ABI BAHIANA

Entrevista: Levantando o véu do sertão desconhecido

Paulo Oliveira se tornou um contador de histórias. Encantando com os casos que encontrou enquanto andava pelo semiárido, ele conta um atrás do outro durante nossa conversa. Trabalhou como jornalista nas redações da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, Veja, Jornal do Brasil, O Dia e o A Tarde, ajudou a fundar os jornais Massa!, na Bahia, e o Hoje, no Ceará. Mas é à frente do Meus Sertões que se diz verdadeiramente feliz.

O projeto nasce da vontade de Paulo de descobrir “o verdadeiro semiárido”, segundo ele, bem diferente das histórias que se vê geralmente na mídia tradicional. No Meus Sertões a região aparece deslumbrante e rica de histórias e iniciativas populares, de festas e tradições. Com o tempo, o portal agregou parceiros e colaboradores, pôde ampliar sua cobertura e se orgulha de ter reportagens ambientadas em quase todos os dez estados que constituem o semiárido brasileiro.

Para o jornalista, não basta apenas ser um contador de histórias, ele se torna artesão também, como aqueles que entrevista por aí nos povoados mais distantes. Paulo se orgulha das experimentações com a linguagem jornalística e da crônica que faz no portal. No Meus Sertões, as pautas podem se transformar em e-books, em vídeos e agora em podcast. É que, no final de setembro, o portal irá marcar seus cinco anos de existência com o lançamento de uma nova plataforma, a “Rádio Carcará”. A primeira temporada – dedicada às rezas – já teve sua pré-estreia com o audiodocumentário “Chão provisório”, de Abel Serafim, sobre as disputas de terra envolvendo a ocupação Resistência da Cabrita, em Sergipe. Você pode ouvir essa história aqui.

Qual o próximo horizonte do projeto? Quem sabe. Ele nos explica que o projeto avança conforme as possibilidades de sua equipe, bastante enxuta (são pelo menos quatro colaboradores fixos, fora o trabalho de Paulo). Sem os prazos do jornalismo tradicional, o Meus Sertões é também fruto da paciência que o sertão ensina a ter. 

Aos cinco anos de Meus Sertões, quais são as principais conquistas do projeto?

Eu costumo responder que a principal conquista é a felicidade que eu tenho em fazê-lo. Trabalhei 40 anos em jornais, redações e seis anos dando aulas em universidades, e eu nunca fiquei tão feliz. É um mergulho num Brasil que a gente desconhece. Morei na Bahia por 10 anos e só tive oportunidade de conhecer mais a fundo o sertão quando eu saí do A Tarde. Para mim, a primeira conquista é essa felicidade, poder trabalhar com liberdade. No ano passado a gente se inscreveu em dois prêmios, um no Ceará, chamado Prêmio Gandhi de Comunicação; o outro foi o Prêmio de Incentivo ao Empreendedorismo da RD Station, no qual ficamos entre os três melhores, com jurados do Estadão e outros lugares.

https://www.meussertoes.com.br/

Quem participa do projeto?

A gente trabalha com uma equipe muito enxuta: eu, alguns colaboradores eventuais, a Helenita [de Hollanda, médica e pesquisadora popular] que é uma colaboradora fixa, tem uma pessoa que cuida do site. Começamos com duas editorias, “Meus Sertões” e “Outros Sertões”. Depois, criamos a “Arredores”. Além disso, a gente esse ano também colocou um espaço para e-books de jornalismo. Tem um lá feito por mim sobre a história de Seu Zé (leia aqui), um agricultor de 93 anos que ainda trabalha no campo, foi braço direito do Padrinho Pedro Batista, que desenvolveu Santa Brígida; “o conselheiro que deu certo”, como costuma falar na cidade.

Como foi a produção em um ano marcado pela pandemia de Covid-19?

