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Em 280 caracteres, você pode falar sobre qualquer assunto?

I’sis Almeida e Joseanne Guedes

Estar atualizado sobre as notícias que acontecem em todo mundo, antes, só era possível através dos jornais impressos e televisivos, e ainda, das revistas. Este cenário mudou quando, através da globalização, o jornalismo passou a estar também na internet e nas redes sociais. Lançado em 2006, o Twitter foi uma das novidades nas redações jornalísticas e, ao longo de sua existência, exerceu papel importante na política internacional e também na imprensa. Cada vez mais jornalistas mergulham nessa espécie de vocação jornalística do Twitter e usam a plataforma de diversas maneiras, seja para dar informações em primeira mão, encontrar fontes ou acompanhar a repercussão de um fato. 

Ao acionar o botão para “tweetar”, a pergunta “What’s happening?” – O que está acontecendo? – já traz a noção de atualidade, evidenciando o seu caráter instantâneo. A rede social, que já possui 340 milhões de usuários ativos mensais e conta com 100 milhões de usuários ativos diariamente, tem cerca de 500 milhões de tweets enviados por dia. Atualmente, o Twitter tem 14,1 milhões de usuários brasileiros cadastrados na plataforma, o que corresponde a pouco mais de 4% de seu total de usuários. A projeção é de que esse número aumente para 18,6 milhões até 2026. Em um ranking realizado pelo portal online Statista, o Brasil ocupa a 5ª posição de países que possuem uma audiência extremamente ativa e engajada na plataforma, ficando para trás somente de Estados Unidos (1º), Japão (2º), Índia (3º) e Reino Unido (4º). 

Em abril de 2021, o Twitter foi apontado como a rede social mais usada por profissionais da imprensa e também a mais valiosa para eles. A pesquisa “The State of Journalism” ouviu aproximadamente três mil jornalistas em todo o mundo e foi realizada pela plataforma norte-americana Muck Rack, que conecta jornalistas e profissionais de comunicação corporativa de empresas e agências. (Veja o estudo aqui). 

Entre outras informações apontadas pela pesquisa, uma delas é a de que jornais e revistas online são a principal fonte de conteúdo para os jornalistas. A segunda, de acordo com os entrevistados, é o Twitter. A preferência pela rede social ultrapassa, inclusive, as TVs e jornais impressos. Embora seja a rede social predileta dos profissionais da imprensa, para as mulheres o Twitter se revelou um perigo. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Anistia Internacional. 

Após uma análise de quase 15 mil tweets, a Anistia Internacional divulgou o relatório, onde descreveu a rede como “lugar tóxico para as mulheres”. De acordo com a pesquisa, cerca de 7% dos tuítes que mulheres do governo e do jornalismo receberam foram considerados problemáticos ou abusivos. Mulheres negras foram mencionadas em tweets problemáticos 84% a mais do que mulheres brancas. (Saiba mais)

Quais são as características da rede social cujo logotipo é um pássaro azul e o que a faz tão querida pelos profissionais da imprensa? Como funciona a plataforma e seu algoritmo? Quais as vantagens e desvantagens do Twitter para o jornalismo mundial e brasileiro? Essas são algumas das perguntas que, por meio desta reportagem com fontes especializadas, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) tentará responder. 

“Algoritmos são caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições”

Moisés Costa é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele explica que “algoritmos são como caixas pretas. Nunca sabemos verdadeiramente o que consta em suas definições (inputs e outputs)”, afirma. “Às vezes, mesmo as plataformas não sabem como seus próprios algoritmos funcionam direito”, constata o pesquisador. 

O Twitter sempre teve uma característica de instantaneidade em seu feed. A vantagem da rede social para o jornalismo, segundo Moisés, seria conseguir uma aproximação com sua audiência, em uma rede onde usuários tendem a consumir mais informações jornalísticas. Para os jornalistas, segundo o pesquisador, as possibilidades são um pouco mais amplas. “Vão desde estar informado em primeira mão, produzir reportagens a partir dele, até ampliar a ressonância do seu trabalho para o público”.

