Histórias e reportagens selecionadas sobre os habitantes mais ilustres de Ipiaú, no sudeste baiano, são a matéria-prima do próximo livro do poeta e jornalista José Américo Castro, que será lançado no dia 4 de abril, às 19h30, no centro cultural Casarão de Zé Américo.
Produzida e publicada pelo Projeto Alba Cultural, da Assembleia Legislativa da Bahia, a obra também é fruto das atividades da equipe da Assessoria de Comunicação Social, sob a coordenação do Jornalista Paulo Bina, e tem prefácio do professor, jornalista e escritor Sérgio Mattos.
Entre as histórias e reportagens selecionadas, pode-se encontrar referências a figuras importantes para o município como Cleraldo Andrade, Edisio Muniz Ferreira, Padre Phileto, Êpa,Êpa, Dr. Calumby e Salvador da Matta, além de figuras folclóricas como Joé, Ripa, Chupilha, Nane Guará e Chico do Jornal. Também são resgatados outros personagens como Chico Zoin, Clarice do Mingau, Agostinho Pinheiro, Morota e Capitão Milton, conduzindo uma retrospectiva histórica e saudosa de Ipiaú em todos os tempos.
José Américo Castro
Jornalista, poeta e historiador nascido em Ipiaú, José Américo decidiu retornar à sua terra natal no início dos anos 1980, após a sua graduação na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi o primeiro presidente do Conselho Municipal de Cultura do município e idealizador do Coletivo Cultural da região. Também foi o primeiro a receber a Medalha do Mérito da Cultura outorgada pela Câmara Municipal, assina o livro Portas do Éden e é coautor da coletânea “Histórias da Nossa História”. Destemido e independente, Castro, escrevia textos e poesias desde a mais tenra idade, e continua surpreendendo seus leitores com novas variações culturais.
Na foto, Creusa Carqueija está atrás de Cosme de Farias | Arquivo pessoal
Por Creusa Carqueija*
Meu avô era um homem de contrastes marcantes: firme e incisivo na defesa da justiça, mas doce e gentil com os que o cercavam. Sua voz suave e seu trato amoroso conquistavam todos ao seu redor. Mais do que um defensor das leis, ele era um exemplo vivo de solidariedade e caridade, ajudando inúmeras crianças de forma indireta ao garantir sua educação e bem-estar.
Sua compaixão não conhecia limites. Nunca ignorava a fome ou a doença de quem cruzava seu caminho, sempre providenciando comida ou remédios. Para ele, não havia distinção social: tratava com o mesmo respeito mendigos, professores, doutores ou políticos. Seu amor pela vida e pela humanidade era evidente em cada gesto.
Detalhes de sua personalidade revelam um homem peculiar e simples. Recusava bebidas geladas, apreciando tudo em temperatura natural. Apaixonado por palavras cruzadas, acreditava que estimulavam a mente e mantinham o espírito alerta. Brincalhão e espirituoso, criava anedotas sempre com humor refinado e respeitoso.
Quando precisava pedir um favor, tinha um hábito marcante: entregava um presente singelo, como um sabonete ou uma caixinha de talco, embrulhado com simplicidade, mas adornado com uma fita verde e amarela, símbolo de seu amor incondicional pelo Brasil. Para ele, criticar o país era inadmissível.
Cosme de Farias sabia cultivar carinho e atenção aos detalhes. Conhecendo o meu gosto por goiabada cascão, fazia questão de presenteá-la com a iguaria acompanhada de queijo de cuia. Esse traço afetuoso refletia sua essência: um homem inteligente, sagaz e bem-humorado, mas, acima de tudo, movido pela bondade e pela luta contra as injustiças. Um ser humano singular, cuja memória permanece viva em cada gesto de generosidade e amor ao próximo.
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*Creusa Carqueija – Neta do Major Cosme de Farias
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
Aos 95 anos, Anízio é memória viva do jornalismo baiano | Foto: Fábio Marconi
A comunidade do Alto do Saldanha, em Brotas, está prestes a homenagear um ilustre morador: Anízio de Carvalho (95), ícone do fotojornalismo baiano. Para isso, a Associação Acelera Brotas (ACEB) acaba de abrir uma campanha de financiamento coletivo que vai viabilizar a realização do “Prêmio Guardião da Cultura do Alto”. A iniciativa tem o apoio da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), instituição que já fez diversas homenagens a Anízio, a exemplo da Exposição Ginga Nagô e seu catálogo, e nas páginas da Revista Memória da Imprensa. As doações podem ser feitas por meio da plataforma Apoia.se, no link https://apoia.se/guardiaodacultura.