Pelo segundo ano, fizemos o projeto “Meus Sertões Universidade”, onde nós coorientamos TCCs. Esse ano nós orientamos o Abel Serafim, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e ele fez esse trabalho, “Chão provisório”. Publicou no dia 24 e já foi distribuído pelo pessoal do Movimento dos Sem Terra, de várias áreas de apoio a grupos sociais, de gente que sofre ação de grileiros. Estamos preparando a série [primeira temporada do podcast “Rádio Carcará”] que vai ser lançada no final de setembro e será sobre rezadeiras. Vamos discutir o que é cura, falamos com psicólogo, médico, já levantamentos experiências que misturam reza e medicina no Brasil, no semiárido. Vai ser um trabalho bem bacana. A previsão é para o final de setembro, que é quando completamos cinco anos exatamente.

O que podemos esperar da primeira temporada do podcast Rádio Carcará? 

A Helenita é uma médica que trabalhava em um posto de hospital e em consultórios de Salvador. Num determinado momento, ela foi atender no interior e os pacientes eram rezadores, contavam histórias e lendas. E ela foi juntando aquilo tudo. Essa questão da reza sempre deu uma boa audiência [para o site]. Tinha alguns rezadores como o Pedro Santinho, que era santo no nome e para a população de onde vivia, curava bichos a distância. Essa matéria (aqui) deu uma audiência muito grande. Eu perguntei a Helenita o que ela achava de falar sobre reza e rezadores e discutir de onde vêm esses poderes. Ela, com o marido Biaggio [Talento, jornalista] e eu fomos entrevistando algumas pessoas. Dividimos em cinco capítulos, cada um com um tema.

Não estamos presos à Bahia, vamos pegar outros atores também e experiências de medicina de outros estados. No caso da experiência que juntou a medicina oficial com as rezadeiras, falamos com o prefeito da época e ele não lembrava mais. Tive que ir atrás, isso tudo por telefone e pela internet. Descobri a pessoa que trouxe o projeto para o Brasil, uma americana. Liguei para a universidade onde ela dava aula, mas ninguém sabia mais onde ela estava. Então, fui atrás das enfermeiras do posto de saúde, comprei livros sobre essa experiência. Estou cheio de material, agora só falta editar. A gente vai fazer o podcast com vários recursos. Será nossa primeira experiência, vamos acertar e vamos errar.  

Como pretende fazer o seu produto alcançar a população retratada?

O site é independente e experimental. Se eu colocar no Spotify, tenho que fazer uma propaganda gigantesca para as pessoas irem até lá. A coisa mais fácil de fazer, que dá muito certo no nordeste, é um podcast de entrevista, gravar e colocar no YouTube. A princípio, quero testar. Eu não estou preocupado com grandes audiências, mas com a qualidade. Tenho tido muito retorno de pessoas que estudam determinado assunto e só encontram no Meu Sertões. Eu não posso achar que meu veículo concentra todas as pessoas que serão atingidas, porque, na verdade, tem que ter capilaridade. E essa capilaridade, agora no quinto ano, eu tenho, de pessoas, de amigos de gente de comunidade. Quando a gente fez esse podcast do Abel, ele foi lá na ocupação ver se o pessoal tinha algo contra. A reação das pessoas, segundo ele, foi chorar, porque se sentiram emocionadas, valorizadas. Porque puderam dar um espaço grande a eles.  

De que forma um projeto tão abrangente é viabilizado financeiramente?

Agora, no quinto ano, a gente conseguiu terminar de montar o site. O projeto foi andando de acordo com nossos braços. A lojinha é uma das possibilidades. Quando você entra [no site], tem uma aba com os parceiros, que são portais para quem a gente já fez frila. Tem uma empresa, por exemplo, que contratou o Meus Sertões para fazer reportagens para o blog dela. O objetivo do site é ter patrocínios, mas a gente não quer ser igual. Tudo que entra dinheiro há uma influência de quem coloca. Decidimos que não iríamos aceitar verba pública. Podemos participar de um edital, mas dinheiro de prefeitura, do estado, a gente não aceita.

Como um jornalista experiente, o que te motivou a parar o trabalho com o jornalismo tradicional e seguir para o independente?