Sue Coutinho, autora de “Puxe Uma Conversa”, livro que elucida a comunicação na contemporaneidade com foco em marketing consciente e slow content, conta que através de redes sociais como o Twitter você pode “salvar um pequeno vilarejo através de doações de alimentos ou incitar o ódio àquela comunidade”. Coutinho é aluna do curso de MBA em Branding, Marketing & Growth da PUC e já palestrou para organizações como a YouPIX e SocialGood Brasil.

De acordo com a escritora, a facilidade em publicar uma notícia de forma rápida, prática e, às vezes, viral, é o que faz o Twitter ser o mais querido entre os jornalistas. “Você pode usar para compartilhar seus pensamentos aleatórios ou subir uma hashtag para expor uma situação que ninguém saberia se não estivesse alí”, salienta Coutinho. 

Usos jornalísticos

Não é novidade que as redes sociais vêm contribuindo para transformar a prática jornalística e, assim, atender a um consumidor que passou a requerer um jornalismo mais interativo, participativo e dinâmico. Victor Pinto é usuário da plataforma desde 2009. Ele é apresentador de rádio na Piatã FM e Excelsior AM, editor do BNews, colunista da Tribuna da Bahia e da Rádio Câmara Salvador. Muito da sua bagagem jornalística foi construída, segundo ele, através do uso do Twitter. “Quando acontece qualquer fato, vou primeiro no Twitter”, admite. 

Victor exemplifica casos de coberturas locais onde a rede social foi sua primeira fonte de informação, como o caso da explosão da fábrica de fogos de artifício na cidade de Simões Filho (BA). “Quando ouvi o boato no WhatsApp – e chamo de boato porque a gente não tinha a informação concreta -, rapidamente corri para o Twitter e lá já tinha gente de Simões Filho comentando sobre o assunto. Então, eu falei: ‘olha, tem alguma coisa acontecendo mesmo, pois os moradores de lá já estão twittando”, conta o editor do BNews

De acordo com o jornalista, a plataforma possui algumas potencialidades e para ele, são elas as que propiciam ao jornalista uma facilidade para encontrar informação. A primeira potência seria a de propagar o produto. Segundo Victor, seja por vídeo, texto, foto, ou um link publicado, existe no “TT”, “a potência do viral” chama a atenção. “Às vezes até um vídeo  ou uma cobertura independente que o jornalista faz e viraliza, sem necessariamente está vinculado a um veículo de comunicação, acontece”, explica.

O jornalista Rafael Santana é roteirista, editor e apresentador do podcast Pele Preta em Salvador, além de repórter do site Ge.globo. Ele usa sua conta no Twitter para publicar conteúdos pessoais e profissionais. “Acredito que este seja o maior desafio porque, por mais que a conta seja pessoal e de minha responsabilidade, eu estou vinculado à empresa para a qual trabalho, já que a minha audiência acompanha parte do meu trabalho”, reflete.

O podcaster conta que tenta mesclar o tipo de conteúdo que publica: nem só pessoal, nem só profissional. “Leva tempo para que você consiga construir aquilo que realmente quer passar para as pessoas que te seguem, às vezes, você se sente intimidado a não deixar transparecer suas opções políticas ou clubísticas, no meu caso, que trabalho com futebol”, observa.

Desvantagens 

O Twitter não está imune às notícias falsas. Victor Pinto costuma afirmar que na mesma velocidade em que as informações são propagadas no Twitter, as notícias falsas também são. “Não tem muito filtro e acaba virando uma miscelânea”, adverte o editor do BNews. 

No dia 23 de novembro de 2020, a plataforma adotou medidas para combater informações falsas. Na data, a rede social anunciou que emitiria um alerta que seria exibido ao curtir tweets com conteúdos enganosos. De acordo com o Twitter, os alertas são mostrados ao curtir posts que foram sinalizados por haver alguma informação enganosa sobre a pandemia do novo coronavírus, sobre as eleições e outros assuntos. (Veja aqui).

