Notícias

Entre tudo, o nordeste: o fenômeno dos podcasts no Brasil e na Bahia

Algumas pessoas ainda devem se perguntar “afinal, o que é um podcast?”. No entanto, em 2019, o consumo desse formato de mídia cresceu 67% no país, de acordo com uma pesquisa da Deezer, plataforma de serviços em streaming de áudio. Na época, o tocador divulgou com exclusividade à Tilt, um canal sobre tecnologia da Uol, dados da pesquisa realizada com usuários de podcasts entre serviços como o Spotify, Apple, Google Podcasts, além de aplicativos especializados na organização e distribuição. 

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI), a fim de traçar uma conceituação sobre o que é um podcast, entender o processo de produção e as diferenças com relação aos programas de rádio como conhecemos hoje, conversou com veículos de notícias locais, produtores e estudantes de jornalismo que estão colecionando experiências na realização de podcasts seja dentro ou fora dos jornais.

Quando Clara Restallb, jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), ingressou no programa de trainees do Estadão, não imaginou que sua ida a São Paulo se tornaria vitalícia. Nascida na Chapada Diamantina, a jovem profissional hoje faz parte da produtora de podcasts Rádio Novelo e colabora com o Estadão. Tímida, quando era estudante de graduação, Clara revela ter visto na disciplina de rádio, lecionada por Maurício Tavares, uma oportunidade para se especializar num setor do jornalismo que não exige o esforço de se apresentar bem para as câmeras.

Dentro do programa de trainees, ela se destacou por um pequeno detalhe. Sabia mexer no software livre Audacity, considerado um dos mais simples programas utilizados para gravar, editar, importar e exportar diversos formatos de arquivos de áudio. Nele, é possível gravar músicas e paisagens sonoras.

A Rádio Novelo foi criada em 2019 no Rio de Janeiro e hoje é responsável pelo desenvolvimento de doze podcasts, entre eles o Foro de Teresina, Maria Vai Com as Outras, 451 MHz, e o Novo Normal do Spotify. Clara trabalha para a produtora em esquema home office e conta que sair do lugar onde mora a fim de angariar novas possibilidades de vida sempre foi comum para ela e sua família. “Eu nasci e cresci na Chapada Diamantina e eu fui morar em Salvador justamente porque não tinha mais escola na Chapada. A pública de lá era muito fraca, então minha mãe e minha avó (que são meus pais) resolveram ir para Salvador, para que eu e minha irmã terminássemos os estudos. Fico nessa migração justamente porque acabam as possibilidades num lugar e aí você tem que sair. Eu odeio isso, por mim estaria lá até hoje!”, brinca a jornalista, referindo-se à cidade natal. 

Depois do trainee, Restallb foi efetivada como repórter do O Estado de S. Paulo, e participou da fundação da editoria de podcasts do jornal. No Estadão, fez  parte ainda da equipe que criou o suplemento feminista Capitu e o projeto audiovisual Deixa Ela, premiado em segundo lugar no Troféu Mulher Imprensa 2020. Sobre a experiência com podcasts, ela garante o fato da disciplina de rádio ter sido importante para a carreira. “Queria muito me aprofundar em áudio e num jornalismo menos bairrista. Algo mais plural, que eu aprendesse e pudesse trabalhar em qualquer lugar do Brasil. Sou uma pessoa que não consegue falar em público sem passar mal. No quarto semestre, aprendi que se não estou sendo vista, consigo me sair muito bem”, explica Clara.

De acordo com Maurício Tavares, professor da disciplina de Rádio da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), os podcasts podem ser definidos como “programas gravados”. “A grande diferença é que uma das características do rádio é ser ao vivo (falo de rádio em sua essência), podcasts são sempre gravados. O rádio, de alguma forma, segue um modelo de programação”, define o professor. “No podcast você pode fazer qualquer coisa no áudio. Tanto no conteúdo quanto na apresentação, locução e etc”, acrescenta.

