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Entrevista: Marcelo Argôlo lança ‘Pop Negro’, podcast voltado à música preta na Bahia

O jornalista e pesquisador musical Marcelo Argôlo está tocando vários projetos no momento, mas todos têm uma coisa em comum: a música. Nesta entrevista à ABI, ele conta como sua paixão pela música orientou seu trabalho com a comunicação, reflete sobre a cena da música e lança críticas à cobertura jornalística da área cultural. Para o jornalista, não basta apenas escrever sobre o tema, é preciso saber se aprofundar. Com esse objetivo ele lançou o podcast “Pop Negro”, programa de entrevistas voltado à discussão da música preta na Bahia, produzido com o apoio da rede de projetos “Salvador Meu Amor”. O primeiro episódio, disponível nas plataformas de streaming (Ouça no Spotify), foi ao ar na última quinta (3) e recebeu o artista e produtor musical Mahal Pita. 

O podcast é um desdobramento de sua atuação como pesquisador e da ampla experiência nas editorias de Cultura dos principais veículos baianos. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), seu estudo busca compreender a produção musical de artistas negros baianos que, através de sua música, estão engajados na luta antirracista. Parte da pesquisa tornou-se livro (Acesse o PDF aqui) e agora o podcast busca tocar nessas temáticas, trazendo a visão dos artistas sobre a própria produção musical. 

Em sua atuação como jornalista, Marcelo desenvolveu a própria visão sobre qual o espaço da crítica musical hoje. “Eu quero ler sobre, ouvir o artista falando sobre o trabalho dele e refletir. Isso para o artista também é um lugar importante, que naquele tempo você possa sair um pouco das respostas padrões”, afirma. 

Marcelo Argôlo trabalha como colunista de música no portal IBahia e no site Mix Me. Sua carreira começou no Jornal A Tarde, onde passou pelo Caderno 2+, da editoria de Cultura e também pela revista Muito. O jornalista parte para a área de rádio através da Educadora FM, onde trabalhou na produção musical do programa Especial das Seis. Colaborou também com publicações como a Revista Continente e com o site S.O.M. – Sistema Operacional da Música, projeto da Mídia NINJA. O trabalho com a música se amplia através de sua atuação como assessor de imprensa do NEOJIBA e como jornalista na Agência LK, onde trabalhou com clientes como a Prefeitura de Cairu, o projeto Acústicos no MAM e a produtora Oquei Entretenimento.

Confira!

Em que momento de sua atuação como pesquisador e como jornalista você passa a se debruçar mais sobre a música?

Na verdade, foi o contrário. Meu interesse pela música me levou para o jornalismo. Eu fui um adolescente que esteve em bandas de colégio, que tinha um envolvimento muito grande com a música, mas não me via como um músico. Ainda na adolescência fui descobrindo a área do “jornalismo musical”, de Ruy Castro, Ana Maria Bahiana, alguns jornalistas que são referências nesse movimento da crítica musical. Foi aí que eu me atinei que o jornalismo poderia ser uma possibilidade de trabalhar na música sem ser músico. Desde o início, eu tinha esse foco de trabalhar com o jornalismo musical. Ainda na faculdade eu estagiei no Caderno 2 do Jornal A Tarde, depois estagiei na produção musical da [Rádio] Educadora FM. Quando eu me formei, trabalhei na assessoria de comunicação do Neojiba e trabalhei depois na Agência LK, também com assessoria de imprensa, mas com foco em projetos e clientes da área da música. Em paralelo a esses trabalhos, eu fazia trabalhos de comunicação de um modo mais amplo com artistas e bandas daqui da cidade. Trabalhei com a banda Pirombeira, a gente fez uma campanha de financiamento coletivo para o primeiro disco da banda, que inclusive teve uma indicação ao Grammy Latino pelo projeto gráfico. Em 2019, voltei minha atenção para esse lado de pesquisador, mas um pesquisador que não se desvincula muito da atuação como jornalista. Optei por um trabalho de campo, de entrevista, de análise cultural também. Tem muito do meu repertório como jornalista, desses contatos que eu fui criando nos anos de atuação como jornalista. Esse trabalho de pesquisa resultou no meu livro que é o “Pop Negro SSA – Cenas Musicais, Cultura Pop e Negritude”. Ali tem meu lado mais pesquisador, mas também desenvolvendo um texto que não tenha aquela dureza do texto acadêmico. Agora, estou com esse podcast que é uma continuação do trabalho de pesquisa.

Quando você fala em Pop Negro, quais nuances esse estilo ganha quando interpretado por artistas negros baianos?

A construção do pop não é regional. O pop é uma música que soa universal. Quando você está buscando construir uma linguagem pop, é impossível você se desvencilhar da música do seu local, por mais que você tente soar americano. Um bom exemplo é a Anitta. Ela é uma artista pop que tem uma carreira muito consolidada e que, desde o ano passado, vem construindo esse espaço nos Estados Unidos; a diferença de linguagem é que ela parte do funk carioca. Pensando nos artistas de Salvador, o que eles têm de peculiar é sempre trabalhar a partir dos ritmos daqui. Então eles partem do Ijexá, partem do samba reggae, do samba afro, dessas musicalidades que são construídas e geram identificação e identidade para a Bahia, mas fazendo isso numa linguagem pop. É buscar construir um som que, mesmo que esteja tocando um ritmo regional, baiano, soe de um jeito amigável e conhecido para ouvidos do mundo inteiro. Quando você ouve aqueles sons que caracterizam essas bandas, como a cantora Larissa Luz, eles são construídos em computadores nos mesmos softwares, nos mesmos equipamentos que a equipe de Lady Gaga, de Rihanna. O grave do BaianaSystem é o mesmo grave de Beyoncé.

Não há aí o perigo de uma homogeneização?

É um lugar de tensionamento mesmo, não é uma via de mão única. Tem um episódio clássico da música brasileira nos anos 60 que é a marcha contra a guitarra elétrica, liderada por Elis Regina, para que a guitarra elétrica não fizesse parte da música brasileira. O que vemos com quase sessenta anos desse episódio, é que houve um momento de reprodução da música que vinha junto com a guitarra elétrica, mas houve também o surgimento de outros movimentos, estritamente brasileiros, como a guitarrada do Pará. Essa tentativa de buscar o purismo não se comprova quando olhamos historicamente. Nós temos um instrumento muito característico da música do Recôncavo baiano que é a viola machete,  um instrumento português que chega no Brasil Colônia e é apropriado pelos negros escravizados nas suas formas de expressão artística. Esse movimento de incorporar o que se chega de fora em algo brasileiro é bastante presente. Estava presente na semana de 22 e foi uma marca do Tropicalismo. Esse medo da homogeneização, que uma cultura de fora chegue e substitua a cultura local, é mais uma tentativa de congelar a tradição num determinado momento. Mas, antes mesmo desse momento, ela já sofreu várias interferências, incorporações.