Eu trabalhei num jornal que tinha uma censura permanente. Qualquer pessoa que não faça parte do status quo vai ter dificuldade de fazer jornalismo de qualidade, independente, porque precisa de recursos. Temos um universo fabuloso no sertão que é desconhecido. A maior parte das pessoas, inclusive que trabalharam comigo na redação, desconhecem isso. Moravam nas cidades e desconhecem as histórias que eu conto. A gente fala que são baianos de Salvador, que só conhecem Salvador e nem ela toda. Esse projeto é algo que não existe outro igual. Cada cidade pode ter uma iniciativa, mas assim, levantar o véu que esconde as principais histórias fabulosas dessas cidades, não o fazem. Aí entra o Meus Sertões, que tem esse objetivo.

Paulo Oliveira defende a valorização do semiárido e suas riquezas | Xilogravura: Pita Paiva

Quando se fala em seca, durante uns dois anos eu lia que morria um milhão de bois. Quando eu saí do jornal, eu fui para Canudos, tinha chovido muito no estado todo, a caatinga tava verde, os reservatórios estavam cheios de água. Eu vendo aquilo tudo, pensei: ‘como um cara do sudeste, fui enganado a vida toda porque não se diz que tem esse período de beleza, de fartura no sertão’. Eles só botam a miséria, inclusive nos jornais do estado.

Qual a sua avaliação da cobertura tradicional da mídia sobre a cultura popular nordestina?

Quando você olha para Salvador e para o carnaval, já tem várias discussões sobre quem é contratado. Se nem em Salvador tem uma coisa equânime, imagina no interior do estado. No interior, temos um festival de reisado em Boa Nova que é bancado por uma família. Tem anos que o governo do Estado ajuda, tem anos que não. E é um espetáculo fabuloso, que você vê reisado quilombola, reisado de várias cidades do entorno se apresentando durante dois dias. Uma proclamação fantástica. Quem sabe que isso existe?

A Lei Aldir Blanc ajudou a trazer várias iniciativas muito bacanas. Mas se a pessoa não fizer a propaganda disso, quem sabe que são produzidos? Qual a promoção que o estado ou os municípios fizeram para divulgar aquele trabalho? Eles deram o dinheiro, colocaram uma data para entrega e pronto. A cultura é riquíssima, tem coisas que eu acho fantásticas, tem as danças do santo das prostitutas, São Gonçalo. As danças no interior são fabulosas. 

O problema é a pouca divulgação ou essas artes são divulgadas de maneira preconceituosa? 

Eu acho que os governos não dão valor à cultura, a não ser dos artistas do entorno. Em Queimadas (BA), tem a história do Lampião que invadiu a cidade, prendeu a elite e mandou os cabras dele irem à delegacia. Alguns policiais enfrentaram eles e foram mortos, outros se acovardaram e pediram clemência. Eu sei que os tiros que foram dados furaram a delegacia toda. O que um dos prefeitos fez? Achou os buracos feios e mandou tapar. Ou seja, a gente tem pessoas no poder sem noção do que é história, do que é um ponto turístico.

Xilogravura do artista Pita Paiva | Fonte: Meus Sertões

Quando o assunto é cultura, o que mais se vê é o apagamento da memória, o investimento na desmemória. Você vai para perto de Cordeiros (BA), tem uma comunidade que vive do barro. Naquela comunidade, há mais de 100 anos, os mais velhos faziam uma boneca chamada ‘boneca de candeia’, que era usada para acender a lamparina. Com a eletricidade, isso se perde, e também porque dentro da própria comunidade não se dava valor. Só dois rapazes jovens decidem continuar a fazer essa boneca, só que tem dificuldade para vender, e por isso, um deles decide ir trabalhar em São Paulo. O outro fica, mas já pensando em desistir. Essa boneca é uma relíquia, do tempo da escravidão, com mais de 200 anos de história. O resgate dela é algo importante. Agora vê se em algum lugar deu isso aí? O estado está preocupado com a briga política, não com a cultura do povo. Ele vai utilizar a cultura desde que dê votos. E essas histórias? Essa boneca tem história, tradição. Posso falar mil exemplos.

