Veja aqui).

Em janeiro deste ano, outra medida surpreendeu a todos. Prestes a deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos, Donald Trump teve o seu perfil oficial banido da plataforma. Ele foi o primeiro político do país a ser retirado permanentemente da rede social. No dia 8 de janeiro de 2021, o Twitter  publicou um longo comunicado onde explica sobre a decisão de excluir a conta do ex-presidente. (Acompanhe o caso)

“Para quem se interessa em conversar com pessoas, entender o que elas pensam sobre o seu trabalho e sobre determinado tema, o Twitter é a ferramenta perfeita. A desvantagem está nos ataques, nesses tempos de ódio em que vivemos, e na confusão entre o pessoal e o profissional”, destaca Rafael Santana, editor e apresentador do podcast Pele Preta. 

Nas redações

Moisés Costa e Victor Pinto concordam que um dos problemas para os veículos noticiosos relacionados com o uso do Twitter é sua alimentação. Nem sempre as redações possuem equipe suficiente para administrar todas as redes sociais e a consequência disso é que alguns perfis acabam se tornando apenas repositórios das notícias dos portais online. Não há interação com o público e perde-se a oportunidade de colher os benefícios das potencialidades da plataforma. 

“Usá-lo apenas como repositório de links é subutilizá-lo”, aponta Costa. Com um pouco de imaginação, segundo ele, é possível fazer coisas interessantes e até inovadoras com a ajuda do Twitter. Entretanto, é sempre importante planejar a presença e atenção que será dispensada à plataforma. “Tudo deve ser pensado a partir do seu público. Usar métricas de analytics do seu site pode ajudar a compreender o público do Twitter e, com isso, pensar em qual é o melhor conteúdo a ser postado, bem como deve interagir com seus usuários”, aconselha. O especialista afirma que é importante ter uma coisa em mente: cada rede social digital necessita de um tipo diferente de atenção. 

Para Victor, a carência de equipe nas redações é fator preponderante para que, em alguns casos, o Twitter sirva somente de repositório das notícias dos veículos. “Faço essa crítica não só olhando pelo Bnews, mas pelos outros veículos também que só usam como o ‘vai’”, brinca. “É como se você tivesse transmitido na televisão ou no rádio, como antigamente. Você transmite, mas não tem o feedback”, critica. 

Na avaliação do jornalista, o que complica a interação para utilizar a plataforma é a engenharia da produção da notícia de cada redação e de cada empresa. “Geralmente, acaba-se reservando as grandes equipes para a redação, ou seja, para construção da notícia, e consequentemente, tem-se um pequeno núcleo que cuida de rede social”, explica Victor.

Bons exemplos na Bahia

De acordo com Moisés, “há exemplos interessantes de uso do Twitter, como na Rede Bahia, que coloca postagens dos espectadores em seus telejornais”, conta. “Isso traz a audiência para dentro do jornalismo, em uma das interfaces que alguns chamam de ‘jornalismo colaborativo’, onde o cidadão participa da construção de notícias”, explica. Portanto, o Twitter é uma das redes sociais digitais com maior facilidade para esse tipo de colaboração.

Rafael Santana exemplifica o Tempo Real dos Jogos do Ge. “Através do sistema interno do site, é possível cadastrar uma hashtag específica para que, quando os repórteres do grupo publique um tweet, ele seja reproduzido automaticamente no Tempo Real. 

Victor cita uma personalidade do jornalismo que considera ser destaque no Twitter. “Para mim, Mônica Bergamo é o padrão Twitter de jornalismo. A gente brinca que tudo está tranquilo somente se Mônica não publicou nada em caixa alta no TT”. “A caixa alta dela no Twitter é como o plantão da Globo para os jornalistas”, brinca. 

