Na foto, Creusa Carqueija está atrás de Cosme de Farias | Arquivo pessoal
Por Creusa Carqueija*
Meu avô era um homem de contrastes marcantes: firme e incisivo na defesa da justiça, mas doce e gentil com os que o cercavam. Sua voz suave e seu trato amoroso conquistavam todos ao seu redor. Mais do que um defensor das leis, ele era um exemplo vivo de solidariedade e caridade, ajudando inúmeras crianças de forma indireta ao garantir sua educação e bem-estar.
Sua compaixão não conhecia limites. Nunca ignorava a fome ou a doença de quem cruzava seu caminho, sempre providenciando comida ou remédios. Para ele, não havia distinção social: tratava com o mesmo respeito mendigos, professores, doutores ou políticos. Seu amor pela vida e pela humanidade era evidente em cada gesto.
Detalhes de sua personalidade revelam um homem peculiar e simples. Recusava bebidas geladas, apreciando tudo em temperatura natural. Apaixonado por palavras cruzadas, acreditava que estimulavam a mente e mantinham o espírito alerta. Brincalhão e espirituoso, criava anedotas sempre com humor refinado e respeitoso.
Quando precisava pedir um favor, tinha um hábito marcante: entregava um presente singelo, como um sabonete ou uma caixinha de talco, embrulhado com simplicidade, mas adornado com uma fita verde e amarela, símbolo de seu amor incondicional pelo Brasil. Para ele, criticar o país era inadmissível.
Cosme de Farias sabia cultivar carinho e atenção aos detalhes. Conhecendo o meu gosto por goiabada cascão, fazia questão de presenteá-la com a iguaria acompanhada de queijo de cuia. Esse traço afetuoso refletia sua essência: um homem inteligente, sagaz e bem-humorado, mas, acima de tudo, movido pela bondade e pela luta contra as injustiças. Um ser humano singular, cuja memória permanece viva em cada gesto de generosidade e amor ao próximo.
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*Creusa Carqueija – Neta do Major Cosme de Farias
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
Cosme de Farias teve passagens marcantes por diversas redações | Foto: Acervo ABI
Por Mônica Celestino*
Um rapazote pardo, vindo do Subúrbio de Salvador (BA), sem formação superior, escapou das agruras impostas aos negros como ele pela sociedade conservadora da sua época, a partir principalmente da sua trajetória na imprensa. Entre Remingtons, Continentais e Olivettis, Cosme de Farias (1875-1972) percorreu e até empreendeu veículos jornalísticos diversos com desenvoltura, por mais quase oito décadas, de 1894 a 1972, e tornou-se pauta recorrente, sobretudo em periódicos locais, por sua verve e suas incursões políticas e filantrópicas, por toda a vida.
Era personalidade assídua nas páginas de jornais e em rádios, por meio dos quais divulgava seus feitos e projetos como rábula, assistencialista, parlamentar, militante de causas sociais e políticas e literato, bem como seus pleitos, suas reivindicações, seus protestos e suas ideias; pressionava autoridades e empresários para adoção de medidas que favorecessem suas causas; e prestava homenagens. Quando não tinha vínculo com os veículos de comunicação da cidade, remetia matérias prontas ou informações avulsas às redações de impressos e empresas de rádio, com um pedido de divulgação pelos colegas, e era costumeiramente atendido. Se houvesse demora, reiterava o pleito aos editores e chefes de redação, por meio de bilhetes acompanhados de mimos (bolachas, Cartas do ABC, sabonetes etc.).