O que o Meus Sertões te permitiu ver de novo sobre o semiárido? 

Eu fui para Salvador a trabalho. A minha ideia era passar um ano, estou aqui até hoje. Eu permaneci esse tempo porque, dentro do jornal, embora eu tivesse problemas em relação à condução do jornalismo, eu tive a oportunidade de fazer vários cursos e tive um ganho muito grande de conhecimento. Aí quando eu saí, fui para Canudos e me dei conta de que estavam enganando os leitores do Brasil todo, inclusive do próprio estado. Isso tudo me causava angústia. O que me atraiu no sertão foi também a vontade de mitigar os efeitos dessa visão distorcida que havia, na verdade tem uma visão única e exclusiva que foi construída com o tempo. 

O jornalista critica a cobertura jornalística centrada nas mazelas da região | Xilogravura de Pita Paiva

Tem uma outra questão que as pessoas não se dão conta. Eu sou descendente de português. A primeira vez que fui a Portugal foi quando tive orgulho da minha ascendência, isso não significa que eu concorde com o que os colonizadores fizeram. Quando eu comecei a andar, mesmo no sertão, fui notando coisas. Como o bucho, que é uma comida portuguesa. Eu fiz uma pesquisa sobre uma oração chamada Padre Nosso Pequenino. A origem dessa prece é de Portugal, da idade média. Fiz uma matéria sobre isso, que até hoje é a mais lida do site. Eu comecei a me encontrar com minhas origens no lugar onde menos esperava, com um mundo que ainda é preservado. Ainda tem gente que faz almanaque, que faz cordel. Ainda tem a questão do aprendizado pessoal. Eu aprendi a ser mais paciente com a caatinga. Principalmente por conta do transporte, coisa que ninguém fala. 

Qual é o futuro do Meus Sertões? 

Nesses cinco anos, já temos um acervo com umas 10 mil fotos sobre o sertão, de vários lugares. São 500 matérias, 200 ou 300 vídeos. Se eu fosse parar hoje eu deixaria esse acervo disponibilizado ou cederia ele para alguém, porque o que eu tenho hoje já é um legado importante. A luta continua, mas já construímos um segmento que não existia. Tem sites especializados em cangaço, mas não um site que se propõe a falar sobre o semiárido. Já fizemos matérias sobre Piauí, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, a gente só não fez um ou dois estados, mesmo sendo um site pequeno. É porque vamos de acordo com nosso passo. 

“Hoje, eu posso dizer que faço jornalismo popular, artesanal e independente.” – Paulo Oliveira, jornalista.

Eu estou muito atarefado fazendo matérias do site, também porque nesse período de pandemia os colaboradores não mandam mais tanto conteúdo. A minha preocupação hoje é dar conta das postagens semanais e concluir o prazo que me dei para o podcast. Também não adianta ficar criando muitas coisas. Com o que eu tenho já vou fazendo um monte de experimentalismo, tenho várias linguagens para trabalhar. Tem uma matéria que se chama ‘Dona Beijinha’. Fui para Pernambuco fazer uma matéria sobre as pessoas que mudam a realidade do sertão. Beijinha é uma personagem desta matéria. Ela deixou a prostituição com quase 90 anos e hoje está internada num abrigo para idosos. Ela me contou sua história com coisas picantes, mas eu via tristeza no rosto dela. Os intertítulos do texto são versos que falam de prostitutas, de Drummond, de outros. Eu fui misturando poesia e arte.

Eu conheço a maior parte das regras, mas eu quero subvertê-las. Qual o motivo da minha grande alegria? No jornal, eu não podia subverter as regras, porque tem o manual de redação, o chefe, o diretor e eles que determinam como tem que ser as coisas. Quando você tem um veículo, pode fazer o que quiser, experimentar do jeito que quiser. Tem matéria que eu demoro dois meses para escrever porque quero dar um tratamento especial. Hoje, eu posso dizer que faço jornalismo popular, artesanal e independente. Eu não tenho prazo, eu elaboro, eu lapido. É essa coisa de poder trabalhar as palavras artesanalmente.

