ABI BAHIANA

Entrevista: novo livro de memórias de Emiliano José está chegando

Histórias na ditadura de 18 jornalistas baianos sob a mira de um infiltrado saem do Facebook para as páginas de ‘Os comunistas estão chegando’

Com o seu novo livro ‘Os comunistas estão chegando’, que será lançado no próximo sábado (11), o jornalista Emiliano José dá sequência à publicação de sua série #MemóriasJornalismoEmiliano, que tem origem em sua página no Facebook desde 2019. Diferente do primeiro livro da série, ‘Balança mas não cai’, Emiliano não narra a sua própria trajetória, mas olha ao redor, tornando protagonistas 18 colegas de profissão que, como ele, enfrentaram o período da ditadura atuando em redações e estiveram sob a mira de um jornalista infiltrado, pago pelo regime, para entregar os “comunistas”. 

Nessa entrevista, o escritor, que ocupou este ano a cadeira de número 1 da Academia de Letras da Bahia, conecta passado e presente, refletindo sobre como a memória do jornalismo pode nos ajudar a entender o cenário político. Emiliano estima que, enquanto o primeiro livro da série foca no período de 1974 para 1975, este último abrange histórias do período de 1976 até próximo do início dos anos 1980 – embora cada personagem tenha sua própria trajetória. 

Esse é o segundo e-book e o 17º título da carreira de Emiliano. O prefácio de ‘Os Comunistas estão chegando’ é do jornalista Ernesto Marques, presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI-BA). A live de lançamento será às 19 horas do sábado (11) no canal do Youtube de Franciel Cruz.  

A capa, com destaque para a foto histórica do repórter fotográfico Manoel Porto, de uma entrevista coletiva com Luiz Carlos Prestes à imprensa baiana e com Emiliano e seu imenso gravador em primeiro plano, tem projeto gráfico do também escritor Gabriel Galo. São protagonistas do livro Aécio Pamponet, Alex Ferraz, Césio Oliveira,  Fred Matos, Gustavo Falcón,  HAF – Hamilton Almeida Filho,  Jadson Oliveira,  Joca – João Carlos Teixeira Gomes,  José Carlos Menezes,  José de Jesus Barreto,  José Sérgio Gabrieli,  Luiz Manfredini,  Marcos Palacios,  Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira,  Oldack de Miranda,  Othon Jambeiro,  Quintino de Carvalho e  Sóstrates Gentil (em nome do pai, também Ludmilla Duarte). 

 


O título “Os comunistas estão chegando” é uma provocação que, de certo modo, não está datada. Ainda hoje jornalistas comprometidos com a profissão são taxados pejorativamente dessa forma. Como você pensa que essas memórias do livro podem aquecer o debate sociopolítico de hoje, deste Brasil de 2021, quase 2022?

Eu creio que a revisitação do passado é, de alguma forma, garantir que não se percam as conquistas daquele momento, que não se esqueçam os fatos históricos. A ditadura foi um momento trágico do país que matou tanta gente, prendeu, sequestrou, desapareceu com tanta gente e, ao mesmo tempo, temos que lembrar que ela nos revisita permanentemente. O atual presidente não é nem dissimulado, é um admirador confesso da ditadura, foi eleito com essa condição, falando sempre a favor da ditadura. Ao lembrar o episódio de um espião, o livro trata disso, um jornalista que era ao mesmo tempo agente policial infiltrado no meio dos jornalistas, concordava com a ditadura e era assalariado por ela, ele queria mapear os profissionais que ele acreditava ser comunista. O cara achava que qualquer um que estivesse ali na profissão, a maioria, era de esquerda. É uma maneira de eu evidenciar o que era o período, que para trabalhar você tinha que viver sob os olhos vigilantes da ditadura. Então é muito importante, no momento em que, volta e meia, o atual presidente e seus sequazes falam em comunismo, lembrar que vem desde lá, desde muito tempo. E que comunista nós podemos falar hoje? Que movimento comunista existe no Brasil? É uma brincadeira… o pensamento de esquerda é absolutamente presente e sempre será. Mas falar nesse fantasma do comunismo me lembra Marx abrindo o Manifesto Comunista, o espectro da Europa, o espectro do comunismo. É como é o Brasil de hoje e isso foi há muito tempo. Mas o livro é isso e é muito mais porque são muitos protagonistas que foram companheiros e companheiras do maior valor que deram uma contribuição inestimável ao jornalismo baiano e que travaram lutas, lutas estas como jornalistas.

Você menciona esse histórico de lutas. Como  vê o cenário do jornalismo baiano hoje, à luz desse histórico tão combativo narrado no livro?

Eu creio que estamos em um período de mudanças profundas, eu digo do ponto de vista, inclusive, estrutural do jornalismo. Naquele tempo eu vivi um cenário de grandes redações. Hoje você não tem mais isso, ou só tem limitadamente. O jornalismo impresso propriamente vive, não sei se digo um fim, mas uma decadência óbvia por conta da emergência das redes sociais e do jornalismo online. Muitos blogs e sites e outros tipos de comunicação que nós estamos vivendo. Os jornalistas continuam desempenhando papel essencial, na eterna busca da verdade, que é uma busca sempre. Dizer que o jornalismo é a verdade é uma ilusão, é uma busca permanente que todo jornalista sério deve fazer e que ela continua a existir. É claro que há jornalistas sérios e há outros que prestam serviços menos dignos, eu diria. Mas a maioria da profissão continua nessa luta pela busca da verdade, que é o exercício cotidiano do jornalismo. 

Foto: Juarez Matias/ABI

Você citou as mudanças nas redes sociais no jornalismo, que afeta muitas outras áreas, mesmo a literatura. Seu livro, um e-book, parece inovador justamente por uma escrita compartilhada, com comentários do Facebook tendo espaço na edição. Como se deu isso e como a experiência de leitura vai ser renovada para quem já acompanha a série de personalidades que você mantém no Facebook?

A leitura em ebook não é uma coisa tão simples para alguns, para a minha geração não é tão simples, as pessoas estão acostumadas com o contato físico com um livro. Eu pretendo que a série seja simultaneamente e-book e impresso. Do ponto de vista dessa série, ao fazê-la, e eu fiz pelo Facebook primeiro, eu fui mesmo quase que fazendo uma escrita comum, porque as pessoas entravam e comentavam e, às vezes, me diziam ‘não é bem isso’, e fica lá o comentário. Isso, na minha visão, foi uma riqueza muito grande e dá um dinamismo novo à escrita. É um pouco do que eu chamo do território do comum. Positivamente eu encaro isso.

Acredito que tenha, inclusive, lhe despertado outras memórias com o que as pessoas traziam nos comentários… 

Inegavelmente. É esse que é o lado positivo, já que você não domina, você pesquisa, não são só minhas memórias, é conversa, as pessoas me mandam copiões e tudo e eu vou arrumando. O livro é um trabalho de pesquisa, embora a minha memória também entre. 

SERVIÇO
Live de lançamento do livro ‘Os comunistas estão chegando’
Quando: 11 de dezembro, às 19 horas
Onde: Canal do Youtube do jornalista Franciel Cruz
Livro já disponível para compra. 

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