Apesar de ter concluído somente o antigo ensino primário, ele manifestou a vocação para a escrita e oratória ainda meninote, primeiro, possivelmente pela literatura. Criou Carta do ABC, cartilha distribuída para a alfabetização de crianças e adultos, e escreveu obras independentes, cuja renda era revertida para campanhas e entidades sociais. São de sua lavra as coletâneas de poemas Estrophes (1933), Trovas e Quadras (sem data), Singellas (1900) e Lira do Coração (1902), e a seleção de artigos políticos Lama & Sangue (1926). É provável que tenha feito ainda O Descobrimento do Brasil, livro anunciado em jornais, porém sem exemplares e notícias sobre seu lançamento localizados. Tinha preferência por poemas líricos, sobretudo, trovas (estrofes com quatro versos com sete sílabas cada) e hinos para revelar sentimentos, ideias e ações sobre questões sociais e políticas; protestar; reivindicar e/ou homenagear; e presentear amigos.
Com o tempo, destacou-se também por seus pronunciamentos, tecidos em linguagem popular, em sessões da Câmara Municipal de Salvador e da Assembleia Legislativa da Bahia; em eventos públicos como os festejos pela Independência do Brasil na Bahia, as homenagens anuais ao poeta Castro Alves, o aniversário da Liga Bahiana contra o Analfabetismo criada por ele e seus confrades, e os protestos contra o analfabetismo e com outras motivações; e no Tribunal de Justiça, onde operava como rábula.
Aos 19 anos, enveredou-se pelo jornalismo, tornando esta sua atividade mais frequente e duradoura. Nesta área, militou de 1894, quando estreou no vespertino Jornal de Notícias, que se classificava como a maior folha do Estado, levado pelo jornalista abolicionista e republicano Amaro Lelis Piedade, a 1972, quando morreu, na Cidade da Bahia. Neste ínterim, principalmente nas primeiras décadas do século XX, teve experiências como membro do quadro efetivo, colaborador esporádico e proprietário de organizações de correntes políticas diversas, em especial, “democratas” ligadas ao líder político José Joaquim Seabra, de quem era aliado. Começou como “foca”, fazendo mormente a cobertura de fatos policiais e julgamentos, porém exerceu diferentes papéis, trabalhando como repórter, editor, redator-chefe e até diretor de redação e sócio-fundador.
Na chamada grande imprensa, o Major Cosme contribuiu com Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Diário da Bahia, Gazeta do Povo, A Bahia, Diário da Tarde, A Hora, O Jornal, A Noite, O Democrata, A Tarde e O Imparcial. Entre os pequeninos, teve passagem em A Metralha (1903),periódico de ácida crítica contra o governo do momento; O Condor (1896), semanário republicano-democrata; e o semanário católico antilaicista Leituras Religiosas (1896-1901). Esteve entre os protagonistas do literário O Colibri (1898-1899), do literário e dito imparcial O Cysne (1899-1900) e dos críticos e satíricos A Bala (1900) e A Coisa (1904-?), dos quais foi fundador, proprietário e redator-chefe ou editor.
Com aparente liberdade de agendamento, enquadramento e estilística nos meios em estava inserido, ele publicava artigos intitulados Linhas Ligeiras ou identificados como Ineditoriaes, com ou sem assinatura, acerca de fatos e temas relacionados ao poder e à política, à infraestrutura urbana e ao funcionamento da justiça, a movimentos políticos e sociais, a demandas sociais e à assistencial social, e também com homenagens e elogios a amigos, pessoas que admirava ou com quem firmara parceria. Era comum trazer pautas, até então fora das agendas midiática, social e política, à luz.
Dono de uma redação sedutora para os leitores e mordaz contra adversários, Cosme de Farias fazia textos apelativos e capazes de sensibilizar a audiência e repercutir na vida do receptor, instigando a reflexão e até a reação. Para tanto, explorava substantivos no grau diminutivo, suscitando afetividade, benignidade e desprezo, figuras de linguagem (metáfora, metonímia, eufemismo e ironia), adjetivos com juízo de valor, provérbios, trechos de poesias, referências do cristianismo e da literatura; e construía mensagens assertivas para os eleitores.