De acordo com o produtor cultural Tiago Neves, o projeto visa fomentar a cultura desse bairro, através de uma premiação que vai destacar talentos locais. “Esse prêmio é uma forma de reconhecer e valorizar aqueles que se dedicam a preservar a cultura e a história local, e de inspirar as futuras gerações a continuar o legado”, explica o idealizador.
“Resgatar o passado para construir um futuro” é o tema da primeira edição do evento, cujo projeto também prevê a realização de uma exposição com fotografias marcantes da carreira de Anízio de Carvalho, conhecido no bairro como “Sr. Zico”, além de apresentações de artistas da comunidade.
Tiago Neves destaca a potência que é fortalecer o senso de pertencimento do Alto do Saldanha, resgatando sua memória afetiva através do fotojornalista. “A homenagem ao Sr. Anízio é um ato de reconhecimento da importância da cultura do Alto do Saldanha, um local que abriga uma diversidade de manifestações culturais e religiosas. Ao celebrar a sua obra, celebramos a nossa própria identidade”, reflete.
A meta de arrecadação do projeto é de R$ 17.160,00, valor que será utilizado para o aluguel de espaço e equipamentos, ações de marketing, confecção de troféu e outras despesas do evento. A campanha de arrecadação espera atingir não apenas moradores do Alto do Saldanha, seus familiares e amigos, mas também instituições e profissionais da comunicação, artistas, educadores, estudantes e todo cidadão comprometido com a preservação da cultura baiana.
Sr. Zico
Nascido em 23 de fevereiro de 1930, em Conceição da Feira, interior da Bahia, Anízio de Carvalho é considerado o fotojornalista que exerceu a atividade por mais tempo no Brasil. As lentes de sua prezada máquina fotográfica Rolleiflex eternizaram acontecimentos marcantes da história da Bahia e do Brasil, sejam coberturas do período da ditadura militar e campanhas políticas, manifestações culturais e religiosas, além da cena artística e o cotidiano da vida baiana.
Segundo Neves, a importância de Anízio para a sua comunidade e para a Bahia está no registro sensível da cultura popular do estado. “Suas fotografias não são meros registros; são narrativas visuais que revelam a alma do povo baiano, a expressividade das grandes iyalorixás e babalorixás, a fé que pulsa nos terreiros e igrejas, a força e a resiliência de uma comunidade que, apesar das adversidades, mantém viva sua rica herança cultural”, observa.
Cosme de Farias teve passagens marcantes por diversas redações | Foto: Acervo ABI
Por Mônica Celestino*
Um rapazote pardo, vindo do Subúrbio de Salvador (BA), sem formação superior, escapou das agruras impostas aos negros como ele pela sociedade conservadora da sua época, a partir principalmente da sua trajetória na imprensa. Entre Remingtons, Continentais e Olivettis, Cosme de Farias (1875-1972) percorreu e até empreendeu veículos jornalísticos diversos com desenvoltura, por mais quase oito décadas, de 1894 a 1972, e tornou-se pauta recorrente, sobretudo em periódicos locais, por sua verve e suas incursões políticas e filantrópicas, por toda a vida.
Era personalidade assídua nas páginas de jornais e em rádios, por meio dos quais divulgava seus feitos e projetos como rábula, assistencialista, parlamentar, militante de causas sociais e políticas e literato, bem como seus pleitos, suas reivindicações, seus protestos e suas ideias; pressionava autoridades e empresários para adoção de medidas que favorecessem suas causas; e prestava homenagens. Quando não tinha vínculo com os veículos de comunicação da cidade, remetia matérias prontas ou informações avulsas às redações de impressos e empresas de rádio, com um pedido de divulgação pelos colegas, e era costumeiramente atendido. Se houvesse demora, reiterava o pleito aos editores e chefes de redação, por meio de bilhetes acompanhados de mimos (bolachas, Cartas do ABC, sabonetes etc.).