*Larissa Costa, estudante de Jornalismo, estagiária da ABI.
Edição: Joseanne Guedes

ABI BAHIANA Literatura

Entrevista: Ricardo Ishmael fala sobre sua estreia na criação literária

Entre dramas, violência e tragédia, histórias de amor, ódio e seca, o jornalista e apresentador Ricardo Ishmael, de 35 anos, estreia no universo literário com o livro “O curioso destino de Rita Quebra-Cama”, publicado pela Solisluna Editora. A obra rendeu o convite para Ishmael compor a mesa “Entre a ficção e a notícia”, na Flica 2017, e reúne sete contos de ficção com uma mistura de ingredientes encontrados em todas as narrativas ambientadas no sertão nordestino. Ele, porém, assumiu a difícil tarefa de fugir da visão caricata e mostrar um sertão plural, múltiplo, diverso. “No livro, encontramos essa vitrine de códigos do sertão: os coronéis, as beatas, as disputas pela terra, mas também tem outro sertão. Do sertanejo que fala, e não só aquele sobre quem se fala”, afirma o agora escritor Ricardo Ishmael. Natural de Serrinha, cidade do semiárido baiano, Ricardo é formado em Comunicação pela UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista, tendo passado pelo jornal impresso, revista e rádio, antes de se firmar na televisão. Há sete anos, apresenta o Jornal da Manhã, da TV Bahia, função que alia às de repórter e editor. Nesta entrevista, ele conta como surgiu o desejo de ultrapassar as pautas diárias e enveredar pela criação literária, desafiando as fronteiras entre a realidade e a fantasia. Confira!

ABI – Você já disse que, quando se é picado pelo “bichinho da literatura”, não se consegue parar mais. Em que momento se percebeu picado por ele?

Ricardo Ishmael – Muito cedo. Desde antes de ter a consciência que um dia gostaria de ser escritor. Eu sou de Serrinha e tinha os livros como passatempo, como diversão. A minha relação com esse universo começou cedo e sempre foi muito próxima. Quando eu percebi, já estava cercado de histórias, de vontades. Por volta dos 10 anos, eu já sabia que queria escrever, mesmo antes de querer ser jornalista.

ABI – O que aquele Ricardo lia?

As ilustrações da obra são assinadas por Juraci Dórea, renomado artista plástico de Feira de Santana (BA) – Foto: Reprodução

Comecei aos nove, com Jorge Amado. Ele me apresentou a literatura. Passei por Bernardo Guimarães, José Lins do Rego, com o seu “Ciclo da Cana-de-açúcar”, conheci os chamados sertanistas, até que eu chego a Guimarães Rosa e me apaixono perdidamente por esse universo, que agora eu também estou trazendo, através do meu livro.

ABI – Quando o jornalismo chegou?

Ele surgiu depois, como uma forma de me dar as ferramentas. Eu achava que, sendo um jornalista, eu aprenderia escrever, aprenderia a colocar minhas ideias no papel. O jornalismo foi um caminho. Claro que depois acabei me apaixonando pela atividade, sem nunca abandonar o tal bichinho que estava sempre comigo.

ABI – O que você aponta como a principal contribuição do jornalismo para a sua faceta de autor? O diferencial do jornalista ao lidar com a realidade e a ficção?

Primeiro, eu preciso destacar que o jornalismo me deu o contato com o outro. Estar em vários lugares, rodar pelo estado e conhecer as diversas realidades regionais. Eu viajei muito como repórter, fazendo matérias, e percebi claramente os tipos humanos que nós temos. Amadureci muito como pessoa, entendendo, nesse contexto, qual é o meu papel, a minha função, os caminhos por onde eu transito. Mas, acima de tudo, o amadurecimento do meu olhar sobre o outro. O segundo aspecto é exatamente a possibilidade de entender as diferenças do texto jornalístico para o texto literário. Quando eu compreendi o que era o texto jornalístico, que é diferente, objetivo e direto, eu entendi que a minha “pegada” [característica] poderia também ser o texto literário, que é outra vertente, a da subjetividade. O jornalismo me deu esse olhar sobre o meu ofício e sobre a escrita literária.

