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Ilustração brasileira exibe Ruy distante dos militares

*Por Luís Guilherme Pontes Tavares

Quando conclui a leitura das 176 páginas da revista carioca Ilustração Brasileira (ano LX, n. 175, novembro de 1949), comemorativa do 1º centenário do jornalista, jurista, político, abolicionista e republicano Ruy Barbosa (1849-1923), restou-me a suspeita de que o homenageado se distanciou dos militares desde o final do século XIX – primeiros anos da República proclamada em 1889 –, a ponto de rejeitar títulos e objetos afins com as Forças Armadas.

Retomarei essa suspeita mais adiante.

 A Ilustração Brasileira de novembro de 1949 foi dirigida pelo escritor Pedro Calmon (1902-1985) e reúne textos sobre Ruy Barbosa assinados por autores nacionais (de vários estados brasileiros) e estrangeiros. O periódico de formato 35,5 x 27 cm, ilustrado – como seu título o apresenta –, foi impresso em p&b, exceto a capa – retrato de Ruy pintado pelo artista plástico fluminense Luiz Goulart (1920-2002. A revista, propriedade de SA O Malho, foi fundada em 1909 e circulou em três períodos distintos: 1909-1915; 1920-1930; 1935-1958, conforme a Wilkipédia (consulta em 08 de junho de 2021).

Escritores convidados

A edição comemorativa do primeiro centenário do nascimento de Ruy Barbosa, dirigida pelo escritor Pedro Calmon, contou com textos, pela ordem das páginas, do baiano Clemente Mariani (1900-1981), então ministro da Educação e Saúde Pública; do carioca Américo Jacobino Lacombe (1909-1993), então diretor da Casa Ruy Barbosa; do citado baiano Pedro Calmon; do pernambucano Celso Vieira (1878-1954); do cearense Gustavo Barroso (1888-1959); do pernambucano Carneiro Leão (1887-1966); do fluminense Carlos Maul (1889-1974); do também fluminense Levi Carneiro (1882-1971); do baiano Nestor Duarte (1902-1970); do alemão Ernest Feder (1881-1964), a quem nos referiremos mais adiante.

Prosseguindo a lista de autores, acrescento: Fernando Nery, autor de biografia de Ruy; o paraense Osvaldo Orico (1900-1981), o maranhense Coelho Neto (1864-1934); o baiano Afrânio Peixoto (1876-1947), o catarinense Alexandre Konder (1904-1953), de cujo texto destacaremos, mais adiante, algumas informações afins com o título deste artigo;  o carioca Armando Ferreira Peixoto (1908-?), que integrou a equipe jornalística da United Press; o fluminense Elmano Cardim (1891-1979); De Mattos Pinto; o paranaense Manoel de Lacerda Pinto (1893-1974); o também paranaense Tasso da Silveira (1895-1968); o carioca Edmundo de Macedo Soares e Silva (1901-1989); o português Fléxa Ribeiro (1884-1971); o fluminense José Magalhães; Bertho Condé (1895-1966); Murilo Ribeiro Lopes; o baiano Carneiro Ribeiro (1839-1920); Henrique Gonzalez.

A relação acima acrescenta aos nomes dos autores listados no sumário da Ilustração Brasileira de novembro de 1949 o gentílico e os anos de nascimento e falecimento de cada um. Essas informações foram levantadas em sites da web (CPDOC, ABL, FCRB, Itaú Cultural e outros). Alguns nomes não foram contemplados porque a pesquisa a respeito não alcançou o êxito pretendido. Além dos artigos, a revista estampa anúncios e quase 10 páginas (da 57 a 64) de textos do próprio homenageado; uma seção denominada “Antologia de Rui”.

Feder, Peixoto e Konder

Os três autores destacados na listagem acima me ensinaram novas lições. O escritor Ernest Feder, nascido em Berlim, salientou o pioneirismo de Ruy Barbosa como “O primeiro defensor de Dreyfus”. O oficial francês Alfred Dreyfus, de origem judaica, foi vítima do antissemitismo, e sua expulsão do Exército provocou reações tais como o famoso manifesto Eu Acuso (J’Accuse), do escritor francês Emile Zola (1840-1902).

Por sua vez, o jornalista Armando Ferreira Peixoto me apresentou o também jornalista inglês William Thomas Stead (1849-1912), pacifista, espírita, apontado como um dos precursores do jornalismo investigativo, que foi solidário a Ruy Barbosa na Conferência de Paz, em Haia (Holanda), em 1907. Fez-me lembrar do jornalista norte-americano John Reed (1887-1920). A paixão por causas humanitárias os moveu e os distinguiu como personalidades admiráveis do jornalismo e da humanidade.