Em janeiro deste ano, outra medida surpreendeu a todos. Prestes a deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos, Donald Trump teve o seu perfil oficial banido da plataforma. Ele foi o primeiro político do país a ser retirado permanentemente da rede social. No dia 8 de janeiro de 2021, o Twitter  publicou um longo comunicado onde explica sobre a decisão de excluir a conta do ex-presidente. (Acompanhe o caso)

“Para quem se interessa em conversar com pessoas, entender o que elas pensam sobre o seu trabalho e sobre determinado tema, o Twitter é a ferramenta perfeita. A desvantagem está nos ataques, nesses tempos de ódio em que vivemos, e na confusão entre o pessoal e o profissional”, destaca Rafael Santana, editor e apresentador do podcast Pele Preta. 

Nas redações

Moisés Costa e Victor Pinto concordam que um dos problemas para os veículos noticiosos relacionados com o uso do Twitter é sua alimentação. Nem sempre as redações possuem equipe suficiente para administrar todas as redes sociais e a consequência disso é que alguns perfis acabam se tornando apenas repositórios das notícias dos portais online. Não há interação com o público e perde-se a oportunidade de colher os benefícios das potencialidades da plataforma. 

“Usá-lo apenas como repositório de links é subutilizá-lo”, aponta Costa. Com um pouco de imaginação, segundo ele, é possível fazer coisas interessantes e até inovadoras com a ajuda do Twitter. Entretanto, é sempre importante planejar a presença e atenção que será dispensada à plataforma. “Tudo deve ser pensado a partir do seu público. Usar métricas de analytics do seu site pode ajudar a compreender o público do Twitter e, com isso, pensar em qual é o melhor conteúdo a ser postado, bem como deve interagir com seus usuários”, aconselha. O especialista afirma que é importante ter uma coisa em mente: cada rede social digital necessita de um tipo diferente de atenção. 

Para Victor, a carência de equipe nas redações é fator preponderante para que, em alguns casos, o Twitter sirva somente de repositório das notícias dos veículos. “Faço essa crítica não só olhando pelo Bnews, mas pelos outros veículos também que só usam como o ‘vai’”, brinca. “É como se você tivesse transmitido na televisão ou no rádio, como antigamente. Você transmite, mas não tem o feedback”, critica. 

Na avaliação do jornalista, o que complica a interação para utilizar a plataforma é a engenharia da produção da notícia de cada redação e de cada empresa. “Geralmente, acaba-se reservando as grandes equipes para a redação, ou seja, para construção da notícia, e consequentemente, tem-se um pequeno núcleo que cuida de rede social”, explica Victor.

Bons exemplos na Bahia

De acordo com Moisés, “há exemplos interessantes de uso do Twitter, como na Rede Bahia, que coloca postagens dos espectadores em seus telejornais”, conta. “Isso traz a audiência para dentro do jornalismo, em uma das interfaces que alguns chamam de ‘jornalismo colaborativo’, onde o cidadão participa da construção de notícias”, explica. Portanto, o Twitter é uma das redes sociais digitais com maior facilidade para esse tipo de colaboração.

Rafael Santana exemplifica o Tempo Real dos Jogos do Ge. “Através do sistema interno do site, é possível cadastrar uma hashtag específica para que, quando os repórteres do grupo publique um tweet, ele seja reproduzido automaticamente no Tempo Real. 

Victor cita uma personalidade do jornalismo que considera ser destaque no Twitter. “Para mim, Mônica Bergamo é o padrão Twitter de jornalismo. A gente brinca que tudo está tranquilo somente se Mônica não publicou nada em caixa alta no TT”. “A caixa alta dela no Twitter é como o plantão da Globo para os jornalistas”, brinca. 

As expectativas para o futuro e o sentido do “TT”

Em 2011, a pesquisadora Raquel Recuero publicou o artigo “Deu no Twitter, alguém confirma?” publicado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). O artigo buscava discutir as funções emergentes do jornalismo a partir de um estudo de dois casos no Twitter: as notícias relacionadas à morte da cantora Amy Winehouse, em julho de 2011, e os atentados de Oslo, da mesma época. 