Por toda trajetória, até no terceiro quartel do século XX, ele fazia textos com características próximas daquelas descritas por Nelson Werneck Sodré (1911-1999), no clássico História da Imprensa no Brasil, para a tipificação do jornalismo doutrinário do século XIX no Brasil: poucas linhas; linguagem simples e direta para a garantia da compreensão; utilização de provérbios e/ou trechos de poesias; tom panfletário com crítica ácida e incisiva; e exploração da ironia e do humor. Em certas matérias, trazia também citação nominal de destinatários, como estratégia para constranger/coagir, embora essa não fosse uma prática da imprensa da época.
Aliado a isto, firmou-se como pauta. Principalmente notas sem autoria explícita, publicadas no miolo do caderno sem periodicidade definida (até mais de uma por edição), levavam ao público informações de seu interesse, ofertadas ou não por ele. Sob títulos grafados em fontes graúdas e em negrito, debruçavam-se sobre sua vida pessoal, sua produção literária, seus eventos, seu trabalho assistencial, sua atuação como rábula e sua incursão em eleições e outros fatos políticos; serviam como homenagens a personalidades dos cenários nacional e local; rogavam por fundos para organizações assistências ou monumentos; e buscavam apoio de governos e empresariado para atenção a demandas de terceiros.
Exercida principalmente por meio da imprensa e da literatura, a militância política e social do Major atiçou a ira do então governador Góes Calmon (1924-1928). Em 1926, exemplares da coletânea política Lama & Sangue, de sua autoria, foram recolhidos por ordem do mandatário. Adiante, em outubro de 1930, enquanto atuava em O Jornal, sua prisão fora determinada pelo regime recém-instalado, no bojo da chamada “Revolução de 30” e da manifestação do “Quebra-bondes”, por suas ideias oposicionistas, junto com os jornalistas Joel Presídio e Alfredo Lopes, em Salvador, e Franklin Queiroz, no interior. Somente quatro dias depois, o quarteto foi liberado, após protestos de jornais, que passaram a circular com espaços em branco, e intervenção da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)junto à Secretaria de Segurança Pública e ao governador interino, Frederico Costa.
A recorrência dos seus textos e de suas ideias e ações nos veículos, contudo, sinaliza que o Major Cosme gozava de certo respaldo e prestígio entre os comunicadores. Sua longa jornada e a dedicação à categoria favoreciam isto. Ele integrou a Associação Tipográfica Baiana; fundou e dirigiu em 1905 o Círculo dos Repórteres; foi um dos 103 membros fundadores da ABI, elegendo-se como suplente e titular da comissão fiscal e de contas, em sucessivas vezes, pelo menos de 1943 e ao ano da sua morte; e pleiteou benefícios para a classe, durante seus mandatos de parlamentar.
Coexistiam, portanto, versões de Cosme de Farias jornalista e pauta jornalística. Conhecido como Major pela conquista da patente da Guarda Nacional, como presente e homenagem de amigos, ele sustentou suas ações assistenciais (inclusive a defesa beneficente de milhares diante da polícia e da justiça) e sua carreira parlamentar, como conselheiro/vereador da capital baiana e deputado estadual da Bahia, ao agendar sua vida e obra nos meios de comunicação a seu alcance. É provável que sua atuação como jornalista tenha facilitado o trânsito entre colegas de atividade e, por conseguinte, o agendamento de conteúdos de seu interesse.
De certo, a jornada do Major se tornou exemplar do Jornalismo Assistencial e do Jornalismo Mobilizador na Bahia republicana, cujas funções sociais perpassaram pela prestação de assistência social à comunidade que lhe procurava, a sensibilização, a convocação e o estímulo ao posicionamento da população contra distorções sociais, e a construção e consolidação da sua imagem carismática, especialmente entre as camadas mais baixas da sociedade. Há, por isso e por tantas outras contribuições, que se celebrar, em 2025, o sesquicentenário do nascimento desta personalidade tão jornalista.
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*Mônica Celestino é jornalista, mestre e doutora em História. Autora da tese “As Trincheiras do Major Cosme de Farias (1875-1972): a interface entre atuação na imprensa e ações de caridade em Salvador (BA) no alvorecer da República”.