Quais são as rupturas provocadas por esses artistas que mais te chamam a atenção?

Não são rupturas no sentido de abandonar o que foi feito e passar a fazer algo diferente, mas de transformar, de atualizar o que vem sendo feito. A principal referência dessa cena que eu estudo, que eu tenho chamado de cena de música pop baiana, são os blocos afro, também do ponto de vista do conteúdo, de trazer as temáticas e as pautas antirracistas para dentro da música e na musicalidade. Nos blocos afro que vão buscar esses toques, do samba reggae, o samba afro, são toques do Muzenza e que vêm dos terreiros de Candomblé. Se a gente for puxando para trás, a principal matriz é o terreiro, que tem mantido essa musicalidade afro diaspórica brasileira viva. O que eu percebo é que tem acréscimo e não exatamente rupturas, pensando na sonoridade, na musicalidade, tem essa questão da transposição da música, e pensando do lado do conteúdo se consegue perceber um lugar da mulher negra se colocando de modo mais específico. Identificando que há uma uma tendência do movimento negro em tratar o homem negro como referência e pensar que tem questões que são da mulher negra. É esse trabalho que Larissa Luz faz, que  Josyara faz, Luedji Luna faz, que se percebe de forma muito superficial no movimento dos blocos afros e que aparece com mais centralidade nessa cena que eu observo. 

Em sua pesquisa, você traça uma tríade entre as práticas musicais, o ativismo negro e a cidade. O que surge como efeito desses fatores? Como fica o artista nessa relação?

O resultado disso é o artista. O BaianaSystem não seria a mesma banda que é, se não estivesse em Salvador. É justamente essa vivência na cidade, tanto do seu ponto de vista cultural e simbólico, quanto do ponto de vista geográfico e cívico, que me interessa. É perceber que se os músicos baianos não crescessem ouvindo guitarra baiana, reggae, Olodum, não seriam o que são. Não consigo separar o objeto da análise; não é dizer “isso é da música, isso é da negritude, isso é da cidade”, porque é indissociável esse imbricamento  desses três fatores. Por que o BaianaSystem resolve fazer pagodão, trabalhar com o arrastado, misturar arrastado com música eletrônica, misturar reggae com música eletrônica? Ele está sempre partindo dessa musicalidade que de alguma forma é uma das possibilidades de construção da identidade da cidade. Tanto que uma das grandes influências da banda é a Nação Zumbi, de Pernambuco, mas musicalmente eles são muito distintos.

Pela sua atuação no segmento, como você avalia hoje a cobertura cultural feita nos jornais, principalmente no segmento musical?

Temos sempre essa crítica de que a cobertura hoje é muito focada em agenda, o que é uma tentativa de aproximar o jornalismo cultural do hard news. No jornalismo cultural isso tem o seu lugar, essa cobertura de agenda é importante, tem uma função, mas é um tanto quanto limitante. Pensando nas contribuições que o jornalismo cultural, e o jornalismo musical mais específico, podem dar para a sociedade, apenas a cobertura de agenda para dizer o que que vai acontecer e algumas coberturas de eventos ficam num lugar muito raso. Nós poderíamos nos aprofundar um pouco mais, trazendo críticas de lançamentos, fazendo um jornalismo mais de opinião, mesmo que de fato a gente tenha poucos espaços. Recentemente, em janeiro, eu comecei uma coluna no IBahia que tem esse intuito de ser um trabalho mais analítico, mais de opinião e também de apresentar novos nomes. Tem esses dois lugares, de descobrir novos talentos e de avaliar e analisar as produções musicais, que é o que o jornalismo cultural pode fazer a mais. Até como profissional, eu tenho um pouco de dificuldade de encontrar publicações assim na cidade. 

O que seu podcast busca trazer de diferente para o público?

Inicialmente, esse é um dos espaços que sobra. A ideia é discutir e falar da música, ter esse tom de entrevista pingue-pongue, com questões envolvidas nessa relação com a cidade, com a negritude, com o ativismo político dentro da música a partir da visão dos artistas. E confrontar um pouco as minhas percepções desse movimento com a visão do artista. Eu escolhi fazer entrevistas um a um porque acho que dá para aprofundar melhor a discussão do que fazer uma mesa redonda. Eu queria mesmo era falar de cada um mais aprofundadamente. Queria ter Mahal Pita ali comigo e ficar meia hora conversando sobre o trabalho dele. Eu quero ler sobre, ouvir o artista falando sobre o trabalho dele e refletir. Isso para o artista também é um lugar importante, que naquele tempo você possa sair um pouco das respostas padrões.

Se você pudesse entrevistar qualquer artista, quem seria?

Gilberto Gil. Com certeza. 

Nesse caso, você seria um fã. São os fãs que mais buscam seu conteúdo?

Em termos de estratégia o que eu estou buscando é isso, tentar entender o que o fã gosta de saber, mas não no sentido da curiosidade e sim no sentido da informação, do aprofundamento. Talvez isso não funcione com qualquer artista. Por exemplo, não sei se funcionaria com os fãs de Ivete Sangalo, que não é uma artista que tem grandes aprofundamentos em discussões. Mas funcionaria com o fã de Daniela Mercury, que já é uma artista que tem. Também é tentar entender um pouco esse lugar e jogar com o interesse do público, com o jornalista e com o fã e construir uma mediação com esses valores que, às vezes, são colocados em lugares opostos. Tem mais um ponto, que é o de que o artista não precisa mais [do jornalismo]. Depois das redes sociais, eles passaram a ter os seus próprios canais de produção de conteúdo para sua base. O jornalismo ocupava esse lugar, um fã de Beatles nos anos setenta, queria saber sobre o disco que acabou de sair, tinha que recorrer a imprensa porque não tinha um espaço direto. A partir dos anos 2000 essa configuração do mercado da música vai mudando e o jornalismo perde um pouco esse lugar de centralidade, esse controle dos canais. Até hoje o jornalismo, o jornalismo musical, não achou uma forma de se reinventar.

E o que você faz hoje para disputar esse espaço?

Me pergunto todo dia isso: “o que é que eu posso oferecer?”. Pensando de uma forma mais técnica mesmo. A gente tem um contexto em que o jornalismo produzido circula no meio de uma confusão de informações e a gente não pode fugir daquelas regras básicas da precisão, da informação objetiva, direta, o contraponto. BaianaSystem está aqui, mas com essa relação da banda com Nação Zumbi eu posso produzir um conteúdo que talvez eles não vão produzir. Por exemplo, na conversa com o Mahal, ele conta para mim como percebeu que era possível fazer pagode eletrônico. Eu posso fazer essa mesma pergunta para Rafa Dias, do Àttooxxá, e depois para outro artista que está fazendo esse mesmo processo. É um exercício de sair do fluxo mais direto, de sair desse lugar da cobertura de agenda de lançamentos de eventos. Não precisamos necessariamente disso, eu não quero saber onde vão fazer shows, quero saber quais shows terão na cidade. Aí eu tenho esse espaço, que sempre vai existir, do jornalismo bem feito, a informação bem apurada, bem apresentada. Não há reinvenção da roda. É basicamente fazer o jornalismo mais bem feito possível, que eu acredito que possa ser a diferença. 