As expectativas para o futuro e o sentido do “TT”

Em 2011, a pesquisadora Raquel Recuero publicou o artigo “Deu no Twitter, alguém confirma?” publicado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). O artigo buscava discutir as funções emergentes do jornalismo a partir de um estudo de dois casos no Twitter: as notícias relacionadas à morte da cantora Amy Winehouse, em julho de 2011, e os atentados de Oslo, da mesma época. 

A análise considerou o capital social gerado e dividido pela rede social presente na ferramenta, discutindo as funções de credibilidade, legitimação e filtragem das informações publicadas. Nesse artigo, sem esgotar o tema, Recuero conclui que, na época, “ao contrário do que muitos especulavam, o jornalismo enquanto instituição, com concessões de valores que foram elaboradas na mídia de massa, continuavam persistentes na mídia digital”.

Hoje, com os avanços das ferramentas e as mudanças nas plataformas, muitos jornalistas tornaram-se alvo de confiança do público, processo que Raquel chama de legitimação. 

Em um texto publicado por Sue Coutinho em seu blog, a escritora reflete sobre as influências da rede social na comunicação e sociedade em geral. “O Twitter vem passando por algumas mudanças nos últimos 5 anos, que é a presença cada vez mais notável de opiniões diversas e a possibilidade dessas opiniões virarem algo maior. Bem maior”, considera o texto. 

“De eleições a grupos sociais politicamente organizados, o Twitter se tornou ferramenta fundamental de escuta e de fala”, afirma a escritora, em “O futuro está a 260 caracteres de distância?”. Atualmente a rede social permite a escrita em 280 caracteres em quase todos os idiomas. Antes eram 140, depois 260.  A explicação para o ícone ser um pássaro azul, assim, faz bastante sentido. O símbolo é uma ave porque a expressão “tweet” é equivalente, em inglês, à palavra “piu”. De acordo com algumas interpretações, podemos entender tweet também como “jogar conversa fora”, “bochichar”. Todas essas compreensões dão margem para o entendimento de que o sentido do símbolo está altamente relacionado com seu propósito, ou seja, com poucos caracteres, você pode falar qualquer assunto, ou pelo menos, quase todos.

Quer conhecer mais sobre o Twitter? Acesse o Glossário autoral da plataforma!

https://help.twitter.com/pt/glossary
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Congresso da UFBA aborda comunicação da ciência e jornalismo científico na pandemia

A Universidade Federal da Bahia (UFBA) realiza, de 22 a 26 de fevereiro, a segunda edição de seu Congresso Virtual. O ato de abertura começará às 10h, com discurso do reitor João Carlos Salles, seguido da conferência inaugural “O exercício e a dignidade do pensamento: o lugar da universidade brasileira”, às 10h30, com a filósofa e professora Marilena Chauí. A edição de 2021 traz na programação mais de mil atividades ao vivo, distribuídas em 27 salas simultâneas. Entre elas, mesas que abordam teoria e prática na área da comunicação, com debates sobre as bases da pesquisa contemporânea em comunicação da ciência e jornalismo científico, divulgação científica na pandemia e práticas profissionais do telejornalismo.

A cerimônia de abertura contará com o toque dos alabês do projeto Rum Alagbê, regidos por Iuri Passos, o berimbau do mestre Nenel e os violoncelos da Orquestra Sinfônica da UFBA, regidos pelo maestro José Maurício Brandão, com a participação das solistas Vanda Otero e Flávia Albano. A programação do evento prossegue à tarde, Para assistir, o público deve consultar a grade de programação em http://www.congresso2021.ufba.br/e clicar na atividade desejada.

“A UFBA mostra a sua pesquisa, a sua extensão, como lugar de excelência em todas as áreas do saber, lugar de ciência, cultura e arte. A UFBA também é lugar de reflexão. Não pode se furtar, portanto, ao debate dos temas mais candentes: a pandemia, a violência, o racismo, a crise econômica, a crise mundial. Venha participar conosco desse momento de encontro, de exercício da autonomia universitária. A UFBA é, assim, o lugar natural, como toda universidade pública, de conhecimento, espaço de combate aos preconceitos. É o lugar natural de resistência a toda forma de obscurantismo e autoritarismo. Esteja conosco. Estamos juntos”, convida o reitor João Carlos Salles.