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
Funeral de Cosme de Farias, em 1972, reuniu milhares de pessoas | Revista O Cruzeiro
*Alfredo Matta
Na história dos tribunais baianos, poucos nomes ressoam com tanta força e humanidade quanto o de Cosme de Farias. Rábula de origem popular, autodidata e militante incansável da justiça social, Cosme ficou nacionalmente conhecido como “o Defensor dos Pobres” — título que não apenas aceitou, mas honrou por quase meio século nos salões do júri.
Em um tempo em que o acesso à justiça era privilégio de poucos, Cosme ocupou uma trincheira improvável: a tribuna. Lá, sua fala simples e contundente conquistava jurados, juízes e multidões. Não era raro ver as galerias lotadas para assistir aos seus julgamentos — espetáculos de oratória popular em que a emoção e o senso de justiça se impunham com força devastadora.
Homem das ruas, dos subúrbios e dos mercados de Salvador, Cosme nunca teve diploma de Direito. Atuava como rábula, figura permitida pela legislação da época para advogar sem formação acadêmica. Mas o que lhe faltava em titulação, sobrava em talento, coragem e reputação. Chegou a impetrar dezenas de habeas corpus em defesa de presos pobres e perseguidos políticos, inclusive durante o Estado Novo e o regime militar. Seus autos de defesa, muitas vezes manuscritos com grafia irregular, tornaram-se documentos históricos — testemunhos de um tempo em que a justiça encontrava eco na voz dos excluídos.
Ao longo da década de 1940, sua atuação ganhou ainda mais força ao lado de dois nomes igualmente marcantes: Edgard Matta e Dorival Passos. Juntos, formaram o que a imprensa da época e o imaginário popular consagraram como a “Trindade de Ouro do Júri na Bahia”.
O trio protagonizou julgamentos célebres, nos quais a defesa ganhava contornos épicos. Enquanto Edgard Matta trazia sua voz firme, conhecimento jurídico apurado e uma retórica digna dos maiores tribunos, e Dorival Passos atuava com erudição humanista e elegância discursiva, Cosme de Farias tocava diretamente o coração do júri. Era o advogado do povo, da lavadeira, do operário, do desempregado. E era por eles que subia à tribuna, muitas vezes sem cobrar um centavo sequer.
Cosme não se intimidava diante de promotores ou juízes. Sua autoridade vinha da vida real — das feiras, das igrejas, das rodas de capoeira. Seus argumentos não estavam nos livros de doutrina, mas nas experiências de quem sofre a injustiça na pele. Por isso, era ouvido com atenção. Por isso, era amado.
A amizade entre Cosme e Edgard Matta, avô deste autor, remonta a 1914, quando se conheceram em uma solenidade em Salvador, durante as homenagens aos heróis da Batalha de Pirajá. Na ocasião, Cosme declamou uma poesia patriótica, enquanto Edgard, então jovem promissor, carregava a bandeira dos heróis. O encontro se tornaria o início de uma amizade que atravessaria décadas — e várias sessões do júri.
As audiências em que o trio atuava podiam atravessar a madrugada, tamanha a atenção que despertavam. O público disputava as senhas de entrada como se fossem ingressos de teatro. E de certa forma eram: os discursos eram envolventes, dramáticos, e frequentemente encerravam-se com aplausos emocionados.
Cosme era também um orador astuto e um estrategista do riso. Em um dos júris mais lembrados, Edgard Matta, exaltado, autoproclamou-se “um leão na defesa da verdade”. Sem perder o ritmo, Cosme interrompeu: “Sossega, leão!” — arrancando gargalhadas e quebrando o clima tenso do julgamento. Vale lembrar que a expressão fazia parte de um sucesso recente na voz de Carmen Miranda, a música Camisa Listrada. A presença de espírito de Cosme pegou Edgard de surpresa. O próprio Edgard dizia que até ele sorriu, reconhecendo o talento do amigo, naquele momento em lados opostos do júri.
