Por Antônio Heleno Caldas Laranjeira*
Presentes no cotidiano moderno de maneira global, os mapas figuram como um recurso de organização para dados que são pouco legíveis quando apresentados apenas em listas, percentuais ou tabelas. Mapas contêm informações e imagens que, juntas, servem para tornar visíveis comparações, hierarquias, conexões, concentrações e dispersões, conforme a geografia dos acontecimentos.
No jornalismo, essa linguagem amplia a capacidade de compreensão ao integrar espaço e tempo em um mesmo tipo de informação, a geoinformação. Essa capacidade se evidencia de forma particular em coberturas relacionadas à infraestrutura urbana e ao meio ambiente, temas recorrentes na agenda pública baiana.
Mas quando foi a última vez que um mapa apareceu de forma consistente no jornalismo produzido na Bahia?
A dificuldade em responder a essa pergunta é reveladora. A presença de mapas nas notícias é esporádica e, na maioria dos casos, limitada a peças gráficas genéricas, raramente concebidas como parte do processo de apuração. Mapas entram como ilustração, não como método. A partir dessa constatação, vale observar dois exemplos recentes que ajudam a dimensionar o que se perde quando o território deixa de ser tratado como informação.
A construção da Ponte Salvador-Itaparica constitui um acontecimento de longa duração acompanhado pela imprensa ao longo de diferentes fases. A cobertura concentrou-se em anúncios oficiais, custos, prazos e impasses institucionais. O território vivido dos dois lados da ponte aparece de forma fragmentada, generalizada ou subestimada nas notícias e nos materiais institucionais.
A incorporação de mapas ao jornalismo permite situar o traçado da ponte, identificar áreas diretamente afetadas e compreender a reorganização dos fluxos de mobilidade e circulação regional. A produção do Observatório da Mobilidade Urbana de Salvador (ObMob Salvador) exemplifica essa abordagem ao reunir, em um mapa narrativo, quinze anos de memória da imprensa da Bahia, entre o impresso e o digital.
Vista dessa forma, a cartografia contribui para a leitura pública da obra ao evidenciar sua inserção na malha urbana e metropolitana. O mapa torna visível a relação entre a infraestrutura planejada, o sistema viário existente e as áreas ambientalmente sensíveis, além de explicitar a dimensão internacional do empreendimento e sua articulação entre Brasil e China.
Mapa produzido pelo ObMob Salvador na ferramenta StoryMapJS do Knight Lab
Ao articular espaço e tempo, o Mapa da Ponte Salvador-Itaparica permite acompanhar cronologicamente o projeto, suas modificações e a distribuição territorial dos discursos em torno da megaobra.
Em outra escala temporal, os boletins de qualidade das praias de Salvador constituem um problema cotidiano monitorado semanalmente pelo Governo do Estado da Bahia.

Os dados de balneabilidade variam conforme fatores ambientais e urbanos, como regime de chuvas, drenagem e saneamento, e afetam diretamente o uso da orla pela população.
A visualização cartográfica da poluição costeira favorece a compreensão de padrões territoriais associados à infraestrutura urbana.
O mapa conecta a qualidade da água do mar às condições dos bairros adjacentes e às dinâmicas de ocupação do solo, ampliando a leitura espacial do problema em uma cidade marcada por desigualdades urbanas persistentes.
Para jornalistas de toda a Bahia, a ausência de mapas limita a compreensão dos territórios. O uso ético e estratégico da cartografia amplia a capacidade de leitura, comparação e acompanhamento dos acontecimentos noticiados, oferecendo às audiências referências espaciais que fortalecem o debate público e a avaliação da qualidade da imprensa neste canto do mundo.

*Antônio Laranjeira é jornalista pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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