Apesar de ter concluído somente o antigo ensino primário, ele manifestou a vocação para a escrita e oratória ainda meninote, primeiro, possivelmente pela literatura. Criou Carta do ABC, cartilha distribuída para a alfabetização de crianças e adultos, e escreveu obras independentes, cuja renda era revertida para campanhas e entidades sociais. São de sua lavra as coletâneas de poemas Estrophes (1933), Trovas e Quadras (sem data), Singellas (1900) e Lira do Coração (1902), e a seleção de artigos políticos Lama & Sangue (1926). É provável que tenha feito ainda O Descobrimento do Brasil, livro anunciado em jornais, porém sem exemplares e notícias sobre seu lançamento localizados. Tinha preferência por poemas líricos, sobretudo, trovas (estrofes com quatro versos com sete sílabas cada) e hinos para revelar sentimentos, ideias e ações sobre questões sociais e políticas; protestar; reivindicar e/ou homenagear; e presentear amigos.
Com o tempo, destacou-se também por seus pronunciamentos, tecidos em linguagem popular, em sessões da Câmara Municipal de Salvador e da Assembleia Legislativa da Bahia; em eventos públicos como os festejos pela Independência do Brasil na Bahia, as homenagens anuais ao poeta Castro Alves, o aniversário da Liga Bahiana contra o Analfabetismo criada por ele e seus confrades, e os protestos contra o analfabetismo e com outras motivações; e no Tribunal de Justiça, onde operava como rábula.
Aos 19 anos, enveredou-se pelo jornalismo, tornando esta sua atividade mais frequente e duradoura. Nesta área, militou de 1894, quando estreou no vespertino Jornal de Notícias, que se classificava como a maior folha do Estado, levado pelo jornalista abolicionista e republicano Amaro Lelis Piedade, a 1972, quando morreu, na Cidade da Bahia. Neste ínterim, principalmente nas primeiras décadas do século XX, teve experiências como membro do quadro efetivo, colaborador esporádico e proprietário de organizações de correntes políticas diversas, em especial, “democratas” ligadas ao líder político José Joaquim Seabra, de quem era aliado. Começou como “foca”, fazendo mormente a cobertura de fatos policiais e julgamentos, porém exerceu diferentes papéis, trabalhando como repórter, editor, redator-chefe e até diretor de redação e sócio-fundador.
Na chamada grande imprensa, o Major Cosme contribuiu com Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Diário da Bahia, Gazeta do Povo, A Bahia, Diário da Tarde, A Hora, O Jornal, A Noite, O Democrata, A Tarde e O Imparcial. Entre os pequeninos, teve passagem em A Metralha (1903),periódico de ácida crítica contra o governo do momento; O Condor (1896), semanário republicano-democrata; e o semanário católico antilaicista Leituras Religiosas (1896-1901). Esteve entre os protagonistas do literário O Colibri (1898-1899), do literário e dito imparcial O Cysne (1899-1900) e dos críticos e satíricos A Bala (1900) e A Coisa (1904-?), dos quais foi fundador, proprietário e redator-chefe ou editor.
Com aparente liberdade de agendamento, enquadramento e estilística nos meios em estava inserido, ele publicava artigos intitulados Linhas Ligeiras ou identificados como Ineditoriaes, com ou sem assinatura, acerca de fatos e temas relacionados ao poder e à política, à infraestrutura urbana e ao funcionamento da justiça, a movimentos políticos e sociais, a demandas sociais e à assistencial social, e também com homenagens e elogios a amigos, pessoas que admirava ou com quem firmara parceria. Era comum trazer pautas, até então fora das agendas midiática, social e política, à luz.
Dono de uma redação sedutora para os leitores e mordaz contra adversários, Cosme de Farias fazia textos apelativos e capazes de sensibilizar a audiência e repercutir na vida do receptor, instigando a reflexão e até a reação. Para tanto, explorava substantivos no grau diminutivo, suscitando afetividade, benignidade e desprezo, figuras de linguagem (metáfora, metonímia, eufemismo e ironia), adjetivos com juízo de valor, provérbios, trechos de poesias, referências do cristianismo e da literatura; e construía mensagens assertivas para os eleitores.