A análise considerou o capital social gerado e dividido pela rede social presente na ferramenta, discutindo as funções de credibilidade, legitimação e filtragem das informações publicadas. Nesse artigo, sem esgotar o tema, Recuero conclui que, na época, “ao contrário do que muitos especulavam, o jornalismo enquanto instituição, com concessões de valores que foram elaboradas na mídia de massa, continuavam persistentes na mídia digital”.

Hoje, com os avanços das ferramentas e as mudanças nas plataformas, muitos jornalistas tornaram-se alvo de confiança do público, processo que Raquel chama de legitimação. 

Em um texto publicado por Sue Coutinho em seu blog, a escritora reflete sobre as influências da rede social na comunicação e sociedade em geral. “O Twitter vem passando por algumas mudanças nos últimos 5 anos, que é a presença cada vez mais notável de opiniões diversas e a possibilidade dessas opiniões virarem algo maior. Bem maior”, considera o texto. 

“De eleições a grupos sociais politicamente organizados, o Twitter se tornou ferramenta fundamental de escuta e de fala”, afirma a escritora, em “O futuro está a 260 caracteres de distância?”. Atualmente a rede social permite a escrita em 280 caracteres em quase todos os idiomas. Antes eram 140, depois 260.  A explicação para o ícone ser um pássaro azul, assim, faz bastante sentido. O símbolo é uma ave porque a expressão “tweet” é equivalente, em inglês, à palavra “piu”. De acordo com algumas interpretações, podemos entender tweet também como “jogar conversa fora”, “bochichar”. Todas essas compreensões dão margem para o entendimento de que o sentido do símbolo está altamente relacionado com seu propósito, ou seja, com poucos caracteres, você pode falar qualquer assunto, ou pelo menos, quase todos.

Quer conhecer mais sobre o Twitter? Acesse o Glossário autoral da plataforma!

https://help.twitter.com/pt/glossary
ABI BAHIANA

Palestra na ABI expõe impactos das fake news turbinadas pelas redes sociais

“O mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”. Quem nunca viu essa frase circulando na Internet com a assinatura do ator e diretor Charles Chaplin, mesmo anos depois de o escritor brasileiro Augusto Branco reivindicar a autoria do poema “Vida”? Segundo a jornalista Suely Temporal, sócia da empresa de comunicação integrada Agências de Textos, a poeta Clarice Lispector, o Papa Francisco e até o deputado Tirica também vivem “assinando” textos que nunca escreveram. Temporal expôs os impactos das notícias falsas espalhadas na rede – desde a atribuição equivocada de autoria até crimes de maior potencial ofensivo – durante palestra sobre as chamadas “fake news”, nesta quarta-feira (11). O evento inaugura o projeto “Temas Diversos”, uma série de debates idealizada pela diretoria da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), para discutir assuntos relevantes da relação entre a imprensa e a sociedade.

Suely Temporal destaca papel do jornalismo na apuração dos fatos – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Suely Temporal abordou a crise dos modelos de negócios tradicionais, com a fuga de audiência, as novas ferramentas que servem para buscar a verdade, e o papel do jornalismo na apuração rigorosa dos fatos. Ela reconhece os principais desafios da profissão em tempos de notícias falsas, pós-verdade e polarização política globalizada. “Hoje em dia, é ‘creio, logo existe’”, afirmou a jornalista, em alusão à célebre frase do filósofo francês René Descartes (“Penso, logo existo”, do original “Je pense, donc je suis”). “Não tem como parar esse fenômeno. Precisamos criar mecanismos e não acredito que nos próximos 50 anos isso vá acontecer”. Para Suely, as fake news só expõem a credibilidade do profissional. “Sou jornalista e tenho a obrigação de checar o fato antes de pensar em compartilhar. Isso é validação da informação”.