O que ocorre com o jornalismo hoje que impede esse aprofundamento?

Isso é uma questão que eu reflito. Por que é tão difícil conseguir emplacar essas pautas? A gente sempre acaba caindo no lugar do “porque não dá clique, não dá audiência”, mas esse lugar da audiência também é negociável. Temos hoje uma dificuldade de gerar audiência para esse tipo de conteúdo mais aprofundado. A gente tem um contexto de informações abundantes e rápidas na vida dos nossos leitores, telespectadores, ouvintes, usuários de redes sociais. Indo para o lado do audiovisual, a gente vive um momento de crescimento das séries. Produtoras audiovisuais têm apostado em conteúdos mais longos, divididos em séries, do que em filmes que se resolvem em uma hora e meia. O que falta para o jornalismo é tentar entender quais são as motivações que fazem o público procurar um conteúdo seriado e tentar aplicar isso para fugir um pouco desse conteúdo mais rápido. Não estou dizendo que a gente devia abandonar o conteúdo rápido – rápido tanto do ponto de vista da produção quanto do consumo. Falta um esforço do jornalismo mainstream, das empresas de jornalismo em tentar entender como despertar esse interesse, que leva o mesmo público que consome conteúdos rápidos a consumir as séries da Netflix. Essa equação tem que ser resolvida, porque não me convence o argumento de que o público não quer ler. 

Quais outros projetos você está tocando no momento?
Desde setembro, estou trabalhando em um site de música e cultura pop chamado Mix Me. Meu trabalho é justamente fazer esse tensionamento entre a cobertura mais rápida e trazer esse usuário para dentro do nosso site, oferecer um conteúdo bem feito, bem apurado, com as informações precisas. Eu tenho um projeto que está engatilhado, mas que eu ainda preciso ampliar a minha base de público, que é o lançamento da segunda edição do livro. Tenho mais capítulos da dissertação de mestrado que não estão no livro. Seria uma terceira parte do livro com mais análise, comigo, enquanto analista, observador, percebendo como é que esses artistas estão articulando cultura pop e negritude e as práticas musicais. Tem esse projeto, mas falta o recurso para ele sair. Pensei em fazer financiamento coletivo, mas o valor é um pouco mais alto do que uma campanha média. Então, eu precisaria de uma base um pouco maior do que tenho hoje. O podcast também tem esse objetivo indireto, de conseguir angariar possíveis futuros leitores da edição impressa do livro.

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Entrevista: novo livro de memórias de Emiliano José está chegando

Com o seu novo livro ‘Os comunistas estão chegando’, que será lançado no próximo sábado (11), o jornalista Emiliano José dá sequência à publicação de sua série #MemóriasJornalismoEmiliano, que tem origem em sua página no Facebook desde 2019. Diferente do primeiro livro da série, ‘Balança mas não cai’, Emiliano não narra a sua própria trajetória, mas olha ao redor, tornando protagonistas 18 colegas de profissão que, como ele, enfrentaram o período da ditadura atuando em redações e estiveram sob a mira de um jornalista infiltrado, pago pelo regime, para entregar os “comunistas”. 

Nessa entrevista, o escritor, que ocupou este ano a cadeira de número 1 da Academia de Letras da Bahia, conecta passado e presente, refletindo sobre como a memória do jornalismo pode nos ajudar a entender o cenário político. Emiliano estima que, enquanto o primeiro livro da série foca no período de 1974 para 1975, este último abrange histórias do período de 1976 até próximo do início dos anos 1980 – embora cada personagem tenha sua própria trajetória. 

Esse é o segundo e-book e o 17º título da carreira de Emiliano. O prefácio de ‘Os Comunistas estão chegando’ é do jornalista Ernesto Marques, presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI-BA). A live de lançamento será às 19 horas do sábado (11) no canal do Youtube de Franciel Cruz.  

A capa, com destaque para a foto histórica do repórter fotográfico Manoel Porto, de uma entrevista coletiva com Luiz Carlos Prestes à imprensa baiana e com Emiliano e seu imenso gravador em primeiro plano, tem projeto gráfico do também escritor Gabriel Galo. São protagonistas do livro Aécio Pamponet, Alex Ferraz, Césio Oliveira,  Fred Matos, Gustavo Falcón,  HAF – Hamilton Almeida Filho,  Jadson Oliveira,  Joca – João Carlos Teixeira Gomes,  José Carlos Menezes,  José de Jesus Barreto,  José Sérgio Gabrieli,  Luiz Manfredini,  Marcos Palacios,  Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira,  Oldack de Miranda,  Othon Jambeiro,  Quintino de Carvalho e  Sóstrates Gentil (em nome do pai, também Ludmilla Duarte). 

 


O título “Os comunistas estão chegando” é uma provocação que, de certo modo, não está datada. Ainda hoje jornalistas comprometidos com a profissão são taxados pejorativamente dessa forma. Como você pensa que essas memórias do livro podem aquecer o debate sociopolítico de hoje, deste Brasil de 2021, quase 2022?

Eu creio que a revisitação do passado é, de alguma forma, garantir que não se percam as conquistas daquele momento, que não se esqueçam os fatos históricos. A ditadura foi um momento trágico do país que matou tanta gente, prendeu, sequestrou, desapareceu com tanta gente e, ao mesmo tempo, temos que lembrar que ela nos revisita permanentemente. O atual presidente não é nem dissimulado, é um admirador confesso da ditadura, foi eleito com essa condição, falando sempre a favor da ditadura. Ao lembrar o episódio de um espião, o livro trata disso, um jornalista que era ao mesmo tempo agente policial infiltrado no meio dos jornalistas, concordava com a ditadura e era assalariado por ela, ele queria mapear os profissionais que ele acreditava ser comunista. O cara achava que qualquer um que estivesse ali na profissão, a maioria, era de esquerda. É uma maneira de eu evidenciar o que era o período, que para trabalhar você tinha que viver sob os olhos vigilantes da ditadura. Então é muito importante, no momento em que, volta e meia, o atual presidente e seus sequazes falam em comunismo, lembrar que vem desde lá, desde muito tempo. E que comunista nós podemos falar hoje? Que movimento comunista existe no Brasil? É uma brincadeira… o pensamento de esquerda é absolutamente presente e sempre será. Mas falar nesse fantasma do comunismo me lembra Marx abrindo o Manifesto Comunista, o espectro da Europa, o espectro do comunismo. É como é o Brasil de hoje e isso foi há muito tempo. Mas o livro é isso e é muito mais porque são muitos protagonistas que foram companheiros e companheiras do maior valor que deram uma contribuição inestimável ao jornalismo baiano e que travaram lutas, lutas estas como jornalistas.