Maurício ainda explica a etimologia da palavra podcasts. “‘Pod’ significa ‘personal demand’, vem de Ipod, metade de pod, metade de cast (transmissão)”. O especialista defende o fato de podcasts não serem programas de rádio sob demanda como é frequente definido por alguns sites. “Embora alguns possam ser uma cópia editada dos programas de rádio, eles são arquivos de áudio. No começo eram acessados em um Feed RSS. Uma das características iniciais do podcast é que já eram episódicos mas as pessoas se inscreviam para receber atualizações”.

Uma pesquisa publicada no site da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), define o formato RSS como “uma maneira de relacionar o conteúdo de um blog de forma que seja entendido pelos agregadores de conteúdo”. De acordo com Lucio Luiz e Pablo de Assiz, podcasters e autores do texto, isso é possibilitado através dos chamados ‘feeds’, “que trazem o conteúdo do blog codificado de maneira que esses programas compreendam e possam apresentar as atualizações automaticamente para os usuários que cadastraram o feed de seus blog preferidos”, explicam.

Conheça mais sobre aspectos técnicos do podcast na pesquisa “O Podcast no Brasil e no Mundo: um caminho para a distribuição de mídias digitais”. 

O primeiro podcast diário realizado por um jornal brasileiro é o Estadão Notícias, lançado em 2017. Em 2019, quando surgiu o Café da Manhã da Folha de S. Paulo em parceria com o Spotify, este se tornou o podcast jornalístico mais escutado do país, disputando o ranking da lista de dez podcasts mais escutados com outros gêneros como cultura, arte, negócios e educação. No mesmo ano do surgimento do Café da Manhã, o Ibope divulgou que 40% dos 120 milhões de internautas consomem podcast. O Spotify no mesmo ano, revelou o aumento do consumo de podcasts em  21% ao mês desde janeiro de 2018. 

Na Bahia…

O jornal Correio* se destaca pela produção que vem sendo realizada desde o início do contexto de pandemia. O podcast O Que A Bahia Quer Saber é diário e pensado exclusivamente para o formato. Embora o primeiro episódio tenha sido lançado em março de 2020, o projeto já era uma idéia do veículo desde 2019, conta Vitor Villar, repórter da editoria de esportes do jornal há três anos. “Assumi o podcast em junho de 2020, em meio ao home office. Trabalho com podcast há seis anos, geralmente com trabalhos independentes, como o Podcast 45 Minutos”, conta. “No Correio*, fizemos o Bate-Pronto Podcast, que era semanal e sobre futebol, o que, creio, me credenciou a assumir o O Que a Bahia Quer Saber”, acrescenta o jornalista. 

Em termos de recepção, o jornal ainda vem alçando seu espaço no setor. Para alcançar mais ouvintes, houve uma mudança recente na produção dos episódios, dando maior ênfase para grandes reportagens, reportagens investigativas, dentre outros gêneros jornalísticos exclusivos para o O Que a Bahia Quer Saber. O episódio mais escutado segundo Vitor é o “O intrigante caso de Gandu”, lançado no dia 1 de julho. Com reportagem assinada pelo editor, o ‘ep’ narra o caso da cidade que tinha apenas 40 infectados pelo coronavírus e, um mês depois, já tinha alcançado a marca de mais de 650 pessoas. (Veja aqui)

A divulgação do O Que a Bahia Saber apesar de básica, é estratégica. “É similar ao das matérias. É o primeiro conteúdo a entrar no site, o primeiro ‘push’ no celular que a galera recebe. É também o primeiro destaque do site, fica no ar a manhã toda”, explica Villar. Antes da pandemia, o veículo pretendia investir em outros podcasts a partir das colunas que são bem recebidas pelos leitores, como o ‘Baianidades’ e as colunas do Marrom. “Vamos continuar investindo. Tanto que mesmo nesse sentido de home office a gente continuou tocando. Pelo menos é isso que meus superiores me passam”, explica Vitor. “A gente sabe que esse é um formato campeão. Tem muito público, geralmente um público diferente do site, um pessoal que não lê tanto a notícia impressa porque passa o dia todo trabalhando”.