Uma checagem que, segundo pesquisa divulgada pela jornalista, ainda não se tornou um hábito. “95% dos entrevistados não costumam validar notícia, 80% não consultam outras fontes, 65% procuram via buscadores, 20% consultam amigos e parentes”. Já um estudo realizado pela agência Advice Comunicação Corporativa, por meio do aplicativo BonusQuest, em novembro do ano passado, indicou que 78% dos brasileiros se informam pelas redes sociais. Destes, 42% admitem já ter compartilhado notícias falsas e só 39% checam com frequência as notícias antes de difundi-las.

Entre os motivos que fazem uma pessoa compartilhar um boato de Internet (os conhecidos hoax), Temporal citou a ignorância, o desconhecimento e ingenuidade. “A pessoa não sabe que a informação é falsa e repassa querendo ajudar”. Ou, por outro lado, o desejo de endossar opiniões pessoais. “E tem aqueles que usam o conteúdo sabendo que se trata de uma farsa. Isso é crime”. Segundo ela, a pós-verdade já começa, inclusive, a borrar conceitos e valores necessários para a vida em sociedade. “Há pessoas que preferem mentiras confortáveis a verdades inconvenientes”, constata.

De acordo com Suely Temporal, barrar o processo de divulgação de notícias falsas na Internet é algo bastante complexo. A fonte original pode ser bloqueada, porém, outros milhares difundem. As consequências são imprevisíveis, justamente pela fluidez e descentralização da rede. Além disso, ordens judiciais podem não ser amplamente cumpridas e eficazes em todos os casos. O resultado é a proliferação de um hábito que pode destruir uma reputação e prejudicar alguém, ou causar tragédias, como nos casos de pessoas que têm seus nomes vinculados a crimes e acabam vítimas de violência. A dica é não compartilhar uma informação no calor do recebimento, agir com cautela, desconfiar do conteúdo por mais crível que pareça. Repassar sem ler? Nem pensar.

Diretores da ABI acompanham palestra sobre “fake news” – Foto: Joseanne Guedes/ABI

O presidente da ABI, Antonio Walter Pinheiro, ressaltou a seriedade do tema, principalmente porque envolve liberdade de expressão e liberdades individuais, e destacou a imprensa como fonte primária de checagem daquilo que está sendo noticiado. De acordo com ele, os meios de comunicação tradicionais têm um papel chave no combate às fake news, neste momento em que a avalanche de informações de todos os tipos está disponível. “Esse fenômeno não é uma coisa nova e os tabloides ingleses estão aí para provar isso. O caminho é recorrer aos veículos de credibilidade e acabar com a impunidade. Já existem setores nas polícias para punir autores dessa prática. Quando alguém compartilha, está contribuindo para o problema”, completa o dirigente.

Já estão programadas discussões para as três próximas reuniões da diretoria da ABI: Josair Bastos, presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado da Bahia, dará na reunião de maio um panorama sobre o setor; em junho, o jornalista Paulo Roberto Sampaio vai compartilhar as experiências da época em que atuou como  coordenador de cobertura televisiva da Copa do Mundo, evento esportivo realizado pela FIFA; e o jornalista e poeta Florisvaldo Mattos falará na reunião de julho sobre os 220 anos da Revolta dos Búzios, movimento também conhecido como Revolta dos Alfaiates/Conjuração Baiana.

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Políticos elegem redes sociais como alvos judiciais, diz Abraji

Cerca de 3 em cada 4 processos movidos por políticos contra empresas de mídia pedindo retirada de notícias, comentários ou outras informações do ar são direcionados a duas redes sociais: Facebook e Twitter. É o que mostra a mais recente atualização da base de dados do projeto Ctrl+X, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A iniciativa mapeia, desde as eleições de 2014, as ações judiciais de candidatos e partidos para cercear a publicação de informações sobre eles.