Com mais de 16 mil participantes já inscritos até o momento, o Congresso Virtual 2021 será o maior já realizado pela UFBA. Além de convidados de destaque nacional e internacional da ciência, da cultura e da arte, a programação traz mais de 900 mesas de discussão sobre temas importantes na atualidade, 143 atividades artísticas gravadas e mais de 3 mil vídeo-pôsteres de estudantes da UFBA apresentando suas atividades de pesquisa. Embora não seja necessário estar inscrito para assistir às atividades, os inscritos terão direito a certificado de participação, já que o evento integra a carga horária do semestre letivo 2021.1 da UFBA.

Pioneirismo

Idealizado pela Administração Central da UFBA, em tempos de necessário isolamento social por conta do coronavírus, o objetivo do Congresso Virtual é proporcionar à comunidade universitária um espaço de encontro e demonstração da vitalidade de sua pesquisa, ensino e extensão, contemplando também a livre expressão artística e a reflexão crítica sobre a atual conjuntura.  O evento, seguindo os quatro grandes congressos anuais que a UFBA realiza desde 2016, foi uma iniciativa pioneira, cujo sucesso estimulou a realização de atividades em formato semelhante por outras instituições em todo o país.

A primeira edição do Congresso Virtual, realizada em maio de 2020, registrou mais de 38 mil inscritos (dos quais 15 mil integrantes da UFBA) e mais de 126 mil espectadores pelo Youtube, gerando um total de 638 mil visualizações. Ao todo, foram realizadas 440 atividades ao vivo e outras 191 gravadas, além de 256 intervenções artísticas e mais de mil vídeo-pôsteres de 5 minutos enviados por estudantes.

Destaques da programação 2021, na área da comunicação:

24/02

Sala J | 10h30-12h: “Bases teóricas da pesquisa contemporânea em comunicação da ciência e jornalismo científico”.

Com Luisa Massarani, Isaltina Mello Gomes, Natália Flores, Yuri Castelfranchi, Mariluce Moura

Dia 26/02

Sala F | 13h30-15h00: “Comunicação científica em tempos de pandemia: o caso da Rede Covida”

Com Suzana Barbosa, Raíza Tourinho, Adalton dos Anjos Fonseca, Luciellen Lima, Karina Costa

Sala G |19h30-21h00: “O telejornalismo no tempo da Covid-19. O ensino de práticas profissionais”

Alfredo Eurico Pereira Vizeu Junior, Iluska M S Coutinho, Vítor Curvelo Fontes Belém, Washington José Souza Filho

Confira a programação completa.

ABI BAHIANA

Jornalistas discutem enfrentamento a big techs pela remuneração de conteúdos

Quantas vezes você recorreu ao Google por notícias sobre determinado assunto apenas este mês? O ciclo de debates Temas Diversos, promovido a cada reunião mensal da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), recebeu nesta quarta-feira (9/12) o jornalista Luiz Queiroz para um debate sobre a remuneração do conteúdo jornalístico por gigantes da tecnologia, as chamadas “big techs”, e outras pautas relacionadas à valorização do jornalismo e da publicidade. Em razão da pandemia, o evento que marcou o último encontro da Diretoria em 2020 foi on-line, transmitido via Zoom, e contou com a participação de diretores da instituição e profissionais da comunicação.

De acordo com Luiz Queiroz, que é especializado área de tecnologia, a migração da publicidade para as gigantes digitais é um dos fatores que levam a esvaziamentos de redações ou fechamentos, com consequências na qualidade da produção jornalística. “Temos cada vez mais anunciantes na internet e menos investimento em jornais e TV, por exemplo. A venda de banners era a maior fonte de renda dos sites quando o Google surgiu”. Segundo dados da eMarketer, em 2018, 60% dos anúncios digitais nos EUA foram abocanhados pelo Google e Facebook, que atuam como intermediários entre o leitor e o veículo noticioso. A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) estima que esse percentual esteja entre 60% e 80% no Brasil.