Mas se a verve lhe garantia simpatia, era a firmeza que lhe consolidava a autoridade. Atuando por décadas sem remuneração em inúmeros processos, Cosme personificou a ideia de que a justiça deve ser um bem comum, e não um privilégio dos letrados ou endinheirados. Muitas de suas defesas tinham como pano de fundo o preconceito racial, a miséria urbana ou a truculência policial — temas que ele transformava em denúncia comovente diante do júri.
A atuação jurídica de Cosme não se restringia às salas de audiência. Ele também foi parlamentar por várias legislaturas, sempre eleito com votos das classes populares. Da tribuna da Assembleia Legislativa da Bahia, defendeu causas como a erradicação do analfabetismo, a valorização do trabalho digno e o respeito às liberdades civis. Nunca deixou de mencionar que a justiça verdadeira começa pelo direito de existir com dignidade — com nome, moradia, alimento e instrução.
Em 1967, o reconhecimento oficial veio: o Grande Salão do Júri do Tribunal de Justiça da Bahia recebeu o nome de Cosme de Farias. Na cerimônia, Edgard Matta fez um discurso emocionado, exaltando o amigo e parceiro de tantas lutas. Pouco antes de falecer, em 1972, Cosme enviaria a Edgard um bilhete afetuoso, reafirmando os laços de amizade que uniram os dois gigantes do júri baiano ao longo de toda uma vida dedicada à defesa da justiça.
Cosme também deixou sua marca em Nazaré das Farinhas, terra natal de Edgard. Após a morte do pai deste, o médico e político Eurico Matta, em 1936, Cosme escreveu um artigo sugerindo que fosse construída uma escola em sua homenagem. Anos depois, a ideia se concretizou com a fundação da Escola Municipal Doutor Eurico Matta, no distrito de Onha. É importante lembrar que Cosme foi o criador e maior defensor da Liga Baiana Contra o Analfabetismo. A escola foi criada para alfabetizar — e assim atua até hoje.
O enterro de Cosme, em 1972, parou Salvador. Cerca de 100 mil pessoas — advogados, lavadeiras, jornalistas, prostitutas, intelectuais — acompanharam o cortejo de um homem que, mesmo sem diploma, escreveu seu nome entre os maiores da história jurídica brasileira. Cosme de Farias foi, acima de tudo, um símbolo. Um homem que ensinou que a justiça não é monopólio das leis, mas pode falar a linguagem dos humildes — e vencer. Além disso, como mulato claro — homem negro em uma época de intenso racismo — Cosme foi também um pensador popular e negro, um verdadeiro herói baiano, cuja memória devemos sempre cultuar.
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Alfredo Eurico Rodrigues Matta é professor, historiador, pesquisador da História da Bahia, doutor em Educação.
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Cosme de Farias da Igreja de São Domingos/ Acervo Revista Realidade | Foto 2: Retratado por Anízio de Carvalho
Luis Guilherme Pontes Tavares*
Em 1919, o jovem advogado nazareno Edgard Matta (1892-1974) foi iniciado no Tribunal do Juri pelo rábula Cosme de Farias. Tornaram-se amigos e compadres (Cosme é padrinho de filho de Edgard). Com o tempo, admitiram entre os pares o advogado Dorival Passos (1904-1986), que concluiu o curso de Direito na década de 1930. Os três, a partir da década de 1940, constituíam a “Trindade de Ouro do Juri na Bahia” e um deles, o veterano Cosme de Farias, nomina, desde 1967, o Salão do Juri do Fórum Ruy Barbosa, em Salvador.