Por fim, dedico mais linhas ao escritor Alexandre Konder, que contribuiu com o número 175 da Ilustração Brasileira com a reportagem “A casa de Ruy Barbosa vista por um jornalista”. A matéria dele, com muitas fotografias, ocupa as páginas 40 a 47 e se completa, no final da revista, na página 160. Não me cabe o detalhamento das situações de que tratarei em seguida, mas Konder informa que estavam expostos na propriedade em que Ruy morara na rua São Clemente, em Botafogo, sua espada de general do Exército brasileiro e o veículo Benz que Guilherme II, kaiser da Alemanha, presenteara o marechal Hermes da Fonseca (1855-1923). Esses dois objetos constrangiam Ruy Barbosa.

Ruy Barbosa apoiara o fim da monarquia e assumira, após a Proclamação da República, a tarefa de redigir a nova constituição. Era, pois, interlocutor regular do presidente que inaugurara a República brasileira. A espada destinada a Ruy acompanhou o gesto do presidente, o marechal alagoano Deodoro da Fonseca (1827-1892), quando distinguiu alguns republicanos de primeira hora, entre os quais Ruy Barbosa, com o título de general de brigada honorário. Com o fim do gabinete de Deodoro, houve reação; Ruy, que era ministro da Fazenda, foi afastado e a ascensão do brigadeiro alagoano Floriano Peixoto (1839-1895) à presidência colocou o ilustre baiano no beco da morte. Ruy foi para o exílio (e esse episódio reforçou ainda mais os compromisso dele com o Brasil) e viveu, com a família, na Argentina, Portugal e Inglaterra. Só retornou ao seu país em 1895. Durante sua ausência, o Floriano Peixoto cassou (decreto publicado no DO de 25 de novembro de 1893) o título de general de brigada honorário com que o marechal Deodoro o distinguira.

A propósito desse episódio, o jornalista Konder, na nota 7 ao fim da reportagem, informa:

“Prudente de Moraes, em 1898, revogou o ato de Floriano que cassara a Rui as honras de general. Em carta dirigida ao Presidente da República, este, porém, declinou da gentileza, afirmando que o gesto do Marechal o livrara de um constrangimento muito incômodo, de uma distinção incompatível com a índole de sua vida…” (p. 160) Konder informa, na reportagem, que Ruy Barbosa dizia que a sua era “a espada mais virgem do Brasil” (p. 46).

Tampouco ele apreciava o veículo que o kaiser alemão presenteou o presidente Hermes da Fonseca. O veículo fora deixado na alfândega pelo presidente e, anos depois, o amigo Joaquim Pereira Teixeira (?), adquire o veículo e o presenteia a Ruy Barbosa, que rebate a oferta. Todavia, dona Maria Augusta, esposa de Ruy, aceita o presente e o incorpora ao patrimônio da família. Segundo o jornalista Alexandre Konder, Ruy jamais utilizou o veículo que chegara ao Brasil como presente para quem o ameaçara e à sua família de morte.

Encerro com alguns registros da Ilustração Brasileira sobre o hábito do baiano Ruy Barbosa de banhar-se de madrugada com água fria.  Da sua visita ao imóvel da São Clemente, Konder destaca a pérgula existente no jardim da propriedade, que funcionava como banheiro. Ele conta:

(…) “no parque pode-se ver o banheiro externo em que o inolvidável brasileiro tomava diariamente o seu banho frio do chuveiro, fizesse bom ou mau tempo.

“Rui, como é sabido, foi um dos maiores madrugadores do país. Jamais o sol o apanhou no leito, e tinha por hábito correr descalço sobre a relva do seu jardim, após o banho, a fim de trazer sempre em forma o seu físico franzino. E é bem possível que não tivesse chegado à idade a que chegou não fosse essa disciplina verdadeiramente espartana, que desde a mocidade traçou para a sua maneira de viver e da qual nunca se afastou.” (p. 44)

Na página 50 da revista, sob o título “Recordações da infância e da mocidade”, há compilado de trechos da “Oração aos Moços”, de 1919, que Ruy leria na cerimônia do ano seguinte em que seria paraninfo da turma de formandos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Neles, o autor rebate as hipóteses de que o consumo regular de café e a imersão dos pés em água fria ao despertar seriam hábitos que cultivava. Não, não eram esses os seus hábitos para animar-se para as lides do dia. De modo que rebate com este esclarecimento lapidar:

– Nem uma só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.

Vamos aprender com Ruy Barbosa!

*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da
ABI. [email protected]

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