Você menciona esse histórico de lutas. Como  vê o cenário do jornalismo baiano hoje, à luz desse histórico tão combativo narrado no livro?

Eu creio que estamos em um período de mudanças profundas, eu digo do ponto de vista, inclusive, estrutural do jornalismo. Naquele tempo eu vivi um cenário de grandes redações. Hoje você não tem mais isso, ou só tem limitadamente. O jornalismo impresso propriamente vive, não sei se digo um fim, mas uma decadência óbvia por conta da emergência das redes sociais e do jornalismo online. Muitos blogs e sites e outros tipos de comunicação que nós estamos vivendo. Os jornalistas continuam desempenhando papel essencial, na eterna busca da verdade, que é uma busca sempre. Dizer que o jornalismo é a verdade é uma ilusão, é uma busca permanente que todo jornalista sério deve fazer e que ela continua a existir. É claro que há jornalistas sérios e há outros que prestam serviços menos dignos, eu diria. Mas a maioria da profissão continua nessa luta pela busca da verdade, que é o exercício cotidiano do jornalismo. 

Foto: Juarez Matias/ABI

Você citou as mudanças nas redes sociais no jornalismo, que afeta muitas outras áreas, mesmo a literatura. Seu livro, um e-book, parece inovador justamente por uma escrita compartilhada, com comentários do Facebook tendo espaço na edição. Como se deu isso e como a experiência de leitura vai ser renovada para quem já acompanha a série de personalidades que você mantém no Facebook?

A leitura em ebook não é uma coisa tão simples para alguns, para a minha geração não é tão simples, as pessoas estão acostumadas com o contato físico com um livro. Eu pretendo que a série seja simultaneamente e-book e impresso. Do ponto de vista dessa série, ao fazê-la, e eu fiz pelo Facebook primeiro, eu fui mesmo quase que fazendo uma escrita comum, porque as pessoas entravam e comentavam e, às vezes, me diziam ‘não é bem isso’, e fica lá o comentário. Isso, na minha visão, foi uma riqueza muito grande e dá um dinamismo novo à escrita. É um pouco do que eu chamo do território do comum. Positivamente eu encaro isso.

Acredito que tenha, inclusive, lhe despertado outras memórias com o que as pessoas traziam nos comentários… 

Inegavelmente. É esse que é o lado positivo, já que você não domina, você pesquisa, não são só minhas memórias, é conversa, as pessoas me mandam copiões e tudo e eu vou arrumando. O livro é um trabalho de pesquisa, embora a minha memória também entre. 

SERVIÇO
Live de lançamento do livro ‘Os comunistas estão chegando’
Quando: 11 de dezembro, às 19 horas
Onde: Canal do Youtube do jornalista Franciel Cruz
Livro já disponível para compra. 

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Entrevista: “Nas minhas biografias eu procuro me realizar como jornalista”, diz Gonçalo Júnior

Apurar, pesquisar, buscar fontes, passar um mês atrás de uma única informação. Depois, escrever e reescrever, pelo menos quatro vezes. Apesar do método rigoroso, Gonçalo Júnior pode se orgulhar de ter  40 obras publicadas e mais outras em gestação. O jornalista baiano – que já colaborou com diversos jornais e revistas e atualmente edita a revista Brasileiros – usa o método investigativo da área tanto na busca de informações, quanto na fase de escrita das suas biografias, obras pelas quais se consagrou. 

Em sua carreira, ele já tratou dos mais diversos personagens: o ilustrador Alceu Penna; o empresário Herbert Richers; o quadrinista italiano Milo Manara; João Acácio Pereira da Costa, mais conhecido como o Bandido da Luz Vermelha. Sua última biografia publicada foi sobre o músico do choro, Jacob do Bandolim. Todos personagens bastante distintos, mas, para Gonçalo, uma coisa os une. “A minha escolha se dá por personagens que não tiveram ainda, na minha opinião, a devida atenção, mas que foram muito importantes na história”. 

Com maior liberdade para escrever e publicar sob o selo de sua editora, a Noir, o pesquisador projeta uma “guinada” política em suas obras. Ele ressalta a importância de se estar atento ao contexto por trás das figuras comuns, “à margem do esquema”. Nesta segunda (25), ele irá compartilhar esse e outros conhecimentos adquiridos durante os mais de 20 anos de carreira na Oficina de Biografia, que ocorrerá das 9 às 12 horas no Salão Nobre do Gabinete Português de Leitura, em Salvador. 

Em entrevista para a ABI, Gonçalo fala sobre suas expectativas para a oficina e compartilha alguns dos projetos que está produzindo. 

Após todos esses livros publicados, você desenvolveu algum método quando começa a sua pesquisa?

Sem dúvida a gente acaba desenvolvendo uma metodologia, um esquema de produção depois de tanto tempo. Eu diria que é como o goleiro diante do gol: ele tem tanta prática no gol que não precisa ficar olhando para trás para saber em que posicionamento está na área; ele se orienta pelo quadrado em volta, pela grande área e procura estar sempre bem posicionado para pegar a bola. Eu acho que escrever é isso, a vida nos leva a isso. Claro, o ideal é ler bastante. Fazer uma biografia ou um livro de modo geral não é fácil, é sempre uma tortura, um tormento. Tem vários livros começados e não terminados, mas tem outros que engrenam rápido, como se você estivesse descendo uma ladeira. 

E eu vou desenvolvendo meus métodos, por exemplo, faço um esboço, depois vou ampliando, vou acrescentando pesquisas de textos, entrevistas e aquilo vai crescendo. Chega a um ponto em que eu sento e começo a trabalhar o texto em si, que eu geralmente refaço seis, sete vezes. Imprimo e só depois eu vou ler como se fosse um leitor e aí consigo ter mais clareza, uma coisa mais visual, espacial e territorial da obra. 

Quais cruzamentos você nota entre a carreira de biógrafo e a de jornalista? O que uma área agregou para a outra?

A relação entre biógrafo e jornalista, no meu caso, eu diria que é uma coisa bem pessoal. Talvez uma consequência do momento em que vive o jornalismo nos últimos 20 anos. O mercado mudou muito, o jornalismo encolheu bastante, ele perdeu aquela característica do jornalismo investigativo, do jornalismo menos comprometido, digamos assim. Nas minhas biografias eu procuro me realizar como jornalista, então tem personagens que exigem investigação, apuração, procurar em arquivos da ditadura, localizar pessoas. Não só no processo de apuração mas também na escrita em si, eu procuro sempre adotar um tipo de narrativa jornalística, da forma mais clara, imparcial e independente possível, colocando o máximo de fontes, não tomando partido de versões. 