ABI – Alguns autores, como o homenageado da Flica 2017, Ruy Espinheira Filho, defendem a separação entre jornalismo e literatura. Em entrevista concedida à ABI, ele afirma não considerar o jornalismo literário como gênero jornalístico. Para você, jornalista que une a ficção e a notícia, quais são os limites possíveis para essas narrativas?

Eu concordo com o professor Ruy. Eu não entendo o jornalismo literário como um gênero do jornalismo. Eu entendo que jornalistas escrevem de forma literária, o que não torna esse tipo de escrita propriamente “jornalismo literário”. Acho necessário marcar essa diferenciação, porque o jornalismo tem características muito próprias, e a principal delas é a objetividade, um discurso direto, acessar as pessoas de forma neutra, imparcial, como se prega. O campo da literatura é o da subjetividade, da invenção, da criatividade, é de inverter e subverter o discurso, quebrar a lógica. O ficcionista não tem compromisso com a realidade, mas eu tenho que ter enquanto jornalista. Às vezes, isso se confunde na minha cabeça e eu fico boiando entre as fronteiras. Mas, eu entendo o que é o meu ofício enquanto jornalista e o que é o meu caminhar na literatura.

ABI – Em que momento essa objetividade jornalística se materializa nos contos que você acaba de lançar?

Muito interessante essa pergunta, porque em muitos momentos eu via o jornalista com texto literário. Eu tinha que parar e desligar a chavinha do jornalista, porque aquele era o momento do escritor. Percebia isso no texto, que não fluía como eu queria, com lirismo, com certa poesia que se espera desse texto mais ficcional. Eu estava sendo muito jornalista e não era isso o que eu queria. Reescrevi alguns trechos.

ABI – O livro é composto por histórias reais?

Ele é todo de ficção, mas os contos são livremente inspirados em personagens reais, com locais reais, outras roupagens, outros nomes.

Ricardo durante sessão de autógrafos da festa literária que movimentou Cachoeira, no início de outubro – Foto: Joseanne Guedes/ABI

ABI – Como é estrear na literatura participando e compondo a mesa de um evento da expressividade da Flica?

Minha ficha ainda não caiu. Estou sob o efeito da emoção de ter sido convidado como autor. É curioso que é a sétima edição da Flica e o livro tem sete contos. O número sete me percorre. Quando recebi o convite, eu não acreditei. Falei “mas eu sou um autor em início”. Eu não me senti com bagagem para estar aqui. Recebi com muito carinho e muita alegria. Vim agradecendo e celebrando estar em Cachoeira nesta festa tão importante. Em tempos tão sombrios em que a gente vive, de desmonte de cultura, estar num evento como este, seja na mesa ou na plateia, é um ato revolucionário.

ABI – Já podemos aguardar outras publicações?

Estou vivendo ainda a “Rita Quebra-Cama”, ela acabou de nascer e já tem me dado muitas alegrias. Mas, já penso em outras histórias. Quem sabe o meu próximo filho não seja um romance… Só posso adiantar que tem a ver com esta região.

Notícias

Sérgio Mattos abre série Socicom Entrevista

A SOCICOM (Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação) inaugura sua mais nova série de e-books, a fim de promover uma discussão mais ampla sobre o papel das comunicações, bem como sobre a necessidade de políticas públicas, democráticas e inclusivas para o setor. A cada edição, a “Socicom Entrevista” vai trazer uma conversa com renomada personalidade do cenário acadêmico, político e da sociedade civil no País, que poderá ser acessada gratuitamente no site da entidade.

A edição inaugural traz a contribuição de Sérgio Mattos, que foi entrevistado pelos pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe Paulo Victor de Melo e Cesar Bolaño. Mattos é jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Mestre e Doutor em Comunicação pela Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). É autor de 47 livros e de dezenas de artigos e de capítulos de livros.

Confira a íntegra da entrevista aqui.