O Bahia Notícias, um dos sites mais acessados do estado, tem o podcast Terceiro Turno como carro-chefe. De acordo com o veículo, o podcast é “um bate-papo sobre a política baiana, de forma leve e simples”. Apresentado por Lucas Arraz, Jade Coelho e Ailma Teixeira, os hosters/podcasters, como costumam ser chamados os apresentadores de programas de podcast, realizam “um resumo das informações da semana e discutem o que será notícia nos próximos dias”. 

Além do Terceiro Turno, no início do Campeonato baiano, quando não era prevista a pandemia por causa do novo coronavírus, o BN ainda lançou o A Dupla é Minha, um guia do Campeonato em formato de podcast, apresentado por Nuno Krause e Gabriel Rios. Nuno começou no BN como estagiário da Rádio RBN digital e foi efetivado no início de 2020. A ideia do A Dupla é Minha veio do próprio estudante de jornalismo da Facom. “Como são 10 times na primeira divisão, decidi fazer 10 episódios. Apresentei a ideia para Gabriel e ele gostou bastante. Depois apresentamos ao nosso chefe, Fernando Duarte”, relata Nuno. O projeto foi aprovado rapidamente pelo sócio-diretor Ricardo Luzbel e teve primeiro episódio publicado nas plataformas de streaming em janeiro.

Além da notícia

Outro destaque na produção local são os podcasts produzidos por jornalistas e estudantes de jornalismo, produção ou artes. Embora estes não tenham como gênero de entrada a notícia, contribuem e representam o dinamismo dos podcasts. “O mais legal do podcast é que qualquer um pode fazer a partir do seu próprio celular, não precisa ir a um estúdio bacana”, defende Maurício. Um podcast profissional é interessante que seja feito com bons microfones, mas existem bons podcasts feitos com celular e essa é a principal qualidade deles”, relata o professor.

Tavares ainda cita sobre o mais conhecido “hospedeiro de podcasts” do país, o Anchor, uma plataforma gratuita para criação de podcasts que contém ferramentas para os usuários de gravação e edição de áudio, além ser uma espécie de estúdio de organização para publicação de episódios que podem ser agendados e são automaticamente distribuídos para tocadores/agregadores como Spotify e outros. Além dessas funcionalidades, o Anchor possibilita acompanhar a estimativa de público com informações específicas de geolocalização, gênero e outros.

O Pele Preta é um desses podcasts cuja notícia não é tema anfitrião, a especialidade do programa são as relações raciais em Salvador. O programa é apresentado por Rafael Santana, repórter do GloboEsporte.com e idealizador da plataforma AfroJob, quadro do Jornal da Manhã (TV Bahia), e Fran Cardoso, idealizadora do projeto “Empodera Pretxs” – direcionado para Escolas de ensino fundamental e médio. Assim como Maurício, Rafael defende a ideia dos podcasts serem diferentes das rádios, mesmo sendo difícil definir o fenômeno dos podcasts no Brasil. “O que parece ser uma diferença fundamental em relação ao rádio é a democratização do processo de produção, bem como a praticidade de se ouvir quando quiser e onde bem entender”, diz o jornalista. 

O podcast Pele Preta é gravado em uma empresa de comunicação de um dos membros da equipe de produção. “Francis escrevia textos no Instagram sobre a vivência dela enquanto mulher negra, textos excelentes. Em 2019, a equipe que compõe o projeto se reuniu para pensar em como dar amplitude aos textos, de modo que surgiu a ideia de realizar um podcast, e logo o projeto ganhou uma cara multimídia, também com produções de vídeos nas redes”, relata Rafael. “Nossa estreia oficial aconteceu em novembro do mesmo ano, no mês da consciência negra, com a publicação da primeira temporada, com quatro episódios”.

Outra iniciativa soteropolitana nesse sentido chama a atenção. Lucas Lyrio é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes em concentração na área de Cinema do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência (IHAC) e da Faculdade de Comunicação da UFBA, produtor e editor de podcasts, criador da produtora Barra3 Podcasts. A iniciativa da empresa surgiu há dois anos com uma inquietação em criar um conteúdo novo no nordeste brasileiro. “Eu ouço podcasts há muitos anos e acredito que falta mais representatividade nordestina na cena do podcast nacional, então, criei o podcast Se Assunte junto com Hisan Silva, criador da marca Dendezeiro, com o intuito de dizer que o nordeste merece e pode falar, criar, pensar”, explica Lucas. “Logo depois, decidi criar a produtora para trazer mais programas e ideias, tornando-as reais”, conta. 