Por toda trajetória, até no terceiro quartel do século XX, ele fazia textos com características próximas daquelas descritas por Nelson Werneck Sodré (1911-1999), no clássico História da Imprensa no Brasil, para a tipificação do jornalismo doutrinário do século XIX no Brasil: poucas linhas; linguagem simples e direta para a garantia da compreensão; utilização de provérbios e/ou trechos de poesias; tom panfletário com crítica ácida e incisiva; e exploração da ironia e do humor. Em certas matérias, trazia também citação nominal de destinatários, como estratégia para constranger/coagir, embora essa não fosse uma prática da imprensa da época.
Aliado a isto, firmou-se como pauta. Principalmente notas sem autoria explícita, publicadas no miolo do caderno sem periodicidade definida (até mais de uma por edição), levavam ao público informações de seu interesse, ofertadas ou não por ele. Sob títulos grafados em fontes graúdas e em negrito, debruçavam-se sobre sua vida pessoal, sua produção literária, seus eventos, seu trabalho assistencial, sua atuação como rábula e sua incursão em eleições e outros fatos políticos; serviam como homenagens a personalidades dos cenários nacional e local; rogavam por fundos para organizações assistências ou monumentos; e buscavam apoio de governos e empresariado para atenção a demandas de terceiros.
Exercida principalmente por meio da imprensa e da literatura, a militância política e social do Major atiçou a ira do então governador Góes Calmon (1924-1928). Em 1926, exemplares da coletânea política Lama & Sangue, de sua autoria, foram recolhidos por ordem do mandatário. Adiante, em outubro de 1930, enquanto atuava em O Jornal, sua prisão fora determinada pelo regime recém-instalado, no bojo da chamada “Revolução de 30” e da manifestação do “Quebra-bondes”, por suas ideias oposicionistas, junto com os jornalistas Joel Presídio e Alfredo Lopes, em Salvador, e Franklin Queiroz, no interior. Somente quatro dias depois, o quarteto foi liberado, após protestos de jornais, que passaram a circular com espaços em branco, e intervenção da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)junto à Secretaria de Segurança Pública e ao governador interino, Frederico Costa.
A recorrência dos seus textos e de suas ideias e ações nos veículos, contudo, sinaliza que o Major Cosme gozava de certo respaldo e prestígio entre os comunicadores. Sua longa jornada e a dedicação à categoria favoreciam isto. Ele integrou a Associação Tipográfica Baiana; fundou e dirigiu em 1905 o Círculo dos Repórteres; foi um dos 103 membros fundadores da ABI, elegendo-se como suplente e titular da comissão fiscal e de contas, em sucessivas vezes, pelo menos de 1943 e ao ano da sua morte; e pleiteou benefícios para a classe, durante seus mandatos de parlamentar.
Coexistiam, portanto, versões de Cosme de Farias jornalista e pauta jornalística. Conhecido como Major pela conquista da patente da Guarda Nacional, como presente e homenagem de amigos, ele sustentou suas ações assistenciais (inclusive a defesa beneficente de milhares diante da polícia e da justiça) e sua carreira parlamentar, como conselheiro/vereador da capital baiana e deputado estadual da Bahia, ao agendar sua vida e obra nos meios de comunicação a seu alcance. É provável que sua atuação como jornalista tenha facilitado o trânsito entre colegas de atividade e, por conseguinte, o agendamento de conteúdos de seu interesse.
De certo, a jornada do Major se tornou exemplar do Jornalismo Assistencial e do Jornalismo Mobilizador na Bahia republicana, cujas funções sociais perpassaram pela prestação de assistência social à comunidade que lhe procurava, a sensibilização, a convocação e o estímulo ao posicionamento da população contra distorções sociais, e a construção e consolidação da sua imagem carismática, especialmente entre as camadas mais baixas da sociedade. Há, por isso e por tantas outras contribuições, que se celebrar, em 2025, o sesquicentenário do nascimento desta personalidade tão jornalista.
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*Mônica Celestino é jornalista, mestre e doutora em História. Autora da tese “As Trincheiras do Major Cosme de Farias (1875-1972): a interface entre atuação na imprensa e ações de caridade em Salvador (BA) no alvorecer da República”.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)