O tema está entre as propostas feitas pela coalizão “Liberdade com Responsabilidade”, formada por 27 entidades ligadas à comunicação social no Brasil. O documento (ver aqui) endereçado em agosto à Câmara dos Deputados reúne sugestões de mudanças no texto do Projeto de Lei 2.630, conhecido como PL das Fake News. O PL 2.630 foi aprovado no Senado em uma votação polêmica, dada a urgência com que aquela Casa tratou o tema, e agora tramita na Câmara dos Deputados. Até houve uma tentativa de inserir essa reivindicação no texto, mas a pressão das “big techs” conseguiu evitar a aprovação pelos senadores.

União Europeia, França, Alemanha, Espanha e Austrália já fizeram movimentos para forçar o pagamento de royalties aos veículos de comunicação, mas as “big techs” resistem e mostram poder. Por aqui, a imposição da remuneração chegou a entrar na versão do Projeto de Lei 2.630/20, conhecido como PL das Fake News, que passou no Senado, mas foi tirada do texto porque os senadores entenderam que o tema está mais relacionado a direitos autorais do que a notícias falsas. Sobre isso, Luiz Queiroz mencionou projeto de lei n° 4255, de autoria do senador Angelo Coronel (PSD/BA), como uma “tentativa de esvaziar a campanha iniciada pela coalizão.

Migalhas

Para Luiz Queiroz, enquanto as big techs drenam o dinheiro do jornalismo, ao não remunerar nem o veículo nem os jornalistas pelo uso dos conteúdos –, o Google oferece “migalhas”. Em documento enviado recentemente ao Congresso Nacional, a empresa abordou o PL das Fake News. O Google argumentou que está “investindo milhões de reais para apoiar o jornalismo e os veículos brasileiros”. Segundo a gigante, R$ 17 milhões já foram destinados a um fundo emergencial para manter mais de 400 veículos brasileiros afetados pela pandemia do novo coronavírus. O detalhe é que as receitas publicitárias do Google equivaleram a mais da metade de todo o gasto publicitário nos EUA (Google arrecadou US$ 116,3 bi, e os gastos no país foram US$ 229,7 bi), de acordo com uma reportagem do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

Luiz Queiroz critica a falta de engajamentos dos jornalistas brasileiros com a questão e faz um alerta. “Até agora eu só vi empresas interessadas nesse debate e botar a mão no dinheiro. Se nós, jornalistas, não entrarmos na discussão, seremos ainda mais prejudicados”, afirma. Queiroz é jornalista há 38 anos, sendo 25 dedicados à cobertura da área de tecnologia em Brasília, através do Blog <www.capitaldigital.com.br>. Em 2013, ele esteve na ABI para discutir o Marco Civil da Internet e as limitações no conteúdo, em um evento com a participação do jornalista Bob Fernandes (confira aqui).

O que diz a Fenaj

No esforço de buscar uma reparação justa ao fato de que as grandes plataformas têm receita bilionária e quase não são tri­butadas, a Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas propõe a criação de uma Contribuição de In­tervenção no Domínio Econômico (Cide), por meio de Projeto de Lei no Congresso Nacional. Pela proposta da Fenaj, os recursos provenientes da Cide teriam um destino certo: um Fundo de Apoio e Fomento ao Jornalismo e aos Jornalistas, com gestão pública e autonomia para financiar a produção jornalística de organizações/empresas públicas e/ ou privadas. Com informações do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

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Coalizão de comunicação social pede remuneração de conteúdos jornalísticos pelas big techs

Pauta integra documento assinado por 27 instituições com sugestões de mudanças no PL das Fake News