A Barra3 Podcasts funciona em endereço fixo em Salvador, com um estúdio onde recebe os apresentadores. De acordo com Lucas, há também  a possibilidade de gravar in loco, no lugar que o contratante desejar. No contexto de pandemia, as gravações estão ocorrendo via chamada de áudio. “O podcast é uma mídia em ascensão no Brasil, a audiência tem aumentado exponencialmente e trazer isso para o nordeste é fortalecer nossa cultura e levantar nossa força junto com o Brasil inteiro, não simplesmente deixar a ‘onda’ chegar depois”, defende o empresário.

“Efeito corona”

Por causa da pandemia, o podcast Pele Preta atrasou o processo de produção. Rafael relata o fato de a essa altura do ano, em outro contexto, o programa  já teria estreado a terceira temporada. Enquanto o “novo normal” não chega,  foram publicados alguns episódios especiais de quarentena, guardado o distanciamento social, cada um em sua casa. Mesmo com a instabilidade no momento, o apresentador se mostra otimista. “Acredito que foi importante para firmar nossa atuação no Instagram, com as lives que Francis vem fazendo e a produção de materiais específicos para as redes sociais”.

Quanto ao A Dupla é Minha, podcast do Bahia Notícias, quando começaram as medidas de restrição, os apresentadores Nuno Krause e Gabriel Rios começaram a trabalhar em sistema home office. O campeonato foi adiado e, assim, os episódios também deixaram de ser gravados. “Sem jogos, não tinha muito assunto para falar. Agora que os jogos estão voltando, os assuntos naturalmente devem surgir e pretendemos voltar na próxima semana. Eu investi em um microfone para trabalhar de casa e Gabriel está querendo fazer o mesmo”, conta Nuno. 

O Correio* também foi afetado com a lógica de pandemia. Vitor Villar desde junho assumiu de casa o podcast e conta com a ajuda do estagiário de jornalismo Vitor Zarfush. Toda segunda, pautas exclusivas são definidas para o podcast e nos outros dias, o O Que a Bahia Quer Saber acompanha a redação para trazer um novo olhar que é dado aos textos por meio da narração.

“O podcast justamente por ser por áudio, as pessoas conseguem ser mais convincentes, mais claras”, afirma Vitor. Segundo o editor, o podcast tem uma linguagem muito mais persuasiva do que a escrita em um site ou num jornal impresso. “Por exemplo, um cientista explicando um fenômeno dessa pandemia, é muito mais didático se ele consegue falar por áudio. Ou uma psicóloga, dando orientações para combater a ansiedade na pandemia, é muito mais convincente você falar por áudio do que escrever uma matéria sobre isso”, defende. 

Clara Restallb ainda acresce formatos que vão além da democratização da produção de conteúdo e se voltam para populações invisibilizadas, como é o caso do podcast Copiô, Parente, um boletim do Instituto Socioambiental (ISA) onde semanalmente, uma notícia de Brasília que interessa aos índios e povos da floresta é narrada. Os episódios do Copiô, além de estarem nas plataformas de streaming, também são enviados aos grupos de WhatsApp em aldeias para populações indígenas e de regiões quilombolas. 

Para conhecer todos os podcasts trazidos nesta reportagem acesse a “PodPlay”, uma playlist criada pela ABI com episódios relevantes dos programas criados, produzidos ou apresentados pelas pessoas citadas no texto e outras indicações. 

*Estagiária da ABI sob a supervisão de Joseanne Guedes.

publicidade
publicidade
Artigos Imprensa e História

80 anos depois do último suspiro de Arthur Arezio

Há 80 anos, em 16 de julho de 1940, falecia o gráfico, ilustrador , editor, escritor e empresário baiano Arthur Arezio da Fonseca (1873-1940), um dos fundadores e primeiro diretor industrial da Imprensa Oficial do Estado (IOE), fundada em 1915 pelo governador J.J. Seabra. Registro, pois, a data porque Arezio (vida e obra) foi tema da tese que defendi em 2000 na FFLCH/USP e que resultou no livro Nome para compor em caixa alta: ARTHUR AREZIO DA FONSECA (Salvador: EGBA, 2005). A relevância do personagem reclama celebrá-lo mais adiante quando, em 10 de junho de 2023, completarão os 150 anos da data do seu nascimento. Em 1873, ano em que nasceu, ainda havia um milhão e meio de africanos e afrodescendentes em condição de trabalho escravo no Brasil.