Às vezes eu coloco quatro, cinco versões de um mesmo caso, como na biografia do Bandido da Luz Vermelha, que eu coloquei o ponto de vista do próprio bandido, o ponto de vista da vítima, o ponto de vista da imprensa e por aí vai. Eu tento ser jornalista escrevendo biografias, é o que é possível fazer e é o que me satisfaz, porque são sempre coisas muito desafiadoras. Como eu falei na resposta anterior, você ter domínio de um corpo que é um livro, que é uma biografia, você saber onde estão as informações, como ela está sendo estruturada, isso acaba sendo desafiante e estimulante.

Como você separa a análise que faz em suas obras da admiração que sente pelas figuras biografadas?

É inegável que a gente sempre tem um interesse, uma afinidade pelo personagem, mas não quer dizer que a gente vire admirador. No caso do Bandido da Luz Vermelha o meu interesse foi mais por ser um personagem que foi importante na vida de São Paulo. Eu moro aqui há 24 anos. Gosto da cidade, gosto da história da cidade e sempre me impressionou muito o impacto que ele tem no imaginário popular. Depois do bandido, as mansões de São Paulo começaram a construir muros. Eu fiz um perfil bem diferente do que tem no filme (Gonçalo fechou contrato com a produtora RT Features, em 2019, para a adaptação da sua obra), que é uma coisa mais alegórica, mais fantasiosa, mais politizada. Acabei retratando um psicopata, um cara que estuprou mais de cem mulheres, um assassino frio e sanguinário, então o personagem vem mais do interesse histórico do que da preferência pessoal.

Mas não há algo de preferência pessoal na escolha das personagens?

Claro que tem personagens que eu me interesso, como Jacob do Bandolim, como Vadico, parceiro de Noel Rosa, como o cantor de música brega Edvaldo Braga. Rubem Alves eu não conhecia, foi uma biografia encomendada, mas que eu acabei  me encantando pelo personagem porque ele foi muito importante historicamente. A minha escolha se dá por personagens que não tiveram ainda, na minha opinião, a devida atenção mas que foram muito importantes na história. Isso está acima do meu gosto pessoal. 

Eu conheci dois editores que foram torturados, presos, censurados na ditadura militar. Contar a vida deles me permitiu contar a história da ditadura militar também sob o ponto de vista da censura. Não são personagens que eu escolho porque sou fã. Talvez o Jacob do Bandolim tenha sido o único com essa característica. 

“A minha escolha se dá por personagens que não tiveram ainda, na minha opinião, a devida atenção mas que foram muito importantes na história. Isso está acima do meu gosto pessoal” – Gonçalo Júnior, escritor e jornalista

Você já trabalhou com zines, escreveu e roteirizou quadrinhos, já escreveu sobre erotismo nos quadrinhos, trabalha desde sempre com esse meio underground. O que te atrai para esses temas e formatos? 

Eu cresci num meio que se diria underground, na Salvador dos anos 80. Eu atravessei a década de 80 fazendo fanzines, ouvindo rock, frequentando as lojinhas alternativas de Salvador: na Carlos Gomes, a Galeria do Tuiuti onde tinha a loja Coringa, o Orixás Center com as lojas de discos, a Mutantes num bequinho da 2 de Julho. Eu cresci num ambiente de trocar fanzines, de comprar discos, de trocar discos pelos Correios. E acabei me interessando mais por esse universo marginal, com personagens fantásticos, mas que não tiveram a merecida atenção da história, dos historiadores. É a história de tipos mais comuns que fazem com que a gente acabe contando um contexto mais amplo. Por exemplo, agora mesmo eu estou escrevendo sobre Celly Campello, que foi uma pioneira do rock nacional.

O rock nacional ainda não tem uma merecida história contada lá desde o seu início. Eu estou tentando tapar esse buraco. Nunca peguei personagens que já tinham quatro, cinco biografias; no máximo como Assis Valente, que tinha uma só. Mas são tipos marginais e fascinantes, personagens que têm muito o que contar dentro de um contexto, à margem do grande esquema. Eu vivo nesse mesmo esquema, à margem da coisa; nunca escrevi biografias para ganhar dinheiro nem nada. Eu faço biografias, como eu disse antes, pelo prazer de ser jornalista e pesquisar, porque as minhas contas eu pago com freelas, com coisas que eu faço em paralelo. 

Vários dos seus livros são verdadeiros calhamaços, fruto de pesquisa extensiva e demorada. Quando você sente que terminou uma obra?

Essa coisa de fazer livros volumosos já me trouxe muito problema. Eu já passei por situações absurdas, de um editor contratar uma pessoa para reduzir um livro meu a um terço do tamanho, como aconteceu com o Bandido da Luz Vermelha. Como o contrato já estava vencido, eu mesmo publiquei pela minha editora, a Noir. Ela foi criada justamente para isso, para que eu pudesse escrever com liberdade e responsabilidade, sem ter que dar satisfação a ninguém. 

Uma biografia vai te impondo desafios: pessoas que você precisa entrevistar e localizar, fontes, detalhes, dados. Às vezes você fica um mês tentando descobrir o número da casa onde a pessoa morou porque tem que informar aquele número para entregar uma coisa mais completa. Você perde muito tempo com isso. Só que chega um momento que eu leio aquilo ali e falo assim “bom, não está faltando mais nada”. Aí vou trabalhando o texto final. Como eu falei, faço quatro, cinco, seis vezes, reescrevo tudo. Nesse processo, se eu sentir que falta alguma coisa, vou atrás, se não, eu fico elaborando o texto, refazendo, melhorando. Tem a fase de apuração, tem a fase de escrita e tem a fase de aprimoramento do texto.

Em algumas entrevistas você teceu duras críticas ao mercado editorial brasileiro. Ainda assim, fundou uma editora própria, a Noir. Por que buscar competir nesse espaço, quando tanto se fala que no Brasil ninguém mais lê?

Não, eu não busco competir, não fundei uma editora especificamente para ser um empresário do meio. Eu fiz uma editora para fazer livros que me dêem prazer, meus livros e de outros. Só que isso exige malabarismos, jogo de cintura para você tocar um negócio. Nos três primeiros anos da Noir eu me empenhei muito em montar um esquema de distribuição, fazer contato com livrarias, com lojas virtuais; a Noir tem um esquema de distribuição que é melhor do que muitas grandes editoras por aí. Eu precisava montar esse alicerce para sobreviver nesse mercado altamente competitivo, mas eu não sou empresário do livro, do meio literário. Eu sou um editor que quer publicar coisas que gostaria de ver nas livrarias, sem ambição de ser um empresário e de competir com ninguém. Tanto que eu não participo de feiras, não inscrevo os livros da Noir em prêmio nenhum. Não condeno quem faz isso, é uma opção que escolhi, de ter liberdade para escrever, para publicar meus livros e fazer com que isso seja sustentável pelo menos. 