A propósito da homenagem do Judiciário a Cosme de Farias, o professor João Eurico Matta (1935-2021), filho de Edgard, declarou ao Diário de Notícias, edição de 11nov1967, o seguinte:
“[…] em novembro de 1967 foi o grande salão do tribunal do júri popular, no fórum Ruy Barbosa, no Campo da Pólvora, em Salvador, que recebeu, solenemente, o nome de Cosme de Farias. Salão lotado, presentes altas autoridades do Poder Executivo estadual e municipal, do Poder Judiciário e do Ministério Público. Cosme de Farias, 92 anos, foi homenageado por vários oradores, entre estes o presidente do Tribunal, desembargador Nicolau Calmon, e o advogado e professor Edgard Matta, falando em nome dos advogados e educadores baianos, como, entre tantos presentes, Dorival Passos. Disse Edgard, arrancando lágrimas do homenageado: ‘Cosme não poderia alcançar plena realização humana, como patriota, orador e amigo do povo, sem a compreensão e a personalidade de d. Semiramis, sua companheira de longos anos, que, na morada do casal, à rua São Francisco, abrigava loucos, pessoas em desgraça e os que, absolvidos no júri pelo marido, saíam da prisão sem destino e sem perspectiva”. p. 186
A propósito desse registro, o biógrafo de Edgard acrescenta que o professor João Eurico Matta, em artigo publicado na Revista da ALB (n. 52, 187-194, 2014), esclareceu que a manifestação de seu pai na homenagem a Cosme, em 1967, partiu da lembrança da frase “O Brasil é uma eternidade”, que Edgard ouvira em 1945 de um exilado francês, foragido do nazismo, em Campinas, São Paulo, para afirmar, exclamando:”Cosme de Farias não sabe que um povo e a sua cidade, Salvador, não poderiam ter a eternidade que têm se não houvessem sido beneficiados com a vida de um homem eterno – everlasting man – por sua grandeza, a um tempo um mito e um símbolo!”
As informações acima estão no livro Edgard Matta. A vida de um jurista e a articulação com o seu tempo (Salvador: EDUFBA, 2024), dos professores Alfredo Eurico Rodrigues Matta e Dorival Franco e Passos, netos de Edgard e de Dorival. Os autores dedicam a metade (p. 175-180) do subcapítulo “’A Trindade de Ouro do Juri na Bahia’ a partir de 1940” (p. 174-187) ao pioneiro. Além disso, volta e meia, Cosme de Farias é citado.
Concluo com a lembrança de que conheci o deputado Cosme de Farias enquanto aguardávamos, no térreo, o elevador do Edifício Ranulpho Oliveira, imóvel da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), onde funcionou a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia entre 1960 e 1974. Magro, envergando traje à antiga, com o colarinho da camisa folgado, de modo que o pescoço parecia mais fino ainda. Ingressei no Legislativo baiano como mensageiro em 1968, e o deputado cumpria o mandato iniciado em 1971. A morte, em 14/03/1972, o retirou de cena na altura dos 97 anos.
Foi o instante em que estive mais próximo dele. Mas, antes, no Terreiro de Jesus, o vira em restaurante, almoçando e bebericando uma cervejinha, assim como na Igreja da Ordem Terceira São Domingos Gusmão, onde atendia multidão de carentes, sobretudo de assistência judicial. Ademais, ainda menino e adolescente, o vi no desfile do Dois de Julho, em carro aberto, distribuindo a Cartilha do ABC, que criara como produto fundamental da Liga Baiana contra o Analfabetismo, que criara em 1915.
Enfim, peço licença para recordar que estive próximo da jornalista e professora Mônica Celestino quando resolveu ingressar no Programa de Pós-graduação em História da UFBA e defendeu, em 2005, a dissertação de Mestrado – “Réus, analfabetos, trabalhadores e um major: a inserção social e política do parlamentar Cosme de Farias em Salvador”. Em 2006, a convite da Assembleia Legislativa, a pós-graduada publicou o resumo do seu trabalho acadêmico na coleção “Perfil do Parlamentar da Bahia”, volume 6, ilustrado com fotos do veterano Anizio Carvalho e acrescido, como suplemento, do fac-símile da “Carta de ABC”, versão de 1970.
Cosme de Farias é nome de bairro, comenda, escolas, plenários e muito mais. No entanto, as homenagens e os agradecimentos não podem cessar.
Viva Cosme de Farias!
Foto: Fábio Marconi
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É o 1º vice-presidente da ABI. [email protected]
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