À esquerda, Arthur Arezio retrata Gutemberg com xilografia feita em pedaço de casca de cajazeira. À direita, impresso em gravura | Reprodução

Por causa do 80º aniversário da morte de Arezio, estive lendo trechos da tese do pesquisador Túlio Henrique Pereira – “Que coisa é essa, Yoyô? Cor e raça na imprensa ilustrada da Bahia (1897-1904)”, defendida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2016. Ele é professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (URCA), no Ceará, e leciona a cadeira de História Afro-Brasileira e Indígena. 

O pesquisador conversou comigo em 06 de maio de 2014, antes, portanto, da conclusão e defesa da tese em que ele utiliza o periódico baiano A Coisa como peça fundamental para alcançar os objetivos do seu trabalho. Por causa desse periódico que circulou entre 1897-1904, que corresponde ao recorte temporal do estudo, o pesquisador Túlio Henrique Pereira incluiu Arthur Arezio Fonseca entre os personagens estudados. Arezio foi colaborador, como cronista e ilustrador, do periódico.

A Coisa, n. 87, 23.04.1899

Ele mantinha a seção “Arthur, o bohemio” e exibia convincente sensualidade nos textos, a exemplo deste, publicado na página 03 da edição de 09jul1899, de que preservo o vocabulário, a grafia, a acentuação e a pontuação:

“O sagui

Nua, no seu leito, Dina adormecera embalada pelas ultimas palavras do seu amante, embriada pelos seus beijos sensuaes, sentindo ainda no corpo a lassidez que sobrevem do goso lento e ao tepito calor que deixa um corpo junto a outro corpo…

O dia estava em meio e de longe, de muito longe, trazia a brisa num murmurio confuso, o vozear da cidade; no seu quarto só Chiquinho, um travesso sagui, perturbava o silencio, ora saltando de movel em movel, ora brincando com os negros cabellos de Dina, que adormecia ainda embalada pelos effluvios dos ultimos beijos de seu amante…

De repente, Chiquinho quedou-se a contemplar Dina, assim nua, inteiramente nua!… e como no seu pequenino cerebro germinasse uma idéa, começou a passear, catando aqui e alli querendo arrancar os caros signaes que marchetavam seu moreno colo… Ela sentia uns arrepios de goso, acompanhados de estremecimentos… e quando o sagui, continuando o seu passeio, foi descendo, descendo, até que chegou a um certo ponto, Dina teve um ultimo espasmo e murmurou baixinho:

– Assim, meu bem, assim!”

O pesquisador também examinou a contribuição de Arthur Arezio na revista A Malagueta (1897-1898) – Esse periódico baiano do final do século XIX foi empreendimento editorial de Arezio. Nele, ele também escrevia e ilustrava.

A Malagueta, n. 8 e n.9

Ao contrário do professor Túlio Pereira, não foi a cor de Arthur Arezio que me chamou a atenção; foi o conjunto da obra, sobretudo os cinco livros que ele nos legou, dentre os quais o Diccionario de termos graphicos (Salvador: IOE, 1936), obra pioneira em idioma Português e que lhe valeu o Prêmio Caminhoá de 1938. 

Na página 10 do original de minha tese, exibo minha posição a respeito: 

“Evitei o quanto pude enxergar Arthur Arezio a partir de um ou outro aspecto de sua vida. Temi que o retrato se tornasse caricatura. Ele próprio tratou de afastar de si a identidade com a sua descendência africana. Não localizei nenhum texto dele a respeito do tema”. (…)

Creio, todavia, que o tema da Imprensa Negra se encaixe num debate sobre a contribuição  de afrodescendentes na nossa Imprensa e pretendo propor a ABI, tão logo as circunstâncias autorizem, evento e convidar os pesquisadores Túlio Pereira, Jaime Sodré, Cleidiana Ramos, Nelson Varón Cadena e eu próprio.