Eu tenho uma boa relação com jornalistas que divulgam, que fazem matérias. Qual a editora que é feita por alguém absolutamente sozinho que consegue cinco capas do jornal O Globo, que consegue capa da Ilustrada, que consegue matéria de capa das revistas? Isso é um reconhecimento da qualidade do trabalho porque os caras se interessam pelo conteúdo. 

“Eu sou um editor que quer publicar coisas que gostaria de ver nas livrarias”

Em uma entrevista para o jornal A Tarde você afirmou que está dando uma “guinada editorial para livros mais instigantes politicamente”. Existe alguma razão por trás disso? Tem algo a ver com o atual contexto brasileiro?

A minha guinada se deve em específico ao fato de eu não ter mais sócio. Eu tinha que respeitar a opinião dele e ele queria uma coisa mais de arte e eu sempre quis fazer uma coisa mais de política, porque esse é o tipo de jornalismo que me interessa, o jornalismo transformador, investigativo. Como ele saiu em outubro do ano passado, resolvi fazer coisas que, de certa forma, contribuam historicamente para o país, com temas mais politizados, digamos assim. Eu mesmo estou com um livro para publicar, que deve sair no começo do ano que vem, contando a história da Literarte, que foi uma livraria que capitalizou toda a esquerda da Bahia como foco de resistência à ditadura durante a abertura política, de 1978 a 1985. Foram ouvidas mais de noventa pessoas para esse livro, ele já está pronto. Era uma livraria de resistência na ditadura militar, em Salvador, ficava na Avenida 7. É um livro que me deu muito prazer e é um acerto de contas com minha adolescência, com meu passado, porque eu estudei no Colégio Águia, na praça da Piedade, fiz meu segundo grau todo lá. O colégio ficava a 100 metros da Liberdade, então eu, ainda moleque, comprava o jornal Planeta Diário lá, ficava fuçando as revistas. 

Em dezembro, vou tentar lançar um livro com quase 20 entrevistas do cartunista Henfil, que foi um ícone de resistência na ditadura. Eu lancei um livro agora chamado “As bastardas de Deus”, que é um livro mostrando como as religiões, a Bíblia, o antigo e o novo testamento difundiram o ódio contra as mulheres, a violência contra as mulheres, até hoje muito presente. O livro foi escrito por ninguém menos que (o jornalista e escritor) Júlio Chiavenato, um ícone da historiografia brasileira, autor do livro “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai”, um livro dos anos 80 que desmistificou Duque de Caxias, mostrou ele fazendo atrocidades na Guerra. 

É por aí que eu quero seguir mesmo e o momento pede isso. A gente passa por um momento de insanidade, de genocídio, de morte de 600 mil pessoas, com um psicopata governando o país. Eu acho que é o momento realmente para eu tomar algum tipo de posição, mesmo que solitária. 

Quais os projetos que você tem na gaveta agora?

Tem vários. Como eu falei, estou bem adiantado com a biografia de Celly Campello. É uma experiência nova, uma vez que estou fazendo em parceria com um diretor de cinema, que tinha feito algumas entrevistas com Celly, conheceu ela. Mas ele está me dando muita liberdade, porque estou usando as entrevistas dele. 

Eu tenho um livro sobre o kichute (marca de tênis infantil, muito popular na década de 70). Tenho planos de relançar alguns livros meus que estão esgotados e eu tenho o plano de, no ano que vem, começar a escrever a biografia de um torturador da ditadura. Já estou com um bom material pesquisado. Eu só posso dizer o título, mas o nome da pessoa eu prefiro não dizer; o livro vai se chamar “O deus da morte”.

Qual a sua expectativa para a Oficina de Biografia que será realizada no dia 25?

Estou com certa ansiedade porque é um curso que dei no Sesc de Campinas, teve 26 horas de duração e eu vou ter que apresentar em três. Na verdade eu vou instigar o pessoal, dar umas dicas. Primeiro, vou tentar entender o que levou as pessoas para lá, para ver como posso contribuir com cada um. Mas eu vou dar dicas, são três horas, não é um tempo desprezível, dá para a gente falar bastante, tirar dúvidas, (trocar) comentários,  curiosidades e contribuir ou, pelo menos, estimular as pessoas que querem escrever a trilhar o caminho, a buscarem uma luz se for possível. Mas eu acho que vai ser legal. 

Eu estou morrendo de curiosidade de entrar no Gabinete Português de Leitura. Aquilo ali para mim sempre foi uma referência, um templo da cultura erudita em Salvador.

*Larissa Costa, estudante de Jornalismo, estagiária da ABI.
Sob supervisão de Joseanne Guedes

ABI BAHIANA

Entrevista: Levantando o véu do sertão desconhecido

Paulo Oliveira se tornou um contador de histórias. Encantando com os casos que encontrou enquanto andava pelo semiárido, ele conta um atrás do outro durante nossa conversa. Trabalhou como jornalista nas redações da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, Veja, Jornal do Brasil, O Dia e o A Tarde, ajudou a fundar os jornais Massa!, na Bahia, e o Hoje, no Ceará. Mas é à frente do Meus Sertões que se diz verdadeiramente feliz.

O projeto nasce da vontade de Paulo de descobrir “o verdadeiro semiárido”, segundo ele, bem diferente das histórias que se vê geralmente na mídia tradicional. No Meus Sertões a região aparece deslumbrante e rica de histórias e iniciativas populares, de festas e tradições. Com o tempo, o portal agregou parceiros e colaboradores, pôde ampliar sua cobertura e se orgulha de ter reportagens ambientadas em quase todos os dez estados que constituem o semiárido brasileiro.

Para o jornalista, não basta apenas ser um contador de histórias, ele se torna artesão também, como aqueles que entrevista por aí nos povoados mais distantes. Paulo se orgulha das experimentações com a linguagem jornalística e da crônica que faz no portal. No Meus Sertões, as pautas podem se transformar em e-books, em vídeos e agora em podcast. É que, no final de setembro, o portal irá marcar seus cinco anos de existência com o lançamento de uma nova plataforma, a “Rádio Carcará”. A primeira temporada – dedicada às rezas – já teve sua pré-estreia com o audiodocumentário “Chão provisório”, de Abel Serafim, sobre as disputas de terra envolvendo a ocupação Resistência da Cabrita, em Sergipe. Você pode ouvir essa história aqui.

Qual o próximo horizonte do projeto? Quem sabe. Ele nos explica que o projeto avança conforme as possibilidades de sua equipe, bastante enxuta (são pelo menos quatro colaboradores fixos, fora o trabalho de Paulo). Sem os prazos do jornalismo tradicional, o Meus Sertões é também fruto da paciência que o sertão ensina a ter. 

Aos cinco anos de Meus Sertões, quais são as principais conquistas do projeto?