O projeto agora contabiliza mais de 1.200 ações na justiça eleitoral. O alvo mais frequente desse tipo de pedido de retirada de conteúdo é o Facebook, réu em 865 (71,5%) dos processos catalogados. Já o Twitter, terceiro mais acionado na Justiça, é réu em 2,5% das ações. A segunda empresa mais visada com ações para remoção de conteúdo é o Google, citado em 191 (15,8%) das ações. Os dados continuarão a ser atualizados regularmente para as eleições de 2016 e podem ser acessados de maneira interativa na página ctrlx.org.br

O foco dos processos em redes sociais acompanha tendência verificada em recente pesquisa do Ibope, que mostra que 51% dos eleitores brasileiros recebeu informações sobre política pelo Facebook, Twitter ou WhatsApp nos últimos 12 meses. O levantamento afirma que 56% dos eleitores que receberam as mensagens mudaram para pior a imagem quem fazem de políticos, um dos motivadores dos pedidos de remoção de conteúdo.

As queixas mais comuns dos políticos nas ações catalogadas pelo Ctrl+X são violação à legislação eleitoral (dois terços dos casos) e difamação (metade dos processos). Pelo site do projeto, é possível verificar também quais políticos mais acionaram a Justiça em cada um dos estados e em quais partidos isso ocorre com mais frequência.

O banco de dados tem cadastradas ações judiciais contra meios de comunicação que datam desde 2002. Nesse intervalo de tempo, os períodos que antecedem as eleições concentraram o maior número de ações pedindo retirada de conteúdo da internet. Ao todo 60% dos processos catalogados no serviço da Abraji (que também mapeia pedidos sem relação com eleições) aconteceu durante as campanhas eleitorais. Somando os outros processos (não relacionados a eleições), são mais de 1.900 ações na justiça.

Fonte: Abraji

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Governos driblam efeitos libertadores da Internet para criar mordaça na era digital

Duas convicções se assentaram no pensamento contemporâneo sobre o jornalismo. A primeira é que a Internet é a força que mais tem revolucionado os meios de comunicação. A segunda é que a Rede e as ferramentas de comunicação e informação que gerou, como YouTube, Twitter e Facebook, estão transferindo o poder dos Governos para a sociedade civil e os blogueiros, cibercidadãos ou os chamados “jornalistas cidadãos”. É difícil não estar de acordo. Entretanto, essas afirmações escondem o fato de que os Governos estão tendo o mesmo sucesso que a Internet na hora de invadir os meios de comunicação independentes e condicionar a informação que chega à sociedade.

Além disso, em muitos países pobres ou de regime autocrático as ações governamentais pesam mais que a Internet na hora de definir como e quem produz e consome a informação. Há um fato surpreendente que ilustra isso: a censura está em pleno apogeu na era da informação. Em tese, as novas tecnologias tornam mais difícil, e em última instância impossível, para os Governos controlar o fluxo da informação. Alguns afirmam que o nascimento da Internet pressagiava a morte da censura. Em 1993, John Gilmore, um pioneiro da Internet, declarava à Time: “A Rede interpreta a censura como um obstáculo a contornar”.

Hoje, muitos Governos aprenderam a driblar os efeitos libertadores da Internet. Como os empreendedores, estão recorrendo à inovação e à imitação. Em países como Hungria, Equador, Turquia e Quênia, as autoridades imitam ditaduras como Rússia, Irã e China, censurando notícias críticas e criando suas próprias empresas estatais de comunicação. Também estão criando ferramentas mais sutis para atacar os jornalistas. Dessa forma, a esperança de que a Internet permitiria a proliferação de fontes de informação independentes e diversas se tornou realidade apenas para uma parte minoritária da humanidade, a que vive em democracias consolidadas.

Protesto pela liberdade de expressão na Venezuela - Foto: Alejandro Cegarra/AP
Protesto pela liberdade de expressão na Venezuela – Foto: Alejandro Cegarra/AP

Na Venezuela, dois dos principais jornais, críticos ao Governo, foram vendidos a empresas misteriosas. Lá, uso da Internet está crescendo a grande velocidade, apesar do ambicioso programa de censura aplicado pelo governo. Alguns de seus métodos permanecem ocultos, e vieram à luz em outros países. Um deles consiste em assumir o controle de veículos independentes por meio de empresas fantasmas e falsos compradores. Segundo Tamoa Calzadilla, que até o ano passado era diretora de investigação do Últimas Notícias, o jornal de maior circulação da Venezuela, nem na Europa nem nos Estados Unidos se faz ideia da quantidade e variedade de pressões a que os jornalistas de seu país são submetidos.