A obra dele caiu em domínio público há 10 anos e, desde então, a editora laboratório da ECA/USP tem empreendido novas e preciosas edições.

Dias melhores virão!

 

* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É diretor da ABI.< [email protected]>

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
publicidade
publicidade
Notícias

Coletivo de jornalistas checa informações em espaços de mídias religiosas

“Separar o Joio. Guardar o trigo”. Foi sob esse slogan que jornalistas decidiram criar o coletivo Bereia, para checar informações em espaços de mídias religiosas. A equipe do Bereia acompanha, diariamente, material publicado em mídias de notícias cristãs e conteúdos desinformativos que viralizam em mídias sociais de grupos religiosos. As checagens são transformadas em matérias publicadas no site Bereia. Além disso, o site publica artigos de opinião de especialistas na área de religião e comunicação.

O nome Bereia tem um caráter simbólico para o povo cristão e faz parte de uma narrativa bíblica do Novo Testamento. Conforme o livro de Atos dos Apóstolos 17.10-15, a mensagem de Paulo e seus companheiros foi bem recebida na sinagoga judaica de Bereia, localizada na Grécia, na região da Macedônia. O texto registra um elogio aos bereanos, homens e mulheres, que mantiveram não apenas uma abertura em ouvir as Escrituras, mas de examiná-la. (Os de Bereia dedicaram-se a avaliar se tudo correspondia à verdade. – Atos 17:11)

No texto de apresentação, o grupo se define como “uma iniciativa de organizações, profissionais, pesquisadores e estudantes de comunicação vinculados ao contexto da fé cristã”. “Conhecer e comunicar a verdade é urgente em um tempo marcado pela chamada “pós-verdade” (prática de formação da opinião pública nos quais os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais) e pela ampla circulação de fake news (notícias falsas), de desinformação e de informação manipulada, em especial com objetivos políticos”, afirma o coletivo, que tem o apoio da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e da Agência Latino Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

Depois de realizada a checagem, ocorre a classificação do conteúdo como Verdadeiro, Impreciso, Enganoso, Inconclusivo ou Falso (saiba o que cada uma quer dizer). “É verificado se os conteúdos propagados que causam desconfiança pela temática e o tipo de abordagem são informativos (verdadeiros) ou desinformativos (imprecisos, enganosos, inconclusivos ou falsos)”, explica a editora geral do site, Magali Cunha. Ela é coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião, INTERCOM. A equipe Bereia é formada por jornalistas, estudantes de comunicação e voluntários de outras áreas de formação das ciências humanas e sociais. O conselho editorial do site é formado por cientistas sociais, teólogos, jornalistas que atuam no campo da mídia e da religião.

Entre outras checagens sobre temas polêmicos e virais no meio religioso e político, o grupo publicou um texto sobre como Sérgio Camargo transformou a Fundação Cultural Palmares em reduto ideológico de extrema-direita, desmentiu uma notícia de que “sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos” (ler) e que existe lei em análise no Senado “para proibir pregações de igrejas e leitura da Bíblia” (ler), confirmou que o presidente Bolsonaro “interfere na Receita Federal para tentar beneficiar igrejas” (ler) e que o Apóstolo Valdemiro Santiago “oferece semente que cura Covid-19” (ler).

A jornalista Kassia Nobre, do Portal Imprensa, conversou com a jornalista sobre o projeto. Segundo Magali, a recepção do coletivo tem sido positiva. “Há muito poucas críticas de pessoas religiosas incomodadas com a avaliação crítica de religiosos que os conteúdos do Coletivo Bereia provoca. O coletivo recebe muitos e-mails e mensagens por mídias sociais solicitando verificações”, comenta. De acordo com Magali Cunha, até o momento o trabalho é 90% voluntário. “Temos o apoio da organização Paz e Esperança para manter o site no ar e para oferecer pro-labore a dois estudantes que cuidam da assistência editorial e da manutenção de mídias sociais. Nosso objetivo é consolidar o Coletivo para buscarmos financiamento darmos mais substância e estrutura ao trabalho”.