Eu costumo responder que a principal conquista é a felicidade que eu tenho em fazê-lo. Trabalhei 40 anos em jornais, redações e seis anos dando aulas em universidades, e eu nunca fiquei tão feliz. É um mergulho num Brasil que a gente desconhece. Morei na Bahia por 10 anos e só tive oportunidade de conhecer mais a fundo o sertão quando eu saí do A Tarde. Para mim, a primeira conquista é essa felicidade, poder trabalhar com liberdade. No ano passado a gente se inscreveu em dois prêmios, um no Ceará, chamado Prêmio Gandhi de Comunicação; o outro foi o Prêmio de Incentivo ao Empreendedorismo da RD Station, no qual ficamos entre os três melhores, com jurados do Estadão e outros lugares.

https://www.meussertoes.com.br/

Quem participa do projeto?

A gente trabalha com uma equipe muito enxuta: eu, alguns colaboradores eventuais, a Helenita [de Hollanda, médica e pesquisadora popular] que é uma colaboradora fixa, tem uma pessoa que cuida do site. Começamos com duas editorias, “Meus Sertões” e “Outros Sertões”. Depois, criamos a “Arredores”. Além disso, a gente esse ano também colocou um espaço para e-books de jornalismo. Tem um lá feito por mim sobre a história de Seu Zé (leia aqui), um agricultor de 93 anos que ainda trabalha no campo, foi braço direito do Padrinho Pedro Batista, que desenvolveu Santa Brígida; “o conselheiro que deu certo”, como costuma falar na cidade.

Como foi a produção em um ano marcado pela pandemia de Covid-19?

Pelo segundo ano, fizemos o projeto “Meus Sertões Universidade”, onde nós coorientamos TCCs. Esse ano nós orientamos o Abel Serafim, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e ele fez esse trabalho, “Chão provisório”. Publicou no dia 24 e já foi distribuído pelo pessoal do Movimento dos Sem Terra, de várias áreas de apoio a grupos sociais, de gente que sofre ação de grileiros. Estamos preparando a série [primeira temporada do podcast “Rádio Carcará”] que vai ser lançada no final de setembro e será sobre rezadeiras. Vamos discutir o que é cura, falamos com psicólogo, médico, já levantamentos experiências que misturam reza e medicina no Brasil, no semiárido. Vai ser um trabalho bem bacana. A previsão é para o final de setembro, que é quando completamos cinco anos exatamente.

O que podemos esperar da primeira temporada do podcast Rádio Carcará? 

A Helenita é uma médica que trabalhava em um posto de hospital e em consultórios de Salvador. Num determinado momento, ela foi atender no interior e os pacientes eram rezadores, contavam histórias e lendas. E ela foi juntando aquilo tudo. Essa questão da reza sempre deu uma boa audiência [para o site]. Tinha alguns rezadores como o Pedro Santinho, que era santo no nome e para a população de onde vivia, curava bichos a distância. Essa matéria (aqui) deu uma audiência muito grande. Eu perguntei a Helenita o que ela achava de falar sobre reza e rezadores e discutir de onde vêm esses poderes. Ela, com o marido Biaggio [Talento, jornalista] e eu fomos entrevistando algumas pessoas. Dividimos em cinco capítulos, cada um com um tema.

Não estamos presos à Bahia, vamos pegar outros atores também e experiências de medicina de outros estados. No caso da experiência que juntou a medicina oficial com as rezadeiras, falamos com o prefeito da época e ele não lembrava mais. Tive que ir atrás, isso tudo por telefone e pela internet. Descobri a pessoa que trouxe o projeto para o Brasil, uma americana. Liguei para a universidade onde ela dava aula, mas ninguém sabia mais onde ela estava. Então, fui atrás das enfermeiras do posto de saúde, comprei livros sobre essa experiência. Estou cheio de material, agora só falta editar. A gente vai fazer o podcast com vários recursos. Será nossa primeira experiência, vamos acertar e vamos errar.  

Como pretende fazer o seu produto alcançar a população retratada?

O site é independente e experimental. Se eu colocar no Spotify, tenho que fazer uma propaganda gigantesca para as pessoas irem até lá. A coisa mais fácil de fazer, que dá muito certo no nordeste, é um podcast de entrevista, gravar e colocar no YouTube. A princípio, quero testar. Eu não estou preocupado com grandes audiências, mas com a qualidade. Tenho tido muito retorno de pessoas que estudam determinado assunto e só encontram no Meu Sertões. Eu não posso achar que meu veículo concentra todas as pessoas que serão atingidas, porque, na verdade, tem que ter capilaridade. E essa capilaridade, agora no quinto ano, eu tenho, de pessoas, de amigos de gente de comunidade. Quando a gente fez esse podcast do Abel, ele foi lá na ocupação ver se o pessoal tinha algo contra. A reação das pessoas, segundo ele, foi chorar, porque se sentiram emocionadas, valorizadas. Porque puderam dar um espaço grande a eles.  

De que forma um projeto tão abrangente é viabilizado financeiramente?

Agora, no quinto ano, a gente conseguiu terminar de montar o site. O projeto foi andando de acordo com nossos braços. A lojinha é uma das possibilidades. Quando você entra [no site], tem uma aba com os parceiros, que são portais para quem a gente já fez frila. Tem uma empresa, por exemplo, que contratou o Meus Sertões para fazer reportagens para o blog dela. O objetivo do site é ter patrocínios, mas a gente não quer ser igual. Tudo que entra dinheiro há uma influência de quem coloca. Decidimos que não iríamos aceitar verba pública. Podemos participar de um edital, mas dinheiro de prefeitura, do estado, a gente não aceita.

Como um jornalista experiente, o que te motivou a parar o trabalho com o jornalismo tradicional e seguir para o independente?

Eu trabalhei num jornal que tinha uma censura permanente. Qualquer pessoa que não faça parte do status quo vai ter dificuldade de fazer jornalismo de qualidade, independente, porque precisa de recursos. Temos um universo fabuloso no sertão que é desconhecido. A maior parte das pessoas, inclusive que trabalharam comigo na redação, desconhecem isso. Moravam nas cidades e desconhecem as histórias que eu conto. A gente fala que são baianos de Salvador, que só conhecem Salvador e nem ela toda. Esse projeto é algo que não existe outro igual. Cada cidade pode ter uma iniciativa, mas assim, levantar o véu que esconde as principais histórias fabulosas dessas cidades, não o fazem. Aí entra o Meus Sertões, que tem esse objetivo.

Paulo Oliveira defende a valorização do semiárido e suas riquezas | Xilogravura: Pita Paiva

Quando se fala em seca, durante uns dois anos eu lia que morria um milhão de bois. Quando eu saí do jornal, eu fui para Canudos, tinha chovido muito no estado todo, a caatinga tava verde, os reservatórios estavam cheios de água. Eu vendo aquilo tudo, pensei: ‘como um cara do sudeste, fui enganado a vida toda porque não se diz que tem esse período de beleza, de fartura no sertão’. Eles só botam a miséria, inclusive nos jornais do estado.