Além do compartilhamento de dados pessoais de consumidores e as invasivas mailing lists – de notório valor financeiro -, as grandes empresas de tecnologia, as chamadas “big techs” como Google e Facebook, impactam na salubridade do trabalho de jornalistas na rede. A remuneração do conteúdo jornalístico e outras pautas relacionadas à valorização do jornalismo e da publicidade estão entre as propostas feitas pela coalizão “Liberdade com Responsabilidade”, formada por 27 entidades ligadas à comunicação social no Brasil. O documento (ver aqui) endereçado na última terça-feira à Câmara dos Deputados reúne sugestões de mudanças no texto do Projeto de Lei 2.630, conhecido como PL das Fake News.

A nova coalizão formalizou uma campanha amplamente divulgada em diversos veículos de comunicação, inclusive no Jornal Nacional, da TV Globo. A ideia é simples: estabelecer nesta lei um princípio legal de que os provedores de aplicação serão obrigados a remunerar todo e qualquer conteúdo jornalístico trafegado em suas redes, sempre que elas auferirem receitas com publicidade através deles. O PL 2.630 já foi aprovado no Senado em uma votação polêmica, dada a urgência com que aquela Casa tratou o tema, e agora tramita na Câmara dos Deputados. Até houve uma tentativa de inserir essa reivindicação no texto, mas a pressão das “big techs” conseguiu evitar a aprovação pelos senadores.

Com base nos poucos dados fornecidos por essas gigantes da tecnologia, especialistas do setor publicitário estimam que as receitas alcançam R$ 13 bilhões. De acordo com a coalizão, uma pequena parte disso seria canalizado por elas para a “monetização” de algumas páginas de influenciadores digitais na Internet, notadamente nas redes sociais, ou para as empresas de conteúdo jornalístico. Para o grupo, o combate à a desinformação na Internet precisa ser feito com conteúdo jornalístico.

E os jornalistas profissionais que produzem conteúdo na Internet?

No que diz respeito à distribuição de conteúdo jornalístico profissional brasileiro, a coalizão defende que todo material utilizado pelos provedores de aplicação de internet seja remunerado às empresas e aos profissionais, se por eles autorizado, ressalvados o compartilhamento de links diretamente pelos usuários. “A remuneração dos conteúdos jornalísticos se justifica não apenas pelo uso e monetização dos conteúdos sem a devida contrapartida, mas pela relevância desta atividade para o combate à desinformação e para a democracia”, destaca a correspondência.

Desde o ano passado, países como Austrália, Espanha, França e mais recentemente a Irlanda, iniciaram suas campanhas para obrigar essas plataformas a remunerarem o conteúdo jornalístico. Sob o argumento de que esse mercado foi abalado por elas mesmas nos últimos anos, levando o setor a uma retração no número de empresas em atividade e na oferta de empregos.

No Brasil, essa discussão entre os jornalistas até agora não decolou. E mesmo após o lançamento da campanha das empresas, o tema continua fora dos debates na categoria. Um pequeno grupo de jornalistas tem se reunido nas últimas semanas para debater a questão. Até o momento há o consenso de que algo precisa ser feito.

Desinformação on-line

Para as entidades, as melhores soluções de combate à desinformação passam pelos modelos de contratação de serviços de internet e não pela vigilância dos usuários, o que fere os princípios das liberdades de expressão e de imprensa. O grupo levanta a necessidade de aplicação da legislação para que as operações on-line sejam contratualmente realizadas no país e, portanto, identificados os patrocinadores, inclusive de propaganda política e partidária.

A publicidade em meios digitais, segundo o documento endereçado a Maia, deve observar as regras de proteção à livre concorrência, em especial as estabelecidas na Lei 12.529 e na Lei nº 13.709 (LGPD) em relação à utilização de tecnologias de processamento e análise de dados de usuários alcançados por publicidade direcionada. As instituições assinalam ainda a necessidade de obrigação de transparência na  distinção de conteúdo noticioso, de conteúdo impulsionado e de publicidade, inclusive político-partidária.