Calzadilla pediu demissão em sinal de protesto depois que compradores anônimos assumiram o controle do jornal e o novo diretor exigiu mudanças injustificadas em uma reportagem investigativa sobre os protestos contra o Governo. “Essa não é a censura de sempre, onde põem um soldado na porta do jornal e agridem os repórteres”, dizia-nos Calzadilla. “Em vez disso, compram o jornal, prestam queixa contra os jornalistas e levam-nos a julgamento, escutam suas conversas e transmitem-nas pela televisão estatal. É a censura do século XXI.”

Alegações de difamação também são claramente visíveis, conforme o Relatório de Transparência do Google, que foi lançado pela primeira vez em 2009. Ele compila os pedidos de governos para remover conteúdos de plataformas de empresas. O Brasil está classificado no topo da lista. O país também é o segundo com o maior número de ordens judiciais para remoção de mensagens publicadas no Twitter, entre julho e dezembro de 2014, aponta o relatório elaborado pela própria rede social. Ao registrar 27 decisões cumpridas, o país fica atrás apenas da Turquia, onde a rede social atendeu 328 determinações. Os Estados Unidos estão na terceira posição, com seis ordens judiciais. O levantamento mostra que o contexto político do Brasil catalisou as decisões judiciais contra os conteúdos publicados. Das 27 ordens emitidas, 18 delas estavam relacionadas às campanhas eleitorais. A Turquia e o Brasil também estão no top do ranking chamado “conteúdo retido”, no qual a mensagem fica indisponível apenas em um território específico. Aqui, a situação ocorreu com 101 publicações.

Além disso, jornalistas e defensores da liberdade de imprensa identificam a censura judicial como o segundo problema mais importante a afetar os jornalistas brasileiros e os meios de comunicação em geral, ficando atrás apenas da violência contra a imprensa. Agências de notícias e jornalistas são frequentemente submetidos à intimidação na forma de múltiplas ações judiciais que tentam impedir a cobertura de questões de interesse público, como parte de um fenômeno crescente na imprensa brasileira.

 Censura pelo mundo

Na Hungria, a Autoridade dos Meios de comunicação tem o poder de recolher informação detalhada sobre os jornalistas e sobre a publicidade e os conteúdos editoriais. No Paquistão, a autoridade reguladora estatal suspendeu a licença de radiodifusão da Geo TV, o canal mais popular do país, depois que o serviço secreto prestou contra a empresa uma queixa por difamação, após o assassinato de um dos jornalistas mais famosos da rede. Na Turquia, a legislação relativa à Internet confere à Direção de Telecomunicações autoridade para eliminar qualquer site ou conteúdo “a fim de proteger a segurança nacional e a ordem pública, bem como para evitar um crime”. Na Rússia, o presidente Vladimir Putin está reconfigurando a paisagem midiática à imagem e semelhança do Governo. Em 2014, vários veículos de comunicação foram fechados ou mudaram sua linha editorial de um dia para outro em resposta à pressão governamental.

A China é o país onde ficam mais patentes as contradições geradas pela Rede. A nação com mais usuários da Internet e o crescimento mais veloz da população conectada é também o maior censor do mundo. Dos 3 bilhões de internautas do mundo, 22% vivem na China (nos Estados Unidos, quase 10%). Pequim criou o que se chama de “Great Firewall” (grande firewall, o filtro da Internet) para bloquear conteúdos, incluindo páginas de informação estrangeiras. Calcula-se que dois milhões de censores controlam a Internet e a atividade dos usuários.

*Informações do El País, Portal IMPRENSA e ABI (Associação Brasileira da Imprensa).