Portal Imprensa – Qual é a importância do combate à desinformação no ambiente religioso, que muitas vezes é fundamentalista? Há resistência deste público na aceitação dessas checagens?

Magali Cunha – A questão é que há cristãos que espalham notícias falsas para defender seus interesses públicos e ainda usam conteúdo religioso como capa para essas ações criminosas, utilizando-se da fé das pessoas de boa vontade que estão nas igrejas. E ainda debocham da fé cristã ao usarem e abusarem das palavras de Jesus “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32). Mas por que pessoas cristãs acreditam e ainda ajudam a divulgar e a consolidar as mentiras da internet? É fato que pessoas cristãs são pessoas crentes, que acreditam não só em Deus mas nas lideranças que falam sobre Ele e nos grupos que estão nas igrejas em torno Dele. Com isso, muita gente abusa da boa fé, especialmente daqueles que acabam tendo uma fé ingênua por não terem contado com uma educação cristã consistente, para a crítica. Iniciativas como o Coletivo Bereia, Informação e Checagem de Notícias, são importantes pois ajudam pessoas das igrejas a identificarem falsidades e enfrentá-las. Na Bíblia cristã, a orientação é que espalhar mentiras é um grande pecado, algo que desagrada Deus, o que Jesus atribui como ação do diabo, palavra que significa confusão, classificado como pai da mentira (João 8.44). São muito poucas as manifestações críticas ao serviço oferecido pelo Coletivo Bereia. Há mais apoios e demandas de colaboração.

Leia a íntegra da entrevista neste link.

publicidade
publicidade
Literatura

Quando a tarde fecha a cintilante umbela

Entardeci hoje defrontando-me com a triste notícia de despedida de um amigo, ex-aluno na Faculdade de Comunicação da UFBA, companheiro na Sucursal do Jornal do Brasil e de lides muitas a que o jornalismo conduz, Carlos Olympio de Azevedo. Foi-se um varão que sempre se apresentou, não apenas como exemplo de afeto, fraternidade, consideração e amizade sincera, para com todos que o merecessem, mas também como um criador literário, que a todos acaba de surpreender, ao deixar em plena operação gráfica um livro que reúne múltiplas criações de sua lavra, concebidas na forma de poemas ou de escritos em prosa, como contos ou crônicas de íntimo sentir, cujo conteúdo me encaminharam pessoas da família, como expressão de vontade de quem os criou. Li-os e, ao final, percebi o quanto se dissemina pelos espaços da literatura o número de criadores, não anônimos, mas secretos, sejam poetas ou prosadores. E o agora saudoso Olympio de Azevedo pode ser considerado um dos que indubitavelmente se inscrevem nos verbetes dessa estirpe.

Vencendo as tristezas que esse momento de mim se apossa, sinto-me impelido por um surto de consciência aliada a um dever de fraternidade, transcrevendo um dos poemas de Olympio de Azevedo do conjunto de inéditos encaminhados para publicação, na forma própria, sem pontuação, revestido de aura telúrica e vivências rurais. Vai abaixo.

Que Júpiter o acolha e o tenha na sua glória eterna!

 PEDRA VIVA

(Olympio de Azevedo)

 Meu mundo de trilhas e estradas largas
Paisagem sonhada no verde nu do azul
Chão de barro seco, por vezes molhado
Do movimento do vento vem a harmonia
O sol queimadeiro na quentura do vale
Vale a luminosidade e os cálcios da vida
Rios que banham a terra matam a sede
Alimentam esperança, constroem os sonhos
A lida diária faz esquecer o áspero amor
Perdido nas entranhas do asfalto negro
O corpo cansado de uma alma aquecida
No silêncio da história inerte das pedras
Amor não cabe na distância que se perde
Lembrança mede a doce saudade partida
Sou vidro, espelho adormecido sem olhar

________

*Florisvaldo Mattos é professor, jornalista, poeta, diretor da ABI e membro da Academia de Letras da Bahia.

[email protected]

publicidade
publicidade