Qual a sua avaliação da cobertura tradicional da mídia sobre a cultura popular nordestina?

Quando você olha para Salvador e para o carnaval, já tem várias discussões sobre quem é contratado. Se nem em Salvador tem uma coisa equânime, imagina no interior do estado. No interior, temos um festival de reisado em Boa Nova que é bancado por uma família. Tem anos que o governo do Estado ajuda, tem anos que não. E é um espetáculo fabuloso, que você vê reisado quilombola, reisado de várias cidades do entorno se apresentando durante dois dias. Uma proclamação fantástica. Quem sabe que isso existe?

A Lei Aldir Blanc ajudou a trazer várias iniciativas muito bacanas. Mas se a pessoa não fizer a propaganda disso, quem sabe que são produzidos? Qual a promoção que o estado ou os municípios fizeram para divulgar aquele trabalho? Eles deram o dinheiro, colocaram uma data para entrega e pronto. A cultura é riquíssima, tem coisas que eu acho fantásticas, tem as danças do santo das prostitutas, São Gonçalo. As danças no interior são fabulosas. 

O problema é a pouca divulgação ou essas artes são divulgadas de maneira preconceituosa? 

Eu acho que os governos não dão valor à cultura, a não ser dos artistas do entorno. Em Queimadas (BA), tem a história do Lampião que invadiu a cidade, prendeu a elite e mandou os cabras dele irem à delegacia. Alguns policiais enfrentaram eles e foram mortos, outros se acovardaram e pediram clemência. Eu sei que os tiros que foram dados furaram a delegacia toda. O que um dos prefeitos fez? Achou os buracos feios e mandou tapar. Ou seja, a gente tem pessoas no poder sem noção do que é história, do que é um ponto turístico.

Xilogravura do artista Pita Paiva | Fonte: Meus Sertões

Quando o assunto é cultura, o que mais se vê é o apagamento da memória, o investimento na desmemória. Você vai para perto de Cordeiros (BA), tem uma comunidade que vive do barro. Naquela comunidade, há mais de 100 anos, os mais velhos faziam uma boneca chamada ‘boneca de candeia’, que era usada para acender a lamparina. Com a eletricidade, isso se perde, e também porque dentro da própria comunidade não se dava valor. Só dois rapazes jovens decidem continuar a fazer essa boneca, só que tem dificuldade para vender, e por isso, um deles decide ir trabalhar em São Paulo. O outro fica, mas já pensando em desistir. Essa boneca é uma relíquia, do tempo da escravidão, com mais de 200 anos de história. O resgate dela é algo importante. Agora vê se em algum lugar deu isso aí? O estado está preocupado com a briga política, não com a cultura do povo. Ele vai utilizar a cultura desde que dê votos. E essas histórias? Essa boneca tem história, tradição. Posso falar mil exemplos.

O que o Meus Sertões te permitiu ver de novo sobre o semiárido? 

Eu fui para Salvador a trabalho. A minha ideia era passar um ano, estou aqui até hoje. Eu permaneci esse tempo porque, dentro do jornal, embora eu tivesse problemas em relação à condução do jornalismo, eu tive a oportunidade de fazer vários cursos e tive um ganho muito grande de conhecimento. Aí quando eu saí, fui para Canudos e me dei conta de que estavam enganando os leitores do Brasil todo, inclusive do próprio estado. Isso tudo me causava angústia. O que me atraiu no sertão foi também a vontade de mitigar os efeitos dessa visão distorcida que havia, na verdade tem uma visão única e exclusiva que foi construída com o tempo. 

O jornalista critica a cobertura jornalística centrada nas mazelas da região | Xilogravura de Pita Paiva

Tem uma outra questão que as pessoas não se dão conta. Eu sou descendente de português. A primeira vez que fui a Portugal foi quando tive orgulho da minha ascendência, isso não significa que eu concorde com o que os colonizadores fizeram. Quando eu comecei a andar, mesmo no sertão, fui notando coisas. Como o bucho, que é uma comida portuguesa. Eu fiz uma pesquisa sobre uma oração chamada Padre Nosso Pequenino. A origem dessa prece é de Portugal, da idade média. Fiz uma matéria sobre isso, que até hoje é a mais lida do site. Eu comecei a me encontrar com minhas origens no lugar onde menos esperava, com um mundo que ainda é preservado. Ainda tem gente que faz almanaque, que faz cordel. Ainda tem a questão do aprendizado pessoal. Eu aprendi a ser mais paciente com a caatinga. Principalmente por conta do transporte, coisa que ninguém fala. 

Qual é o futuro do Meus Sertões? 

Nesses cinco anos, já temos um acervo com umas 10 mil fotos sobre o sertão, de vários lugares. São 500 matérias, 200 ou 300 vídeos. Se eu fosse parar hoje eu deixaria esse acervo disponibilizado ou cederia ele para alguém, porque o que eu tenho hoje já é um legado importante. A luta continua, mas já construímos um segmento que não existia. Tem sites especializados em cangaço, mas não um site que se propõe a falar sobre o semiárido. Já fizemos matérias sobre Piauí, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, a gente só não fez um ou dois estados, mesmo sendo um site pequeno. É porque vamos de acordo com nosso passo. 

“Hoje, eu posso dizer que faço jornalismo popular, artesanal e independente.” – Paulo Oliveira, jornalista.

Eu estou muito atarefado fazendo matérias do site, também porque nesse período de pandemia os colaboradores não mandam mais tanto conteúdo. A minha preocupação hoje é dar conta das postagens semanais e concluir o prazo que me dei para o podcast. Também não adianta ficar criando muitas coisas. Com o que eu tenho já vou fazendo um monte de experimentalismo, tenho várias linguagens para trabalhar. Tem uma matéria que se chama ‘Dona Beijinha’. Fui para Pernambuco fazer uma matéria sobre as pessoas que mudam a realidade do sertão. Beijinha é uma personagem desta matéria. Ela deixou a prostituição com quase 90 anos e hoje está internada num abrigo para idosos. Ela me contou sua história com coisas picantes, mas eu via tristeza no rosto dela. Os intertítulos do texto são versos que falam de prostitutas, de Drummond, de outros. Eu fui misturando poesia e arte.

Eu conheço a maior parte das regras, mas eu quero subvertê-las. Qual o motivo da minha grande alegria? No jornal, eu não podia subverter as regras, porque tem o manual de redação, o chefe, o diretor e eles que determinam como tem que ser as coisas. Quando você tem um veículo, pode fazer o que quiser, experimentar do jeito que quiser. Tem matéria que eu demoro dois meses para escrever porque quero dar um tratamento especial. Hoje, eu posso dizer que faço jornalismo popular, artesanal e independente. Eu não tenho prazo, eu elaboro, eu lapido. É essa coisa de poder trabalhar as palavras artesanalmente.

*Larissa Costa, estudante de Jornalismo, estagiária da ABI.
Edição: Joseanne Guedes